Caminhando entre os mortos 2
17 Capítulo 17 - Ciúme
Notas iniciais
Pov – Beth
─Isso é ridículo sabiam? – Aviso a July enquanto ela caminhava apressada para abrir a janela do quarto.
─Sabemos, mas Alice está triste e não saiu daquela casa hoje, precisamos ajuda-la, e vir pela janela é divertido e a cara dela.
─Isso foi ideia sua, aposto, duvido que o Carl pensasse em algo assim.
─Ele aprovou na hora! – Pam sorri, sinto um olharzinho, sorrio, será? Pam e Carl? Isso sim animaria Alice.
─O Bruce achou que não ficava bem vir pela janela, mas eu achei que era melhor assim, vê-lo entrar aqui podia despertar a curiosidade do grupo. – July me diz isso na maior cara de pau, não acredito nisso.
─O Bruce? – Sussurro perto da janela. – Ninguém me disse que ele viria.
─O que tem demais?
─July não acredito que fez isso!
─Não fiz nada, apenas disse que estávamos marcando um jogo e que era para Alice ficar feliz e você também.
─Eu? Droga! Não quero vocês todos metidos nisso.
─Ele se convidou! Vai manda-lo embora?
─Claro que não, nem acho que ele vai pular a janela no meio do dia, isso é ridículo!
Pretendia continuar com minha crise, mas então Carl surge na janela e salta rápido para dentro.
─Acho que ninguém me viu, Alice vem vindo e o Bruce também.
Meu coração bate descompassado, eu não acredito que estou me sentindo assim. Não quero me sentir assim.
─Já arrumei a mesa. – July comunica, então surge Alice, ela pula tão rápido quanto Carl, parece um garoto, me faz sorrir, meu sorriso some no segundo seguinte quando Bruce passa logo depois dela.
─Pretendia bater, mas os garotos me proibiram, realmente me senti um idiota agora.
─Eu gostei de pular! — Alice avisa.
Bruce sorri, ficamos de frente um para o outro, sinto como se estivessem me jogando para ele, isso me deixa sem graça, mas ele fica ainda mais tímido.
─Vamos! – Aponto a porta, só estamos os dois no quarto e ele me segue, na sala Alice beija a caixa com fichas de pôquer e baralho que Pam nos entregou ainda pela manhã e que nos deu a ideia de uma tarde em paz.
─Olha que linda! Uma caixa com fichas, isso é tão bom! Já sabem, numa emergência salvar o pôquer é uma lei. – Só Alice para ter ideias como essa.
─Vamos começar logo com isso.
─O que? – Alice diz olhando para a caixa de ferro com desenhos de cartas de baralhos e fichas. – Sério? Vou pedir a eles.
─Maluca! – Carl ri.
─Ela quer ficar comigo gente, disse que devo leva-la comigo.
─Diga que aqui é mais seguro.
July brinca, e o sorriso de Alice se desfaz.
─É eu sei, vamos de uma vez com isso.
─Vai dizer por que está triste? – Ela dá de ombros, coloca a lanterna sobre a mesa, Bruce franze a testa quando vê Alice com uma lanterna no meio da tarde, não a conhece ou saberia que ela não anda sem ela.
─Daryl está me deixando.
─Cala a boca Alice, só diz bobagem! – Eu rio, mas ela realmente parece abatida e meu sorriso se desfaz.
─Acho que é porque sou péssima esposa de mundo de antes, era boa nesse mundo que não tem casa, nem louça, nem essas coisas todas, mas agora voltamos a ter isso e ele se decepcionou.
─Isso é tolice! – Bruce diz dividindo as cartas. – Quando um cara gosta mesmo de uma mulher isso não importa, acho que deve estar errada, mas não vou dizer nada, não o conheço.
─Ela é louca, não liga Bruce, Daryl não vive sem Alice. – Carl avisa e ela revira os olhos.
─Vamos jogar de uma vez, não sabem de nada, estou sofrendo, me deixem ganhar.
Fazemos apostas, rimos, brincamos, perdemos, ganhamos, Alice com seu asar habitual, sempre que está triste perde e faz drama e rimos e toda vez que meus olhos encontram os dele meu coração dispara, gosto de jeito que ele me olha, me sorri.
