Caminhando entre os mortos 2
28 Capítulo 28 - Conversas definitivas
Notas iniciais
Pov – Beth
─All in! – Empurro todas as minhas fichas para o centro da mesa, o grupo troca um olhar de dúvida, Carl jogas as cartas na mesa abandonando o jogo, July e Pam fazem o mesmo, Alice me encara, investiga meu olhar, sustento a postura impassível, ficamos medindo forças por um longo momento.
Ela morde o lábio, olha para as cartas por um instante e então empurra suas fichas para o centro da mesa, juntando ás minhas.
─Pago para ver! – Me desafia, não devia ter feito, sorrio vitoriosa.
─Full House! – Mostro as cartas orgulhosa, ela ergue uma sobrancelha cheia de si.
─Royal straight Flash. – Ela diz se erguendo para fazer sua dancinha da vitória. A barriga não a impede de coisa alguma, mesmo faltando dias para a chegada do bebê. – Pela primeira vez na vida! Eu sou foda! A melhor jogadora de pôquer do universo zumbi.
─Como fez isso? – Os três garotos estão boquiabertos, pegam as cartas, Alice continua a dançar em volta da mesa, definitivamente é coisa que acontece uma vez na vida, se tanto.
─A arte de jogar pôquer numa simples lição. ─ Alice fica em pé sobre a cadeira, faz uma mesura. – Talento!
─Alice! – A voz de Daryl soa como um estrondo, Alice revira os olhos, nos faz uma careta divertida antes de se viram ainda sobre a cadeira para encara-lo. ─ Fica parada ai! – Ele diz caminhando apressado em sua direção. – Vai se estatelar no chão, não tem nada na cabeça?
─Royal straight Flash amor! Entende o que isso significa?
─Que alguém vai fazer seus trabalhos por uns dias ou qualquer coisa assim. – Ele não esconde a completa irritação, ela não disfarça que não se importa, nós prendemos o riso. – Vem aqui idiota.
Com todo cuidado Daryl pega Alice no colo, depois a coloca de pé no chão, nem toda sua fúria momentânea diminui o cuidado, ela sorri para ele e ganha um beijo leve, depois ele nos encara.
─E vocês? Não deviam estar cuidando dela para não fazer bobagens? Fiz o trabalho dos quatro para distraírem Alice e é assim que agem? E se ela desse de cara no chão? Não pensam?
Mordo o lábio para não rir, os meninos parecem mais assustados, baixam a cabeça em sinal de respeito a Daryl Dixon, sua cara de mau e sua besta nas costas.
─Amor não briga com eles, estamos bem quietinhos aqui.
─Quietinha de pé sobre uma cadeira? – Sua voz de trovão ecoa pela sala, Alice fecha os olhos e põe a mão na barriga.
─Para de gritar seu lunático, acordou o bebê! – Ela acaricia a barriga enorme e as mãos de Daryl correm para lá, é sempre assim, acho bonito como ele é capaz de se entregar a Alice e ao filho prestes a chegar, sua expressão suaviza mais uma vez, Alice o tem em suas mãos e sabe se aproveitar disso. – Não chora pequeno Alien, o papai é um troglodita.
É o bastante para explodirmos todos em risadas que o irritam mais uma vez, ele pega Alice pela mão e caminha para a saída, ela acena rindo como todos nós.
─E vão terminar o trabalho de vocês, bando de inúteis! – Ele reclama por sobre o ombro enquanto abria a porta. – E não chama meu filho de Alien, eu já disse!
Só quando estamos sozinhos é que conseguimos parar de rir. Pam e July se põe de pé, Carl acaba por fazer o mesmo.
─O jeito é irmos terminar nosso trabalho, amanhã se o Daryl não colocar a Alice de castigo na cama a gente joga mais. – July diz calçando os sapatos. – Alice foi descalça, é muito maluca mesmo.
Carl segura a mão de Pam, acena e os três seguem rumo a saída, fico solitária, arrumo o jogo de pôquer e me sento no sofá com um livro.
Penso em Bruce, são alguns meses juntos, algumas declarações, mas nada além de beijos e mãos no sofá da sala, me sinto como uma adolescente em seu primeiro namoro.
Claro que Daryl, Rick e Glenn não são fáceis, eu sei o quanto Bruce parece pressionado por eles, que se assusta com essa mania que toda a família tem de me tratar como criança indefesa.
Mesmo depois de ir as ruas, matar zumbis, enfrentar pessoas, ainda me olham cheios de complacência, suspiro, fecho o livro sem conseguir me concentrar.
