Calling Down.

3 You're All I Want.


Notas iniciais
Então, mais um capítulo fresquinho pra vocês.
Boa leitura. :3

A noite havia sido longa. O sono não chegara e o que ocupou sua mente foram os últimos acontecimentos. Não compreendia o que tudo aquilo significava, mas sentia que o fim estava próximo, só não sabia dizer se o final estava aliado a si.

Uma lágrima solitária passeou pelo belo rosto, acabando por se jogar no lençol carmesim que cobria parte do belo corpo. Era tão dolorido saber que a pessoa que amava estava tão próxima de si, mas nem ao menos sabia seu nome. Queria poder ir até a casa dele – que agora sabia onde era – e dizer que era o amor de sua vida, que esperou quase cem anos para reencontra-lo. Mas não podia colocar tudo a perder, tinha que ir com calma, tinha que mais uma vez reconquistá-lo. Tinha que mais uma vez engolir toda dor para vê-lo perto de si.

Enxugou as lágrimas que não conseguiu e nem fez questão de segurar, levantando-se em seguida. Afastou a cortina branca que cobria a grande porta de vidro que separava o quarto da sacada, e então ao longe viu aquele garoto que assim como ele mesmo, sofria de amor. Uma história diferente, mas que no final se encontravam no mesmo lugar. E ambos estavam do jeito que estavam por causa de um só homem. Era trágico demais para que se lembrassem como era sorrir.

O corpo pequeno caminhando entre as flores mortas, parecia até mesmo dar um pouco de vida ao cenário abatido, mas era irônico falar isso de alguém que já havia morrido. Não sabia definir o que havia sentido por Ruki, mas sabia que queria o proteger e ajudar, mas sabia que não sabia proteger nem a si mesmo.

Ainda havia a questão de que o livro estava próximo de si, não sabia o que pensar em relação a essa questão, pois, se o livro estava perto, Shibata provavelmente em breve estaria também, se é que já não estivesse apenas esperando o momento certo para que pudesse acabar com tudo de uma vez, incluindo a vida e esperança de Kouyou. Era tudo tão arriscado, era tudo tão injusto.

Num momento de raiva, jogou um vaso que havia perto de si em uma parede, fazendo com que a porcelana se quebrasse em mil pedaços, causando um barulho alto o bastante para que os olhos que estavam no jardim voltassem para cima, para ver o que havia acontecido.

Takanori sorriu triste, fazendo com que um soluço o acompanhasse. Assim como Kouyou, não sabia o que pensar. Não queria pensar que a vida da pessoa que mais amava estava em perigo. Queria correr até Akira e dizer para largar aquele livro, dizer que aquele livro não devia estar em suas mãos, mas simplesmente não podia. Sentia-se um inútil em meio há uma grande guerra, mas pelo menos sabia que agora tinha um aliado. Aliado este que em um momento de raiva, pelo que pode perceber, acabara por quebrar algo físico, quando na verdade queria que fosse sua dor virando cacos para que pudesse juntá-la e jogar fora.

Em tantos anos vagando como um espírito sem luz pela Terra pôde aprender a compreender as pessoas, e a notar o que cada uma delas sentia. Por mais passional que o rosto de algumas poderia ser, ele sabia que era apenas uma máscara para esconder problemas ou mágoas. Era triste saber que não havia um ser humano que não havia aprendido o que era sofrer. Todos sofriam de alguma maneira, mesmo que tola, mas ainda assim sofriam.

Era o que viver havia se tornado.

xXx_xXx

Caminhavam lado a lado pela cidade. Era uma manhã onde o sol havia decidido que não iria brilhar, e teve como cobertura as nuvens cinzentas, deixando a vida de todos pelo menos um pouco mais melancólica.

