Notas iniciais
Após a confusão de acontecimentos de se sucederam, Mel consegue finalmente entender o que acontecera, enquanto a água quente do chuveiro caia em seu corpo.Será que era o suficiente por uma noite ou ainda mais surpresas estavam por vir?

- Mulher, nunca mais faça isso conosco. Pensamos que tinha acontecido alguma coisa. Esta tudo bem? – Ouvi a voz de Anna, enquanto as três me analisavam, percebendo claramente que havia algo estranho comigo. Seus olhos passaram pelos meus sapatos espalhados no chão e meu cabelo bagunçado.

- Eu caí. Malditos sapatos. – Dei uma risada nervosa enquanto calçava meus sapatos. – Acho que depois desse susto, podemos ir!

Isolei o acontecido em minha cabeça. Iria pensar sobre isso depois. Era muito arriscado se elas sequer desconfiassem o que eu havia presenciado. Queria mante-las em segurança, e a mim mesma. Logo, disfarcei o máximo possível, convencendo-as que fora apenas o susto da queda, causa da bebida. Assim que o disse, Anna arrancou as chaves da minha mão.

- Eu dirijo. – E com apenas um toque, pudemos ouvir o carro destravar. Sentei no banco de couro e na mesma hora percebi o quanto estava cansada. Agradeci imensamente a confiança que elas tinham em mim, pois acreditaram no que eu dissera e não me bombardearam com mais perguntas. Um calor surgiu no meu coração, e percebi que era o amor e carinho que lá mantinha sua chama.

O trajeto foi silencioso como de costume. A bebida deixava o nosso organismo e a sensação de cansaço aparecia mais forte. Mal conseguia deixar meus olhos abertos. Ainda tinha que tirar toda a maquiagem. Detestava tirar o rímel. Eu passava grossas camadas e essas só saiam em um banho quente. Juliana praticamente roncava quando chegamos a garagem do prédio.

O hall estava vazio e o sofá próximo ao espelho de dois metros de altura refletia uma realidade que não queriamos ver.

- Nossa, estamos horríveis! – Lauren constatou assim que nos olhamos no espelho, simultaneamente. Cabelos bagunçados, cara de cansaço... todas nos precisávamos de boas horas de sono.

O elevador pareceu estar mais lento do que o comum, mesmo no pequeno percurso de dois andares. Jamais íamos de escada. Apenas parecia trabalhoso demais.

Nosso prédio ficava apenas a alguns quarteirões da praia. Tinha três dormitórios, de modo que, por sorteio, fiquei com um só para mim, assim como Anna. Juliana e Lauren dividiam o maior quarto, que tinha varanda para a praia distante. Era um bom apartamento.

Jogamos as bolsas no sofá de couro preto e fomos para os respectivos banheiros tirar a roupa, maquiagem... antes, despedi-me das meninas, dando o tradicional beijo na bochecha e um leve abraço. Estava precisando de um banho. Tirei meus sapatos e senti a conhecida sensação de ter a sola do pé inteira em contato com o chão após horas andando em um sapato de salto. Peguei meu pijama de verão no grande closet. Era um shorts azul marinho curtíssimo com diversas ancoras e barquinhos, enquanto a regata era leve, branca e com um lacinho vermelho decorando o decote exposto. O tema náutico combinava com a ocasião. Verão na Califórnia.

Entrei no banho e senti toda a carga do dia indo por ralo abaixo. Uma das coisas que minha mãe sempre me dizia era que o banho tem o poder de recarregar todas as energias boas, e descarregar as ruins. Pensei no que havia ocorrido esta noite. Tanta informação em pouco tempo. Um bilhete anônimo (droga, pelo jeito nunca vou descobrir quem era), dois caras maravilhosos envolvidos em um suposto assassinato maluco. Alias, será que era pegadinha de algum outro campus? Ri com a idéia. Talvez levei a serio demais uma pegadinha de calouros. Se bem que eu adoraria outro tipo de pegadinha com eles...

Com energias renovadas e explicações para o que havia acontecido na noite, senti-me outra pessoa. Observei o aspecto saudável voltar ao meu rosto enquanto secava meu cabelo. Amava minhas amigas, mas ter minha própria suíte era sensacional.

Cabelo já seco, apliquei um finalizador para deixá-lo com mais brilho. Meus seios estavam erguidos e inchados, frutos de uma menstruação próxima. Devo admitir que essa era a melhor parte de ter um ciclo menstrual. Escovei os dentes e tirei o ultimo resquício de maquiagem, baseada no meu próprio reflexo em uma pequena área do espelho, que eu havia desembaçado com as mãos. Meus olhos estavam bem esverdeados, o que me animou ainda mais para o dia seguinte, que na verdade, já era hoje... Isso é tão confuso. Mas para mim, o dia só começa quando eu acordo. Então ainda estavamos no sábado e ponto final. Abri a porta do banheiro e o vapor do meu banho quente se dissolveu progressivamente, enquanto eu desenhava uma carinha feliz e meu nome no espelho embaçado. Quando terminei, senti-me infantil. Mas feliz.