Uma ideia passa por minha cabeça, sou uma mulher independente, decidi isso quando deixei o Grady, sou dona das minhas escolhas e não quero ser tratada como uma garota tola e indefesa.
Se isso está tão definido em minha cabeça porque não coloco em prática? Quer pertencer a Bruce, eu o amo, confio nele e em seus sentimentos, então porque tenho que ficar feito uma boba a espera que ele tome uma atitude definitiva?
Eu vou cuidar disso. Tomo banho, escovo os cabelos, visto meu único vestido, é um rosa pálido e de modelo simples, nem sei porque o guardei, mas quando cheguei nesse lugar ele estava lá e fez parecer que um dia podia ser usado.
Pego o elástico de cabelos para refazer o velho e prático rabo de cavalo que uso para o apocalipse, mas me olho no espelho, solto o elástico, acho que Bruce nunca viu meus cabelos soltos. Sorrio para minha imagem no espelho, coro com a ideia que tenho em mente.
─É hoje! – A oz de July chega a mim e vejo seu reflexo atrás de mim pelo espelho, faço careta. – Acho que eu devia dormir na casa da Pam.
─Acho a melhor ideia que teve essa semana.
─Humm. – Ela ri e me viro, July aplaude. – Está linda, acha que depois dessa noite o Bruce vem morar com a gente? Eu mereço esse tipo de família, preciso de uma figura paterna Beth.
─E de um pouco de vergonha na cara também mini Alice.
─Vergonha na cara não serve para nada.
Ela se senta na cama que arrumei, eu a puxo pelo braço, ela ri, me abraça, beijo sua testa e sorrimos, July foi um dos meus melhores presentes.
─Linda!
─Você que está linda, agora vai lá pegar uma muda de roupa e se manda para casa da Pam.
Ela corre obediente, ajeito mais uma vez a cama. Bruce é sempre pontual, termina seu trabalho, toma banho e vem me ver, meu pai adoraria isso. Rio sozinha com a ideia e sigo para espera-lo na sala.
Escuto sua leve batida na porta e toda a coragem de mulher independente me abandona, tenho vontade de correr para o quarto e vestir minha velha calça jeans.
Caminho para porta sabendo que aquilo seria ridículo. Ele sorria, mas ao me notar o sorriso desaparece, fica apenas o olhar espantado, Bruce tenta dizer qualquer coisa, mas desiste ou não encontra as palavras, eu o puxo pela mão.
─Entra.
─Perdi alguma coisa? Vai a algum lugar?
─Não, apenas estava te esperando, cozinhei, está com fome?
─Estava... agora ela meio que me abandonou, está linda, absolutamente linda.
─Obrigada, vem jantar. – Eu o puxo em direção a cozinha.
─Cadê a July, não a vejo desde o almoço. – Eu sabia, essa é sempre sua primeira preocupação. – Está de olho nela não?
─Sim Bruce. – Termino de servi-lo e me sento. Ele experimenta pronto para elogiar, como todas as vezes é claro. – July vai dormir na casa da Pam essa noite.
A comida parece parar em sua garganta quando escuta minhas palavras, ou talvez tenha sido meu olhar provocador, de qualquer modo ele toma um gole de água apressado.
Mudo o tema da conversa, falamos sobre o trabalho, as melhorias na nossa pequena cidade, todas as pessoas que juntamos, somos pouco mais de setenta pessoas, um número exorbitante, mas que nos permite sonhar com uma nova civilização.
Plantamos, criamos animais, produzimos aos poucos energia solar, estamos construindo uma cisterna e logo seremos completamente autossuficientes.
Depois do jantar vamos nos sentar na sala, Bruce me envolve em seus braços, ficamos um momento em silencio, essa vida é inacreditável, jamais sonhei com isso depois que o mundo entrou em colapso.
─Amo você Beth. – Ele me diz do nada. – Amo muito, tanto que sempre quis respeitar seu sentimento, seus medos.
─Não tenho mais medo, quando nos conhecemos eu estava muito traumatizada, já conversamos algumas vezes sobre o que nos aconteceu.
─Eu tenho pensado sobre nós, sobre como nos sentimos, não gosto nada de ter que ir embora todas as noites.
─Não precisa ir. – Eu me movo para olhar diretamente para ele, adoro como seu olhar é sempre intenso.
─Mas não quero ficar desse modo, acho que é a mulher certa para mim, mais do que isso, acho que é a única mulher para mim. Acho que July precisa ter uma família, é isso que estou buscando com você, com vocês, uma família.
─Somos uma família Bruce, ainda aprendendo, mas já sinto assim.
