Capítulo II — Ultimato

"[...] Mas esse Dom do Entendimento é só para ti, Peixes. Porque quando tentares difundi-lo entre os homens, eles não te escutarão."

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Peixes acordou cedo naquele dia. Custara muito abrir os olhos cerrados, agora alertas com a cafeína correndo em seu sangue. Estava sentado na mesa principal do refeitório, com Libra e Sagitário, seus companheiros de equipe. Bebia um café preto e forte, acompanhado por um sanduíche preparado por Câncer. O sol ainda estava despontando, e uma brisa macia lhe acariciava o rosto.

Sagitário tagarelava sobre o mundo humano e as peculiaridades de cada lugar. Libra ouvia com atenção, de quando em quando corrigindo a gramática do moreno. Peixes mordiscava seu sanduiche, parando para perguntar o que achava importante.

“...E existe um lugar incrível! É uma caverna submersa, as rochas apontando de todos os lados, e é tudo tão... azul. Digo, isso do lado de fora, porque dentro é um breu. As criaturas que vivem lá não tem olhos. Estranho, né? Virgo contou que é porque olhos gastam muita energia, sem falar nos riscos de infecções, e como eles não precisariam deles de qualquer forma, aqueles que não tem os olhos estão em vantagem. Ele é tão inteligente! Mas a melhor parte é...”

“Hey! Olha só quem é o novo inquiridor!”

Leão chegara abruptamente, rindo-se com desdém e passando os braços em torno do ombro de Peixes. O abdômen bem definido não o deixava esconder sua boa forma. Sentou-se se pernas abertas, ocupando o maior espaço que podia, e era ajudado pelos cabelos avermelhados e volumosos, que pareciam macios ao toque. A expressão de Sagitário evidenciava seu desconforto ao ser interrompido pelo ruivo. Libra acenou com a cabeça, o semblante indiferente. Peixes retirou a mão do leonino de seu ombro, mantendo a cordialidade.

“Bom dia, Leão.” O garoto respondeu.

O maior virou-se para ele. A língua massageando suas presas afiadas e o sorriso de pouco-caso não ajudavam a amenizar sua postura arrogante.

“Então, o que fez para conseguir o cargo?” Ele falou no ouvido do garoto.

Peixes agitou a cabeça, confuso. Libra levantou a cabeça, encarando o recém chegado.

“Não sei o que quer dizer”, o menor respondeu.

Leão estreitou os olhos, dando um sorriso torto.

“Aaah, você sabe sim.” Ele piscou. As mãos encenavam obscenidades por baixo da mesa.

Libra engasgou-se com o chá, chocado com a ousadia do leonino. Sagitário só não estava mais confuso que Peixes, que demorou um pouco para entender a que o ruivo se referia.

Sentiu o rosto arder.

Virou-se para o maior, incrédulo.

“Você não acha que eu... que eu...” O pequeno gaguejava.

“Leão, recomendo que se retire agora.” Libra foi educado e firme. Mas Leão não se deixou abater.

“O quê? Tem algo a esconder?”

“Leão. Agora.” Libra estava de pé. O rosto suave agora se mostrava irredutível. As asas em riste não poderiam ser mais ameaçadoras.

Leão também se levantou.

“O garoto obviamente não vai conseguir arrancar nada do Scorpio. Perderia uma luta até mesmo pra um caído! Não tem como ele ter conseguido o cargo com o próprio méri...”

“Mais uma sílaba e você será exilado por traição. Eu sou Libra, um dos Senhores do Zodíaco, encarregado imediato do criador e conciliador oficial do Primeiro Reino, portanto, seu superior. Não abrirá mais a boca sobre Peixes. Não dirigirá a palavra a ele; e vai se reportar ao Virgo verbalmente e por escrito sobre suas insinuações esdrúxulas. Poupe-me de suas dores, Leão. Saia. Daqui. Agora.”

Nos olhos do ruivo, só se enxergava fúria. Encarou o louro por alguns momentos, e se virou para o menor.

“Isso não acabou” dizendo isso, Leão se foi, deixando pra trás um libriano irritado, um Sagitário confuso e um Peixes enrubescido.

