Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
18 Grande família feliz
Notas iniciais
Damien olhava consternado para a zona na sua sala.
Não fazia nem dez minutos que os gêmeos e Charlie haviam chegado para passar o final de semana com eles e já haviam virado tudo de cabeça para baixo.
“Ah, cara, o Taylor vai me matar quando voltar”, pensou.
O médico ainda não havia chegado em casa e, quando chegasse e visse aquela bagunça, teria um infarto.
Mas era tudo culpa de Carl! Ele simplesmente apareceu mais cedo e largou as crianças lá.
– Eu e Dakota queremos namorar. Eu tenho pena da minha mãe lidando com esses três então, você, como padrinho, vai cuidar deles hoje. Valeu? Tchau!
E foi embora sem nem dar chance para que Damien dissesse um redondo “não”.
Aquela semana passou meio que voando. Ele havia começado a ir, aos trancos e barrancos, de madrugada com Taylor para academia nas duas últimas semanas. Era algo meio: “Despertador toca. Desliga a porcaria. Vontade de dormir. Imagens mentais de Taylor sorrindo para o instrutor. Damien pulando da cama desesperado e indo tomar banho para ir com o médico”.
O ruivo evitou um pouco tocar em Taylor naqueles dias. Ele ainda não tinha muita certeza de por que o médico andara estranho antes, se foi por culpa ou não dos seus toques nas últimas vezes, então preferiu evitar e só encostar quando fosse muito necessário. Era uma tortura porque Damien queria muito ir dormir na cama do médico, mas ele se contia bravamente.
– PADRINHOOOOOOOOO! A CHARLIE CAIU! – Phil gritou fazendo com que Damien arregalasse os olhos e corresse até o quarto.
Outra zona.
Charlie estava estatelada no chão e os gêmeos pulando na cama.
– O que aconteceu, Charlie? – Damien perguntou à menina que chorava. Ela não parecia ter machucado nada.
– Ela caiu da cama enquanto tentava pular com a gente. – Oliver respondeu enquanto tentava saltar mais alto.
– Os dois! Desçam já daí! – Damien tentou usar o tom de autoridade, mas foi ignorado solenemente.
– Eu quero o filhotinho! – Charlie gritou.
Damien inspirou profundamente tentando se acalmar. Tal como Carl previu, a menina fez um escândalo quando chegou para visitar Fubá e não o encontrou. E, sempre que tinha alguma oportunidade, ela gritava dizendo que queria o cachorro.
Decididamente cuidar daquelas crianças era pior do que ficar preso num quarto apertado.
Taylor retornou exausto para casa depois de uma semana cheia. Primeiro, por conta da academia, segundo, por conta da virose que andava atacando as crianças, terceiro porque um novo guideline da área de endocrinologia, sua preferida, havia saído e ele havia gastado várias horas noturnas se atualizando.
Qual então foi sua surpresa quando chegou em casa e se deparou com aquela baderna completa? O médico arregalou os olhos ao ver Phil correndo pelado pela casa, aparentemente fugindo do banho.
– Tio Taylor, tio Taylor! – O menino gritou e correu até ele. – Eu ouvi a vovó falando pro papai que você e meu padrinho vão namorar! É verdade?
Taylor quase caiu para trás com a pergunta.
– Q-Quê?! – Ele balançou a cabeça. – Você certamente ouviu errado, Phillip. Agora, onde estão as suas roupas?
– Sem graça! – Ele exclamou e voltou a correr.
– Phillip Wood Miller! – Damien veio correndo atrás do garoto enrolado só em uma toalha. Ele tentara ajudar (obrigar) os meninos com o banho, porém eles o molharam inteiro ao fazer baderna, então o ruivo resolveu entrar na ducha também (para puxar algumas orelhas). O problema é que o negócio meio que saiu do controle e agora os gêmeos corriam pelados pela casa enquanto Charlie pulava na cama esperando a sua vez de ir tomar banho. – Taylor! – Ele disse aliviado ao ver o médico parado no meio da sala. – Eu não sei o que fazer! Esses meninos não me escutam!
