Caminhando entre os mortos 2

19 Capitulo 19 - Oficialmente desculpado


Notas iniciais
Ola pessoas, mais um capitulo, espero que gostem.

Pov – Beth

É estranho ter Bruce sentado na cozinha dividindo uma fatia de bolo comigo, é estranho até ter uma cozinha.

─O que está pensando?

─Na estranheza desse momento, ter uma cozinha, uma fatia de bolo fresco.

─Não é fácil para mim também. Até vocês chegarem as coisas não iam bem, estava difícil para mim, três mulheres e eu, ia lá fora arrumar comida e tinha medo de morrer, não por mim, mas por elas, Cloe acreditava tanto na volta do filho, eu tinha medo de não conseguir mantê-la viva até esse momento.

─Você foi muito forte, e generoso.

─Eu precisava delas também, não foi simples generosidade, não se vive muito sozinho nesse mundo, acho que a pessoa enlouquece.

─Absolutamente. – Digo olhando para o bolo. – Está uma delícia.

Ele pega um pedaço com o garfo.

─Esse tem um pedaço de morango, quer? – O garfo vem em minha direção, só consigo me lembrar da humilhação de Gordman, daquele pirulito sendo enfiado em minha boca, do olhar devorador, da sensação de nojo que me invadiu. Dou um tapa no garfo que voa para longe.

Bruce me encara espantado, vejo a confusão em seu olhar, me sinto estúpida, não é o Grady, aquilo não vai se repetir, sou livre, Bruce é um homem bom.

─Desculpe. – Me sinto mortificada.

─Está tudo bem. – Bruce fica de pé. – Melhor eu ir, só quero que saiba que ouvi sua conversa, acho que sabe, não foi de proposito é claro, nem sei direito o que realmente aconteceu, não achei certo sair perguntando por ai, mas só quero que saiba que entendo e que vou te deixar em paz.

Um mundo de coisas passa por minha cabeça, uma delas é que não quero ser deixada em paz, gosto da presença dele, do modo como ele me faz sentir leve, das borboletas no estômago que nunca senti antes.

Quando desperto de meus devaneios ele caminhava para porta.

─Espera. – Bruce se vira, me olha nos olhos e sinto que me compreende, aceita meus limites. – Não terminamos o bolo.

Bruce afirma depois de sorrir, caminha de volta, pega outro garfo sobre a pia, se senta mais uma vez.

─Quando vamos ter outra tarde de pôquer? – Ele pergunta mudando o rumo da conversa.

─Alice vai armar alguma coisa, não se preocupe.

─Ela é divertida, nunca pensei que alguém ainda podia ser como ela depois que o mundo acabou e com todo esse sofrimento a nossa volta.

─Por isso é minha melhor amiga. Ela e Maggie.

─Meu irmão morreu, esteve aqui comigo por um curto tempo. – Ele me diz sem esconder a tristeza.

─Como foi para você? – Pergunto curiosa, sei que como todos os outros ele perdeu tudo, mas queria saber.

─Eu cresci no campo, mas sai para faculdade de veterinária, quando voltei...

─É veterinário? – Fico emocionada, ele afirma. – Meu pai também era.

─Então sabe como é, meu amor pelos animais grandes me fez estudar, mas acabei numa clinica veterinária em Nova Jersey, não era nada daquilo que queria. Um dia abandonei tudo e voltei para a Virginia.

─E o mundo acabou.

─Sim, éramos eu, meu irmão, a noiva dele e dois amigos. Meus pais morreram antes de tudo começar.

─Sinto muito. – Meu olhar sobre ele sempre muda e cada vez fica mais claro o quanto ele é especial.

─Aqui só chegamos eu e meu irmão e logo eu o perdi, se não fosse por todas as pessoas que encontrei aqui teria desistido.

─Novas famílias se formaram, achava que era exclusividade do meu grupo mais não, todos fizemos isso.

─Porque precisamos de pessoas. Precisamos não só para proteção.

─Eu entendo o que quer dizer Bruce, aconteceram coisas comigo.

─Não me conte, não preciso saber de nada disso, se te constrange então não diga, só quero que saiba que não muda o que penso de você. Quero uma chance Beth, não hoje, mas algum dia.

Ele segurava minha mão, gosto do toque, não sinto medo, simplesmente confio nele, e acabo por sorrir.

─Tem um sorriso lindo, você é suave, mas ao mesmo tempo é tão forte e corajosa, admirável, não sobrou muita gente assim, o medo tornou as pessoas quase sem emoção, mas você manteve todas as suas.