“Bom, isso definitivamente destruiu com meu apetite. Comam direito, vocês dois. Terão um dia longo pela frente”, instruiu Libra, recolhendo sua bandeja e entregando-a a um querubim que limpava as mesas. “Ah, e, Peixes”, ele continuou, “Acostume-se com isso. Será mais frequente daqui em diante”.

O garoto assentiu com a cabeça, enquanto o mais velho se virava para ir embora. Sagitário tentou animá-lo com piadas e curiosidades sobre répteis, mas nada tirava de sua cabeça as palavras do libriano, ainda mais agora que concordava com elas. Ele teria um dia longo pela frente.

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Os corredores que levavam a sala do conselho não poderiam ser mais confusos. Peixes se sentia atordoado com as múltiplas portas de maçanetas douradas e os retratos pendurados dos principais arcanjos. Capricórnio o esperava para instruí-lo sobre a tarefa.

Bateu na porta.

“Entre, está aberta.”

Peixes obedeceu. A sala era menor do que ele esperava. Tinha uma mesa redonda, três cadeiras dispostas igualmente e no canto, uma escrivaninha com papeis, tintas e penas.

Capricórnio estava de pé, servindo-se de capucchino. As mãos tamborilavam no tampo da mesa, e fez a menção para que o garoto se sentasse.

Os cabelos castanhos estavam impecavelmente arrumados, contrastando com os fios azulados e assimétricos de Peixes.

“Você pode se servir se quiser, Peixes. Câncer quem preparou, está ótimo.”

“Não, obrigado, senhor.”

Capricórnio relaxou em sua cadeira. Pegou os papéis e começou a organizá-los em pilhas, enquanto falava com o menor.

“Você está ciente de toda a situação com Scorpio?”, perguntou

Peixes apertou os lábios.

“Só o que me foi dito por Libra.”

“Entendo. Vou fazer um breve resumo pra você. Scorpio tentou roubar o Livro de Enoque da posse do criador, e sua punição foi a retirada de uma das asas. Ele fugiu para o mundo humano, refugiando-se em diversos lugares”. Ele pigarreou. “Não sabemos o que ele esteve fazendo por lá, mas o encontramos machucado e perturbado. Além disso, lhe faltava a outra asa. Agora, ele é um caído.”, contou Capricórnio.

Caídos eram anjos que, de alguma forma, tinham transgredido as regras do Paraíso. A maior parte deles perdeu as asas ao cair do Primeiro Reino. Entretanto, alguns, como Scorpio, foram mutilados.

Peixes estremeceu ao lembrar das cicatrizes nas costas do garoto com cabelos violeta. Cerrou os punhos ao imaginar a dor de ter sua asa arrancada.

“Você tem que descobrir tudo o que puder. Não preciso falar da importância de seu trabalho. Precisamos saber onde ele esteve, o que fez, o que revelou aos humanos, o que o fez perder sua asa” Capricórnio entregou alguns dos papeis que organizava a ele.

“Quero que faça relatórios sobre como está indo. É importante que seja sincero neles”

Peixes odiava relatórios, e esse era um dos motivos pelos quais não estava na equipe de Capricornio, que fazia sua equipe registrar tudo o que fazia. Ele odiava a idéia de falar com um pedaço de papel quase tanto quanto os prazos que eram lhe dados pra fazer isso. Ainda assim, assentiu com a cabeça educadamente quando Capricórnio lhe deu as folhas em branco.

O garoto segurava a pilha de papéis sem muita firmeza ao abrir a porta para sair.

“Peixes”, o homem sorriu, “Boa sorte” e dizendo isso, voltou sua atenção para os documentos espalhados em sua mesa.

Peixes deixou a sala de reuniões e pediu para Câncer guardar os papéis pra ele. Em partes porque não queria mais estar em contato com eles, mas também porque eles certamente se perderiam no caos que era seu quarto.

Estava na hora.

Caminhava lentamente por entre os corredores, ate chegar à ala dos prisioneiros. Não teve dificuldades para encontrar a cela de Scorpio, guardada fortemente por dois arcanjos.