Haviam conversado pela manhã – após uma noite não bem aproveitada por parte de ambos – e decidiram que precisavam de um plano que envolvesse Yuu e Akira, onde todos pudessem sair ilesos. Kouyou precisava do livro, e este estava com Akira; Ruki precisava de Kouyou, pois ele tendo o livro, com certeza chamaria a atenção de Shibata, e então se conseguissem se livrar daquele homem, seus destinos estariam livres. Parecia tão simples, mas era extremamente complicado e delicado. Era algo que não podia haver falhas.

Não podiam conversar, pois ninguém além de Kouyou podia ver Ruki, e achariam que havia ficado louco se fosse visto falando com o vento. Mas ambos sabiam o que se passava dentro de cada um, e conseguiam se entender através de olhares.

Continuavam a caminhada calmamente quando de depararam com um documento caído no chão; não iriam parar para pegá-lo caso o maior não houvesse reconhecido o rosto que preenchia a foto 3x4, cujo nome estava escrito abaixo, “Shiroyama Yuu”.

Com as mãos trêmulas, pegou o documento com cuidado, passando o dedo com delicadeza pelo rosto de traços marcantes. Sentiu um frio estranho lhe percorrer a espinha, era uma chance, e ela estava em suas mãos.

Sentiu uma mão em seu ombro, e ao olhar para o lado se deparou com um Takanori com os olhos brilhantes, e um sorriso calmo no rosto. Sorriu nervoso de volta, notando o quanto tudo aquilo mexia consigo. Em centenas de anos ainda não havia aprendido a lidar com as próprias emoções.

– É ele, não é Kou? E você sabe onde encontrá-lo, não sabe?

O mais alto apenas maneou a cabeça positivamente, voltando a olhar para o que tinha em mãos. Era só manter a calma.

– Então vamos, é uma chance que o destino está dando há você, não pode desperdiça-la. Eu estarei ao seu lado.

xXx_xXx

– É aqui, espero que ele esteja em casa.

Estavam parados em frente à casa que Takashima sabia ser do moreno. O farfalhar das folhas secas das árvores fazia com que uma sensação estranha se apossasse de ambos.

Como não havia campainha, Kouyou bateu palmas, sem saber direito se estava fazendo a coisa certa. Após alguns instantes a porta de abriu, revelando um homem bonito que logo se encaminhava para o pequeno portão de ferro.

– Em que posso ajuda-los? Oh, eu conheço você. Você pegou Chiyo para mim, noite passada, mas eu não conheço você. – Apontou para Takanori, que o olhou surpreso. Em seguida abriu o portão pondo-se de frente para os dois estranhos.

– Vo...Você pode me ver? – Takanori perguntou assustado, porque ele podia lhe ver? E porque aquilo estava acontecendo?

O moreno lhe olhou confuso, como se não entendesse bem o que ele queria dizer.

– Mas é claro que eu consigo lhe ver. Por um acaso você deveria estar invisível? – Um sorriso descontraído apareceu nos lábios grossos, como se estivesse sendo vitima de alguma brincadeira infantil.

– Oh, não, não. Eu só...

– Nós estávamos conversando antes, sobre coisas de mundos paralelos e espiritualidade, acho que isso mexeu um pouco com a cabeça do meu amigo. Na realidade não foi isso que ele quis dizer. – Kouyou cortou o pequeno rapidamente, uma resposta rápida como uma bala de revólver, que fez com que o outro amenizasse as feições, deixando uma risada descontraída invadir os ouvidos alheios, e Takashima sentiu as pernas bambearem.

– Oh claro, essas coisas nos deixam bastante confusos mesmo, não é?

– Sim, sim, claro! Eu penso demais nessas coisas. – Takanori concordou envergonhado, passando a mão pelo pescoço. Estava nervoso.

– Mas então, posso ajuda-los em algo?

O maior colocou a mão no bolso direito de seu casaco, tirando de lá o que havia achado momentos antes no chão, estendendo ao moreno.