Acho estranho que ele esteja aqui depois do que ouviu, mas ele está, simplesmente veio e talvez seja só para animar Alice.
Não que tenhamos sucesso, ela continua triste, não perde a graça, é engraçada e maluca mesmo triste.
─Vai rainha das fadas, paga para ver? – Carl provoca.
─Cala a boca garoto, estou com o coração partido. – Ela paga para ver, perde e solta as cartas a noite começando a chegar. – Chega, já perdi tudo que tinha. Vou embora aproveitadores de tristeza.
─Que tal a lanterna já que não tem mais fichas? – Pam comenta, não sabe o apego de Alice com a lanterna.
─Nunca, ela é mais uma vez tudo que tenho. – Alice se levanta. – Vou indo, vamos garotos, quero ir na casa da mãe do Noah, me acompanhem. Bruce ajuda a Beth a arrumar a bagunça.
─O que quer com a Cloe? – Pergunto percebendo seu plano de me deixar sozinha com Bruce.
─Ela tem cara que sabe abraçar, vou ver se ela me arruma um abraço, preciso de uma nova abraçadora oficial, perdi a senhora Adams e o seu... – Alice se cala, me olha abatida.
─Pai, pode dizer Alice, ele era um homem especial para ter seu nome proibido, não quero esquece-lo.
─Nem eu. – Alice me abraça, seguimos todos para a porta, os garotos correm na frente, somem em um segundo, fico na varanda com Alice e Bruce. – Você também está cozinhando aqui às vezes? – Alice me pergunta.
─Só uma vez, eu e July fizemos ovos, apenas para testar.
─Sou péssima mesma, por isso vou ficar sem marido, estrago tudo, que serve uma mente brilhante e nenhum marido?
─Alice não seja estúpida, não te reconheço, cadê a maluca que luta pelo que quer, porque não está resolvendo isso desse seu jeito doido?
─Me sinto cansada e muito triste, acho que vou ficar doente, é isso, deve ser uma dessas gripes assassinas, do jeito que tenho sorte ainda vou matar toda comunidade.
─Alice, você é muito especial, vejo como Daryl olha para você e como estavam felizes quando chegaram, isso foi há uma semana, nada pode ter mudado assim tão rápido, está errada.
─Bruce, você é muito bonzinho, vai até ganhar um abraço. – Ela abraça ele, depois se afasta, me abraça. – Ajuda a Beth.
Alice não me dá tempo de responder, some e ficamos os dois nos olhando na varanda, entraram todos pela janela feito bandidos, ninguém levou isso a sério para sair, a pressa de me deixar sozinha com ele falou mais alto.
─Posso guardar tudo, não se preocupe.
Bruce sorri e fica bem bonito quando faz isso, passa por mim voltando para dentro da casa.
─Não tenho nada para fazer agora, eu ajudo.
Só me resta segui-lo. Arrumamos tudo em silencio, fecho a caixa e deixo sobre a mesa de jantar, nos olhamos.
─O piano tinha que estar aqui. – Ele me diz. – Vou dar um jeito nisso.
─Imagine, carregar um piano até aqui, eu posso ir até lá.
─Pode, mas agora poderia tocar um pouco se ele estivesse aqui, aposto que as vezes sente vontade e desiste.
─Isso é verdade, mas não precisa ter todo esse trabalho.
─Eu decido isso. – Ele se põe de pé. Faço o mesmo e então ficamos próximos, a cada começava a escurecer, o clima parece mais íntimo, me lembro das marcas no rosto, sinto que é isso que ele observa, instintivamente ergo a mão dobre uma delas.
Bruce faz o mesmo, toca a cicatriz, fico tensa e constrangida, sem reação, mas depois de uns segundos dou um passo atrás me afastando.
─Elas não são nada, não encobrem sua beleza, são só marcas, todos temos algumas desde que o mundo acabou.
─Foi quando o apocalipse me alcançou.
─Não se esconda atrás delas Beth, não use como escudo. – Fico ali, desarmada diante dele, talvez eu faça mesmo isso, mas de que outro modo posso me proteger? – Melhor eu ir.
─Obrigada pela tarde, foi divertido, seria mais se Alice não estivesse tão triste.
─Ri muito com ela, nem imagino como seria se estivesse feliz.