Apresentou-se, foi revistado e teve o padrão de suas penas registrado. Os dedos remexiam ao lado do corpo, evidenciando seu nervosismo. Mantinha os lábios apertados, como quem segurasse palavrões, e sentia-se exposto.

Mas tudo aquilo se foi no momento em que entrou na sala.

Scorpio estava amarrado com os braços pra cima. O queixo pendia no peito nu, que exibia as cicatrizes de seu tempo na terra. Os olhos encaravam o chão com raiva, mas ele não tinha forças nem para cerrar os punhos.

Peixes, por um momento esqueceu-se de por que estava ali. A visão do ex companheiro de equipe o chocou. Não sabia o que sentir, muito menos o que fazer. Não podia fazer nada. Seus olhos marejaram por um breve momento, no qual ele se recompôs.

Na mesa da pequena sala, tesouras, facas e outras armas. Sentiu seu café da manhã subir. Em seu íntimo, sabia o que precisava ser feito, e que precisava ser feito naquele momento. Pegou a tesoura, aproximando-se de Scorpio, que agora o olhava com todo o ódio que um caído é capaz de sentir.

Peixes cortou um pedaço de suas vestes, molhou e começou a limpar os ferimentos do outro. O Caído o encarava com incredulidade.

“O que... está fazendo?” perguntou.

Peixes apertou os lábios e franziu a testa antes de responder.

“Limpando você”

Passou o tecido úmido sobre os cortes, de dentro pra fora, a fim de evitar infecções. Demoraria algum tempo, mas terminaria de limpá-los ainda naquele dia.

Scorpio tremia a cada toque. A água fria escorrendo por sua pele lhe causava arrepios, mas nada com que não pudesse lidar.

“Você é um péssimo torturador, Peixes”, arquejou.

O garoto parou por um momento, franzindo a testa.

“Eu não sou um torturador”, o menor respondeu, ríspido demais.

Não era mesmo? O que eram aquelas facas e tesouras na mesa? E por que Leão achava que a tarefa não lhe cabia? Porque os relatórios de progresso, e a sala isolada de todos?

Peixes se sentia sobretudo confuso. Mas precisava deixar Scorpio em condições minimamente decentes antes de tentar responder suas próprias perguntas.

Terminado o tratamento das feridas, Peixes passou a analisá-las. Havia muitos cortes, alguns profundos, outros eram mais arranhões, como quem ralou-se numa parede ao correr. Mas nenhum deles chamava tanto a atenção quanto o das costas.

Evitou limpá-lo, por respeito a Scorpio. Em vez disso, entregou a ele um pedaço de tecido para que ele mesmo se limpasse depois.

As asas de um anjo são quase inteiras de matéria celestial. Quando são arrancadas, deixam no lugar uma cicatriz vulnerável, que dá acesso direto às emoções do indivíduo. Os caídos, como eram chamados os anjos sem asas, jamais tinham suas cicatrizes tocadas. Era um tabu.

Peixes fora orientado pelos guardas a não soltar Scorpio, mas era difícil pra ele ficar sentado confortavelmente enquanto o outro mal podia ficar de pé.

“Está melhor?”, perguntou.

Scorpio assentiu com a cabeça, sem olhar nos olhos dele.

O pequeno compreendia, mas aquilo, de alguma forma o machucava. Não queria ser tratado como um torturador. Não queria ser um. A simples ideia de causar dor a alguém o enojava.

Peixes fez menção de retirada, levando consigo as facas, tesouras e maçaricos em cima da mesa. Saiu da sala fechando com força a porta atrás de si e ignorando os guardas que gritavam algo sobre conferir o registro do padrão de suas penas.

Foi andando compassadamente pelo corredor que levava à sala de Libra.

Ele estava sentado em sua cadeira de bronze, preenchendo o que parecia ser mais um dos relatórios de Capricórnio.

“Oh, olá, Peixes, como foi o seu primei.."

Libra foi interrompido pelo barulho metálico e ensurdecedor das ferramentas que Peixes largou no tampo de sua mesa. O estrondo atraiu olhares curiosos e derrubou a tinta que o louro estava usando para escrever.

