Caminhando entre os mortos 2
29 Capitulo 29 - Chegada
Notas iniciais
Pov – Daryl
A tinta está finalmente seca, passo a mão pelo berço agora pronto, foi um belo trabalho que gostei de fazer, demorei muito, primeiro porque não tinha pressa, depois porque trabalhei apenas nos momentos de folga. Mas o principal motivo foi por que seria do meu bebê e eu tenho muito pouco a oferecer a ele, então tem que ser o melhor.
─Chegamos, do que precisa? – Rick e Glenn surgem na porta do galpão.
─Nossa isso ficou mesmo perfeito! – Glenn se aproxima alisando o berço, me olha surpreso, cara você é bom.
─Vamos levar lá para casa. – Não gosto muito de elogios, nunca soube lidar com eles. Decido mudar logo de assunto. – Aproveitar que a Alice está com as crianças.
Os dois trocam um sorriso, eu olho de um para outro.
─Ela não podia ter encontrado trabalho melhor. – Rick comunica quando se posiciona para erguer o berço. – Nunca vi alguém com tanto talento para distrair as crianças, eles nem querem ir para a aula no período da tarde.
─Claro que não querem, ela parece ser mais infantil que eles, arruma cada brincadeira. – Reclamo. Todos os dias tenho que ficar passando por lá duas ou três vezes para ver se não está fazendo tolices.
─Até o Carl corre para lá quando não está trabalhando.
Quando afinal essa gente vai descobrir que ele vai lá para ficar namorando Pam escondido com a cobertura de Alice? Eu devia contar, mas decido não abrir minha boca, ao menos até meu filho nascer, depois Alice pode se meter em encrencas de novo.
─Vamos levar, está quase na hora do almoço.
Glenn e Rick me ajudam a carregar o berço, depois de toda dificuldade de coloca-lo no quarto, eles me deixam, agora é com Alice e as garotas, essa coisa de cobertas e roupas eu não me meto.
Caminho para a porta da casa de Noah, era lá que as crianças costumavam passar as manhãs, Alice ficava com elas numa sala de recreação, depois durante a tarde elas tinham aula e eu obrigava Alice a descansar.
Stacy e a doutora diziam que podia ser a qualquer momento e aquilo me preocupava. Cloe chega junto comigo, todos os dias o grupo almoçava junto, era uma maneira de economizar comida e ocupar algumas mulheres em trabalhos menos perigosos.
─Oi. – Ela me sorri. – Veio buscar Alice?
─Sim.
─Ela já deve estar liberando as crianças, vim buscar sal, a comida está quase pronta. E chamar a Pam, Stacy está atrás dela, eu a vi entrando.
Entro junto com ela, sigo para sala de recreação, pretendia abrir a porta, mas ela se abre de supetão e uma avalanche de crianças me atropela rumo ao refeitório.
Não que fossem tantas assim, eram oito crianças ao todo, mas juntos eram como uma manada. Penso que um dia meu filho estaria entre eles e só quero que os muros resistam para sempre.
─Oi amor! – Alice surge na porta sorrindo. – Sempre pontual. – Ela brinca me dando um beijo.
─Alice. – Nem bem escuta a voz de Cloe, Alice se precipita em fechar a porta atrás de si, reviro os olhos, ela nunca vai parar de se meter em encrencas?
─Cloe... Não devia estar no refeitório?
─Sim, sua esfomeada, só vim na despensa buscar sal. – A casa que Cloe era um pouco como uma extensão do nosso deposito, sempre tinham coisas que acabavam lá. – E chamar a Pamela, ela está ai? – Cloe dá um passo em direção a porta.
─A Pam não entrou aqui hoje Cloe! – Alice diz em voz alta o bastante para ser ouvida lá dentro, Cloe franze a testa.
─Eu vi ela entrando mais cedo.
─Pam não está aqui! – De novo a voz alta.
─Alice, o que está aprontando? – Cloe pergunta e me deixa tenso, coço a cabeça, como essa mulher infernal vai sair dessa agora?
─Nada.
─O que tem atrás dessa porta Alice?
─Essa? – Alice pergunta apontando a porta e claramente ganhando tempo.
─Sim Alice, essa porta.
─Brinquedos, livros, almofadas e uns colchões, eu acho, já esteve aqui, sabe como é.
─Muito engraçado, se não tem nada me deixe passar.
─Quer entrar aqui? – Alice pergunta fazendo cara de desentendida. Cloe afirma depois de um longo suspiro. – Porque não disse antes? Não sabia que estava no caminho, se quer entrar entre.
