Caitlin
1 Capítulo 1
Naquela manhã o céu estava nublado, nuvens carregadas e cheiro suave de chuva. Não me importei de ficar alguns minutos a mais na cama, embora eu goste muito de tempos chuvosos, a sensação confortável de estar na cama era indescritível. Sem Brandon na cama vizinha, fazendo suas esquisitices de sempre como sussurrar e rir com Tody, seu amigo imaginário, o quarto parecia maior, quase vazio se não fosse por Louis, meu hamster de estimação.
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Pouco antes de ser trazido para cá, minha mãe me deu Louis, disse que ajudaria no meu tratamento ter um “amigo”, com quem conversar – como se ele fosse me corresponder de alguma forma – e logo estaria em casa novamente. Talvez isso tenha mexido com Brandon, me lembro que assim que cheguei havia um garoto deixando a clínica, se parecia muito com ele, poderia dizer que eram gêmeos se não fosse pela diferença no tamanho, e no formato das maças do rosto. Brandon chorava muito, como uma criança, tendo seu brinquedo favorito tirado de suas mãos. Quando cheguei no quarto o encontrei debruçado na cama, me apresentei mas não fez tanta diferença, nem mesmo fui notado, tudo o que fazia era chorar.
Depois de duas semanas, sendo um invisível, acabamos conversando pouco antes de dormir. Ele me explicara de sua cama que seu irmão era o único com quem podia contar, era seu melhor amigo, e não havia tido outro colega de quarto desde que chegou na clínica. Tentei ser o mais compreensível que podia já que não deve ser nada fácil ter um estranho na cama ao lado, ainda mais depois que já se acostumou com um colega de quarto, mesmo não sendo seu próprio irmão.
E então surgiu Tody. Acho que foi uma maneira de se adequar a tudo o que acontecia, já que no meu caso, um pequeno tufo de pelos amarelados com uma camada branca no peito, sempre estivera ali, em sua gaiola pronto para me ouvir enquanto se exercitava em sua esteira de formato oval.
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Enquanto apreciava o nada, olhando para o teto de tom branco com pequenas rachaduras em vertical, como raios prontos para atingir um galho seco de arvore, ouvi o estalo da maçaneta da porta que se abrira. Bill estava usando o mesmo uniforme branco como sempre desde que cheguei.
- Cinco minutos para a medicação. – Disse com rapidez, deixando a porta entreaberta e movendo-se como um vulto para o alerta em outro quarto.
Revirei o lençol da cama enquanto ainda me espreguiçava, esticando ao máximo meu corpo e sentindo o gelado agradável da trave que compunha o lado inferior da cama com os dedos do pé. Por fim joguei o edredom que cobria parte do meu abdômen para o lado e levantei, caminhando até o banheiro.
Como de costume Brandon tinha deixado a pasta de dente aberta, a tampinha estava no fundo da pia. Tentei não pensar em qual seria a dificuldade de rosquear a tampinha novamente para ele, mesmo sendo tão fácil quanto abri-la. Abri o compartimento com as escovas e peguei a minha, era de um azul cristalizado obviamente de plástico, e quando fechei a porta fique me vendo no espelho. Meu rosto se parecia com o de um cientista louco, meu cabelo estava bagunçado, desmanchando os cachos que rosavam com os cílios dos meus olhos com as pontas desiguais.
Escovei os dentes e joguei uma água no rosto, me livrando da franja que agora com as pontas um pouco molhadas, tamparia totalmente minha visão com uma passada de mão. Me certifiquei de que tinha fechado a pasta, calcei os chinelos e caminhei em direção a porta.
No largo corredor de paredes brancas, a fila para pegar a medicação já se tornava grande, notei que Brandon estava no início, logo atrás de Matheus. Ele me viu e acenou com a cabeça positivamente com um sorriso no canto da boca, retribui balançando a cabeça de volta.