─Quer casar comigo? – A pergunta me pega desprevenida, abro e fecho a boca, nunca esperei por um pedido oficial assim.
─Amo você, sim. Eu aceito me casar com você.
Meu coração batia completamente fora do ritmo quando ele me puxa para seus braços e trocamos um longo e intenso beijo, me sinto flutuar, é um momento especial.
─Podemos esperar até o casamento. – Ele sussurra em meu ouvido enquanto suas mãos ficam livres para tocar meu corpo.
─Chega de esperar Bruce.
Ele me beija novamente, sigo meus instintos, me deixo guiar por meu desejo e me rendo ao seu toque.
Bruce me carrega nos braços para a cama, me beija cuidadoso, vamos nos despindo, sentindo nossas peles roçarem uma na outra e meu coração descompassa mais uma vez. Nem sei se um dia ele vai se acalmar mais uma vez.
Aos poucos eu vou me sentindo mais a vontade com ele, me entregando, e quando meu corpo é invadido pelo dele não sinto medo, não sinto dor, apenas prazer, quero eternizar esse momento.
Nunca imaginei que meu corpo pudesse reagir de todos esses modos intensos, a respiração acelera, deixo escapar gemidos que deviam me constranger, mas apenas me deixam desejando por mais.
Então meu corpo dissocia de minha mente, é como ser lançada a um lugar distante, um paraíso de sensações novas e intensas. Depois vem uma paz sem fim, uma vontade de ficar ali para sempre, sorrio pensando que era esse o motivo de Maggie e Alice se mostrarem sempre tão felizes, fortes, seria sempre assim? Ele me beija.
─Adoro quando sorri.
─Foi... não sei explicar, ser for sempre assim acho que devíamos morar nessa cama.
─Cuidado com o que deseja, posso aceitar o convite e será constrangedor.
Nos beijamos, fico ali em seu peito, sentindo seu coração batendo, nos olhamos vez por outra.
─Não vai mais embora não é?
─Acho que sua família pode não gostar.
─Mando na minha vida Bruce, e me pediu em casamento, eles vão ficar felizes.
─Então eu não vou mais voltar para aquele quarto solitário.
─Ótimo. – Ele toca meus cabelos, beija os fios.
─Como pode prende-los? São tão lindos, adoro eles assim, espalhados sobre nós.
─Ok senhor Bruce, vou deixa-los assim mais vezes.
─Todas as noites. – Ele me beija. – E algumas tarde, quem sabe manhãs. – Suspiro quando o corpo de Bruce cobre o meu mais uma vez. Definitivamente morar nessa cama é a melhor ideia do século.
Pov – Alice
─Ai pisei numa pedra.
Daryl que ainda segurava minha mão para olhando meus pés. Sua cara de bravo é hilária.
─Cadê os sapatos Alice?
─Ficaram na Beth, saiu me arrastando.
Ele me ergue nos braços, caminha mais uns dois metros e então sobe os degraus de casa ainda de cara fechada.
─Infantil. – Resmunga quando entramos.
─Você parece um velho Daryl, nunca andou descalço, subiu numa cadeira para comemorar a vitória no pôquer?
─Não.
Acho que ele tem razão, Daryl não foi criança por muito tempo, as vezes me esqueço da vida que teve. Me sinto um pouco culpado por preocupa-lo com minhas maluquices como ele gosta de chamar.
─Amor. – Me aproximo dele, passo meus braços por seus ombros, beijo seu pescoço. – Desculpe, eu sei que tem coisas sobre ser livre e leve que não conhece, mas precisa me prometer que vai deixar nosso bebê te mostrar.
─Como? – Ele toca minha barriga, ela se move, quase podemos ver o pé do bebê passando por ela, há muito que isso não me apavora mais, agora sempre me leva as lagrimas.
─Brincando com ele, se deixando levar pela sua vontade, quase nunca faz isso, sempre guarda as coisas, pode correr descalço com nosso filho, se fingir de pirata ou super herói e mesmo assim ainda será Daryl Dixon.
Ele me puxa para o sofá. Sento com cuidado, essa é a única parte difícil de se ter uma barriga enorme, o resto não me atrapalhou em nada.
─Se fizer essas coisas vou parecer tudo, menos Daryl Dixon.
─Besta! Amo você, aceita isso. Todo mundo te admira não porque tem essa cara de mau e é todo gostoso.
─Alice...
─Eu sei, só eu entendo que você é realmente gostoso, mas esse não é o ponto, o ponto é que precisa relaxar. Quando nosso bebê nascer quero que seja feliz. Promete que vai brincar com ele, ser mais leve.
─Ele terá você para isso, eu posso ser o pai que ama e...
