Uma leve camada de neblina pairava sobre pantufas e chinelos que saião do chão e voltavam em saltos extravasados. Luzes de cores aleatórias se perdiam na imensa escuridão que abraçava o grande salão. Verde, roxa, azul, amarela, uma após a outra se entrelaçando no ar. A música ensurdecedoramente alta, ritmada de longas pontadas, bipes e baques alternados com ondas sonoras auditivas assustadoras. Entorpecente. Os braços alavancados para cima envolvendo o espaço entre uma palma e outra.

Meio a multidão que se esbarrava com sutileza estava ela. O corpo mole, cabeça embalada pelas ondas que percorriam o salão em notas agudas, as mãos acima da cabeça em um tipo de ritual, como se estivesse em transe ou algo assim.

Eu a encarei sem querer chamar a atenção, andando entre os corpos eletrizados pela música, indo em sua direção com sutileza, em meu tempo.

E então ela se voltou para min. Os olhos me colocando em um tipo de hipnose que não conseguia sair, não poderia.

Poucos passos e estávamos frente a frente, a tensão subia sob minhas pernas revirando meu estomago e parando em minha garganta. Seus olhos esverdeados se perdiam sob a grande bolota preta de sua pupila, que dilatada tornava seu olhar mais hipnótico. Seus dedos gelados tocaram os meus impulsionando minhas mãos para cima se juntando com os dela à deriva entre os flashes de neon. Sua respiração era calma em comparação com a minha, ofegante, como se dependesse de um tubo para asma ou coisa do tipo.

Descendo os dedos por meu braço, como água escorrendo sob uma montanha, apoiou-se em minha cintura conduzindo-a com um leve impulso de onda, fazendo com que eu a acompanhasse, entrasse no frenesi da música assim como ela. Os movimentos delicados.

Por fim abaixei minhas mãos que pesavam sob meu braço, tirando uma mecha de cabelos de seus olhos. Linda. Os traços de seu rosto eram únicos, agressivos e ao mesmo tempo delicados, como se tivessem sido desenhados. As bochechas de um rosa eminente apesar da pouca luz, lábios firmes, molhados com cheiro de uva, brilho labial.

Ela abriu a boca a ponto de deixar a língua visível, em seu centro um pequeno quadrado de cores vibrantes, uma carinha alegre desenhada. Me olhou mais uma vez e então suas mãos subirão até meu pescoço, seus dedos desenhando em minha nuca, entrelaçados entre um fio e outro de cabelo. Eu a olhei com ar de “melhor não fazermos isto”, e ela retribuiu com o que parecia ser “confie em min”.

Seus lábios eram macios. O LSD passando de sua boca para a minha, entre um encontro de línguas e outro. Afastou os lábios dos meus. Enquanto abria os olhos pude ver um leve sorriso de canto, o que me fez passar os braços por sua cintura e a aproximar para outro beijo.

A pequena tira de carinha alegre passou entre nossas bocas diversas vezes até que percebi não estar mais comigo.

Já não estava rígido como antes. Pulava, viajava ente uma música e outra, entrando em sintonia com o que acontecia ali, as pontadas, o ritmo. Não tinha com o que se preocupar. Tudo o que precisava parecia ser estar ali, com ela, minha anestesia do real.

Nos perdemos meio à multidão que percorria grande parte do salão, por mais que eu tentasse não tinha total controle por minhas ações, o LSD fez efeito rapidamente.

As cores já não tinham o mesmo tom que antes. Saltavam como se estivessem prestes a explodir no espaço. Um big bang de cores fluorescentes. Nada mais parecia de grande importância, mas alguma coisa ainda não estava certo em tudo aquilo.

Esbarrando nos ombros encharcados de suor das pessoas que pulavam e rodavam, ela me puxou até chegarmos em um balcão de madeira, a cor parecia verniz mas no meu estado poderia jurar ser um espelho pelo modo como refletia nossas imagens. Minha testa brilhava por conta do suor da pista de dança, meus cabelos bagunçados, com as pontas visivelmente olhadas.

Ela olhou para mim e gritou para o bar men “Duas do de sempre”. Tentei raciocinar o que ela queria dizer com “de sempre”, será que frequentava a tal boate com muita frequência? De qualquer forma, não importava, só queria curtir e não pensar demais como sempre fizera com tudo.

Não demorou muito para que o bar men voltasse. Sua blusa era escura aparentemente alguma coisa relativa com o preto, possuía uma posseira no pulso que se entrelaçavam como nós em uma corda com pequenas bolinhas coloridas em uma das pontas, sua cabeça era raspada.

– Aqui está Cat, vê e não exagera dessa vez. – Eles pareciam se conhecer a um bom tempo.

Ela soltou outro sorriso, mas dessa vez direcionando-se para o bar men.

Os copos eram pequenos, a bebida se destacava em um verde que se ofuscava em neon vivo. Ela pegou o que estava em sua direção e me esperando em uma posição de brinde ergueu o copo, não demorei muito, apesar de não saber ao certo o que aquilo faria comigo, segurei o copo gélido em posição de brinde e depois de uma troca de olhares viramos a bebida.

Não consegui distinguir o gosto de alguma outra coisa que já havia bebido, mas pude sentir o amargo que poderia ser de alguma erva ou algo similar.

Voltamos para a multidão enlouquecida.

As coisas giravam em ao meu redor, uma brincadeira que não se parecia nada como os rodopios de quando se é mais novo, agora era como se eu fosse o eixo de turbina. Vultos e imagens mal formadas, mas com uma exceção. Aquele ponto ruivo em minha frente.

Me sentia tonto, perdido em um monte de pessoas como se um furação os tivessem levado a um mesmo ponto, permanecendo juntos, formando um moinho de gente. De repente dedos formigam em meu braço direito e então sou puxado para fora do moinho.

Não demora muito para que eu perceba que já não estou mais dentro do grande salão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.