Notas iniciais
Desculpem-me qualquer erro, sim? Não revisei. >:
~notas finais~

Uma chuva fina caía deixando um manto leve cobrir a pequena cidade. O cigarro entre os dedos outrora tragado deixava a fumaça espalhar e brincar pelo ar. Os lábios levemente abertos vez ou outra eram umedecidos, e um suspiro podia ser notado escapar. Os olhos desatentos vislumbrando o lado de fora de sua pequena casa. Estava em frente àquela janela já havia algum tempo que não sabia dizer exato, e seus pensamentos vagavam longe, vez ou outra esbarrando em certo loiro que havia cruzado seu caminho.

Não sabia explicar, muito menos tentaria, porque estava pensando tanto no outro. Era como se já houvessem se cruzado antes, provavelmente era uma grande besteira de sua cabeça, mas parecia que o conhecia há anos.

A verdade era que ele havia escolhido ir para aquela cidade com Akira, pois uma vez, quando ainda era criança, havia passado apenas de carro por ela em uma viagem de férias com seus pais. Não sabia explicar, mas havia sentido algo diferente, algo que lhe puxasse para lá. Com o passar dos anos, a cidadezinha não fora esquecida, apenas fora deixada de lado, pois achava que era tudo bobagem de sua mente. Mas não conseguiu, quando surgiu a oportunidade de montar uma biblioteca com seu melhor amigo, se vira dizendo que poderiam ir para lá, e lá estava ele.

Acariciou os pelos lisos de Chiyo, seu gato grande e gordo, que mais parecia uma bola de pelos gigantes. Este ronronava com o carinho que recebia do dono.

Continuava a pensar que talvez estivesse louco, mas quando seus olhos encontraram aqueles da cor do mel mais puro, teve a impressão de que eles tinham a resposta para estar ali.

Realmente, só poderia estar no ápice de sua insanidade. Deveria estar pensando na quantidade de livros que teria que carregar no dia seguinte, e não em alguém que sequer conhece direito.

Mas internamente ele torcia para que se encontrassem de novo.

Deu uma tragada no cilindro repleto de nicotina antes de amassá-lo em no cinzeiro prateado, seu preferido. Começou a pensar no que Reita estaria fazendo; provavelmente estava lendo aquele livro estranho e repleto de nomes que havia encontrado em um parque abandonado.

Seu amigo era tão ou mais louco quando ele próprio. Reita dizia que aquele livro lhe passava uma sensação estranha, uma sensação ruim. Que aqueles nomes não estavam ali por estar, mas sim por alguma razão que ele dizia ser plausível, só não sabia qual era.

Já havia dito para o loiro da faixa no nariz que ele devia pensar menos naquilo, que era um livro qualquer, sem qualquer explicação mirabolante. Aconselhou jogar o livro fora, ou devolver ao lugar onde o havia achado, mas o outro negou e disse que guardaria consigo.

Resolveu não se meter mais naquilo, ele que soubesse o que estava fazendo. De toda forma, agora ele deveria estar no apartamento que ficava logo acima da biblioteca, arrumando alguns dos tantos livros que tinham.

Ele não quis dividir o apartamento com Akira, pois ambos gostavam de privacidade e tinham manias diferentes. Era melhor cada um no seu canto, com a sua casa.

Devia estar ajudando o amigo, mas estava cansado e com a cabeça cheia. Precisava de pelo menos um dia para colocar sua vida em ordem. Mas sentia que mesmo que estivesse tudo no lugar, faltava algo. Sentia até mesmo que algo estava para acontecer, mas uma coisa que Yuu nunca ouviu foi seu sexto sentindo. Agora estava lá, em sua pequena casa olhando a chuva ficar mais forte.

Um som estridente se fez presente, quebrando o silêncio como se quebrasse um vidro fino. O moreno sobressaltou-se com o susto, logo indo atender seu celular que exigia atenção, para acabar logo com aquele toque que havia espantado seu momento de paz.

– Fala Reita. – Sempre atendia assim quando era o amigo que lhe ligava, não precisavam de formalidades, afinal.

– Estava dormindo? – Não seria uma má ideia, se tivesse ao menos um pingo de sono.

– Não, não estava. Mas bem que eu gostaria. Por quê? – Viu Chiyo se levantar, como se soubesse que naquele momento não poderia receber atenção e se foi para o quarto do moreno.

– Eu estava pensando que essa tarde está tão entediante, então resolvi te ligar. O que estava fazendo?