─Riria ainda mais. – Sorrio com a ideia, ele fica me olhando um longo momento, depois pisca voltando a realidade.
─Boa noite, não deixa a July por ai a noite, nunca se sabe, vou acha-la e mandar que volte para perto de você.
Assinto já de volta a varanda. Bruce toca meu braço com leveza, meu corpo formiga com o toque e isso é estranho, nunca senti, então ele se dobra um pouco e beija meu rosto, um leve beijo onde agora a cicatriz marca a pele.
─Tchau! – Diz rápido descendo os degraus e sumindo para longe. Demoro para entender o que se passou e conseguir voltar para dentro.
As coisas se confundem um pouco em minha mente, penso em procurar Maggie, mas estou lutando por minha independência e procurar por ela no primeiro empasse só vai provar que sou ainda a pequena Greene que cuida de um bebê e precisa de proteção.
─Oi! – July entra sorrindo. – Bruce me mandou para casa, gosto dele, mas ele meio que acha que pode mandar em mim, disse que não posso ficar andando lá fora à noite.
─Ótimo, não pode mesmo.
─Entendi, o que achou?
─Sobre? – Me faço de desentendida.
─Bruce e nossa tarde de pôquer.
─Achei que devia cuidar da sua vida, todos deviam.
─Ok, não falo mais nada então. – Ela se joga no sofá ofendida. – Temos um quarto livre, Bruce mora no alojamento e pensei que ele bem podia ficar aqui com a gente, não acha?
─Admita, é a irmã perdida de Alice? Só pode, de onde tira tanta insanidade July?
─Desculpe, vamos esquecer isso, foi só uma ideia.
Me sento ao seu lado, colocamos as duas os pés na mesinha de centro a casa escura, nos olhamos, sorrimos.
─Onde estava?
─Ajudando o Carl, lá na casa dele, Pam e a mãe fizeram um bolo, ele queria preparar um momento romântico para o pai e a Michonne, ele acha que pode junta-los, eu não sei não se aqueles dois tem chance, são meio cegos para isso.
─Deu certo? – Pergunto curiosa.
─Como vou saber? O Bruce me arrastou para casa, mas fizemos como Alice disse para fazer, Carl pegou a Judy e foi para o quarto, amanhã descobrimos.
─Malucos, deviam cuidar da própria vida amorosa.
─Sou criança, não me interesso por garotos ainda. – Acabo rindo do comentário, passo meu braço por seu ombro e a puxo para um beijo na bochecha, depois me ponho de pé.
─Vamos dormir mocinha, amanhã temos que compensar o tempo que perdemos brincando hoje.
─Bons sonhos! – July me deseja quando entra no próprio quarto. – Ah! O Bruce está vindo ai.
─O que? – Meu coração para de bater.
─Eu disse que o convidou para comer o tal bolo com você.
─Isso é mentira! – Digo de boca aberta.
─Eu sei. – A garota é muito cínica, um sorriso dança em seu rosto. – Mas ele não sabe. Boa noite.
Ela fecha a porta atrás de si e quero devolve-la para o apocalipse, não acredito no que está acontecendo.
─Onde vou arrumar um maldito bolo?
─Na cozinha! – Ela grita do quarto. – Eu trouxe um pedaço.
Passo uma escova nos cabelos, deixo os fios soltos, olho o bolo e tem uma cara razoável, volto para sala, devia manda-lo embora assim que chegasse.
Ele bate na porta, abro corada, tento sorrir, não consigo.
─O convite era mentira dos garotos! – Aviso antes de qualquer coisa, não queria ser rude, mas ele não pode pensar que estou dando espaço, Bruce sorri e aquilo de sorrir fica bem nele e me assusta muito.
─Eu sei, mas o bolo existe, não existe?
─Sim!
─Nesse caso acho que pode dividi-lo comigo, Stacy faz milagres na cozinha.
Dou espaço para que entre, não tenho como fugir disso e não acho que ele vá ultrapassar nenhum limite, vamos juntos para cozinha.
Pov – Daryl
Só mesmo Daryl Dixon para acreditar em amor incondicional, atiro o cimento e encaixo o bloco, arrumo com a espátula, repito o processo, Alice brincando com minha cabeça e me deixando doente, não do jeito de sempre.