─Nem vem com essa, e além disso tem uma coisa que precisa saber, uma coisa bem séria que temos evitado falar.
─Não. – Ele me corta, mas está tão perto, sinto isso e esse assunto me sufoca, preciso dizer.
─Me ouve, só uma vez precisa me deixar falar sobre isso, é hipocrisia não dizer, sentimos isso, nós dois, sei que pensa a respeito, que acorda a noite e fica me olhando dormir, preocupado, que me abraça apertado sempre achando que pode ser a última vez.
─Já disse que esse assunto...
─Daryl! – Minha voz soa tensa, não quero chorar mais se não falar vou explodir e isso está me matando há meses. Ele me encara vencido. – Amo você, amo a ideia de termos um bebê, não sou culpada por isso, você não é, sabemos quanto nos desejamos, que nunca poderíamos ficar longe, então isso – Toco a barriga. – Esse bebê que carrego não é um erro, uma imprudência ou qualquer coisa assim.
─É um presente. – Ele me diz com a voz um pouco embargada e sei que esse assunto é difícil para ele.
─Não temos recursos, melhoramos, mas não temos recursos, ele está aqui, parece protegido, saudável, mas não sabemos, não sabemos sobre ele ou sobre mim, as coisas podem dar errado.
─Isso não vai acontecer. – Ele segura minhas duas mãos, beija uma delas, odeio ver meu homem assim, quase fraco, com medo, um tanto perdido, ele é minha fortaleza.
─Você é minha fortaleza, meu porto seguro, amo que seja sempre forte por nós dois, mas precisa enfrentar o fato de que pode dar errado e se acontecer meu filho não vai ficar com mais ninguém, amo Beth e Maggie, mas é você Daryl quem vai cria-lo, eu exijo isso. – Deixo as lágrimas correrem. – Você entendeu? Vai engolir sua dor e criar nosso filho, vai ensina-lo a rir e brincar, vai dar de comer a ele, trocar fraldas, é com seu exemplo que ele vai aprender.
─Porque está fazendo isso, não vê que não posso?
─Pode, é assim que vai ser. Quero que meu filho tenha seus princípios, sua coragem, vai fazer isso?
─Vai dar tudo certo, temos uma médica, anestesia, instrumentos, cuidamos de tudo, porque daria errado? Olhe para você, isso foi como um passeio no parque. A barriga nunca te impediu de nada, não sente dor, enjoo, é feliz.
─Sou! – Sorrio. – Não tenho vergonha disso, temos teto, comida, amigos, eu tenho você, porque não seria completamente feliz? Por isso preciso arrancar de você essa promessa e depois seguir em frente sem nunca mais pensar sobre isso. Vai criar nosso filho Daryl?
Ele me olha firme, pensa a respeito, seus dedos vem em direção ao meu rosto, depois de afastar meus cabelos, secar minhas lágrimas ele me afaga.
─Vou meu amor, nunca poderia abrir mão de nenhuma parte de você, já devia saber disso.
─Podia dizer, beleza eu cuido, mas precisa ser perfeito e me fazer chorar ainda mais. – Aos soluços eu me abraço a ele, Daryl me envolve carinhoso, me tranquiliza, consegui o que queria e juro a mim mesma que o assunto está encerrado, agora é só esperar e fazer isso com alegria e confiança.
As lagrimas se vão, a angustia segue com ela, tudo volta a ficar bem, respiro fundo completamente calma. Feliz mais uma vez. Amo essa família que se anuncia e que será perfeita.
─Mais calma?
─Não. Acho que só mesmo sexo selvagem para me tranquilizar.
Daryl ri me apertando mais junto a ele, depois se põe de pé, me ergue nos braços, aproveito para beija-lo mais uma vez.
─E eu achava que não seria forte o bastante para me carregar, adoro ser casada com um badass todo fortão. A gente vai fazer sexo agora?
─O que acha? Tem algum outro compromisso?
─Cancelei minha agenda até amanhã, sou toda sua.
─Sempre foi, é minha maluquinha toda delicia.
Ele me põe na cama com cuidado, me ajuda com as roupas, beija minha barriga, depois me beija, sempre foi carinhoso comigo, mas depois que o nosso bebê começou a crescer dentro de mim os cuidados de Daryl Dixon se tornaram seu maior charme, cada vez que sinto suas mãos usarem de toda delicadeza que possuem para me tocar meu coração se enche ainda mais de amor por ele.
─Amo você! – Sussurro em seu ouvido, nunca esqueço de dizer, sei que ele sempre precisa ouvir, porque se não esquece disso.
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