Akira era um tanto quanto estranho. Na maioria das vezes fechado, para muitos tinha a aparência de arrogante, mas na verdade era uma ótima pessoa. Ligava sempre em horas inesperadas perguntando o que estava fazendo ou se estava tudo bem. Tão diferente de si, que apesar de se preocupar com os amigos, raramente ligava.

– Eu não estava fazendo nada, na verdade estava pensando na vida. – Soltou um riso abafado, pegando mais um cigarro da carteira com a mão livre, em seguida colocando na boca e o ascendendo. – E você? Achei que estaria arrumando as pilhas de livros.

– Eu estava, mas resolvi descansar um pouco. Pra falar bem a verdade, eu dormi sobre alguns livros e acabei tendo um sonho estranho.

Ele sempre tinha sonhos estranhos, e acreditava que alguns poderiam querer dizer alguma coisa, algum sinal de algo que estava por vir. Ultimamente os sonhos haviam se tornado mais constantes, sempre envolvendo pessoas que ele nunca conseguia ver direito, e havia sangue, muito sangue. Porém depois tudo se tornava um céu azul, e então ele acordava. Yuu já havia ouvido aquilo várias vezes.

– Mais um daqueles sonhos que você tem tido ultimamente?

– Dessa vez eu vi os olhos de alguém, Yuu! E você estava lá também, dizendo coisas como “Não morra, por favor, não me deixe sozinho”. – Pode notar a voz de Reita se tornar preocupada e medrosa, como se tivesse medo que aquilo fosse acontecer. – Eu estava sentindo um aperto tão grande no peito durante o sonho.

O cigarro do moreno estava quase caindo de seus lábios, pois estes estavam bobamente entreabertos. Pegou o cilindro branco com dois dedos, dando uma tragada e logo depois soltando ele no apoio do cinzeiro. A verdade é que ao ouvir aquilo, um frio passou por sua espinha. Mas como sempre resolvera ignorar, deixar de lado e pensar que provavelmente era apenas um sonho – não tão bobo – que Akira teve por estar cansado demais.

– Akira, é só um sonho. Isso não vai acontecer. Pare de pensar nisso ou vai ficar paranoico.

– E se não for só um sonho, Shiroyama? E se for um aviso de que algo ruim vai acontecer?

Um suspiro frustrado pode ser ouvido do outro lado da linha. Akira estava nervoso, isso era notável. Não queria discutir por algo assim com o loiro, então optou pelo mais fácil que era acalmá-lo.

– Tudo bem, Reita. Pode ser um aviso. – Sentiu os pelos da nuca se arrepiarem ao pensar naquilo, sequer queria acreditar. – Mas, se algo tiver que acontecer, vai acontecer. Não podemos barrar as ações que o futuro nos preparou. Se algo ruim tiver que passar por nossas vidas, vai passar, mas nós vamos conseguir superar, tudo bem?

– Obrigado, Yuu. Nós vamos superar, sim! Nós vamos superar! – Sabia que Akira estava sorrindo daquela forma só dele. Havia conseguido acalmar os nervos do amigo, enfim.

– Não tem que agradecer.

– Eu vou continuar a arrumar as coisas por aqui. Até amanhã!

– Até amanhã, Reita.

O som da ligação sendo finalizada nem bem alcançou os ouvidos do moreno e o celular já estava sendo desligado. O silêncio havia voltado, porém a paz que antes sentia havia dado espaço a uma ponta de agonia. Não sabia explicar, mas havia um aperto em seu peito, como se uma mão estivesse apertando seu coração. Não queria pensar naquilo, mas sua mente se negava a mudar o foco dos pensamentos.

Sempre tivera uma vida normal, porém sentia que tinha algo de diferente consigo. Sentia que faltava algo, sentia-se incompleto mesmo que tivesse tudo.

Shiroyama nunc havia amado, e quando falava isso o achavam estranho. Mas a verdade era que nunca encontrara alguém que o fizesse apaixonar, sentir o coração bater mais forte. Nunca encontrara alguém que preenchesse o espaço que sentia estar vazio. Não sabia o que era amar alguém, mas pelo que as pessoas lhe falavam era bom, apesar de muitas vezes trazer algum tipo de sofrimento.