Taylor quase caiu para trás de novo. O que aquele ruivo estava fazendo molhado e só de toalha andando pela casa?! A tontura o atingiu em cheio. Ele realmente precisava dormir. Só um pouquinho! Era pedir demais?
– EM QUINZE MINUTOS TODOS NA SALA PARA UMA APRESENTAÇÃO DE MÁGICA. QUEM NÃO ESTIVER ARRUMADO, DE BANHO TOMADO E DE DENTES ESCOVADOS NÃO PODE PARTICIPAR! – Taylor gritou a plenos pulmões e, exaurido, caminhou para seu quarto. Tomou um banho rápido e depois pegou alguns de seus velhos apetrechos da época em que havia feito um curso de mágica.
Quando voltou à sala, Phil, Oliver e Charlie esperavam-no sentadinhos e comportados no tapete entre os sofás. Os três o olharam cheio de expectativa enquanto se aproximava.
Damien estava encostado em uma parede supervisionando os afilhados enquanto Taylor não chegava para a tal apresentação de mágica. Tudo bem, o ruivo havia pedido ajuda, mas foi um golpe no seu ego como Taylor conseguiu dobrar os três com uma frase. Aí agora ele estava de mau humor assistindo à apresentação. Seria tão bom se os três ficassem quietinhos daquele jeito sempre. Os olhos dos pestinhas brilhavam enquanto Taylor os distraía com as mágicas.
Com um suspiro, o ruivo se desencostou da parede e foi para a cozinha fazer sanduíches para o jantar. Ele podia ligar para tia Camille e pedir para ela mandar a comida, mas Damien desconfiava seriamente que ela não estava sabendo o que Carl havia aprontado, e o ruivo iria (dessa vez) deixar o amigo curtir o final de semana com a esposa em paz. Na segunda, Carl teria uma surpresa com a bronca da mãe.
Enquanto fazia os sanduíches, ele ouvia as risadas das crianças.
Taylor se divertia com as expressões chocadas e admiradas dos pequenos.
– Agora, vou mostrar para vocês a mágica do fogo restaurador! – Falou em ar dramático, deixando os três ainda mais ansiosos. Teatralmente, Taylor tirou um pedaço de papel toalha do bolso e o ergueu à sua frente. – Prestem bem atenção. Eu irei cortar esse papel em seis tiras. – Começou a rasgar, uma tira após a outra. – Vocês podem chamar isso de coisa de médico, mas pretendo deixar esse mesmo papel novinho em folha apenas com o poder do fogo.
– Que fogo, tio Taylor?! – Ollie perguntou. – Não estou vendo fogo nenhum!
– Você vai ver. – Taylor piscou e amassou as tiras do papel rasgado em sua mão. – Mas primeiro, irei transformar esses picotes em uma bolinha... Estão vendo? – Ele moveu habilidosamente as mãos e mostrou a bolinha de papel. – Agora o fogo... Está nesse isqueiro. – Tirou um isqueiro do bolso e o acendeu, movendo-o no ar. – Esse é um isqueiro qualquer, mas com o poder de minha mágica, o fogo dele vai conseguir restaurar a bolinha de papel em minha mão.
– Duvido! – Phil exclamou, mas parecia o mais ansioso dos três.
– Ah, vocês duvidam? – Taylor perguntou, fazendo os pequenos assentirem com a cabeça de maneira inquieta. – Pois então, meus caros, observem...! – Taylor passou o fogo do isqueiro por baixo de sua mão fechada com a bolinha e, magicamente, quando abriu a mão, estendeu o papel como uma toalha no ar, exibindo-o novamente intacto, como se nunca houvesse sido rasgado.
– Uau! Como você fez isso?! – Phil perguntou, enquanto Charlie batia palminhas. O menino se levantou e pulou, agarrando o papel no ar, checando se ele estava mesmo inteiro. – Você tinha rasgado ele!
– Mágica, meu pequeno gafanhoto, mágica. – Taylor falou enigmático e deu tapinhas no topo da cabeça do menino.
A campainha tocou e, pedindo silêncio frente às reclamações que pediam por mais truques, Taylor foi atender. Era o jantar que havia chegado. Taylor agradeceu o entregador, pagou e pegou a comida.
– Quem está com fome?! – Perguntou animado. Ele, ao menos, estava faminto.
