Caminhando entre os mortos 2
1 Capítulo 1 Reagrupando
Notas iniciais
Pov – Alice
O vagão tem um cheiro horrível de mofo, alguma luz que vem de umas frestas e apenas isso, mas estamos juntos, ao menos uma parte de nós, isso é mais do que sonhei e sei que de algum jeito vamos resolver isso, mas enquanto não resolvemos é preciso matar o tempo, acalmar os ânimos, eu respiro fundo.
─Alguém afim de uma mão de pôquer? Tenho baralho. – Bato no bolso da calça, Carl sorri de lado, mas o resto parece ter ouvido algum impropério, dou de ombros – Tudo bem, nada de pôquer então.
Rick fica olhando pela fresta, acho que tentando pensar em algo, ele sempre fica com as frases de efeito.
─Porque é sempre o Rick que diz as frases legais? Ele é tipo o protagonista do apocalipse, só disse uma até hoje, estou seus miolos, se lembra amor?
─Alice estamos presos em um vagão prestes a morrer pode parar de ser idiota apenas um instante? – Daryl diz perto do meu ouvido, as pessoas novas me olhando meio estranho, dou de ombros, não posso ficar muito ansiosa que fico mais idiota, não consigo evitar.
─Tá! – Resmungo – Porra vocês viram as carcaças! – Falo alto e todos me encaram – Será que são canibais? Lembra do andarilho que me esfaqueou? Ele falou sobre canibais – Os olhos de todos estavam arregalados, suspiro – Pelo menos se nada der certo vamos descobrir finalmente se sou uma delicia.
─De onde essa garota saiu? – O ruivo diz mal humorado, mal humor só combina com Daryl Dixon, faço uma careta para ele.
─Meu marido é bem mal, você não devia me irritar, ele pode te dar uma surra, não agora porque está todo ferrado, mas...
─Alice! – Daryl me traz para perto dele e decido me calar, Rick ainda olhando pela fresta, ficar trancada é um pouco chato, não quero pensar no que vai acontecer, que Daryl pode estar perto do fim, Carl, Mich, Maggie, todos eles que aprendi a amar, Sasha pergunta sobre Tyresse, ninguém o viu, penso em Carol e Beth, queria as duas ali com a gente.
─Alguém esteve com Beth Greene? Aquela loirinha com cara de anjo blefa como ninguém, aposto que está por ai, botando para quebrar.
─Beth Greene? Uma garota novinha e loira? – Rosita pergunta com seus cabelos presos de modo divertido, gosto dela, todos olhamos para ela afirmando – Ela esteve conosco umas horas, a encontramos, de noite paramos, tivemos problemas, nos separamos e vimos quando um carro preto com uma cruz branca a levou.
─E não foram atrás? – Pergunto brava.
─Não, nossa prioridade é manter o Eugene vivo, mas ela está viva!
Se Beth está viva, então vamos nos encontrar mais uma vez, isso é uma certeza, vamos sair desse vagão e achar Beth e Carol também, quero todos de volta. Sorrio esperançosa.
─Armas, precisamos de armas, mexam-se, cintos, lascas de aço do vagão, tentem qualquer coisa, precisamos ficar prontos para quando alguém aparecer! – Rick avisa determinado e todos começam a se mexer, me sento cansada, me encosto nas paredes do vagão e penso que coisas horríveis já aconteceram aqui, sinto um arrepio pelo corpo, odeio aquilo.
─Vai Alice, pega seu cinto, tenta alguma coisa, porque está parada? – Daryl reclama.
─Já tenho minhas facas, e minha lanterna, mas não vou acender, estou economizando! – Aviso logo, nunca que fico sem minhas lanternas, de novo ganho todos os olhares, é muita gente para um vagão só, devia ter vagão para casal.
─Facas? – Rick pergunta e puxa duas facas uma de cada bota.
─Quer me dizer como passou na revista com essas facas? – Daryl me pergunta, reviro os olhos, é tão óbvio.
─Simples, fiquei seduzindo o cara enquanto me revistava, ele ficou meio confuso e não fez seu trabalho direito, tenho muitos atributos físicos.
─Fez o que? – Daryl rosna muito irritado.