Queria amar, ou pelo menos sentir um pouco desse sentimento tão intenso. Mas não conseguia, e sequer tentava se forçar a isso. Sabia que uma hora aconteceria, mas não era tolo de pensar que seria com a pessoa perfeita. Nem sempre aqueles que julgamos perfeitos nos fazem felizes. Talvez seja nas imperfeições das pessoas, as quais temos que aceitar se as amamos, que encontramos o real significado de tudo.

Olhou mais uma vez pela sua janela que agora estava repleta de gotas, e ao longe pôde ver o loiro que estava pensando antes, que havia devolvido seu documento. Ele estava sentado em um dos bancos da praça que ficava logo a frente de sua casa, os cabelos pingando e a camisa social preta que usava estava colada ao seu corpo. Os olhos fitavam algo distante, como se não estivessem de fato vendo, parecia perdido. Tão lindo, tão entregue, tão melancólico.

Quando deu por si já estava colocando o coturno velho que tinha, fechando a casa e indo em direção ao loiro.

Atravessou a rua calmamente, pensando se realmente deveria ir atrapalhar os pensamentos do outro. Algo dentro de si dizia que era para ele ir até lá, e aquilo estava ganhando da sua mente que dizia que deveria voltar para casa e só o ficar observando.

Chegou perto do loiro mel, que lembrava se chamar Kouyou, e sentou-se silenciosamente ao seu lado. Não sabia o que fazer. Se deveria puxar assunto ou simplesmente ficar em silêncio até ser notado. Optou pela segunda alternativa, ficando calado, esperando o outro o notar ali ao seu lado. Kouyou estava com o olhar tão distante que nem havia notado o moreno se aproximar. Pelo menos era isso que Yuu pensava.

– Não deveria estar nessa chuva, pode ficar doente.

A voz aveludada chegou aos seus ouvidos, calma e baixa. Apesar da chuva que agora estava mais forte, pode ser ouvida com clareza. O mais baixo olhou para o lado, vendo Kouyou engolir em seco, como se estivesse tentando conter algo dentro dele próprio.

– Não sou o único na chuva, você também pode ficar doente. – Viu o outro virar o rosto, os olhos agora focando nos seus. Lindo, ele era lindo. Os traços leves, porém marcantes de seu rosto, os cabelos levemente compridos e loiros moldando a face masculina. Pode ver um sorriso contido moldar-lhe os lábios finos. Sorriu também.

– Eu gosto da chuva. Me trás boas lembranças. – Ele voltou a olhar pra frente, quebrando o contato visual, e Yuu quase choramingou por isso.

– Também gosto da chuva, me trás uma sensação boa. Mas não é como se houvesse acontecido algo realmente bom comigo em um dia chuvoso. – Viu com perceptibilidade o momento em que Uruha mordeu o lábio inferior, como se algo estivesse o incomodando, ele parecia triste. – Mas ela me trás uma ótima sensação, não sei explicar. – Completou, mas não sabia se o outro havia lhe escutado ou não, parecia ainda mais distante.

~ Flashback on – 714 years ago. ~

Vamos Kou! Você não é feito de açúcar!

Eu não gosto de me molhar, Yuu! E não parece seguro ficar embaixo daquela árvore...

Vamos logo Takashima! Se você for comigo, ganhará um beijo, o que acha?

Aquilo bastou para mais alto ir até ele, dando-lhe a mão para então caminharem até a árvore que o mais velho queria tanto ficar embaixo. Estavam em uma parte totalmente esquecida da cidade. Sabiam que o dono daquelas terras havia morrido, e por isso não haveria ninguém lá.

Andaram calmamente, sentindo os pingos da chuva lhes molharem completamente. Quando finalmente chagaram embaixo da árvore que não os protegia muito bem da chuva, sentaram-se lado a lado, em completo silêncio.

Então Shiroyama, agora quero que me pagues o que me deve.

Puxou Yuu para um beijo quente, que o fez aquecer. Aos poucos o ósculo se tornou mais profundo, e as roupas foram sendo deixadas de lado. Fizeram amor sob a chuva que lhes cobria os corpos como se estivesse abençoando aquela relação tão pura, tão completa, que era condenada por uma sociedade tão preconceituosa e cruel.

Desde então Kouyou passou a amar a chuva.

~ Flashback off. ~

O silêncio constrangedor estava entre eles, ambos lado a lado naquele banco de concreto da pequena praça. Yuu notara que o outro estava completamente perdido em pensamentos, e estava começando a pensar que não havia sido uma boa ideia ir ali, apesar de não se importar em apenas ficar admirando o outro. Estava pensando em se levantar para ir embora, quando o outro resolveu falar.