Damien observou a algazarra enquanto os três afilhados entraram na cozinha discutindo e tentando descobrir como Taylor havia feito a mágica.
– É mágica! Tio Taylor é bruxo! – Charlie disse maravilhada.
– É claro que não, sua boba, isso não existe! Ele usou um truque! – Phil retrucou. Damien viu que os olhos de Charlie se encheram de lágrimas e ela iria abrir o berreiro a qualquer segundo.
– Phil, seja um bom menino! O Papai Noel está observando a forma como você trata a sua irmã. Quer ganhar carvão no natal? – Damien ergueu as sobrancelhas e o menino imediatamente murchou enquanto ocupava um lugar na mesa.
Jantaram conversando sobre a semana na escola dos meninos e, quando terminaram, eles queriam mais show de mágica, mas Damien percebeu que Taylor parecia bem esgotado e resolveu salvá-lo.
– Eu prometo que se vocês forem dormir levo vocês para ver o Mark amanhã! A Drica disse que ensinou novos truques pra ele. O que acham? – Perguntou.
– Eu quero! – Os três exclamaram animados.
– Eu posso abraçar o Mark? – Charlie perguntou eufórica. Damien fez uma careta ao se lembrar de como o urso o sacudiu na última vez em que o viu.
– Errr... Vamos falar com a Drica, ‘tá? Se ela disse que tudo bem, a gente abraça o Mark. – Damien disse um pouco incerto.
Depois disso, a tropa rumou para o outro quarto que ficava ao lado do quarto do ruivo. Charlie, por ser menor, dormiria com ele. Os gêmeos ficaram um pouco enciumados e correram para o quarto do padrinho.
– Eu mereço... – Damien resmungou. O jeito foi arrastar um colchão até o quarto para que todos dormissem juntos.
– O tio Taylor tem que dormir aqui também! – Phil falou. – O monstro vai puxar o pé dele de noite se ele ficar sozinho.
– Não! Monstro não pode puxar o pé do tio Taylor! – Charlie gritou enquanto abraçava as pernas do médico.
Taylor riu e a pegou no colo.
– Dormindo com a senhorita estarei seguro do monstro. – Falou, deixando Charlie toda orgulhosa.
– Eu acabo com o monstro! – Ela garantiu, abraçando Taylor pelo pescoço. – Chuto a canela dele!
– Essa é minha garota! – Taylor exclamou e ergueu a mão. Charlie sorriu animada e bateu a mãozinha contra a do médico.
Phil resmungou algo sobre Charlie nem ser corajosa, mas um olhar afiado de Damien o fez voltar a calar o bico. Eles colocaram as crianças para dormir e falaram que voltariam logo, pois ainda precisavam ajeitar a cozinhar e arrumar a sala. Nenhum dos dois duvidava que o quarto estaria uma baderna quando voltassem, mas era um risco que teriam que correr.
Enquanto Taylor lavava a louça, Damien já ia secando e guardando no armário. O ruivo perguntou como havia sido o dia e o médico admitiu que o dia na clínica havia sido bastante agitado e cansativo, agradecendo a ajuda e afirmando que faria mais mágicas para as crianças no dia seguinte.
Depois eles foram para a sala, mas Damien desabou no tapete que ficava em frente do sofá.
– Não tenho mais forças. – Disse exausto. – É por isso que eu nunca quero ter filhos. Eles são lindos... Mas bem longe! – Ele olhou para Taylor que catava algumas almofadas e sorriu. – Sabe aquela massagem que você prometeu? Estou cobrando agora.
Taylor parou e o encarou com as sobrancelhas erguidas.
– Agora? Aqui? – Perguntou com as batidas do coração acelerando. – Mas as crianças estão lá no quarto...
– Se eu bem conheço os gêmeos eles estão tentando entupir todas as privadas da casa de novo... E a Charlie deve ter dormido. Já passou da hora dela. – Damien balançou os ombros e girou o corpo para ficar deitado de bruços. – Não seja chato, vai. Só um pouquinho. Eu preciso recarregar as baterias para aguentar a jornada com esses três amanhã. Estou morto. Esse negócio de acordar de madrugada para ir para academia está me matando, aí o Carl ainda me apronta essa justo no final de semana que é quando eu posso dormir um pouco mais.
