Caminhando entre os mortos 2
8 Capitulo 8 - voltando ao passado
Notas iniciais
Pov – Alice
O caminhão de bombeiros começa a atravessar Atlanta, os mortos vindos de todos os becos e ruas vão tentando nos acompanhar como um cortejo fúnebre, olho o corpo sem vida de Carol estirado em minha frente, fico tentando me convencer que a culpa não é minha, seco mais uma lágrima.
Ainda não fizemos o que é preciso, nenhum de nós quer que ela se levante como um zumbi e olho para minha faca, Daryl nota e imediatamente puxa a dele.
─Por um momento me esqueci disso, acho que queria que fosse como antes, apenas chorar a perda de alguém.
Ele diz com a voz ainda embargada, sei de seu carinho por ela, do quanto é difícil para todos nós esse momento, vencemos Terminus, como fomos perde-la justo agora?
─Eu faço! – Rick segura a mão de Daryl, pega a faca com olhos firmes – Devo muito a ela, mais do que qualquer um, quero fazer isso! – Daryl afirma, acho que isso é como eles são, os dois irmãos sabem sempre até onde o outro pode ir e sempre está lá para continuar quando um falha.
Rick enfia a faca de modo a danificar seu cérebro, a imagem de David e Karen me vem à mente, Mika e Lizze também, não sei como foi, mas talvez ela tenha feito isso também e afasto todos aqueles pensamentos tenebrosos, é Carol ali, a nossa Carol e seu passado não importa, agora só conta o que ela fez por nós desde que nos reunimos.
─Para onde estamos indo? – pergunto com a cabeça no ombro de Daryl enquanto sinto seu braço protetor me envolver.
─Para a fazenda de Hershel, enterrar Carol ao lado de Sophia, é o mínimo que podemos fazer! – Rick avisa e isso é emocionante, Beth soluça com olhos perdidos ao meu lado, seguro sua mão – Nenhum de nós vai carregar qualquer culpa Beth!
O tom de Rick é definitivo, ela o encara, o rosto marcado, um dia talvez ela possa me dizer o que passou naquele lugar, hoje só o que importa é que ainda está aqui.
─Vieram por mim e agora Carol está morta! – Beth comunica.
─Sim, está certa, é assim que fazemos, salvamos uns aos outros, as perdas no caminho são parte do pacote, foi ela, podia ser você ou qualquer outro, seria a mesma dor, não vamos achar culpados a não ser aquela mulher e seus comparsas.
─Está certo! – Beth aceita e se encolhe escondendo o rosto, voltar a fazenda onde ela e Maggie foram criadas não há de ser fácil, principalmente sem Hershel.
Ficamos em silencio, o caminhão deixa a cidade e pega a estrada, vamos sobre ele, lá dentro, Maggie e Glenn ensinam o caminho a Abe que dirige, Judith está também lá em segurança com Carl.
Paramos no meio da estrada, é preciso mais combustível, mas o grupo tinha reunido uma boa quantidade e apenas completam o tanque com um galão que levávamos.
A fazenda surge no fim do dia, me estico um pouco para olhar para os campos mal cuidados, um celeiro semi destruído contando a história da noite que fugiram dali.
Descemos todos, encaramos o velho casarão, deve ter sido bom crescer na segurança desse lugar, em meio a natureza, vem daí a suavidade de Beth e também sua força interior.
─Precisamos de um lençol! – Rick comunica.
─Acho que ainda não posso entrar lá – Beth diz com a voz embargada pelo choro.
─Nem eu! – Maggie completa.
─Eu vou! – Glenn se oferece e Abe segue com ele, ainda pode ter zumbis por lá, ou sobreviventes, não é seguro, nada mais é seguro e isso me assusta, cansa, suspiro.