─Ficou com cara de mal para ele e olha ai você desarmado, não me condene, quer uma? – Ele pega uma das facas da minha mão, caminha para Rick.
─Guarde Rick!
─Daryl...
─Ele te chamou de Líder, pode querer te interrogar, pegar você primeiro de alguma maneira.
─Certo. – Os dois se olham, são mesmo como irmãos eu penso, sempre decidem tudo juntos, basta um olhar e já se entendem.
As pessoas continuam preparando suas armas, fico ali olhando tudo, Daryl vai até o vão da porta olhar e sigo até ele, meu coração se aperta um pouco, ele afasta uns fios de cabelo do meu rosto, sorri daquele jeito meio escondido dele, me dá um beijo leve e rápido, sempre com medo de se mostrar demais.
─Amo você, não sei como vai ser, mas amo você e não esquece nunca disso.
─Eu sei, é uma maluca, mas vem me salvando faz um tempo, eu te amo e fica atenta, o tempo todo, não se dobre, não se renda e não desista.
─Sim senhor! – Beijo mais uma vez seus lábios ainda machucados, depois me afasto um pouco.
─Tem quatro deles vindo.
Ficamos todos prontos, escondo minha faca nas costas, nunca se sabe.
─Sabem o que fazer, ataquem os olhos primeiro e depois a garganta! – Rick avisa, de novo com as melhores frases.
O teto se abre para nossa surpresa, uma bom cai no meio de nós.
─Mexam-se! – Grita o ruivo e então uma nuvem de fumaça se espalha e ficamos tontos e meio cegos, ouço a porta se abrir, uns gritos e socos, tento ficar de pé, mas a porra da fumaça me confunde, Daryl grita meu nome no meio de sua tosse e a porta se fecha mais uma vez, demora uns minutos para a fumaça se dissipar e me acostumar de novo com a pouca luz, vasculho pelo vagão e ele não está, Daryl foi levado, junto com Glenn, Rick e Bob.
Quero me desesperar, a respiração fica fora do ritmo, Daryl não está aqui, não posso ficar sozinha de novo, não posso fazer isso, me entregar, é o Daryl lá fora, Emma disse uma vez, o cara certo não morre nem com o apocalipse, ele é o cara certo.
Maggie me olha confiante, Carl faz o mesmo, não está com medo ou finge bem, controlo meu medo, Rick tinha uma faca, eles vão dar um jeito, ele nunca vai me deixar num vagão a espera de canibais, Daryl me ama.
As pessoas se apressam a terminar suas armas, aperto firme o cabo da minha faca, o vagão parece diminuir de tamanho a cada minuto, fica cada vez mais claustrofóbico, assustador, demoníaco.
Não demora muito e acontece uma grande explosão, depois tiros vindos de todos os lados, ele está bem, vivo e fazendo alguma coisa, eu sei, eu sinto.
Eugene se desespera, começa a tentar qualquer coisa para abrir a porta, tem medo que todos morram e fiquemos trancados ali para sempre.
─Meu pai vai voltar! – Carl diz de cabeça erguida e olhos firmes.
─Todos eles vão! – Maggie concorda, e respiro fundo, é isso mesmo, eles logo virão nos resgatar, só precisamos esperar.
─É e vamos ficar prontos para lutar ao lado deles! – Eu digo sorrindo para Carl, ele devolve o sorriso e finco os pés no chão, fixo meus olhos na porta e espero por ele, não me importo com os tiros, as explosões, ou os zumbis gemendo a nossa volta, Daryl vem me resgatar.
Pov – Daryl
A fumaça me impede de ver o que está acontecendo até ser atirado fora do vagão, Rick, Bob e Glenn estão comigo, escuto a porta se fechar, alice está lá dentro, somos amarrados, amordaçados, bando de covardes, não vão me matar tão fácil, Rick tem a faca de Alice, só precisamos de tempo e vamos sair dessa, me debato enquanto somos arrastados por um pátio em direção a uma grande sala, um homem parecia estar sendo esquartejado com uma motosserra, tento de todos os modos até ser colocado de joelhos diante de uma banheira de formica.