Taylor revirou os olhos para o drama do ruivo e, vencido, acabou se ajoelhando ao lado dele. Mordeu os lábios mirando as costas largas dele e a forma desleixada e despreocupada com que ele se deitava. Bem, Taylor duvidava que fosse dos melhores massagistas e achava que depois dessa vez, dificilmente Damien pediria por mais uma.
– Você pode sempre voltar a malhar no final da tarde. – Falou. Ainda não havia entendido por que o ruivo insistira tanto em ir no mesmo horário que o seu. – Mas se continuar querendo ir cedo... Estou quase considerando começar a abrir a clínica às nove e te dar mais uma hora de sono. Na maioria dos dias as pessoas começam a aparecer só mais tarde mesmo... – Comentou e colocou as mãos sobre os ombros do mais novo, começando a massagear de leve.
Damien gemeu ao sentir as mãos do médico massageando os seus músculos maltratados. Se não fossem pelas crianças lá no seu quarto, o ruivo iria dormir ali no chão mesmo.
– Eu estou me acostumando com esse horário. Não dá pra dizer: “Corpo, acostume-se porque agora esse é o seu horário!”. Foram anos indo dormir de manhã e acordando no meio da tarde. Mas uma hora eu vou me acostumar. Só é ruim porque eu rendo melhor de noite, mas vou ter que me acostumar com isso também.
Ele estava tão entregue que nem percebeu a gafe que cometeu ao falar sobre render melhor à noite, mas dificilmente Taylor entenderia o que ele quis dizer e muito menos pensaria que isso tinha a ver com o fato de o ruivo passar a noite acordado escrevendo ou desenhando.
– Espera. – Damien se virou, sentou e tirou a blusa. – Assim é melhor. – Continuou sentado, pois se continuasse deitado realmente iria dormir.
Taylor arregalou os olhos, mas felizmente Damien estava de costas e não percebeu a maneira como ficou constrangido. Era difícil encarar aquelas costas largas e braços fortes e não sentir nada.
– Como assim você rende mais à noite? – Perguntou e, tentativamente, colocou as mãos novamente nos ombros do ruivo. A pele dele era quente e macia, branca e com algumas sardas nos ombros. Taylor queria beijar aquelas sardas. Mas ele, obviamente, respirou fundo e se conteve, apertando os músculos contraídos de Damien com mais força.
Damien se arrependeu quase que de imediato por ter tirado a blusa. Ao sentir as mãos quentes do médico em suas costas, seu corpo começou a reagir e toda sensação de cansaço passou. O ruivo só conseguia pensar em virar e prensar Taylor no chão enquanto o beijava. E ficar excitado com três crianças em casa estava fora de cogitação. Ainda mais quando todos iriam dormir no mesmo quarto. Talvez Damien devesse começar a considerar em deixar Taylor com os três no quarto e ir dormir no sofá. Isso. Bem longe do médico e da tentação de escorregar até o colchão dele durante a madrugada.
– Hum? – Ele fechou os olhos e não processou bem a pergunta, demorando um pouco para responder. – Eu fico jogando de madrugada. – Mentiu.
Taylor parou a massagem por um segundo, mas, de repente, ele explodiu em risadas e acabou encostando a testa numa das omoplatas do ruivo enquanto ria.
– Não me diga... Que você é um daqueles geeks que ficam jogando joguinhos online, criando guildas e quests e essas coisas? Meu Deus, isso me lembra meus quatorze anos! – Zombou com a voz entrecortada pelas risadas.
Damien ficou de joelhos e virou para ficar de frente para o médico. Era incrível ver o riso dele. Era contagiante. Cheio de energia e alegria. Mesmo que naquele momento fosse totalmente às suas custas. Mas o ruivo não se importava. Primeiro, porque ele não ficava realmente jogando. Segundo, porque Taylor estava rindo e aquilo era muito melhor do que qualquer massagem para recarregar suas baterias.
Sem pensar muito, o ruivo espalmou uma das mãos no peito do médico e o empurrou para o chão. Ficou sobre ele, sem realmente colocar muito peso porque sabia que era bem pesado para que Taylor conseguisse aguentar.