Bill passou pela fila direto para dentro da pequena sala onde ficavam os medicamentos. Havia uma espécie de janela com grades no centro na parede que nos separava, obviamente para que nenhum de nós acabasse pegando algum comprimido escondido e acabasse corrompendo o processo do tratamento. No começo, até tentei pegar alguns antidepressivos mas minha mão acabou ficando presa entre as grades e Bill teve que chamar o corpo de bombeiros para me tirar dali, quer dizer minha mão, eles acabaram por cerrar as grades que deixaram algumas marcas avermelhadas ao redor do meu pulso, e Bill teve que trocar a grade. Isso acabou me levado a ficar uma semana no quarto do castigo, com paredes forradas de espuma branca e porta forte, como uma cela, uma solitária.
Depois de tomar sua pílulas, Brandon passou por mim e eu o puxei gentilmente pelo ombro.
- Cara você deixou a pasta aberta de novo.
- A foi mal, vou me lembrar de tampar na próxima. – Ele deu aquele sorrisinho irônico novamente enquanto falava.
Não estava entendendo qual era a graça, fechar uma tampa de pasta de dente era o máximo que poderia fazer já que nem a cama conseguia arrumar depois de se levantar.
A fila continuou andando até que chegou minha vez. Bill soltou o ar com uma bufada e me deu minha dose, sempre reduzindo a medição, para que eu me desintoxicasse aos poucos. Coloquei os comprimidos na boca e engoli, mostrando depois para Bill ter certeza que avia engolido. Enquanto voltava para o quarto, notei Brandon na sala de lazer sentado com Matheus olhando gibis de heróis, quando me viu soltou outro sorriso, o que já estava me deixando furioso, como se eu fosse algum tipo de palhaço.
Coloquei os chinelos perto da cômoda ao lado da cama e caminhei até a escrivaninha de verniz esbranquiçado, peguei uma semente no saquinho transparente e dei para Louis que corria na esteira esférica cor azul, ele parecia feliz com a semente listrada em preto e branco, então o dei mais uma e ele colocou de lado, já que tinha comido a primeira, e voltado para a esteira.
Liguei a torneira para encher a banheira e tomar uma banho, e foi quando ia pegar minha toalha que percebi o porquê das risadas. O espelho me mostrava que ainda estava de pijamas, havia ganhado da minha mãe a muito tempo e não percebera que já não era do meu tamanho, o amarelo berrante da camiseta da frota estelar de jornada nas estrelas me fazia parecer uma piada junto com o shorts em tons de vermelho tomate. Respirei fundo e até soltei uma risada pelo canto da boca, balançando a cabeça enquanto pegava a toalha no braço da cadeira e ia direto para a banheira.
A água estava morna, nem quente e nem fria demais, na temperatura perfeita. Estiquei as pernas tocando a torneira com os pés e descansando os braços na borda da banheira, respirei fundo pensei na cena da fila com o tal pijama e ri mais uma vez, eu me tornara uma piada interna, relaxei e fechei os olhos cochilando.
Acordei com Brandon me chamando do quarto.
- Owen, ei! É melhor acordar ou vai acabar morrendo afogado ai dentro. – Ele gritava da porta sem muito esforço, batendo a porta enquanto saia.
Levantei meio a um pulo espirrando água pelo banheiro todo. Alcancei a toalha e me sequei indo para o quarto me vestir. Coloquei a primeira calça jeans que formava a pilha bem distribuída na gaveta, uma camiseta com tom cinza sem estampa e meu All Star cano médio preto surrado. Dei mais uma espiada em Louis, que adormecia de barriga para cima deixando sua mancha esbranquiçada a vista. Sai do quarto.
Encontrei com Matheus e Brandon na sala de lazer, jogavam cartas no tapete que se destacava em listras e ondas de cores quentes, não entendi bem o tipo de jogo mas pela cara de Brandon com certeza ele ganharia. Sentei no canto do sofá, encostando a cabeça no braço e colocando uma almofada sob o meio das pernas. O dia estava passando sem presa e ficar olhando os dois jogarem não era muito animador, levantei e fui até a cozinha, Bill estava descarregando caixas de remédios que acabara de chegar e me fitou enquanto ia em direção a bancada com um fruteira de aço.
