Caius

5 V. Finalmente...


Notas iniciais
Oi....Comentem tá? ;)

O ambiente entre os dois havia ficado frio. Na escola, quando se viam, ela simplesmente desviava o olhar, e ele acabava por fazer o mesmo. Era como se mesmo nunca tendo existido nada entre eles, algo se tivesse quebrado, morrido. As amigas da rapariga já tinham notado a diferença no espírito dela de dia para dia:

– Que se passa? – Diz-lhe uma delas.

– Nada…- Dizia olhando para o céu, como se esperasse uma resposta à pergunta que a atormentava:

–“QUEM ÉS TU, CAIUS?”

………….-…………-…………

A situação com Caius também não ia melhor:

–“Nem sequer lhe perguntei o nome…”

……….-………….-…………

Ambos queriam ir ter um com outro mas … valeria a pena? Ela sabia que ele não lhe iria contar nada do que ela queria ouvir, ele sabia que não lhe poderia contar nada do que ela queria ouvir… Preferiram continuar a evitar-se…

Mas isso era impossível…Algum dia se haveriam de encontrar, mesmo não querendo.

Ela havia decidido ir dar uma volta quando as aulas acabassem, as amigas tinham combinada ir ao cinema, jantar e depois karaoke. Ela não estava com disposição, queria estar sozinha. Quando deu por si estava perto do parque onde havia conversado pela primeira vez com Caius. Enquanto se aproximava apercebeu-se da presença de alguém sentado no baloiço.

O coração dela disparou como uma flecha, dando-lhe apenas tempo de levar a mão ao peito. Aquele cabelo era inconfundível: um branco esmalte, que se esbatia com a luz do sol. O corte era simples mas perfeito: curto o suficiente, caindo num leve escalado, que começava no pescoço e acabava por cima dos seus belos olhos cor de mel. Apenas a cara se igualava na perfeição do cabelo. A cor da sua pele acompanhava quase o cabelo. Quando o sol lhe batia quase que ela podia jurar que reluzia.

Tentou aproximar-se dando um passo em frente:

–“Não…” – E recuou outra vez à posição inicial. – “Ele…ele…não me…. Não vale a pena…” – E quando ela se preparava para virar as costas e desaparecer, ele olhou para trás…como se tivesse percebido a sua presença. Ela parou e olhou para ele na esperança que ele lhe desse algo que consentisse a sua aproximação. Eis quando ele sorri levemente, e põe a mão no outro baloiço como se pedisse que ela se sentasse…

Devagar ela dirigiu-se até ao baloiço e sentou-se. Nenhum deles disse nada. Ela olhava o horizonte, ali perto passava um rio que completava o quadro como se tivesse sido pintado à mão.

– O que tu esperas ouvir, pode não ser exatamente o que tenho para te contar… — Começou ele.

– Eu sei, mas mesmo assim quero saber.

– Muito bem. Apenas peço duas coisas: primeiro o que ouvires, não pode ser repetido por ninguém a não ser por mim; segundo não precisas de ter medo.

Ela assentiu continuando com os olhos postos no horizonte, ele virou suavemente a cabeça indo de encontro à visão que ela contemplava.

– Desde que me lembro que sempre fui assim. Desde que me lembro de ser gente, as únicas recordações que tenho são de passar muito tempo fechado dentro de um quarto a brincar sozinho, sem saber porquê. Quando tinha seis anos lembro-me de um dia os meus pais virem ter comigo, pedirem-me para me sentar. A minha mãe ajoelhou-se à minha frente o meu pai sentou-se ao meu lado:

– Filho, há uma coisa que precisamos de te contar…

– Mas tens que ser forte…

– Sabes, existe uma razão para tu estares sempre no quarto e não puderes brincar com os outros meninos. Quando tu nasceste a mãe e o pai notaram que se passava alguma coisa de especial contigo… Sempre que tu ouvias alguma coisa tu decoravas, como se tivesses uma memória fora do normal… uma espécie de memória fotográfica, com uma diferença é que tu decoravas tudo o que ouvias… e não o que vias…

– Sim, filho, a princípio pensamos que pudesses ter algum problema de saúde por isso levamos-te imediatamente ao médico…

– O problema é que por mais médicos que procurássemos todos diziam o mesmo: “Ele é saudável… Não encontramos nada que possa causar-lhe essas…complicações neurológicas…”

– Houve até alguns que nos aconselharam a internar-te para te estudarem, mas nós sabíamos que tu tinhas alguma coisa…Foi então que começamos a tentar encontrar pessoas que fossem especiais como tu…

– E encontramos…

– Sim, encontramos pessoas que eram abençoadas com dons especiais: Visão ampliada; força fora do normal; olfato aguçado; audição amplificada… Tudo talentos que nasciam com eles, é como se tivessem algo…perfeito, que não precisa de ajustes… percebes?

–Acho que sim, pai… então é isso que eu tenho nos meus ouvidos?

– Sim, filho… é mais o menos isso…o talento que tu tens chama-se Gene Completo. É uma espécie de célula que quando tu foste concebido se desenvolveu muito mais do que as outras dando-lhe um funcionamento acentuado, que amplifica a sua função 100 vezes acima das pessoas normais…

– Por isso tu ouves e a tua memória processa a informação e comprímia 100 vezes mais que a nossa, fazendo com que tu possas armazenar muito, muito mais que nós…

– Então, eu vou ser assim para sempre?

– Sim querido.

………….-………….-………..

Ela olhava-o surpresa, como se tivesse recebido uma informação que ela esperava e já desconfiava, mas mesmo assim não esperava …

Ele rematava:

– A partir desse momento passei a ter mais cuidado com o que ouvia. Nos primeiros anos, pude ficar em casa, mas depois tive que ir para e escola. Foi aí que os meus pais perceberam que o meu suposto ”dom” tinha uma defesa: se eu ouvir algo repetido essa informação não é assimilada. Ou seja, se eu ouvir algo duas vezes só gravo uma, por assim dizer. Por isso passei a andar sempre com auscultadores, e a ouvir sempre as mesmas músicas, para não gravar muita coisa, pois existe a possibilidade de um dia a minha memória não conseguir reter mais e …eu esquecer tudo.

O olhar de surpresa dela tinha desaparecido e tornava-se triste e compassivo… E olhava-o:

– Se isso acontecer eu estarei aqui para te lembrar de tudo, pelo menos que te salvei…(E sorriu ligeiramente enquanto lhe piscava o olho).

Caius sorria-lhe de volta, finalmente tinha encontrado.

– O teu nome qual é?

– Vitória…

– Tal como eu pensava, combina perfeitamente…

Notas finais
Então? Mau? Muito mau? Horrível?