Dessa vez é de um jeito ruim, que me machuca e faz querer sumir, vi olhares, sorrisos, o modo como ela fala daquele idiota, sempre em tom carinhoso, não a culpo por se interessar por outro, não acho que ela possa evitar, além disso, droga sou eu, um Dixon, cedo ou tarde ela daria de cara com algo melhor do que isso.
Mal consigo olhar para ela, ficar perto me machuca como nunca achei que seria, amo aquela maluca e se não fosse por isso já teria sumido desse maldito lugar.
Estávamos bem, mesmo quando não tínhamos teto estávamos bem, mas então caímos aqui, não acredito que a trouxe para os braços de outro, meu coração dispara num misto de raiva e medo.
Fujo dela com medo de quando vai me contar. Dormir no sofá foi... Porque ela veio se deitar comigo, se enrolar em mim, tão linda, tão delicada, será que não vê que adiar só me faz sofrer ainda mais?
─Acabamos! – Digo colocando o último tijolo e me preparando para continuar no muro ao lado onde parte do grupo já trabalhava, fico de pé sobre o muro para olhar meu trabalho e procurar por falhas, ainda é a fortaleza que vai proteger a mulher que amo, mesmo que isso não importe mais a ela.
Um movimento me chama atenção, Alice entrando pela janela dos fundos da casa de Beth? Que maluquice nova é essa? Eu podia sorrir e estava prestes a fazer isso quando vejo Bruce fazendo o mesmo um segundo depois, então era assim que terminava uma história de amor? Com encontros escondidos e covardes?
Desço do muro sem dizer nada, pego a besta, ninguém me questiona quando caminho para o portão. Abraham fazia a guarda, me olha meio surpreso quando abro o portão.
─Ei cara... – Eu o encaro, minha expressão deixa claro que ele não tem escolha, que não vou ouvi-lo e ele afirma, me ignora e deixo a porcaria do lugar que trouxe segurança e dor.
A floresta fica tão próxima como no tempo da prisão e me embrenho no mato querendo não pensar.
É inútil, só consigo pensar em Alice, fico pensando quando foi que mudou, não encontro o lugar, o motivo, ela sempre sorri, sempre parece feliz, eu a deixei dormindo e ela foi atrás de mim ontem, depois me procurou no sofá, hoje não foi, pensei que talvez fosse, mas não, tinha outros planos.
Alice não é assim, não trai e engana, da valor as pessoas, não consigo vê-la me fazendo de bobo, me usando desse jeito nojento, tem que ter outra explicação.
Um zumbi se aproxima e penso nela me dizendo o quanto é horrível não saber, em outros tempos nunca sairia sem ela, mas agora...
“Obrigado por estragar minha felicidade” ela me acusou quando disse não a moto, é isso que fiz, estraguei as coisas para ela, faço isso o tempo todo, perdi Alice e aquele imbecil nem mesmo sabe o quão perfeita ela é.
Estávamos bem, talvez ela estivesse tentando salvar as coisas, ficou na dúvida, dividida, mas eu a empurrei para longe e a entreguei de bandeja, quero socar o infeliz, brigar, quebrar tudo e depois sumir, sem Alice não tem nenhuma razão para continuar, nada.
O zumbi continua a caminhar para mim e chego mesmo a pensar que bastava ficar parado e aquela maldita dor iria embora para sempre, me lembro da senhora Adams, entendo perfeitamente porque ela simplesmente quis morrer, não havia mais nada.
Um metro de mim e com o cabo da besta eu o acerto, não sei me entregar, é minha natureza aguentar e aguentar, não sei quanto tempo passou, mas antes que armem uma confusão atrás de mim faço o caminho de volta, Sasha me abre o portão, paro diante da igreja.
Entro já que a porta estava aberta, Gabriel lia a bíblia sentado em um dos bancos.
─Nem vou perguntar se veio ao encontro de Deus.
─Só passando. – Aviso.
─Pode dar uma olhada no sino? Já que não veio ver nosso pai.
─Sabe Gabriel, não acho que um dia vá poder toca-lo.
─Esse é o ponto, quem sabe não dá um jeito de prendê-lo para que nem o vento possa toca-lo, ou uma dessas crianças malucas, na verdade meu medo é sua mulher, Alice não resistiria a se pendurar no sino.