Alice não se move e eu já tinha passado da irritação para o divertimento, essa mulher pode fazer o que quiser, ninguém nunca consegue vencê-la, está a anos luz na nossa frente, no fim tenho que admitir, sua mente é mesmo brilhante.
─Você e sua barriga quilométrica estão no caminho Alice.
─Ei pequeno Alien, olha a Cloe nos chamando de gordos. – Ela acaricia a barriga, Cloe acaba rindo.
─Pode me dar licença Alice?
─Entre Cloe! – Agora era quase um grito, não tinha nada de descrição no seu aviso, ela dá um passo para o lado, Cloe abre a porta e a sala está vazia, a janela aberta e a cortina balançando, claro que para olhos aguçados como os meus isso queria dizer alguma coisa já que não estava ventando, mas Cloe se contenta com o óbvio, balança a cabeça.
─Garota maluca. Vou indo, se virem a Pam avisem que a Stacy quer vê-la.
Fico sozinho com Alice, ela me da aquele sorriso falso de quem está aprontando, respiro fundo, tenho evitado perder o controle, ao menos por esses dias, ela adora usar lagrimas e o bebê para se fazer de coitada e me deixar culpado e claro eu caio feito um idiota.
─Não acha que já passou da hora do Carl enfrentar essa situação?
─Do que está falando? – Seu olhar inocente me encara.
─Dos dois pulando a janelas, não sou idiota.
─É um pouco, tenho que dizer, mas sim, eles fizeram isso, foram bem espertinhos. – Passo meu braço por seu ombro e vamos caminhando juntos. – Rick e Mich estão de caso.
─Como sabe disso?
─Ontem o Carl pegou os dois se beijando na cozinha, ele fingiu que não viu e eles fingiram que não sabiam que ele tinha visto.
─Entendo. O Carl está bem sobre isso?
─Ele adora a Mich, está feliz e triste, Carl acha que o pai devia contar para ele.
─Com ele contou sobre a Pam?
─Bingo! – Ela segura minha mão para descer os degraus da varanda.
─Devia convencê-lo a resolver isso, e parar de acobertar esses dois.
─São só uns beijinhos inocentes amor, nada demais, mas vou cuidar disso. – Chegamos ao fim dos degraus. – Vai ser diferente com nosso bebê não é? Quer dizer, vão ser amigos, sendo menina ou menino vai falar sobre tudo com ele, não quero que ele sinta receio.
─Vou sim Alice, não quero de jeito nenhum ter um filho com medo de mim.
─Tem que falar sobre tudo Daryl, inclusive sexo, porque você é todo cheio de dedos na hora de falar. Fazer não é problema para você, prova disso é essa barriga, vive animado com isso, mas se vamos falar de sexo selvagem já fica gaguejando.
─Alice você é... – Ela para de andar, fica na minha frente me impedindo de continuar, uma lufada de vento bate do nada e bagunça os longos cabelos dourados e brilhantes, o rosto está corado pela manhã de brincadeiras, os olhos azuis brilham como faróis. Sorri feito uma fada. – Linda e perfeita! – Eu digo sorrindo para aquela linda visão, como foi que dei tanta sorte?
─Prefiro delícia. – Ela me sorri, prende os cabelos num coque, faço cara de não ter entendido o que quis dizer. – Linda eu sou e todo mundo sabe, perfeita também, mas delícia só mesmo você pode dizer.
─Quanta modéstia, quase uma santa.
─É o que digo, tenho muitas qualidades. – Isso dito com a cara mais lavada do mundo, cada palavra carregada de certezas.
─E muita fome que eu sei, vamos almoçar e depois vai para cama.
─Oba!
─Sozinha.
─Chato! Não vou passar a tarde olhando para o teto, vai ter que ficar comigo.
─Os garotos ficam, termino meu trabalho e corro, prometo.
─Está certo, vai indo para o refeitório, vou buscar a Pam e o Carl, e mandar eles resolverem isso de uma vez.
─Vou com você.
─Não amor, tecnicamente você não sabe de nada. Não demoro, eles estão escondidos na rua de trás, dois quarteirões. Que pode acontecer?
─Tudo, cadê seu machado. – Ela revira os olhos.
─Não consigo carregar a barriga e o machado, e depois não ando por ai sozinha, na sala de recreação tem meia dúzia de armas no armário e só vivo com um acompanhante.
Pego minha faca na cintura, entrego a ela que aceita de má vontade.
─Ou isso ou vou com você.
─Entendi, sou uma escrava dos seus desejos! Alguém sem escolhas, vivo a mercê dos seus caprichos.