Ele encarou o menor, incrédulo.

“Eu não preciso disso para fazer meu trabalho. Se essas... coisas... me fossem ser úteis, talvez vocês devam reconsiderar chamar o Leão pra cumprir a tarefa.”

“Peixes, eu sei como se sente, mas você precisa entender que Scorpio é perigoso e...”

“Você não tem idéia de como eu me sinto. E nunca vai ter”, devolveu ele, friamente. “Sabe o que eu encontrei naquela sala? Um garoto assustado, que passou por deus sabe o quê, que já foi um anjo respeitado e agora teve suas asas arrancadas. Eu encontrei um garoto machucado, arranhado, torturado e violado, por vocês. Vocês são perigosos. Não ele. Se querem que eu faça parte disso, será nos meus termos.”

Libra ainda o encarava, atordoado. Viu o rosto do menor escurecer como se fosse inundado por sangue. Nunca tinha visto Peixes daquele jeito. As mãos seguravam a mesa com força, os nós dos dedos, brancos. Os cabelos revoltos estavam soltos, cobrindo parte dos olhos, que continham a mais pura das fúrias. Os ombros tremiam, e as pupilas se mantinham dilatadas pela raiva. Ele era pequeno, mas era como se ocupasse toda a sala, e podia pressentir graves consequências caso não atendesse às suas exigências.

“Tudo bem”, respondeu, fracamente. “Quais são seus termos?”

“Quero que ele tenha acesso à alimentação decente, como todos nós, e que tenha mais rigor sobre a preparação da comida para que ele não sofra nenhum envenenamento.”

“Certo, podemos fazer isso” o libriano falou, ainda em choque com aquele Peixes furioso.

“Ele dormirá numa cama macia e poderá ficar solto em sua cela” Peixes falava, agora olhando para o canto da sala. “Não vão mais amarrar os braços dele nem pressionar as cicatrizes das asas contra nenhuma superfície.”

O loiro franziu a testa, ponderando a idéia.

“Isso vai ser mais complicado. Poderíamos tentar, se dobrarmos a segurança.”

O pequeno soltou o tampão da mesa e cruzou os braços.

“Quero ser informado de tudo o que acontece com ele, e que minha opinião seja levada em conta no julgamento.”

“Peixes, Scorpio cometeu um delito gravíssimo. Algumas coisas que acontecem a ele são confidenciais até para mim.” Libra juntou as mãos, entrelaçando seus dedos.

“Mas não serão para mim. Quero ser informado de tudo.” Ele estava decidido. Não iria voltar atrás com nenhuma de suas condições, e o libriano sabia disso. Ele suspirou, franzindo a testa.

“Tudo bem, vou ver o que posso fazer.”

“Ótimo.”

Peixes descruzara os braços. A asa única ocupava todo o ambiente. Ia saindo da sala, mas lembrou-se dar um recado ao superior.

“E diga ao Capricórnio que não vou entregar relatório nenhum” e saiu, fechando a porta e deixando na sala um homem atordoado.

Peixes sabia que não seria fácil, mas estava determinado a cumprir a tarefa que lhe foi incumbida. Sabia que teria que cavar muito fundo para se aproximar de Scorpio, e que esse era o único modo de fazer isso.

Não estava orgulhoso de sua discussão com Libra, principalmente depois deste tê-lo defendido mais cedo. Mas era um mal necessário. Se era pra fazer isso, seria do seu jeito. E os outros não perderiam por esperar.

Notas finais
Hey, humanos. Espero que estejam gostando. Tentei pegar um pouco do outro lado do Peixes nesse capítulo. Vou tentar explorar bastante isso (afinal, num lugar desses, não dá pra ser puro e fofo o tempo todo). DJKHJSKJJQASHS Gente, e esse Libra? Como faz pra parar de amar? Hush Hush está me ajudando mais do que eu esperava a escrever isso. Essa propriedade das cicatrizes dos caídos é de lá. Enfim, continuem acompanhando. Beijo na boca.