– Está gostando da cidade? – E de novo aqueles olhos o encaravam. Pareciam tristes, mas ao mesmo tempo continham certa expectativa e ansiedade. Talvez fosse louco em ver aquilo nos olhos de um homem que sequer conhecia bem, porém sentia que o conhecia há tanto tempo. Chegara a pensar que tinha certa intimidade com ele, mas era obvio que isso era muito mais do que sua sanidade poderia aguentar, então resolveu barrar qualquer tipo de pensamento desnecessário.

– Estou sim! – Sorriu, vendo Kouyou sorrir também. – Desde criança eu tinha vontade de vir pra cá, não sei explicar direito, mas aqui me chamou muito atenção. É como se algo me puxasse pra cá.

– Justo aqui? Uma cidade pequena e sem quase qualquer atrativo. – O outro questionou, mas dessa vez um brilho diferente estava em seu olhar, podia dizer que era felicidade. E lá estava ele reparando nos olhos amendoados do outro.

– Bem, aqui é um lugar lindo. Mas como eu disse, não sei explicar. E você disse que mora aqui há muito tempo... Você mora aqui desde que nasceu?

Kouyou comprimiu os lábios, pareceu até mesmo pensar antes de responder. As mãos entrelaçaram-se uma a outra, como se estivesse nervoso. Mas Aoi não entendia nada que se passava.

– Oh sim, eu moro aqui desde que nasci. – Sorriu nervoso. – Eu gosto muito daqui.

– Não tem como não gostar, aqui é muito aconchegante. Então, Uruha, quantos anos você tem?

As mãos continuavam brincando uma com a outra, e o olhar do mais alto agora encarava o chão. Achou que o outro estava constrangido. Como sempre, tudo em relação a Kouyou o deixava confuso.

– Eu tenho trinta e um. E você, Yuu? – Um suspiro calmo foi ouvido, logo depois a expressão estava amena, como se estivesse se livrado de um peso nas costas.

– Eu tenho trinta e três, corpinho de trinta e disposição de setenta.

Então ouviu uma risada límpida e sonora ao seu lado. Um Uruha ria abertamente da piada que nem havia sido tão boa assim. Era tão bom ver o loiro daquele jeito, lhe trazia uma paz estranha.

– Sabe Uruha, da primeira vez que nos vimos, quando você pegou o Chiyo, eu perguntei se já nos conhecíamos e você disse que talvez já tenhamos nos vistos... Eu não me lembro de ter encontrado você em algum lugar, mas sinto que te conheço. – Dessa vez quem desviou o olhar fora ele mesmo, olhando para uma poça d’água que se formava por conta da chuva.

– Talvez você tenha me visto e não se lembra.

Sentiu que havia algo mais naquela frase, algo que para variar não soube identificar. Mais uma vez os olhares se cruzaram, e dessa vez o silêncio não era constrangedor. Não conseguia sequer pensar, tudo o que queria era entender o que se passava com o outro, compreender, aprender mais sobre ele. Queria conhece-lo melhor. Não entendia essa necessidade, mas não conseguia e talvez nem quisesse pensar em outra coisa.

Ficaram algum tempo daquele jeito, até o loiro alegar que tinha que ir. Despediram-se normalmente e então acompanhou o corpo do maior se distanciar sendo acompanhado pela chuva. Não conseguiu impedir-se de pensar que aquela era uma cena um tanto quanto sensual.

Voltou para casa totalmente encharcado, mas sequer se importava. Fora recebido por um miado manhoso de Chiyo, que com certeza deveria estar com fome. Mas depois daria comida a ele. Antes precisava de um bom banho para se aquecer.

Antes precisava ao menos tentar entender o que estava acontecendo consigo.


Notas finais
Bem, se demorei, me desculpem. Mas eu estava envolvida com vestibular e essas coisas. P.S.: Passei no vestibular, em quinto lugar. o eee. HEOEHOEOEHO
Então, quero agradecer aos reviews que recebi, e dizer que respondi cada um com todo carinho. :3 Espero que ainda os mereça. ç_ç
Quero muuuuuito agradecer a indicação que recebi da Junsu! Muito, muito obrigada! Fiquei imensamente feliz. *-* ♥ Muito fofa. ♥
Se forem bonzinhos comigo, faço um final bem feliz. HOHO. ♥