Ele beija minha mão, faz isso de um jeito carinho e meu coração dispara. Depois fica de pé.

─Nos vemos amanhã, dorme bem.

Fico sem fala, assinto meio com cara de idiota, caminho ao lado dele em direção a porta e ele preenche o lugar. Abro a porta, sorrimos mais uma vez, a noite está escura e silenciosa.

─Obrigada pela companhia, foi bom e desculpe meu...

─Shiu! – Ele segura mais uma vez minha mão, não solta e nem eu quero que solte. – Não se desculpe mais, até amanhã.

─Boa noite Bruce. – Me estico um pouco e beijo seu rosto, sinto seu perfume leve, a barba por fazer me causa um arrepio, com ele tudo é tão diferente.

─Entra, fecha a porta, depois eu vou.

Não me sinto ofendida pela preocupação, pelo contrário acho romântico e lhe dou as costas, fecho a porta decidida a ter uma longa conversa com Alice e Maggie, elas precisam me ajudar a entender isso.

Durmo como nunca dormi antes, um sono tranquilo, relaxante, pela manhã July me observava na cozinha aquecendo agua para tomarmos juntas uma xicara de chá.

─O que quer saber? Pergunta de uma vez.

─Beijaram? – Solto uma gargalhada. – O que? Foi para isso que ele veio não é?

─Quantos anos tem?

─O bastante para saber que bem estão querendo.

─Estamos nos conhecendo se isso te deixa feliz, mas apenas isso, não sei o que vai acontecer.

─Beth você está parecendo uma velha chata, se fosse a Alice...

─Estaria gritando com ele pela vila toda, mas não sou. Agora toma logo esse chá e vamos para o trabalho.

─Estou esperando o Carl, temos que conversar.

─Não sozinhos aqui, nem pense nisso.

─Que nojo, acha que vou beijar ele? Somos amigos apenas.

Carl surge na cozinha, usa o chapéu de xerife, me sorri.

─Oi, vamos July?

─Onde vão? – Pergunto.

─Encontrar a Pam.

─Deu certo para o seu pai? – July pergunta e ele revira os olhos.

─Alice só apronta, ela que armou tudo, fiz tudo como ela falou, estava escondido na escada olhando a cena e tudo ia bem, não ouvi muito o que falaram, mas estavam perto, e dai o que acontece? – Não sei muito do que estão falando, mas parece algo sobre Rick e Michonne. – Alice aparece chorando porque brigou com o Daryl, que novidade, os dois vivem daquele jeito maluco deles, ela que armou e ela que estragou todo.

─Alice chorando? Agora?

Me preocupo com ela, Alice andou meio reclamando de cansaço, e ela não é o tipo que chora.

─Ontem à noite, mas já foi para casa, devem estar de bem.

─Vou falar com ela quando a encontrar.

─Devia ir lá agora estragar a vida amorosa dela também. – Carl reclama enquanto deixávamos a casa.

─Ela não se faria de rogada, pode apostar me atiraria algo e me poria para fora.

Bruce trabalhava carregando coisas em direção aos muros, acena sorrindo quando me vê, devolvo o sorriso e é completamente involuntário, apenas não resisto a ele.

─Hummm! Os garotos provocam e eu os deixo sozinhos seguindo para o trabalho.

Pov – Daryl

Ela dorme ao meu lado, o rosto suave como um anjo, nada parecida com o furacão que é acordada. Os cabelos espalhados pelo coxão, a boca entre aberta, nunca me senti tão perdido quanto no momento em que ela deixou essa casa.

Minha maluquinha perfeita só queria fazer um drama, devia ter corrido atrás dela, mas não fui, que ideia estúpida a minha de pensar que ela estava envolvida com alguém, sou um paspalho e fui injusto, muito injusto.

Tão linda, tantas vezes deixou isso claro, quando vou parar de duvidar? Quando vou parar de duvidar que mereço? Talvez nunca, ela é tão linda, alegre, cheia de vida, porque justo eu fui ter essa sorte?

Não vou mais questionar, apenas aceitar, ela é minha mulher, temos dez anos de casados, sorrio, olhando para ela, não consigo parar de olhar.

Alice se move na cama, remexe e abre os olhos, meu coração quase para só por olhar sua beleza assim pela manhã, os olhos imediatamente sorriem ao me verem olhando para ela.

─Ainda é ontem, ou já é hoje?

─Já é hoje.

─E dormi mais que você? – Ela questiona impressionada, sempre acordo primeiro.