Rio de Alice, é sempre assim, tudo é grande e dramático para ela, me diverte o tempo todo, ela me beija, franze o nariz, aperta a faca na mão e me dá as costas, é mesmo a mulher mais incrível que já pisou na terra, não existe outra igual.
Fico assistindo Alice dobrar a esquina, sorrindo feito um tolo, já me acostumei completamente com o papel ridículo que ela me faz fazer dia e noite, penso no berço e na surpresa que será depois do almoço, no rio de lágrimas que virá.
Alice só tem dois humores, risos e lagrimas, ela pode rir de nervoso, chorar de felicidade, tudo nela é intenso e sem sentido.
─Que foi? – Rick surge ao meu lado, segue meu olhar, pisco voltando a realidade.
─Nada, vamos? – Seguimos em direção ao refeitório. O grupo se reunia na varanda a espera da refeição. Eu podia ver mesmo caminhando com Rick.
─Daryl, eu e a Michonne estamos... Não sei, talvez algo esteja acontecendo, acha que o grupo aceitaria? O Carl, os outros.
─Não sei o que qualquer um tem com isso, mas o Carl é louco pela Mich, o grupo te respeita acima de qualquer coisa, se não está assumindo é mais por medo de você do que dos outros.
─Pode ser, é que Lori ainda está presente, não do modo que pensa, mas foi uma história com final infeliz, e não falo só da morte dela, falo de como acabou mesmo antes dela morrer, sinto um pouco de medo.
─Não precisa ser sempre assim, Mich não é assim, e são novos tempos. Além disso são amigos antes de tudo.
─Esse é o ponto, e se a amizade sair machucada, no caso de não dar certo?
─Não sou bom nesse tipo de conselho Rick, mas se quer saber vai ter que tentar e descobrir.
Ele pretendia dizer alguma coisa, mas Pam surge correndo aos gritos e só conseguimos entrar em pânico.
Pov – Alice
Esses garotos só vivem me metendo em encrencas, depois eu que levo a fama, tudo sempre recai sobre mim, Alice isso, Alice aquilo. Sempre eu.
Só porque tenho bom coração e sou romântica pago por isso, mas Carl precisa mesmo ser homem e falar com a Stacy, e Rick também, quando encontrar com ele vou dizer para parar de enrolar minha amiga Mich, até o Bruce já assumiu a Beth.
O casamento está bem pertinho, três semanas e teremos o primeiro casamente após o fim do mundo, com padre e igreja, Beth só pensa no vestido, sorrio com a ideia, será um dia incrível para a comunidade.
Viro a rua, só preciso andar um quarteirão, virar de novo a esquerda e estarei nos fundos da casa de Cloe onde os pirralhos devem estar escondidos a minha espera gastando o tempo com beijos e mais beijos.
Sinto uma dor que repuxa minha barriga e me pega distraída, tenho que parar de andar e segurar a barriga que fica dura e contraída. Contrações? Então é isso?
─Essa porra dói demais! – Digo me apoiando em um muro. – Merda! Cacete de dor dos infernos! Que isso pequeno Alien, a gente não tinha combinado que ai dentro era melhor?
A dor diminui um pouco, fico ereta mais uma vez, puxo o ar com força me acalmando.
─Agora é sério bebê, nada de descumprir o trato, o mundo aqui fora é feio e morto, cheio de gente chata, ai está quentinho, seguro, podemos conversar, os gritos do papai troglodita ficam abafados, que vai querer fazer aqui fora?
A dor some por completa, sorrio vitoriosa. É mesmo um pequeno Dixon, foi bem fácil convence-lo.
─Bom alienígena, estou orgulhosa. Não esqueça do trato, você fica ai e eu carrego essa barriga, o papai mima a gente e todos ficamos felizes. Eu sei, o papai quer ver sua carinha, mas estou convencendo ele que você tem a língua verde, os olhos esbugalhados, ele vai desistir disso.
Fico imóvel e em silencio um momento, nenhum sinal de dor, perfeito, recomeço a caminhar.
Viro a rua completamente distraída e tranquila, a primeira coisa que faço é olhar em direção aos fundos da casa de Cloe, não os vejo.
─Não vamos aguentar Carl! – Os gritos de pânico de Pam me chegam aos ouvidos e olho perplexa em direção aos muros. Os dois tentavam conter o que devia ser placas fundas de metal impedindo a passagem de qualquer coisa de fora, mas uma das placas sedia um pouco.
Corro para eles, os dois tentando manter a placa de meio metro de largura.
─Saiam dai! – Grito já chegando perto. – Vamos os dois, se afastem.
