Caitlin
2 Capitulo 2
Seus cabelos ruivos, na altura do maxilar, eram de um brilho intenso se aproximando de um laranja abobora, que se destacavam meio ao rosto em formato oval. Sua roupa era despojada, calça clara e uma camiseta na cor rosa estampada com ursos, seguida de uma bota até os joelhos.
Sua pele gelidamente pálida se transformara em avermelhada, enquanto a Sra. Wilson a segurava pelo braço, conduzindo-a até sua sala. Bill apareceu logo atrás apresado, com duas malas nas mãos.
Olhei para Brandon e Matheus, mas eles nem pareciam ter notado a garota nova, estavam mais conectados pelo jogo do que eu com o meu livro. Tentei voltar para onde havia parado, mas não consegui continuar.
Fechei o livro, me levantei do sofá colocando a almofada de lado e guardando o livro na estante, caminhei até o corredor, em direção ao quarto.
Louis ainda dormia, mas a posição já não era a mesma, estava de lado, virado para a parede da gaiola, eu me perguntava, o que há de tão legal em ficar correndo em uma esteira de forma redonda. Parecia engraçado e ao mesmo tempo sem proposito.
Joguei o que restara da maça na lata de lixo próxima a escrivaninha, e alcancei o mp3 que estava na gaveta superior a esquerda. Joguei-o na cama e fui para o banheiro trocar a roupa, coloquei o pijama já que estava por perto e voltei para a cama.
Deitei na cama me ajeitando entre o edredom e o colchão colocando os fones de ouvido. A música era ritmada, suave mas de bom tom. Lá estava eu, olhando novamente para o branco do teto imperfeito enquanto a música percorria por meus ouvidos e eriçava os pelos de meu braço. Era como uma sinfonia, podia sentir o som do violino rangendo enquanto a voz soava perfeita, meio a batidas e o tilintar da orquestra, era come se eu estivesse lá, ouvindo pessoalmente de um canto qualquer.
Minhas pálpebras começavam a pesar, os cílios semicerrados entre si. Bocejar me pareceu um movimento tão involuntário que só percebi quando meus olhos enchiam-se de lagrima, o sono era certo. Adormeci.
Brandon estava quieto debaixo do edredom na cama vizinha. Louis corria sem fadiga na esteira azulada, olhei o despertador na cômoda, quase duas da manhã, havia dormido durante muito tempo e com certeza não conseguiria adormecer novamente tão cedo. Levantei, os chinelos estavam onde havia deixado, calcei e caminhei até a porta abrindo sem fazer muito barulho.
O silencio deixava os corredores assustadores no meio da noite, mas ainda assim não estava totalmente escuro, Bill estava de prontidão na salinha próxima a porta de entrada da clínica, a luz acesa, então fui para cozinha tomar um copo d’agua.
Acendi a luz da cozinha e apanhei o copo no armário. Na geladeira havia uma jarra de suco, pelo tom amarelado, diria que de laranja, mas ainda sim preferi pegar a garrafa de água na porta. Enquanto Bebia ouvi um barulho, Brandon, pensei comigo mesmo, coloquei o copo na bancada e guardei a garrafa me ajeitando perto da porta pronto para surpreende-lo com um susto.
Enquanto esperava percebi que não era Brandon, era a garota, a novata. Estava com algo que parecia ser uma jaqueta escura, uma calça em roxo fosco e de bolinhas e uma pantufa rosa. A observei com cuidado, tentando não chamar sua atenção, mas parecia que essa também era sua intenção, não chamar a atenção.
Ela se agachava, como um bebe quando para engatinhar, e ligeiramente atenta passava por baixo do grande vidro na parede da sala em que Bill estava, distraído com a tevê, apanhando um molho de chaves pendurado no painel, seguindo porta afora.
Apaguei a luz e caminhei para a porta do meu quarto, girei a maçaneta e parei, não deveria deixa-la ser pega, entraria em uma enrascada e acabaria no quarto do castigo assim como eu. Não seria nada legal. Ela era nova ali, não sabia o que aconteceria.
Talvez fosse a maior burrice que faria mas ainda assim não podia voltar mais atrás. Fechei a porta e me pus de quatro no chão, pronto a engatinhar até a porta de entrada e segui-la.
Ao contrário da clínica, lá fora estava frio e eu ainda estava de pijamas, sentia o vento gelado em minhas pernas, e já não podia voltar para vestir alguma coisa decente, iria perdê-la de vista então corri. Podia ouvir seus passos enquanto corria para o lado em que ficava o metrô, próximo à esquina da clínica, não hesitei, continuei correndo até que a vi descendo as escadas. Ela entrou no vagão que ia em direção oposta à que estávamos, entrei pela porta do outro lado e a vigiei de longe. Estava calma, parecia saber a onde estava indo, o que estava fazendo.
Para uma hora daquelas, o vagão estava meio cheio o que me surpreendera já que nunca havia saído naquele horário, ou melhor saído da clínica, a essa altura Bill já deveria ter dado falta de dois pacientes e acionado a polícia.
Depois de três estações ela desceu. Seguimos para a escadaria em direção à rua e caminhamos durante mais um tempo, até entrar em um beco, que nos levara instantaneamente para uma outra rua. Havia uma placa em cores neon brilhando, não consegui entender do que se tratava mas pela enorme fila que se formava tinha certeza de que era uma boate.
Ela entrou na fila tirando seu casaco e o colocando de lado em uma lixeira, sua roupa era um pijama, assim como sua calça sua blusa era de bolinhas. Todos estavam de pijamas, não seria tão engraçado como na manhã anterior, se eu não fosse o único a estar de pijamas, como nesta fila. Quando chegou sua vez, aproximou-se do leão de chácara, de pantufas com tom verde escuro e olhos de sapo e um óculos escuro. Ele a examinou bem e depois de alguns minutos deixou que ela entrasse.
Soltei um suspiro, pegando coragem e caminhei até a fila, que já não era mais tão grande como antes. Me aprestei diante da grande montanha de pantufas verdes, ele me analisou com frieza, abaixou os óculos e disse.
– Belo pijama, capitão. Curta bem a festa. – Ele rira de modo desconcertante.
Passei por ele resmungando baixo, será que havia algum problema em gostar de jornada nas estrelas.
As luzes fluorescentes se destacavam em meio a luz negra, a música era agitada e absurdamente alta, alguns pijamas brilhavam entre os flashes de luz. Nunca havia ido a uma raive, nem mesmo sai do meu quarto escuro. Passava maior parte do meu tempo lendo, ou me lamentando da vida, de como não gostava de nada e como tudo não passava de um simples momento fútil, que não demoraria a acabar. E então minha mãe me passou com um médico, Doutor Travis, que me diagnosticou como depressivo e me passou uma lista de remédios, que acabei não conseguindo progredir sem, me viciando, tomando doze, até mesmo vinte comprimidos por dia, o que me levou a clínica.
O problema era que já não estava na clínica e sim em uma raive, procurando por uma garota de quem nem sabia o nome, e provavelmente em apuros quando voltasse.
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