– Então, eu e ele – apontou com a cabeça para Ruki – estávamos caminhando quando me deparei com este documento no chão. Eu reconheci você na foto, e soube que te encontraria aqui. Então Shiroyama-san, acho que isso lhe pertence.

Um sorriso nervoso dançou nos lábios do loiro, que sentiu uma vontade imensa de abraçar o outro assim que os dedos dele roçaram nos seus.

– Céus! Você é um anjo! Eu estava desesperado atrás disso. Não sabia onde havia perdido, procurei pela casa inteira, está uma verdadeira bagunça agora, mas, nossa! Muito, muito obrigado mesmo!

Em um impulso, Yuu abraçou o corpo maior. Kouyou não soube mais como era respirar, e quando o perfume tão característico invadiu seus sentidos, ele abraçou o outro de volta, com a vontade de nunca mais soltá-lo. Mordeu o lábio inferior com força, ele devia se controlar.

O contato durou pouquíssimos segundos, mas para o loiro foi tempo suficiente para que percebesse que jamais esqueceria aquele abraço, aquele cheiro, que não havia vivido centenas de anos à toa.

– Oh céus, me desculpe. – o moreno murmurou ao se afastar – Eu não deveria sair abraçando os outros assim, mas é que...

– Tudo bem. – O mais alto sorriu. – Documentos são importantes, é um alívio quando os achamos depois de termos perdido.

– Então... Vocês já sabem meu nome, mas eu não sei o nome de vocês. – Sorriu sem graça. Estava envergonhado por ter abraçado um completo estranho, mas incrivelmente sentiu como se o conhecesse há um bom tempo, e aquele abraço confortável pareceu ascender algo dentro de si.

– Eu me chamo Matsumoto Takanori, mas pode me chamar de Ruki, ele se chama Takashima Kouyou...

– Mas pode me chamar de Uruha.

O brilho que atravessou o olhar de Kouyou, pareceu se espelhar nos olhos de Yuu. Uruha... Combinava bastante com ele. Mas por que aquela sensação estranha?

– Nesse caso, podem me chamar de Aoi. É um prazer conhece-los. Vocês moram aqui há bastante tempo?

Como explicar que moravam ali por quase setecentos anos? Provavelmente ia achar que estavam brincando.

– Moramos aqui há alguns anos, não é mesmo Kou? – Ruki tentou passar um pouco de confiança para o mais alto, e este então sorriu ameno, mais calmo.

– Sim, sim. Moramos aqui há alguns anos... E você, é novo por aqui, não?

– Oh sim, eu e meu amigo Suzuki Akira nos mudamos pra cá há apenas alguns dias. Queremos abrir uma biblioteca. Colecionamos livros raros, e essa cidade é bastante aconchegante e calma, perfeita para abrirmos negócio.

– Suzuki Akira? – Um frio na barriga de Takanori fez com que parasse de respirar por alguns segundos, fazendo o coração acelerar. Sabia que ele estava ali, mas não queria ter que lidar com isso tão cedo. Talvez conseguisse lidar melhor caso eles não pudessem o ver.

– Sim, o conhece? – Aoi ergueu uma sobrancelha.

– Não, não. Só achei o nome familiar.

– Suzuki é um sobrenome bastante comum, é verdade. Provavelmente conheça alguém com o nome parecido.

– Oh sim, é verdade. – Takanori olhou para os próprios pés, não sabia mais o que fazer.

– Bem, nós temos que ir, temos alguns afazeres. – Kouyou disse de forma branda, tentando disfarçar o nervosismo de Ruki.

– Ah, tudo bem. Mais uma vez obrigado por terem vindo devolver meu documento, não sei o que faria sem ele. Foi um prazer conhecer vocês, qualquer dia apareçam para conversarmos mais, Akira vai adorar conhecer vocês.

