California Bloody Dreams

1 Wrong place to be, wrong time to see.


Notas iniciais
O sexto sentido tinha avisado. Ela não podia negar isso. Mas diante de uma curiosidade crescente no peito, que importancia tinha aquele sentimento?

O barulho do secador e das conversas frenéticas enchiam nosso apartamento. Éramos quatro amigas inseparáveis, loucas, confidentes e de diversos interesses em comum. Todas se arrumando para mais uma noite de diversão e, acredite, já havíamos passado por muitas.

Vivíamos o sonho de muitas garotas da nossa idade. Todas nós tínhamos 19 anos, e tínhamos passado, com grande esforço, na faculdade. Mas não na faculdade em São Paulo. Estudávamos na Califórnia, universidade HAHAHA. Quatro brasileiras doidas emergidas num outros pais, na melhor época da vida. Não conseguia me imaginar mais feliz do que com elas.

Essa noite seria especial. Estava afim de algum cara bonito, e inteligente. Fazia tempo que não namorava. Afinal, não havia tido nenhum relacionamento sério com algum gringo aqui. Mas estava preparada para isso. Eu queria um namorado, e certamente, Lauren era a melhor pessoa para me ajudar com isso.

Lauren era descendente de austríacos. O pai viera para o Brasil com a mãe, que conheceu durante um tour. Era branca, olhos azuis, cabelos loiros, em um tom de mel. As sardas salpicavam seu delicado rosto, dando uma impressão de inocência que não existia. Para ela, a sua independência como mulher era muito importante. Priorizava assim, sair com os caras que ela quisesse, a conquista era algo fácil para ela. Poucos caras resistiam aos seus atributos físicos, porém a maioria não tinha a chance de ficar tempo suficiente ao lado dela para conhecer seus atributos mentais. E poucas pessoas tiravam notas tão boas em biologia e química como ela, afinal, ela cursava farmácia.

Anna havia pedido para que eu a maquiasse. Era tarefa fácil, com aquela pele maravilhosa e olhos levemente puxados. Era mestiça. A mais discreta e tímida. Mesmo assim, era jovial e descomplicada. Seus cabelos negros eram curtos, em um estilo repicado que a deixava com um ar adulto e sério, porém jovial. Gostava de sair, rir, apenas era tímida no quesito homens. Usava óculos de armação vermelho vivo, que destacava sua pele bronzeada. Fazia arquitetura e vinha do amazonas, de uma rica família de empresários bem sucedidos. Era imersa em causas sustentáveis e ficava com as bochechas coradas ao receber algum elogio.

Juliana secava seus cachos morenos habilmente, com uma careta. Divertida, espontânea, aventureira. Era fã de futebol e estava na faculdade com bolsa quase integral – era artilheira do time. Jogava melhor que boa parte dos atletas masculinos, e freqüentemente se encontrava com Jordan, o goleiro do time masculino. Ela era apaixonada por ele, e todas nós havíamos apostado que eles estariam namorando até o fim do mês. Seus olhos eram de um castanho escuro, que contrastavam com sua pele clara.

Olhei-me no espelho. Meu cabelo castanho escuro estava longo, abaixo de meus seios. Os cachos nas pontas atribuíam um movimento sensual natural. Meus olhos estavam delineados de preto, o rímel destacando meus cílios exuberantes. A cor esverdeada de meus olhos castanhos fora intensificada pela maquiagem negra e com o vestido curto preto e salto nude, estava pronta para sair.

Tinha uma estranha sensação no peito, e não sabia se era boa, ou ruim. Mas viria a descobrir. Sempre tive um sexto sentido apuradíssimo. Isso me levou a ser espírita, igual a minha falecida avó. Juliana estava sacudindo as chaves do carro enquanto todas nós pegávamos as bolsas e saiamos para a noite.

Comia calmamente com minhas amigas naquela noite de verão. A movimentação da grande cidade sempre me encantara, sob as mais diversas luzes, vozes, cheiros e sons. A movimentação era constante, num fluxo sem fim. O terraço estava lotado e o garçom em meio a tanta gente, finalmente chegara a nossa mesa com todas as bebidas. Encabulado, ele pediu minha atenção ao apontar para um pequeno bilhete, escrito em caligrafia fina, acompanhando um drink extra, que não havíamos pedido. Era para mim. Encarei-o surpresa. Minha curiosidade aumentava a cada segundo, como de costume. Havia tanto desejado aquilo e finalmente estava acontecendo. Será? Meu coração palpitou.