- Serio, porque não ficou com o seu uniforme estelar. – Disse dando uma gargalhada enquanto colocava uma caixa no chão.
Peguei uma maça e sai, o que nunca usarão um pijama na vida.
Voltei para a sala em direção de uma estante com livros, não eram muitos nem muito conservados mas poderia quebrar o galho por um momento como esse.
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Geralmente temos uma noite para jogos, onde participávamos de gincanas ou mesmo games relacionados a lógica como xadrez e gamão. Em determinadas datas podíamos sair como um passeio no parque ou tomar sorvete, sendo uma vez a cada bimestre, eu já havia saído duas vezes, contando com o fato de que fazem quase sete meses que residia na clínica. A primeira vez fomos a um aquarium, foi bom tirando o fato de que a neve tornava o ambiente pouco menos aconchegante do que quando saímos pela segunda vez, foi em um fim de outono. As últimas folhas caiam das arvores secas, e o parque parecia coisa de filme, me lembro de deitar no gramado e me sentir sem precisar de nada, a depressão não parecia mais estar ali, comigo. As primeiras cotas de chuva caiam em meu rosto me dando a sensação de liberdade, então a Sra. Wilson nos mandou voltar para o ônibus para retornarmos a clínica, enquanto corríamos espirrando água entre as folhas que já estavam no gramado, livres dos galhos que as prendam a arvore.
E havia noites de cinema, onde podíamos escolher os filmes sendo que a cada mês um escolia, ou quando tínhamos visitas de nossos familiares. Minha mãe sempre me trazia uma torta de limão – minha preferida – e ficava um tempo comigo antes de ir embora.
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Tinha um que me chamou a atenção pela capa, havia duas mulheres, uma com vestido claro e cabelos castanhos, bochechas rosadas, a outra mais sombria com vestido escuro e cabelos em mesmo tom, preto. Folhei as páginas esbranquiçadas com cheiro de coisa antiga parecia interessante, Razão e Sensibilidade era o título, o coloquei de baixo do braço e votei para o sofá num salto fazendo com que as almofadas caíssem em meio ao jogo dos garotos.
- Foi mal. – foi o que consegui dizer com um pouco de vergonha.
Matheus atirou a almofada de volta em mim, quase derrubando a maça da minha mão. A sinopse apresentava narrativas de tramas de amor e desilusão, de duas irmãs que procuram encontrar o amor verdadeiro, sendo órfãs e pertencentes a pequena nobreza enfrentando um mundo aristocrata. Marianne é a romântica, a musical e Elionor a prudência e o decoro.
Folhei mais uma vez as páginas fitando a capa e fui direto para a página cinco, prefacio de edição de bolço, “Celebro e Coração”.
“[..]Após a morte de Henry Dashwood, sua esposa e filhas – a sensata Elinor, a romântica Marianne e a jovem Margaret – veem-se subitamente empobrecidas e obrigadas a trocar sua confortável mansão por um pequeno chalé em Barton Park. Enquanto Elinor é controlada e cautelosa, Marianne demonstra abertamente seus sentimentos, recusando-se a adotar a conduta hipócrita que é esperada dela. Apesar de sua prudência, Elinor torna-se cada vez mais apegada a um homem inacessível. Marianne, por sua vez, descobre que seu temperamento afetuoso não é suficiente para garantir sua felicidade. As irmãs enfrentam grandes desafios em suas vidas amorosas e são forçadas a encontrar o equilíbrio entre razão e emoção antes de conquistarem o verdadeiro amor. [..]”
Ouvi passos de salto debatendo contra o chão com firmeza, era a Sra. Wilson, passava rapidamente em direção a sua sala. Mas não estava sozinha, havia uma garota, não tinha a visto ali antes. Era nova na clínica.
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