Capítulo III – Kashmir

"Mas Pedro declarou: 'Mesmo que seja preciso que eu morra contigo, nunca te negarei'. E todos os outros discípulos disseram o mesmo."

Mateus, 26:35

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Peixes estava na fila da refeição. O refeitório estava quase vazio, por causa da chuva que molhava as mesas e assustava os querubins. Conversava animadamente com Câncer, que contava uma das histórias de sua cuidadora. Ele era a melhor companhia que poderia querer, depois de Sagitário, mas este estava em uma missão com Libra no Segundo Reino.

Câncer já estava saindo quando viu Leão se aproximar. O menor preparou-se mentalmente para mais uma cena de acusações esdrúxulas vindas do ruivo, até que ele finamente chegou.

“Hey, Peixes. Quero me desculpar pelo que fiz semana passada. Foi injusto com você e com Libra também”, ele falava, de cabeça baixa.

O menor franziu a testa, desconfiado.

“Quem mandou você aqui? Capricórnio ou Virgo?”

O ruivo abriu a boca e apontou para o próprio peito, fingindo incredulidade.

“Não acredito que acha que eu, o melhor guerreiro entre os Doze, preciso que me deem ordens para... Ah, esquece. Foi o Virgo”, ele riu e continuou ao ver o pequeno revirar os olhos, “Mas não significa que não seja sincero! Eu realmente sinto muito.”

Peixes sorriu para o leonino, que parecia estar um tanto sem graça.

“Tudo bem”, respondeu, sem saber do peso que estava tirando das costas do maior.

Ele suspirou, aliviado. Peixes continuou, ao ver que sua vez na fila se aproximava.

“Vou para as celas agora”, disse, apontando a direção. “Quer me acompanhar?”

“Ah, não, obrigado. Tenho que encontrar o Virgo. Nos vemos mais tarde, então” e estava virando para ir embora, antes que se lembrasse de algo. “Ah, e, foi incrível o que fez”. Ele continuou, ao ver a expressão confusa do menor, “Estão todos comentando sobre como você enfrentou um dos Senhores do Zodíaco. Não sei nem se eu faria isso. Você tem mais coragem do que aparenta, peixinho”. Ou é muito estúpido, pensou.

Peixes enrubesceu, sem graça com o elogio inesperado vindo do Zodíaco mais orgulhoso, e deu graças aos deuses por Leão não ter ficado para ouvir uma resposta, tendo saído apressado quase imediatamente, enfrentando a chuva, para começar seus afazeres. Ele pegou a comida, a sobremesa, e seguiu em direção às celas, como estava fazendo todos os dias ultimamente.

Fazia quase uma semana que ele havia sido encarregado de investigar Scorpio, e ele tinha feito grandes progressos. Com apenas um dia de trabalho, tinha conseguido para o garoto de cabelos violeta o direito a alimentação decente, roupas limpas e uma cama.

Mas não podia dizer o mesmo de sua missão. Não havia descoberto nada novo. Ou pelo menos, nada que tivesse importância. O Caído mal o olhava nos olhos. Falar, por enquanto, estava fora de questão.

Reconheceu os corredores estreitos que levavam até à ala dos prisioneiros.

Cumprimentou os guardas e fez o procedimento habitual, registrando o padrão de suas penas antes de entrar.

O lugar estava frio. Scorpio estava no canto da sala, sentado com as pernas entrelaçadas, lendo um livro. Se notara a presença do menor, escolheu não demonstrar.

Peixes aproximou-se com sua refeição, e entregou a ele o pacote pequeno.

“Pra mim?” Ele perguntou. Peixes fez que sim com a cabeça e assitiu Scorpio retirar o bolinho do embrulho. Ele o encarou por um momento e depois comeu.

Todos os dias desde que começaram a comer juntos, Peixes trazia sua sobremesa para dividir com o mais velho. Entretanto, este parecia não se acostumar com isso.

O maior estava se recuperando rapidamente. Grande parte dos ferimentos agora pareciam marcas de um passado distante, e sua pele aos poucos ganhava vida. Ele passou as mãos pelos cabelos violeta e encarou o pequeno.

“Por que faz isso?”

“Isso o quê?”, Peixes perguntou com a boca cheia.

“Isso. Comer aqui quando você poderia estar com os outros.” Scorpio respondeu, irritadiço.

“Ah... Bom, não parece certo você comer sozinho.” O outro respondeu, franzindo a testa e olhando para baixo, os dedos sujos com a sobremesa recheada.