- Melina, leia logo, é pra você! – Juliana mal continha sua animação, misturada com curiosidade. Deu um gole longo em sua cerveja e me fitava com um sorriso no rosto, como todas as outras.

Peguei o papel entre minhas mãos. Observei ao meu redor, para tentar identificar o autor daquele bilhete. Ninguém estava olhando.

“ Sua beleza é única e sua personalidade, sensível ao olhar. Até breve.’’

Li em voz alta. Encaramos-nos e em seguidas, procuramos novamente o admirador. Nada.

- Aposto que ele é de direito ou medicina, e tem uns 28 anos. Deve ser bem estudado pelo modo de falar... – Lauren começara sua milimétrica análise masculina, por um bilhete de papel. Não duvidei. Ela entendia os homens como ninguém.

- Só pode ser brincadeira! – Irritei-me com o mistério contido naquele bilhete. Era um insulto a minha curiosidade. Detestava ficar curiosa. Qual a necessidade disso? Idiota.

- Calma aí, Mel, às vezes ele vai mandar mais algum. Espera um pouco mais antes de ficar nervosa. – Anna havia me aconselhado. Ah... como eu queria ter a paciência dela. Eu era uma pessoa impaciente, o que muitas vezes me levava à impulsividade.

- Pelo menos ganhei uma bebida – disse, pegando o presente do meu admirador instantâneo. Resgatei o clima leve e todas riram. Assim brindamos, desejando passar direto para o próximo semestre, sem pendências com a faculdade.

Conversamos sobre as novidades da semana. A faculdade em si era pesada, tínhamos pouco tempo extra durante a semana, que fosse para sair. Estudar inglês, fazer os trabalhos e ir aos treinos, como é o caso da Ju e da Lauren, que é líder de torcida do time da universidade. O tempo fica corrido e quando chegamos ao apartamento, a 30 minutos do campus, apenas queremos dormir.

Lauren chamou garçom novamente, e assim que ele chegou, ela nos surpreendeu.

- Por favor, queríamos saber quem mandou o senhor entregar isso aqui. – ela indagou, apontando para o meu copo e o bilhete.

- N-não estou autorizado a dizer. – ele gaguejou, surpreso com a autoridade na voz dela.

- Bom então não está autorizado a trazer mais nada para nós anonimamente. Fale para o autor disso que se ele quiser algo com a minha amiga, que venha buscar pessoalmente.

- Sim senhora. Mais alguma coisa? – Estava encarando o chão, sem jeito com o ocorrido.

- Não, é só isso, obrigada. – Disse ela naturalmente, dando uma mordiscada na batata.

Todas nós a encaramos surpresas, e desabamos a rir. A bebida já estava fazendo efeito, todas estavam com apenas alguns goles restantes em seus copos.

- Mas e se ele não vier atrás? – Estava curiosa como nunca. Iria descobrir quem era aquele sujeito, a qualquer custo.

- Então ele não merece sua atenção, é um covarde. – Anna completou, nos retornando a noite divertida.

E a noite continuou divertida. Resolvemos voltar para casa quase três horas da manha. O efeito do álcool já havia passado, então iria dirigir. Estava com sono, e precisava de algumas horas de sono.

Andava vagarosamente no estacionamento, concentrando-me no equilíbrio, ao andar com meus sapatos. O lugar estava silencioso. Até demais. A sensação que senti enquanto me arrumava mais cedo voltou, intensificando meu medo. Tirei meus sapatos para não fazer barulho. Continuei vagando pelo estacionamento, agora perdida. Procurando pelo carro, vi duas figuras próximas à parede, quase imóveis. Congelei. Apertei meus olhos para ver melhor, e me aproximei alguns passos. Eram três pessoas, em um silencio e discrição total.

Escondi-me atrás de um grande jipe, e por alguns segundos, me senti uma completa maluca. Idiota. O que diabos eu estava fazendo? Estava achando que era quem, uma detetive de um seriado de suspense? Quando me ergui, determinada a agir normalmente, o pavor envolveu-se em mim. Um homem prensava uma moça contra a parede, e essa agora despencava no chão, aparentemente sem vida. A parede, antes apenas branca, estava manchada com gotículas de sangue. O rapaz limpava sua boca com a manga da camisa preta, e o outro observava. Instintivamente, levei uma mão à boca, para não fazer barulho algum. Porém, um dos meus sapatos caiu no chão com um baque. Os dois olharam para mim no mesmo segundo. Larguei o outro sapato e me preparei para correr.