Daryl e Rick começam a cavar, mais uma cova, como tantas que cavaram na prisão, mais um amigo irmão nos deixando, me encosto numa arvore varro o ambiente com o olhar, penso em Daryl ali, caçando a garotinha de Carol, depois ferido, eu não estava com ele, queria ter estado, em vez disso estava com minha irmã, lutando pela vida dos meus sobrinhos, foi a um milhão de anos, no começo do fim, quando éramos outras pessoas.
A cerimonia é curta e dolorida, o padre Gabriel diz algumas palavras usando a bíblia, fala sobre amor, redenção e o reino dos céus, Carol não acreditava mais nisso, eu não sei se acredito, olho para a cova onde o corpo de Carol descansa ao lado da filha.
─Ela não veio enterrar Sophia! – Daryl me diz abatido – Não pode, não era a Carol do final, era outra mulher, não sei o que pensar.
─Então não pense nada, apenas se despeça! – Digo a ele tentando secar minhas lágrimas, a terra é jogada sobre o corpo, soluço, vou sentir falta de Carol, a mulher forte que conheci na prisão, que gostava mais do Daryl que de mim e que vivia me ensinando a viver bem com ele.
Depois que tudo termina Daryl deposita uma flor sobre o que é agora seu túmulo, uma rosa cherokee ele me diz, a flor que deu a ela, o símbolo das mães, então no fim era apenas isso, Carol era uma mãe que fazia qualquer coisa para manter seus filhos e depois de perde-los todos não restou mais nada a ela.
Deixamos o lugar, é dor demais para qualquer um de nós, perdemos Bob e Carol, dois amigos, parte da família, me sento afastada com Daryl, não sei como será daqui para frente e no momento não ligo a mínima, basta que estejamos juntos.
Começa a anoitecer, ele me envolve em seus braços, suspiro me aconchegando a ele.
─Eu não era esse cara que sou hoje quando passei uns dias aqui.
─Ninguém era como é agora. – Digo de modo triste olhando a paisagem mudar com a chegada da noite.
─Melhorei, quando vivi aqui eu era infeliz de todos os modos, não sabia bem o que estava fazendo nem porque, não tinha mais o Merle e não conseguia conviver com eles, mas também não conseguia deixá-los e não porque era bom e queria ajudar, não ia embora porque não podia, dependia deles mais do que eles de mim.
─Não importa quem era, importa quem é.
─Carol me ajudava, mesmo com minha completa animosidade, quando Sophia saiu do celeiro... – Ele se cala, sei que é difícil estar aqui de novo – Até ali eu ainda achava que tudo ia ser diferente, mas quando ela saiu do celeiro e eu não tinha mais qualquer objetivo, quando o grupo se quebrou de vez e todos mergulhamos na escuridão eu me isolei, levei minha barraca mais para lá – Ele me aponta a direção em que ficou – Não peguei a moto e parti, só me isolei um pouco, depois perdemos o Dale e isso nos uniu, foi estranho, mas me levou para perto deles, me senti pela primeira vez num grupo e quis fazer algo por eles.
─E fez, ainda faz, é quem mais faz.
─O celeiro em chamas, zumbis para todos os lados, achei que morreria aqui, mas não fiquei para morrer, peguei Carol e parti, segui em frente.
─E chegou até mim, se salvou e me salvou, não teria aguentado tudo se não fosse você.
─Você me mudou, me faz falar sobre mim, sobre meu passado, amo você, eu sei que está triste agora, como nunca esteve antes talvez, que as esperanças te deixaram um pouco, mas preciso ter você de volta, a minha maluquinha e feliz mulher.
─Eu estou aqui Daryl, ainda sou a mesma, não sei ser diferente, não quero ser, fique tranquilo, amanhã é um novo dia e vou estar de volta e vai se arrepender disso, me chamar de idiota e vou responder que é um troglodita e vamos poder apenas sorrir e quem sabe fazer sexo.
─Ótimo! – Ele me beija, quase pode sorrir, senti falta de beijar Daryl, um longo beijo de amor, depois me aperto a ele, o grupo decide passar a noite na casa, Beth e Maggie estão sentadas na escada da varanda, tendo uma conversa de irmãs, talvez depois disso possam entrar juntas e rever o passado.