─Gostei, assim fiquei te olhando dormir. – Ela geme e me lembra o ronronar de uma gata manhosa, me puxa para ela e eu a beijo.

─Estava me achando uma delicia?

─Estava te achando bonitinha.

─Só me maltrata. – Ela choraminga. – Estou sofrendo muito Daryl, me acha uma traidora, briga comigo, Rick me expulsa da casa dele e nem o sino eu posso tocar, chorei um montão, sofri, engasguei com a poeira na casa do Rick, nem me agrada.

─Não te agrado? – Beijo Alice. – Só o que faço é isso.

─Um pouco, bem pouco, estou morrendo de fome.

─Então vamos tomar café. – Beijo Alice mais uma vez.

─Depois vamos caçar uns esquilos? Faz tempo que a gente não come aquilo, me deu saudade até.

─Saudade de comer esquilo? – Alice é mesmo maluca. Ela afirma. – Amanhã, hoje eu vou terminar o muro.

─Não! Então me empresta a besta que eu mesma vou lá fora fazer isso.

─Sozinha? Nem pensar e não sabe atirar direito, nunca acertou um alvo quando treinávamos.

─Dou com a besta na cabeça do esquilo, quero ver se ele não morre. – Me contenho, quase sempre, mas não tem como não rir dela.

─Para de dizer bobagens, amanhã caçamos.

─Está bem, eu vou sozinha.

─Alice! – Ela consegue me irritar, não sei que talento é esse. – Amanhã.

─Troglodita! Sabia que eu sonhei que estávamos morando na floresta e de noite a gente estava na frente de uma fogueira comendo esquilo?

─Sonhou que estava comendo esquilo?

─Tá, eu não sonhei, mas podia ter sonhado, ficou bom o sonho.

Volto a rir, é sempre assim, um minuto e quero matá-la, no outro eu estou rindo.

─Me perdoou? – Pergunto com uma ponta de medo.

─Só se me levar para caçar, se não vou morar no Rick.

─Ele te expulsou. – Rio do bico que ela faz, ganho um beliscão.

─Dois idiotas, você e ele e tem mais, ele quer proibir o jogo, construir uma cela para prender sua mulher, vai deixar isso assim?

─Faço as grades!

─Ingrato.

─Maluca.

─Vamos levantar amor, tocar o sino e caçar esquilos, vem.

Ela me puxa pela mão, mas ainda não terminei, não é fácil ter uma conversa séria com Alice.

─Espera. – Eu a seguro e ela volta para cama, se deita em meus braços. – Que história foi aquela de que quero que limpe casa, ou sei lá o que quis dizer com essa sua mania de falar tudo que vem à cabeça.

─Minha mente é brilhante, eu sempre digo, meu asar é vocês serem assim um tanto desprovidos de inteligência.

─Cala a boca Alice – Mulher maluca.

─Quer que eu cale ou conte?

─Quero que pare de brincar e me diga que história é essa.

─Que saco! Eu achei que não era a esposa perfeitinha que sonhava, do tipo que varre casa e essas coisas todas.

─Isso é sério?

─É! – Ela faz bico mais uma vez. – Agora diz que me ama de qualquer jeito que sou perfeita desse meu jeitinho, que me ama loucamente.

─Adoraria, mas essa sua mania de se auto elogiar me impede, sempre faz isso primeiro.

─Estou calada, pode falar.

─Não me importo com nada disso, nunca nem pensei nessa coisa que está falando, só queria mesmo um canto nosso, nada além disso, nunca tive uma casa Alice, nunca vivi isso que estamos tentando fazer.

─Você é muito fofo! – Ela vem mais uma vez manhosa para meus braços, me beija. – Amo você, vou aprender essas coisas todas de garota.

─Não precisa, me mataria do coração se chegasse aqui e te visse fazendo essas coisas.

─Meu estômago está nas costas de tanta fome, se não vamos fazer sexo selvagem melhor sair da cama.

─Está bem, mas só quero que saiba que eu amo você como é, não quero que mude nada e me arrependo eternamente de ter pensado o que pensei.

─Não se preocupa amor, vou fazer você pagar por isso.

Não duvido, ela me puxa e acabo levantando, não consigo resistir as vontades de Alice.

As pessoas estavam todas envolvidas no trabalho quando deixamos a casa, Alice devora duas fatias de uma massa parecida com bolo, toma duas xicaras de chá, fico assistindo o pequeno ataque de fome.

─Pronto? – Pergunto surpreso. – Vou trabalhar, o que tem para fazer?