Meu medo mudo e qualquer plano de fuga petrificou-se quando um daqueles estranhos praticamente se materializou na minha frente, de tão rápido que veio ao meu encontro. Estava a menos de 20 cm de mim, me encarando, como se enxergasse além de meus olhos. Encarei aquele olhar azul, que era tingido de vinho perto das pupilas. Meus lábios se abriram para formar alguma palavra, de pavor, surpresa, ou qualquer outro sentimento que integrava o conjunto da minha confusão. Mas antes disso, ele colocara o dedo indicador em frente aos meus lábios, um pedido mudo de silencio. Simultaneamente, conversas histéricas e risadas altas ecoavam no local, algum grupo de bêbados procurando seu veiculo.

Suspirei. Essa podia ser minha chance.

Ele desviou seus olhos dos meus, encarando o grupo, acima de mim, e depois virou a cabeça lentamente para a direita, de modo a olhar o homem da camisa preta, logo atrás de nós. Percebi que o corpo havia sumido, assim como as manchas na parede, e o assassino mantinha contato visual com o homem a minha frente. Os bêbados estavam se distanciando novamente. Ele me encarava enquanto retirava lentamente o dedo que selava meus lábios, certamente prevendo qualquer reação minha. Quando o fez, senti vontade de gritar, pelo pânico que havia sentido minutos atrás. Mas sabia que não deveria.

- O que faremos com você? — O assassino perguntara, enquanto vinha em minha direção. Dei um passo para trás, porém encontrei-me contra o pára-choque do jipe. Não havia saída.

Ele me encarava com um olhar mortal, enquanto o outro, com um olhar curioso. Meu rosto se converteu em uma careta, enquanto o choque passava por completo e a incredulidade tomava seu lugar.

— Mas que porra é essa? – As palavras saíram quase que autônomas de minha boca, em um tom baixo.

Ambos riram baixinho, uma risada maliciosa, sedutora.

— Mas que boca suja, hein? – O que antes tinha a boca suja, de sangue, me perguntara sem responder a minha pergunta, enquanto se aproximava ainda mais de mim – Você sabe com quem esta falando?

— Gostaria de saber – Agora estava brava. Que situação. Apenas queria pegar meu carro e ir buscar minhas amigas. As meninas... Agora me lembrava em tom quase urgente do que havia ido fazer ali. Quanto tempo havia se passado? E aqueles dois caras maravilhosos apenas continuavam me encarando.

— Meu nome é Sebastien, e esse é meu amigo engraçadinho, Adrian. – o mais calmo vinha em minha direção novamente. Não identifiquei qualquer maldade em seus olhos, apenas um olhar sedutor e descontraído. Ao contrário de Oliver, que possuía os olhos em mim, maliciosos.

— Chega de papinho. Quem vai fazer isso sou eu, ou você? Para ser sincero, estou saciado. Mas ela é bem convidativa. – Ele disse, acariciando meu rosto.

— Fazer o que? – Eu estava começando a ficar com medo novamente, olhando para ambos, esperando uma resposta.

— Você não acha que viu mais do que devia esta noite? – O loiro de olhos negros, Adrian, colocou suas mãos em minha cintura, deslocando-me para uma das lacunas do estacionamento, ao lado do carro. Meu corpo bateu levemente contra a parede fria, enquanto ele me encurralava.

— Acho um desperdício, Adrian. – Sebastien se aproximava também, com os olhos fixos em mim. Uma emoção que não pude identificar. – Talvez...

— MELINA, VOCÊ ESTÁ AI? – Ouvi minhas amigas descendo a rampa de acesso do estacionamento. O baque dos sapatos era apressado, demonstrando a preocupação.

— ESTO... – Adrian agora me prensava contra a parede, com seu corpo, segurando minha boca com uma de suas mãos. Enquanto ele me fitava, ouvi sua voz em minha cabeça.

— Mas que droga! Não seja idiota, não fale sobre o que aconteceu hoje a noite. Senão você terá o mesmo finzinho trágico daquela outra mulher.

Enquanto eu encarava aqueles olhos negros raivosos, acenando positivamente, ambos sumiram, me deixando sozinha no estacionamento com as minhas melhores amigas.

Fiquei perplexa e, o primeiro pensamento que veio a minha mente, foi que jamais veria aqueles belos rapazes novamente.

Notas finais
Comentem, por favor :) Quero melhorar cada vez mais e, para isso, preciso da ajuda de voces. O que acharam?