─Ainda magoada com a Maggie? – Daryl me pergunta, meus olhos se enchem de lágrimas de novo, me lembro de como me senti quando deixávamos o hospital e eu os vi a nossa espera.
─Está confuso ainda para mim, mas não é mais um mundo para remoer atitudes, decidi apenas seguir em frente, tenho você, Beth, Carl, Judy, meu baralho e minha lanterna, o resto damos jeito.
─Quanto mais jovem mais seu amigo.
─A idade mental é parecida, estou decidindo se deixo o Noah entrar para meu time, ainda não sei se o perdoo por ter deixado Beth para trás.
─Acho que ela já o perdoou. – Daryl beija meu pescoço, estou em deu peito, é o melhor lugar do mundo – As cicatrizes em Beth, as coisas porque passou naquele lugar, será que ela pode superar? Quando estávamos aqui ela...
─Tentou suicídio, eu sei, ela mesma já me contou isso, Beth não é a mesma, assim como nós, agora ela é forte, não vai repetir isso, acredite, não precisa temer por isso.
─Melhor assim, não sei se posso lidar com mais uma perda.
─Vamos achar uma nova casa amor e reconstruir, vai ver, esse dia vai ficar apenas na memória, como um dia triste.
─Tem razão, então vamos apenas continuar.
─Agora que descobrimos que o Eugene é um paspalho mentiroso, para onde vamos amor?
─Em qualquer lugar que você esteja está bom para mim, então eles podem decidir qualquer coisa, não ligo.
─Combinado.
Daryl me põe de pé e seguimos em direção a casa, nunca estive aqui antes, mas mesmo assim é um momento solene para mim também, esse lugar conta a história da minha família, de como eles chegaram até mim, entramos e Daryl se senta com Rick e Michonne, eu perambulo pela casa olhando as coisas que um dia pertenceram aos Greene, posso vê-los reunidos em volta da mesa no jantar, Beth cantando canções de amor, me arranca um sorriso.
Acho que é tempo de esquecer as coisas ruins e guardar as boas lembranças, eu tenho as minhas, vou mantê-las comigo, os momentos de dor tem que ser vividos e depois esquecidos, ainda estamos de pé, então precisamos viver, não aceito apenas manter meus pulmões trabalhando e é isso que vou buscar, uma nova vida, deve haver um lugar.
Pov – Beth
─Vamos sentar ali na varanda um pouco? – Maggie me convida e eu a sigo, olhamos o horizonte e suspiramos juntas, um mundo de lembranças me invade, vozes e cheiros dominam minha memória, risos, conversas, o sol, as galinhas, cavalos, meu pai, minha mãe, Maggie e meu irmão, Jimmy, eu sentada sob a sombra de uma árvore lendo meus romances e sonhando com o futuro.
─Ele... Ainda posso sentir sua presença, mesmo tudo estando tão devastado, ainda sinto como se ele estivesse aqui, como se essa ainda fosse a nossa casa.
Eu não quero chorar, eu não choro mais, mas o fato é que desde que a prisão caiu estou num turbilhão de mudanças e não sei como lidar com tudo a minha volta.
─Ele está Beth, o papai está aqui e está em qualquer lugar que uma de nós esteja! – Maggie me diz e depois segura minha mão – Quando a prisão caiu, quando sai de lá com Bob e Sasha eu só tinha uma coisa em mente, encontrar o ônibus, achava que você e o Glenn estavam nele, como os deixei da última vez que os vi.
─Fui procurar pelas crianças.
─E o Glenn foi procurar por mim, mas eu não sabia disso, não podia lidar com a morte de mais ninguém, na minha cabeça Glenn estava cuidando de você e passei a caça-lo, nada mais importava, achei o ônibus, as pessoas tinham se transformado, olhei um por um, rosto por rosto, não estavam lá.