─A mulherada fica inventando um monte de trabalho, vou ajudar quando a gente chegar da caçada.

─Alice não vamos caçar hoje. – Ela me mostra a língua, depois me puxa pela mão.

─Vamos ver o sino então.

Melhor mesmo eu estar com ela, assim que entramos na igreja, Sasha saia com Rosita, o trabalho é tanto que nem nos cruzamos. Acenamos e entramos, o padre sorri ao nos ver.

─Calma padre, ele quer me obrigar a viver no pecado, não viemos marcar a data.

Alice e essa boca enorme que ela tem, o padre da um leve sorriso condescendente.

─É sempre bem-vinda Alice.

─Eu sei padre, vamos ver o sino, ficou me escondendo ele de propósito.

─Nunca olhou para cima Alice? – Ele questiona.

─Não padre, nunca olhei, só quando chove zumbi.

Ela deixa o padre falando sozinho, ele me faz um olhar de alerta e sigo atrás de Alice, subimos até a torre, ela olha o sino.

─Não é dourado? – É a primeira coisa que diz. – Cadê a cordinha? Não tem uma cordinha que os padres ficam se balançando nela?

─Presa lá em cima, não é para tocar o sino.

─Nunca vamos saber qual o som.

─Vem, vamos descer.

─Achei bem sem graça isso.

Sinto um grande alivio de saber que ela não gostou do sino, descemos os dois, aceno para o padre ele sorri completamente aliviado, deixamos a igreja, ela me olha com os olhos pidões.

─Um esquilinho assado na fogueira? – Como se nega algo a garota mais linda que já vi? Eu sorrio, arrumo a besta nas costas e seguro sua mão, ela abre aquele sorriso de vitória que sempre me deixa bobo.

─Um esquilo! – Digo de cara amarrada arrastando Alice para o portão, Bruce está lá e sinto uma ponta de vergonha de ter pensado mal dele também.

─Vamos caçar esquilos Bruce, a gente volta logo pode ir avisar a Beth para mim?

─Aviso. – Ele responde sorrindo e então deixamos o lugar.

─Acha que a Beth vai ficar preocupada? – Pergunto armando a besta.

─Não, é só para ele ir atrás dela, você é meio lentinho, mas dizem que é assim, homem gostoso é sempre meio burro.

─Idiota! – Chega de brincar, presta atenção, não estou gostando nada disso.

Ela concorda, fica em silencio caminhando ao meu lado. Nada nos cerca nos primeiros momentos, mas claro que eles estão em todos os lugares, e logo dois deles surgem.

Alice se precipita com sua faca, mas eu sou mais rápido, derrubo o primeiro, ganho um olhar irritado, ela se move sobre o segundo, enfia a faca na testa do infeliz e então acabou, continuamos caminhando, sinto medo de ter Alice comigo.

Ela parece tensa também. Finalmente vejo um esquilo, não acredito que estou aqui caçando um esquilo para Alice, acerto na primeira, me sinto aliviado quando recolho a flecha e prendo o bicho.

─Vamos embora. – Ela fica parada me olhando. – Não vou dividir com ninguém.

─Já entendi Alice, ninguém vai querer seu esquilo, temos coelhos, galinhas, ovos, quem vai preferir um esquilo?

─Tudo bem, se alguém pedir vou dizer não e vai morrer de vergonha de mim.

─Está bem, agora anda.

Ela passa na minha frente de cara amarrada, perdi a manhã toda andando atrás das maluquices de Alice, ela sabe como me fazer atender seus desejos.

─Amor, a gente se ama muito não é? – Sorrio, felizmente estamos chegando.

─Muito.

─E vai assar o esquilo quando chegarmos?

─Alice não fiz nada hoje.

Os portões se abrem assim que Bruce nos vê, ela passa na frente e caminha apressada.

─Obrigado! ─ Ela diz caminhando para casa de Noah.

─Onde vai?

─Pedir um abraça para a mãe do Noah.

Apresso o passo, seguro Alice pelo braço, ela me olha e parece mesmo magoada.

─Isso é sério? – Pergunto porque sempre caio em suas armadilhas.

─Queria comer o esquilo, mas se não pode fazer agora tudo bem, quando sobrar um tempo você faz.

─Vem, vamos fazer isso agora.

Ela pula no meu pescoço, sorri de modo alegre, me beija, parece que dei a ela um grande presente e isso já faz valer a pena o perigo.

─Eu te amo, e está oficialmente desculpado.

Notas finais
Beijos!!!!! Comentem. quero saber o que estão achando.