Não tem como não me lembrar de Hershel de joelhos, ergo a cabeça decidido a ficar firme não importa o que aconteça.
Dois homens vestido como açougueiros se aproximam, um deles tras com sigo um taco, sem muita conversa o primeiro da fila recebe um golpe na nuca tem um pescoço cortado e pende em direção a banheira, o sangue começa a escorrer por ela, devíamos estar acostumados com aquele cheiro metálico, mas ele ainda impregna e causa nojo.
Eles partem para o segundo, depois o terceiro, cada vez mais perto, não temos muito tempo e penso em Alice, em como vai se sentir, no que a espera, me encho de ódio mais uma vez, eles acertam mais um e então é a Vez de Glenn, um mundo de coisas que vivemos juntos me vem a mente numa confusão de sentimentos.
Sinto o taco se erguer, não consigo olhar para ele e então Gareth entra, traz um caderno de anotações na mão e parece tranquilo como um gerente de empresa controlando seus estoques, faz perguntas sobre contagem de balas, eu o odeio, mais do que tudo eu odeio aquele homem e sei que não sou o único.
Bob começa a resmungar pedindo atenção, ele o deixa falar, não parece dar ouvidos a ele, Bob se esforça em contar sobre a cura e voltar atrás, Gareth diz que não tem como fazer isso e está certo, ele não tem mesmo como fazer isso.
Então ele se ajoelha diante de Rick, tira sua mordaça e quer saber o que tem na mala que enterramos.
─Sabe que se não contar, eu andei pensando, quem sabe a rainha das fadas não me ajuda a encontrar a mala? – Eu o encaro, podia mata-lo só com a força do meu ódio – Não se via uma mulher como aquela há muito tempo, não sei se ela vai apreciar muito, mas logo vou descobrir.
Rick permanece calado e ele puxa a cabeça de Bob, aproxima a faca de seu olho, insiste e aquilo é mesmo o inferno.
─São armas, AK-47, Magnum 44, armas automáticas, luneta noturna, um arco composto e um facão de cabo vermelho que é o que eu vou usar para matar você.
Ele se ergue despreocupado, dá ordens aos seus homens e quando tudo estava prestes a recomeças ouvimos disparos, em seguida uma explosão que faz tudo tremer, caímos Gareth grita com eles, sai e os homens ficam tensos, Rick consegue se soltar enquanto os idiotas discutiam sobre como agir, acerta um, o outro entra em pânico, mas Rick o acerta e logo vem nos libertar, escutamos muitos tiros quando nos erguemos em busca de armas.
Pego uma barra de ferro, tenho que salvar Alice e aquilo será bom para esmagar todos os cérebros que eu puder, chegamos a uma porta, um vagão a frente estava começando a ficar cercado por zumbis.
Glenn ainda continua o mesmo, quer salvar a humanidade e depois do que vimos aqueles maníacos fazerem acho que não podemos mesmo deixar ninguém preso num contêiner.
Derrubamos os zumbis, abrimos e um maluco salta para fora do lugar gritando que somos todos iguais. O cara da dois passos e um zumbi salta em seu pescoço, Glenn começa a acertar o zumbi com o taco, inacreditável esse coreano, no meio de uma merda dessas ele quer salvar um cara morto.
Eu o puxo pela camisa, nos escondemos um pouco, os zumbis caminhavam famintos e perdidos, um grupo de homens de terminus passa atirando, boas armas eu penso.
Rick corre em direção a um carro mais a frente, está distraído quando um zumbi se aproxima dele, corro e atravesso a cabeça do zumbi com a barra de ferro, Rick espero o último homem pula nele toma a arma e derruba todos os soldados que caminhavam a frente, seguimos em luta tentando chegar ao grupo, é uma maldita horda nos cercando de todos os lados, abrimos o vagão é então Alice salta para mim, um alivio me invade, Alice, minha mulher.
─Cacete! – Ela diz e então acerta um zumbi muito próximo.
─Vamos Alice temos que sair! – Eu não me afasto dela, ainda é Alice e pode se engalfinhar com um zumbi a qualquer minuto, pulamos uma cerca e nos afastamos de terminus, então finalmente posso abraça-la, ela se aperta a mim, eu beijo seus lábios e ela me sorri.