Tenho ímpetos de dizer que ela não é mais minha mulher, que não quer mais ser, mas me calo, além disso nem sei porque Alice não está maluca atrás desse sino, suspiro.
─Eu dou uma olhada. – Não quero mesmo ir para casa, não consigo.
─Faça isso e prometo não dar ouvidos as ideias de casamento da sua mulher. – Ele sorri.
─Casamento?
─Ela não te disse? – Ele sorri mais uma vez. – Ela andou querendo me fazer obrigar você a se casar com ela aqui.
─Andou? – Fico surpreso e confuso, do que estamos falando afinal? – Vou ver o sino.
Subo até a torre do sino correndo, chego cansado, o tempo passa mesmo, observo o sino deve estar em ótimas condições, não estou com a menor vontade de pensar nisso agora.
Me viro para descer a tempo de assistis Alice na porta de Beth abraçando aquele maldito, paraliso, a fina esperança se vai e me deixo ficar ali, olhando para ela caminhar para longe dele, passar direto por nossa casa e entrar na casa de Noah.
─Achou mesmo que construiria uma casa e uma família, Daryl Dixon? Que grande estúpido você é, Alice é viva, intensa, não tenho nada a oferecer a ela.
Desço apenas porque sei que não posso ficar ali para sempre.
─E então?
─Amanhã vejo isso Gabriel.
─Conversar ajuda. – O padre me diz.
─Não sou bom nisso Gabriel.
─Acho que ela não vai deixa-lo só porque não quer uma cerimônia religiosa, não se preocupe com isso.
─Não é por isso que ela vai me deixar, é também por isso, é o que isso representa, o fato de eu não ser muito adequado.
─Deus sabe o que faz, confie.
─É sério isso? Olhe em volta padre, o que ele pretendia, quer mesmo me dizer que ele sabia o que estava fazendo?
Não espero resposta, deixo a igreja, caminho um tempo pelas ruas, sem saber o que fazer, paro na frente do galpão e devia passar a noite ali, quem sabe pegar a estrada sozinho, não posso viver no mesmo lugar que ela se Alice me deixar.
Tomo coragem para ir para casa, falar com ela de uma vez, por fim a aquele impasse, deixa-la livre para ser feliz.
A casa está escura quando entro, Alice está sentada no sofá, olha fixo para a tv, a lanterna acesa iluminando seu rosto. O rosto mais lindo que meus olhos já viram. Está triste, os olhos úmidos, foram bons momentos não deve ser fácil para ela também.
Vou ouvir e depois sumo, é pior que morrer, eu penso enquanto a encaro calada.
─O que está fazendo? – Pergunto.
─Assistindo desenho. – Será que nem num momento como esse ela pode ser normal? Claro que não, por isso eu a amo. – Tom e Jerry. – A voz está embargada, ela mantem os olhos na TV escura diante dela, ás vezes acho mesmo que pode ver algo naquela tela apagada. – Escolhi esse porque se parece com a gente.
─Pode ser. – Respondo de pé, ainda olhando para ela com apenas o rosto abatido iluminado pela lanterna enquanto o resto da casa está na penumbra.
─Eu sou o Jerry, porque ele é mais esperto, super inteligente e sempre se dá bem, você é o Tom, por razões, obvias, é claro, Tom é um grande imbecil.
─Eu concordo, Tom é o maior imbecil de todos os tempos.
─Mas esse é um daqueles especiais de fim de ano, um desses que o Tom se dá bem só para os imbecis do mundo não perderem as esperanças de um dia se darem bem.
─Acha? Não vejo assim, não vejo o Tom se dando bem, pelo contrário, acho que ele está na pior como ele sempre esteve alias.
─Ele é um grande idiota, nem enxerga nada direito. – Ela deixa escapar um soluço.
─Por que está chorando? – Quero abraçar Alice, quero minha garota, minha mulher maluca que mesmo triste é engraçada.
─Porque está me deixando, e está fazendo isso aos poucos, e isso dói mais do que se tivesse ido embora de uma vez. Porque não sei o que fazer e porque esse desenho é uma porcaria.