─Tem uns vinte do outro lado, socorro Alice! – Pam grita chorando.
─Se afastem, eles vão entrar um por um, dá para detê-los! – Eu me posiciono.
Os dois se afastam de uma vez, a placa sede e o primeiro se aproxima.
─Corra para buscar ajuda Pam. – Ela me obedece. – Vamos Carl, fica pronto, um meu um seu.
Carl pega a longa faca que carrega consigo sempre. Se posiciona com olhos arregalados enquanto Pam some de nossa visão, eles começam a entrar, um por um.
Acerto o primeiro, Carl o segundo, o terceiro perde os braços quando tenta passar pelo vão, Carl corre em sua direção para pega-lo.
─Não se aproxima da entrada! – Eu grito, mas ele já derrubava o zumbi enquanto outro avançava, só posso me juntar a ele derrubando o próximo.
Mais um vem por cima de mim, prende meus braços. Carl vem em meu socorro, o acerta enquanto eu o prendo pelo pescoço, me desequilibro, caímos os três, eu, o corpo do zumbi e Carl logo depois, a barriga se contrai de novo.
Dessa vez Daryl me mata, tentava escorregar para longe quando mais um zumbi avança pelas costas de Carl, cai sobre nós e consigo puxar de baixo daquela pequena montanha de corpos meu braço com o facão um segundo antes do zumbi morder o ombro de Carl.
Acerto o cérebro do infeliz, Carl balbucia um obrigado enquanto rola para o lado levando com ele os corpos.
─Alice! Alice! – Merda, estou encrencada. A voz de Daryl chega cheia de pânico.
Com ele vem uma multidão, ele usa o cabo da besta para estourar um cérebro antes que se aproxime de mim, miolos e sangue se espalham me sujando com aqueles fluidos nojentos, então o grupo controla o ambiente, derruba os zumbis em segundos e Daryl se ajoelha.
─Eu não comecei nada! – Digo quando ele ergue minha cabeça. – Quando cheguei a merda toda já estava acontecendo. Não fiz nada, eu juro!
─Você está bem? – Seus olhos estão cheios de pânico, meu coração dói, sempre faço isso.
Toco a barriga, sinto aquela coisa nojenta que são restos de zumbi sobre minha roupa, é esse o mundo que tenho a oferecer ao meu bebê, tento me sentar, quero tirar aquilo de mim, minha barriga é sagrada e não quero aqueles restos sobre ela.
A contração volta com força, aperto a mão de Daryl, a nossa volta ainda toda aquela confusão de vozes, corpos e correria.
─Alice! – O tom urgente e os olhos de Daryl me contam sobre minha aparência, mordo o lábio, queria dizer ao meu bebê que não era uma boa hora, mas a voz não sai. – Está com dor? – Afirmo.
─Está passando, me leva daqui, quero tirar essa roupa, me ajuda a levantar.
─Primeiro se acalme, não pode andar, só fica calma que eu te levo.
─Não estou nervosa porra! – Ele se espanta. – Só quero tirar essa meleca de perto do meu filho.
─Está tudo bem Alice!
─Não está! Estou toda suja de sangue de zumbi, meu bebê está todo sujo!
─Meu amor, o bebê está bem, e você precisa ficar imóvel um momento, sua barriga está endurecendo de novo.
─Ai. Acho que o tratante quer nascer, ele tinha prometido.
Meus olhos ficam molhados, sinto medo, disse que não sentiria, mas agora eu sinto, puxo Daryl para perto de mim, a dor me domina mais uma vez e agora é ainda pior.
─Maggie, a doutora! – Ele pede quando ela se aproximava, com olhos arregalados ela dá meia volta, Beth corre em nossa direção.
─Ai meu Deus esse sangue...
─É de zumbi Beth! – Choro segurando Daryl pela camisa.
─Vamos Daryl, pega ela, temos que ir para a enfermaria.
─Não. Quero tomar banho primeiro, tirar essa coisa nojenta de mim.
─Deixa de ser idiota, o bebê quer nascer.
─E vamos fazer tudo que ele quer? – Eu grito, Rick e Glenn riem, claro, não é com eles. – O monstrinho vai nascer um mimado. Ai porra isso dói!
Ele me ergue, nunca me dá ouvidos mesmo. Me aperto a ele, está cada vez mais pálido, choro me sentindo fraca, me encosto em seu ombro enquanto caminha com Beth a nossa frente.
Stacy e a doutora nos aguardavam na porta da enfermaria, correm para dentro e ele as segue o mais rápido que pode.
─Não sai de perto de mim Daryl, não me deixa sozinha!