Scorpio suspirou, levantando-se para guardar o livro que lia. Estava se acostumando à presença do menor, e divertia-se com as histórias que ele contava. Porém, incomodava-o profundamente saber que ele era o inquiridor, e ainda assim não fazia perguntas.

“Sagitário e Libra foram para o mundo dos humanos”, Peixes começou a contar, “Eu queria ir, mas não me permitiram. Disseram que aquele é um mundo perigoso demais para anjos com uma asa só.”

Scorpio soltou um riso debochado.

“Imagine pra um anjo sem nenhuma”. Ele sentou-se em sua cama, olhando para o fundo da sala. “Você não deveria permitir que eles te subestimem assim. Há alguns dias atrás você mais do que provou que pode se virar sozinho”

Peixes riu-se por dentro. A lembrança do que fizera, ali, reconhecida por ele, era gratificante. Sentiu seu rosto esquentar e continuou falando. “Sagitário sempre me conta das viagens dele. Sabia que existe uma caverna que...” os olhos verde-azulados brilhavam enquanto falava e montava as paisagens em sua cabeça. Scorpio ouvia em silêncio, sorrindo de vez em quando.

“...E aquela montanha era muito grande! Sagitário diz que podia tocar as nuvens, mas Aquário assegurou-me de que ele estava exagerando.” Peixes franziu o cenho e apertou os lábios, pensativo.

“Ele não estava exagerando. A montanha chama-se Karakoran.”, contou Scorpio, que agora olhava para os próprios dedos. “É uma das montanhas mais altas do mundo humano. Fica em Kashmir”

Peixes o encarava, com admiração. Voltou-se na direção do outro.

“Verdade? Onde fica? Nunca imaginei algo como poder tocar o céu só de erguer as mãos. Já esteve lá?”, perguntou o menor, sem conter a empolgação.

“Bom, eu...” Scorpio parou de repente. Aí estava. Era assim que ele conseguiria as informações que fora ordenado obter.

O sorriso de Peixes se desfez lentamente enquanto entendia o silêncio abrupto do garoto de cabelos violeta.

“Ah, você não vai me contar.” Ele virou seu corpo pra frente, os ombros relaxados. “Tudo bem, eu entendo.”

Scorpio encolheu as pernas e enrijeceu, olhando adiante. Peixes tornou a falar.

“Você disse que isso ficava em Kashmir. Eu li sobre aquele lugar.” Ele olhava pra cima, como se tentasse lembrar de algo. “Existe uma... disputa territorial entre dois países por essa região.” Remexeu seus dedos, escondendo os polegares. “Entre a Índia e o Paquistão, certo?”, ele perguntou, mais para si mesmo. “A maioria da população é paquistanesa, mas o território pertence à Índia. E ainda tem os grupos que não querem ser ligados a nenhum dos dois, lutando por independência.”, ele sorriu, satisfeito por ter se lembrado.

O Caído massageava a própria nuca, olhando o teto.

“Sim.”

Peixes tornou seu rosto para encará-lo.

“Sim o quê?”

“Sim, eu estive lá.” Ele suspirou. Peixes o observava, maravilhado. Dobrou os joelhos e sentou sobre os próprios pés, como uma criança que espera uma história de um parente mais velho. Ele abraçava o próprio corpo, numa tentativa de conservar seu calor naquela sala gelada. O barulho da chuva caindo do lado de fora de alguma forma o acalmava, e apesar da falta de móveis e do chão frio, achava o lugar confortável a seu modo.

“Foi há algum tempo. Eu precisava de um lugar seguro, isolado e difícil acesso. O Paquistão me pareceu bom o suficiente.” Ele relaxou os ombros e se virou para o pisciano “Não foi difícil chegar lá. Eu estava indo pelo Oeste da China e as fronteiras não eram lá muito vigiadas.” Scorpio deu um sorriso torto. “Quando vi aquela cordilheira, pelos deuses, eu senti que eu tinha que subir. O lugar era muito bem protegido, por causa da morte de alguns alpinistas. Então assinei um documento de responsabilidade e escalei.”

Peixes sorria estático. As maçãs de seu rosto coradas pelo frio deixavam seu semblante ainda mais pueril.

“E qual foi a sensação?”, perguntou.

Scorpio fechou os olhos ao lembrar.

“Eu nunca tinha me sentido tão livre em toda a minha vida. Eu via a terra pelo topo. Todas as pessoas daquele mundo estavam aos meus pés. E apesar da escalada matar uma em cada quatro pessoas que ousam tentar, eu me sentia seguro. Foi um dos únicos momentos de todo esse tempo em que eu estive em paz”.