Imagino como foi difícil, para mim também foi, eu estava sozinha, seco uma lagrima.
─Soubemos sobre um lugar chamado Terminus, decidi seguir até lá deixando recados para o Glenn, para me encontrar lá, nunca para você, sempre para ele.
─Tudo bem Maggie.
─Não está tudo bem, me escuta antes de dizer isso.
─Certo! – Aceito, não importa o que me diga nada vai mudar, depois de tudo que passamos só quero voltar a viver com minha família como antes.
─Para mim, ou estava com o Glenn e ele te mantinha viva ou era apenas mais uma de minhas perdas e não podia pensar sobre isso, apenas não podia lidar com isso e te atirei para um canto escuro da minha mente e não quis mais pensar em nós.
─Um jeito de sobreviver eu acho.
─Pode ser, achei o Glenn, você não estava e só decidi que estava morta, porque subestimei sua capacidade de sobreviver, porque duvidei da sua força ou apenas porque era mais fácil, não sei responder.
Ela seca uma lágrima, sorri de modo triste, sorrio de volta secando as minhas próprias lagrimas, para a garota que não chora mais estou indo muito mal.
─Terminus era uma emboscada, mas saímos de lá, o que precisa saber é que lá, Rosita nos disse que esteve com você e que tinha sido sequestrada, que estava viva.
─Uma grande coincidência não é?
─Sim, uma das tantas que a vida nos ofereceu, era para eu ter ficado louca atrás de você, mas não fiz isso, mantive você naquele canto obscuro da mente, tentei não registrar, não queria uma decepção, Alice não, Alice se decidiu por encontra-la.
─Eu me pareço mais com ela que com você, a gente se enche de esperanças sempre.
─Sim, mas o fato é que deixei tudo para trás e segui com Glenn e o grupo de Abe para Washington, conhece essa história de cura.
─Sim, quando estive com eles não falavam em outra coisa.
─Deixei você Beth, deixei o grupo, deixei tudo e me convenci que a cura era tudo que importava, decidi que estava fazendo algo grande, mas estava apenas fugindo, sinto muito, eu deixei você para trás.
Maggie desaba em lágrimas na minha frente, soluça um tanto desesperada e faço o que sei fazer, eu a abraço de modo carinhoso, nada disso importa mais, estamos juntas, não tem cura nem Washington, só nossa família perdida e em perigo o tempo todo, não quero e não vou guardar magoas, essa foi só uma das escolhas entre tantas que fazemos e que no fim não servem para nada além de nos levar a mais uma perda.
─Desculpe! Me perdoa, deixei você, fui embora, deixei tudo para trás e fui embora!
─Não importa, está aqui agora, estamos juntas de novo, vamos continuar juntas e isso é tudo!
─Como pode me perdoar assim?
─É minha irmã, sou filha do Hershel, estamos num apocalipse, tantas as razões, vamos esquecer isso, não se desculpe, não carregue mais esse peso, não é preciso.
─Você é sempre tão...
─Boa? Justa? Bobagem, sou apenas humana como você e todos os outros, quer falar sobre deixar alguém? Bom eu tentei deixa-la uma vez se lembra? – Mostro o pulso marcado, há muito que isso não me envergonha mais – Quando fiz isso só pensem em mim e na minha dor, me perdoou se lembra?
Ela afirma, seco suas lagrimas, ela seca as minhas, é assim que irmãs fazem, cuidam uma da outra e superam as diferenças.
─Vem, vamos enfrentar o passado e entrar em casa Maggie, não podemos ficar nessa escada para sempre, é hora de seguir em frente.
Damos as mãos e encaramos a porta, amanhã vamos começar uma nova vida, vamos buscar um novo lugar, mas essa noite vamos reviver quem éramos, vamos separar o que de bom podemos levar disso, colocar entre as poucas coisas que podemos carregar e mandar o resto para o inferno, eu não choro mais.
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