─Quem está fazendo isso é você, o tempo todo com aquele Bruce. – Digo de uma vez, ela pega o controle remoto, aponta para TV, aperta um botão e depois me olha. – Desligou a TV? – Pergunto sem acreditar até onde as loucuras de Alice podiam ir.
─Dei pause. Sabia que ficaria bravo, mas não acha que a Beth merece ser feliz depois de tudo que passou? Ela está se fazendo de difícil, mas no fundo ela quer, o que tem demais eu ajudar? Eu sei, vai dizer que não o conheço direito, que estou jogando a Beth para cima de um desconhecido, mas...
─A Beth? – O que ela está dizendo? O que essa maluca que eu amo está fazendo comigo?
─Ela gosta dele, ele está decidido.
─A Beth? – Não consigo dizer mais nada.
─Bruce gosta dela, mesmo, eles podem...
─A Beth? – O mundo começa a voltar ao seu lugar, o céu se abre, isso é só Alice sendo Alice.
─Ficou surdo? Burro? A Beth, já disse! – Ela reclama ficando de pé e me encarando, sorrio.
─A Beth, não você? – Eu pergunto e é a pior coisa que faço, algo passa por seu olhar, a compreensão a atinge em cheio e ela deixa a lanterna cair ao longo do corpo, me olha decepcionada e meu coração se aperta, me arrependo de cada pensamento estúpido que tive.
─Achou que eu... Achou que eu e o Bruce.... Como pode? – Lagrimas corriam.
─Vi vocês pulando a janela da Beth.
─Pôquer clandestino seu grande estúpido! – Ela grita.
─Eu... Eu não sabia, andaram trocando sorrisos, conversas paralelas, eu... estava no sino da igreja e te vi abraçando ele, eram pequenos sinais.
─Sinais? Odeio você Daryl Dixon, odeio que pensa que sou uma vadia, é isso que pensa, só mulheres assim fariam isso. E que merda de sino de igreja é esse que nunca vi?
─Alice eu nunca ia pensar que é nada disso, apenas achei que podia ter se apaixonado. Toda igreja tem sino.
─Amo você, odeio também, muito, não podia pensar isso de mim nunca, me fez chorar, sabe que não pode fazer isso. Até arrumei a casa só para pensar que eu podia ser uma boa esposa e não ir embora. Como assim toda igreja tem sino, onde fica isso.
Ela está chorando, soluça, triste, brava, linda, os cabelos balançando, as mãos gesticulando, adoro tudo nela.
─Acha que não estou sofrendo também? O sino fica na torre, como todo sino de igreja, era só ter olhado para cima!
─Sofrendo? Sofrendo porra nenhuma, se tivesse sofrido teria vindo falar comigo, gritado, lutado, mas só está indo embora, dormindo no sofá, e eu feito uma idiota achando que queria que a casa fosse arrumadinha, não liga para ela nem para mim, é você que tem vento no lugar de cérebro. Me escondeu o sino de propósito.
─Alice eu... –Tento me aproximar dela, me desculpar, mas ela se afasta.
─Não! – Grita, fora de si. – Odeio você, dez anos juntos e põe em dúvida o meu amor.
Ela caminha para a porta, eu a acompanho, com medo do que Alice vai fazer, sem acreditar que criei tudo isso, que estou perdendo Alice porque sou um idiota.
─Onde vai? – Pergunto quando ela abria a porta e descia apressada os degraus da varanda.
─Morar com a Beth, formar o clube das solteiras vingativas! – Fico parado ali, sem reação enquanto ela some da minha visão, essa maluca vai me fazer pagar eternamente.
Passo a mão pelos cabelos, me sinto fraco, apenas isso, não sei viver sem Alice, então ela surge, para em frente a casa.
─Não posso morar com a Beth, justo hoje armei e ela está lá com o Bruce e não vou estragar nada para ela, vou morar com a Judith, formar com ela o clube das solteiras, e quero que vá para o inferno!
Ela some em direção a casa do Rick, menos mal, ele cuida dela até que a raiva passe, não sei o que fazer, se corro atrás dela, se espero que se acalme, se um dia ela vai me perdoar.
Mulher maluca, me deixa maluco, estava ajudando Beth, não apaixonada, como posso criar um mundo de coisas absurdas na minha cabeça, e como ela pode achar que eu a estava deixando por que não arruma a casa?
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