O rosto dele estava completamente relaxado. Os traços eram fortes, e ao mesmo tempo suaves. Os olhos verde-oliva semicerrados olhavam as próprias mãos, que estavam entrelaçadas.

Peixes sorria de canto de boca, observando as feições do maior e satisfeito com o avanço. Ao ter se posicionado contra o tratamento que anteriormente era dado a Scorpio, conquistou um pouco da confiança dele.

Aquilo era tudo o que ele tinha. E não deixaria escapar de jeito nenhum.

O Primeiro Reino estava em constante tensão com os Caídos. Ataques, pequenas batalhas e investidas eram frequentes nos dois lados. Se os anjos de alta patente ao menos desconfiassem que Scorpio esteve em um local de conflito, poderiam afastar Peixes do caso e usar de seus próprios métodos para extrair informações.

Peixes terminou de contar as histórias de Sagitário, rindo de vez em quando e gesticulando quando não sabia se expressar. Mordiscava o doce que tinha trazido, oferecendo pedaços ao mais velho numa frequência quase incômoda.

Num sobressalto, lembrou-se que tinha que encontrar Capricornio. Levantou-se e desamassou suas roupas. Scorpio o assistia, curioso.

“Tenho que ir. Se precisar de algo, peça aos carcereiros e eles me deixarão saber.”, e, dizendo isso, saiu fechando a porta.

Caminhou em direção à familiar sala de reuniões. Capricornio concordara sobre a ausência de relatórios escritos, mas ainda tinha que se reportar a ele.

Bateu na porta.

“Entre.”

Ele girou a maçaneta dourada e obedeceu. Capricórnio escrevia incessantemente, seu café da manhã intocado na mesa.

“Olá, Peixes. Bom dia. Algum progresso?”, perguntou ele, tirando momentaneamente sua atenção das pilhas de documentos que organizava.

“A maior parte dos ferimentos dele se foram. Em uma ou duas semanas creio que ele estará completamente recuperado — com exceção da cicatriz das asas, é claro.”

“Alguma pista de como ele as perdeu?” Capricornio perguntou com interesse. Sob os olhos, bolsas que denunciavam as noites mal dormidas. A camisa mal abotoada amenizava o contraste entre o seu refino e o desleixo de Peixes.

“Não, senhor”

“Algo mais? Qualquer coisa?”

“Não. Nada”, Peixes respondeu. Ele odiava mentir. Não porque era errado, mas porque era péssimo fazendo isso. As mãos suadas estavam escondidas atrás das costas, e ele olhava com firmeza para o mais velho, procurando transmitir toda a confiança que podia.

Capricórnio apertou os olhos, encarando o garoto com cabelos azulados pelo que pareceu o segundo mais longo da vida dele.

“Tudo bem. Dispensado”.

Assim que Peixes deixou a sala sentiu os ombros relaxarem e a tensão em seu corpo diminuir. Caminhou por entre corredores e pátios até uma pequena clareira, coberta por grama e dentes-de-leão, que abrigava em seu centro o seu lugar preferido daquele mundo.

A biblioteca celestial tinha aparência externa de uma velha cabana, mas por dentro, era o maior lugar em que ele já havia estado. As janelas iam do piso ao teto, e a luz que invadia o ambiente banhava todos os escritos.

Ele sabia que a culpa pela mentira o invadiria mais tarde, mas até lá, ele teria tempo de investigar a história de Scorpio por si mesmo. Nas estantes, pegou vários arquivos e levou-os à sua mesa preferida, sentando-se confortavelmente. Teria muito em que trabalhar pelo resto da tarde.

Notas finais
Hey, delícias! Tô em amor com vocês no facebook. Vocês são umas lindas, dá vontade de pegar e guardar num potinho. Vi uma moça comentar que essa era uma das fics preferidas dela de Zoróscopo, me derreti. Quero morder todas. Esse capítulo foi meio chato de fazer. Não aconteceu muita coisa nele. Creio eu que daqui uns dois capítulos a ação de verdade começa. Isso é um alívio pra mim, que detesto rotina e coisas paradas. Ah, daqui a alguns capítulos o título da fic será explicado também muahahahaha By the way, os títulos dos capítulos remetem as emoções do Peixes. Kashmir, por exemplo, representa a dualidade e o dilema dele. Quero colocar mais os outros Zodíacos na história, mas é complicado, já que Peixes convive essencialmente apenas com Sagi, Libra e Scorpio. Tentarei pegar mais os outros, prometo. Enfim, é isso. Espero que tenham gostado. Espero mesmo. Beijos mil.