– O prazer foi todo nosso, Yuu. Até breve.

xXx_xXx

Estavam próximos da grande casa, caminhando lentamente. Ruki estava de cabeça baixa, pensativo. Já Kouyou olhava para frente, como sempre estava atento. Também estava preocupado com o pequeno, imaginava que o que ele devia estar sentindo, e sabia que parte disso era confusão. Nem ele mesmo entendia como Yuu havia conseguido enxergar Takanori.

– Não sei como vai ser daqui pra frente, Kou. – O mais baixo parara de andar, chamando a atenção de Uruha. Os olhos demonstrando a confusão que havia se formado dentro de si.

– Como assim, Ruki? – Havia se voltado para trás, voltando os poucos passos que havia dado, pousando uma das mãos no ombro do menor.

– Sabe, por anos e anos eu me acostumei a apenas ser um espírito vagante, caminhando lado a lado com Akira, mas sem poder ser visto. Hoje descubro que além dele, o amigo também pode me ver. Não sei por que isso está acontecendo e também não sei como vou reagir quando eu encontrar com ele.

– Você vai ter que ser forte, pequeno. – Apertou um pouco o ombro de Ruki, soltando logo depois e colocando as mãos novamente nos bolsos do casaco grosso e comprido que usava. Olhou para cima, parecia que o sol queria aparecer, mas apenas alguns raios conseguiam passar pela manta que era formada pelas nuvens. – Você sabe tudo que está em jogo, e sabe que nós teremos que ser cautelosos.

– Você vai me ajudar, não vai Kou? Não vai me abandonar ao vento como um espírito sem luz, por favor. – As lágrimas já brotavam dos olhos. Sentiu um par de braços em volta de si, olhando para cima e vendo Kouyou lhe sorrir, um sorriso que fez com que se acalmasse.

– Você é como um vagalume na escuridão, Taka. Você tem uma luz própria, um brilho que não pode ser apago. Eu não teria sequer coragem de abandonar você. Eu não sei, mas sinto como se nossas vidas houvessem se cruzado antes, e sinto que tenho que proteger você. Eu não vou lhe abandonar, pequeno.

Apertou mais o abraço, sentindo o menor murmurar um “obrigado” e agarrar-se ainda mais a si. Não podia, e nem pretendia abandonar aquele anjo sem asas que havia aparecido em sua vida. Sabia que havia muitos mistérios envolvendo a ambos, mas sabia que havia algum motivo para tudo isso estar acontecendo. Se era para que fossem finalmente felizes, que os mistérios fossem revelados, e as mágoas levadas embora. Estariam sempre juntos, como irmãos, como amigos, unidos por uma linha que havia sido traçada pelo destino.

O abraço aos poucos foi desfeito, e parado de frente para os dois havia uma garotinha. Os cabelos negros pouco acima da cintura, os olhos grandes e escuros como a noite, um vestido azul-bebê com um laço branco adornando o mesmo. Não devia ter mais que seis anos, e uma luz forte emanava misteriosamente de seu corpo. Foi então que sua voz suave agraciou os ouvidos de Takanori e Kouyou, como uma brisa acaricia um rosto pela manhã.

– Vocês ainda vão enfrentar uma forte tempestade, mas basta saber controlar o leme para o barco não virar.

Assim que terminou de falar, um vento forte soprou, forçando os dois homens a fecharem os olhos. Mas fora passageiro, e assim que puderam abri-los de volta, a garota já não estava mais lá. Entreolharam-se surpresos, mas nada disseram.

Voltaram a fazer o caminho que trilhavam antes em direção a enorme casa, cada um mergulhado em seus próprios pensamentos e dúvidas.

Não sabiam bem quando a tempestade se formaria, nem de onde ela iria vir, mas sabiam que tinham um ao outro como porto seguro.

Eles estariam preparados para enfrentar qualquer tormenta, eles haviam vivido tempo suficiente para saber que não há muralhas que resistam quando se há fé e amor.

Notas finais
Deixem um reviewzinho, deixem? Por favor? ;-;