─Claro que não meu amor, vou ficar aqui.
─Para de ser gentil que isso está me irritando! – Eu o belisco num misto de raiva e dor.
─Mulher infernal, isso dói, vou derrubar você! – Todo mundo parece perplexo com nós dois, ele me coloca na maca.
─Beth traz agua limpa e um pano. – A médica pede quando pegava uma tesoura.
─Ei, ei Doutora, o que pretende com isso? – Daryl pergunta me segurando prestes a me arrancar da maca.
─Cortar essas roupas Daryl fica calmo ou sai daqui.
─Se sair daqui eu mato você! – Aviso quando minha barriga se contrai mais uma vez. – Eu sabia que essa coisa de sexo era bom demais para ser verdade, tinha que ter uma merda qualquer para fazer a gente nunca mais querer ver um homem na frente. AI! Mentira amor, ainda quero.
─Cala a boca Alice, pelo amor de Deus!
─Estou calada! – Solto um gemido quando a doutora passa a tesoura pela roupa, Beth entra com a bacia e panos.
─Vamos limpa-la Beth, o bebê não pode ter contato com esse sangue podre e cheio de vírus.
Vírus, ela disse vírus, meu bebê vira com essa coisa que temos, meu bebê vem para esse mundo apavorante, a culpa é minha, eu o amo mais que tudo, mais que Daryl, é uma parte dele dentro de mim e agora vai deixar a segurança do meu ventre para enfrentar o inferno, os muros sempre prestes a cair, perigos em todos os cantos, mesmo eu sou um risco, tudo é um risco.
Meus olhos buscam os de Daryl, meu pavor fica claro e ele beija meus lábios de modo terno.
─Não pense essas coisas. – Sim, somos tão íntimos, ele sabe tanto de mim, pode mesmo ler meus pensamentos. – Vamos vencer essa droga toda, ele vai.
Daryl Dixon está confiante, eu sei só de olhar para ele, sinto umas gotas de suor brotarem em minha testa. Com todo carinho ele seca com a mão livre, a outra eu aperto e possivelmente nunca mais ele vai poder usar os dedos, mas isso não parece importar a ele agora.
─Amo muito meu bebê, amo muito você e não esqueça do que me prometeu.
─Cala a boca sua idiota! – Daryl ralha comigo, sorrio e a dor me domina mais uma vez.
─Está tudo pronto Alice, agora quando a dor vier você o ajuda.
─Ajudar? Ele ainda precisa de ajuda?
─Para de brincar Alice, eu sou uma médica e nunca ri tanto num parto.
─É vou por no mundo um palhaço, agora me diz como ajudo ele, uso palavras de incentivo?
─Empurra Alice, até eu sei disso! – Daryl reclama.
Eu pretendia xinga-lo de qualquer coisa, mas uma dor alucinante me domina e só consigo apertar sua mão e empurrar, parece a coisa certa a fazer, deixo os instintos me guiarem, tentei convence-lo a ficar dentro de mim, mas se ele quer sair então será bem-vindo.
─Mais um pouco Alice, já dá para ver a cabeça.
─Cacete doutora, sem detalhes. – A dor diminui, aproveito para respirar, encher de novo os pulmões, afrouxar um instante o aperto na mão de Daryl que continua ali, não que tivesse qualquer escolha.
Ele seca minha testa, beija meus lábios, está pálido como cera, mesmo assim finge que tudo está bem.
─Doutora meu bebê é a coisa principal, ele precisa viver.
─Sem drama Alice, ele está bem. – Stacy me avisa.
─Beth! – Procuro por minha amiga, ela está sorrindo quando se aproxima, também está chorando, segura minha outra mão. – Nunca esqueça as pílulas amiga, esse é meu conselho para a vida.
A dor volta, não quero nunca mais brincar de ter bebê, aperto mais a mão de Daryl, olho para ele, esqueço todo o resto e apenas olho para ele.
A medica incentiva com palavras gentis, mas só vejo e escuto Daryl Dixon.
─Vamos lá, é uma garota infernal, sabe que pode, pode tudo, então coloca logo nosso bebê nos meus braços.
Afirmo, junto toda força que possuo, penso em todos que perdi e amei, nos meus sobrinhos, em Emma e em como estaria orgulhosa de mim agora, Antes de fazer toda força do mundo sorrio mais uma vez e então deixo que meu bebê ganhe o mundo empurrando com tudo que tenho até senti-lo saindo e depois apenas me encosto mais uma vez na maca, escuto seu choro ecoar pelo ambiente.
─Parabéns mamãe, é uma menina.
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