─Que demora em? Ficamos lá na maior chatice com o Eugene dando aula de ciências! – Me faz rir, faz quase todo grupo rir e então seguimos para buscar nossas armas.
─Foi... Depois eu te conto, mas conseguimos.
─A gente não tem que virar a direita? – Me pergunta no meio da mata.
─Não, eu disse que abriria uma cratera e não acharia o local que enterramos e o desgraçado ainda queria... – Odeio pensar nisso, olho para ela, porque tem que ser tão lida?
─O que?
─Ameaçou pegar você e trazer aqui.
─Devia ter deixado, a gente ia ficar seis semanas caçando as armas e dava tempo de todo mundo fugir, sentiu minha falta?
─Sim Alice, já viu que tem mais pessoas aqui não é? Não é mais só nossa família.
─Tá! – Ela faz cara de menina repreendida.
Rick começa a desenterrar as armas, fala em voltar e acabar com eles, olho para Alice, não quero que fique em perigo, mas quando foi que o perigo esteve longe? Aquele cara pode estar vivo, e ele a quer, não sei, definitivamente não sei o que é melhor.
Então me viro e Carol está ali, Alice disse tantas vezes que teríamos todos de volta, eu corro para ela, minha velha amiga, a primeira a me receber quando ainda era impossível para mim conviver com pessoas, abraço Carol um longo abraço, mal consigo conter as lagrimas, essa é nossa família, Rick é o próximo, sente que foi ela e Carol confirma ter nos ajudado, eles se abraçam e é isso que quero, todos nós juntos como tem que ser.
Alice é só lagrimas quando Carol a envolve carinhosa, as duas chorando.
─Senti tanto sua falta! – Alice diz entre soluços – Explodiu a porra toda?
─Foi! – Carol diz entre lagrimas e risos.
─Ficou mais foda que a Mich agora? – Elas se abraçam de novo e então Carol nos convida a segui-la, é o que fazemos, ela vai na frente com Rick e Carl, pego a mão de Alice, faz muito tempo que não me importo mais de andar por ai de mãos dadas com ela.
─O abraço na Carol, as lágrimas...
─Eu sei amor, você está ficando bom nesse negócio de abraçar.
─Não está brava?
─Claro que não!
─Fez um escândalo por conta de um lenço e simplesmente.... Só quero que saiba que não vejo a Carol como nada além de uma amiga, a melhor que tenho, ela é uma figura maternal.
─Não fala isso alto! – Alice reclama – Se ela ouve pode se chatear, acho que as vezes ela ainda sente algo por você e ficaria magoada de saber que a vê como uma mãe.
─Você tem problemas! – Balanço a cabeça, não entendo de modo algum como funciona a cabeça de Alice.
─Amo a Carol, talvez do mesmo modo que você, a briga do lenço não foi pelo que ela sentia ou sente por você, foi porque eu não sabia como você se sentia sobre ela, agora eu sei e não me importo.
─Ótimo!
─Mas não gosto do lencinho delicado.
─Eu também não gosto que seduza seus possíveis agressores.
─Eu sou uma delícia amor, aceite isso, aposto que minha faca ajudou.
Então no meio das sandices de Alice uma cabana surge e dela saia Tyresse e com ele Judy, nossa bravinha, Rick e Carl correm, Alice me abraça mais uma vez chorando, eles se abraçam, choram, ela parece bem, confusa, mas linda como sempre foi.
─Eu não quero perder a Beth, Daryl não quero desistir dela! – Alice soluça em meus braços, afirmo, só quero que ela pare de chorar, ela afirma, vai até Judy, beija sua cabecinha e então decidimos seguir para longe, apenas caminhar para longe de Terminus e toda a degradação humana que ele nos esfregou na face.
─Vamos parar algum dia? – Alice pergunta umas horas depois.
─Antes de escurecer – Rick responde.
─Vai escurecer algum dia?
─Cala a boca Alice, para de irritar o Rick.
─Troglodita! – Ela resmunga — Vou lá com a Carol saber toda essa história de se melecar de zumbi e explodir tudo, todo mundo se diverte nessa merda de apocalipse, menos eu!
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