Enquanto guardava os sapatos no armário, ouvi algo batendo no chão de meu quarto. Será que novamente os insetos gigantes e aqueles besouros nojentos atacariam a cidade no verão? Ano passado, eu e as meninas tivemos sérios problemas com insetos. Morar no segundo andar tem suas desvantagens. Aliás, mudamos do quinto para o segundo andar, a pedido do porteiro e mais alguns mil dólares de diferença. Éramos muito barulhentas e o casal de idosos do sexto andar sofria com nossa animação excessiva.

O apartamento abaixo pertencia a uns rapazes da mesma universidade que a nossa. Frequentemente o cheiro de maconha subia até a janela da sala, pela grande varanda, o que nos levava a jogar bilhetes furiosos pelo vão da porta de entrada do 101.

Fitei o pequeno pedregulho e busquei sua origem. Rapidamente, olhei para a janela, e o que vi superou qualquer expectativa minha sobre o que encontrar ali. Aquele louro estranho e maravilhoso, suposto assassino do estacionamento estava sentado na beira de minha janela, quase um suicida. Percebi uma mera diferença em seus olhos, que agora, estavam em um tom de azul angelical. Com esses mesmos olhos, passava por todo meu corpo, parando em minhas coxas bronzeadas e pausando novamente em meus seios. Um sorriso brotou em seu rosto e ele finalmente me encarou. Deveria ter fechado a porcaria da janela e o jogado de lá!

- Sabia! Você faz parte dos palhaços maconheiros do 101, né? – Eu o encarava, furiosa. Só Deus sabe como consegui controlar o volume de minha voz, para não despertar minhas amigas. Ele me olhou, surpreso com a minha conclusão e divertindo-se com a minha fúria.

Ele mal continha o sorriso, fazia questão de demonstrar o quanto tirava graça da situação. Aquele desgraçado que pregara uma pegadinha em mim quase uma hora atrás agora estava sentado no parapeito de minha janela, me fitando no menor pijama que eu tinha. Minhas bochechas coraram quando percebi o quanto estava exposta.

- Então você acha que eu sou um maconheiro do 101? – Disse ele, pela primeira vez, com sua voz livre de malicia. Porém, a ironia com que ressaltara o adjetivo atribuído a ele deixou sua voz temperada de sarcasmo.

- Você não acha que esta passando dos limites tipo, só um pouquinho? – Retribui na mesma moeda, utilizando a mesma dose de ironia em minhas palavras.

- Primeiro você prega uma peça em mim com um assassinato maluco. Aliás, espero que não tenha se esquecido de filmar para colocar no youtube. – Continuei, enquanto sua sobrancelha se levantava levemente — Depois, você aparece na minha janela, do meu quarto, no meu apartamento, enquanto eu saio do banho e estou louca para dormir. Será que você passou dos limites?

Ele me observou por mais alguns segundos, escolhendo as palavras que sairiam de sua boca, deduzi. E eu ainda estava ali, de braços cruzados, com uma cara raivosa e meu coração palpitante. Isso era ótimo, pois essa era a reação perfeita para esconder a atração que senti por ele naquele momento. Seus cabelos loiros eram compridos na medida certa, do jeitinho que eu gostava, e balançavam muito levemente com a brisa noturna. Seu nariz era perfeitamente angulado e ele tinha uma pequena pinta situada perto de seus lábios, soando convidativa.

- Devo confessar que você me surpreendeu. Pensei que entenderia de imediato o que estava e esta acontecendo. Acho que você não esta muito dentro ‘da moda’ – disse ele, riscando o ar com seus dedos longos para ilustrar as aspas em sua frase.

Olhei para meu closet aberto no mesmo instante sugestivamente e, nesse momento, pensei que ele iria cair da janela de tanto rir. Ele se inclinava para frente levemente, e o som de sua risada era contagiante. Como a risada de um bebê, que te envolve e faz você rir junto. Seus dentes eram brancos, alinhados, impecáveis. Ele ficava ainda mais lindo rindo daquele jeito. Caralho, como ele conseguia?

Levei uma mão até minha boca para esconder que estava rindo junto. Mas que droga, por que motivo eu estava rindo? Parei na hora, e ele me olhou, com os olhos ainda brilhantes de humor, e certa admiração. Assim como o ataque de riso, logo sua expressão se alterou, pacifica, até ficar sombria e preocupada. Ele olhava a casa ao lado do prédio e sem colocar os olhos em mim, ordenou:

- Ligue a televisão.

Notas finais
Bom, estou com três historias em andamento, gosto igualmente de todas :) porém atualizo para meus leitores e, aquela que tiver mais leitores, terá prioridade em ser atualizada primeiro. Deixe seu review ao fim dos capítulos, quero ter noção de quem acompanha a historia :) Minha inspiração esta fluindo muito rápido com essa história. Muita coisa vem por ai. :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.