– Nyah... Gosto daqueles joguinhos para maiores bem pervertidos, sabe? – O ruivo disse com um sorriso malicioso.
Taylor parou de rir assim que o ruivo cobriu-lhe o corpo, nu como estava da cintura para cima. Seus lábios se entreabriram para deixar passar a respiração ofegante tanto pelas risadas prévias, quanto por ter o ruivo sorrindo-lhe daquela forma provocante. O médico não sabia se ele estava tirando uma com a sua cara, ou o quê, mas sua pele pegou fogo de qualquer forma. Apoiado nos cotovelos, Taylor ergueu um pouco o corpo, aproximando seus lábios aos de Damien. Sua mão tocou no abdômen definido do mais novo. Seus olhos presos uns nos outros.
Céus, ele não estava pensando, não estava mesmo!
O coração de Damien falhou uma batida quando Taylor começou a fechar os olhos ao aproximar mais seus lábios. Se aquilo não era um sinal de que ele sentia algo, o ruivo não sabia mais o que poderia ser. Aquela era uma chance e Damien não iria perdê-la! Ele tocou de leve a bochecha do médico enquanto suas bocas encontravam-se a poucos milímetros uma da outra.
– PADRINHOOOOO! – A voz de Charlie vinda do corredor fez com que Damien desse um salto para trás.
Ele olhou assustado e viu que a menina vinha correndo em direção dos dois. Por sorte o grito dela fez com que ele se afastasse antes, e ela não chegou a ver nada de comprometedor. O ruivo suspirou enquanto passava a mão pelos cabelos. Havia esquecido completamente as crianças.
– Padrinho! O Phil me empurrou da cama! – Charlie disse chorosa enquanto abraçava o ruivo.
– Tudo bem. Vamos lá dizer para ele que ele vai ganhar muito carvão no Natal. – Damien respondeu enquanto a pegava no colo. Ele não conseguia olhar para Taylor por causa da vergonha que sentia. Não por quase tê-lo beijado. Mas por ter praticamente feito isso esquecendo o mundo ao redor deles e quase expondo o médico a uma situação constrangedora.
Taylor colocou uma mão sobre a testa enquanto os dois saíam da sala. Respirou fundo, tentando se recompor. Damien havia colocado a mão em sua bochecha... Isso queria dizer que...? “Não, não é bom ficar pensando nisso agora, ou não vou conseguir dormir.” Falou para si mesmo e se levantou, sentindo as pernas fracas.
Corado, Taylor foi também para o quarto. Ele tampouco olhou muito para Damien antes de se deitar na cama com Charlie que, carinhosa, se acomodou pertinho antes de voltar a cair no sono.
Taylor achou por bem fazer o mesmo.
O dia seguinte já começou uma loucura. Taylor, claro, acordou mais cedo que todo mundo e preparou uns lanches para levarem ao parque. Os gêmeos, quando levantaram, já corriam pela casa brincando de lutinha. De alguma forma, haviam encontrado dois tacos velhos de beisebol e disputavam entre si. Charlie tanto insistiu que acabou ganhando garupa de Damien até a cozinha.
Conseguir levar aquela turma toda ao parque foi uma batalha, mas Taylor e Damien conseguiram dar um jeitinho. Bem, na verdade Damien deu ao pegar os dois gêmeos pela cintura e praticamente arrastá-los para o carro. Já eram onze horas passadas quando chegaram lá e acabaram indo direto ver Mark.
O urso brincou com as crianças e, antes mesmo de Drika assegurar que o urso era completamente manso, Charlie já o abraçava apertado. Mesmo assim, Damien tratou de afastá-la do bicho pouco depois. Os gêmeos brincaram com o urso e tentaram incitá-lo a comer Charlie, mas quando a pequena começou a chorar chamando os irmãos de maus, Damien deu neles uns bons petelecos na orelha.
– Vocês são como uma família feliz. – Drika comentou divertida para Taylor, perto do ouvido dele. – Se eu não conhecesse Damien tão bem, diria que vocês dois estão namorando! – Ela riu.
Taylor forçou um sorriso. Ele não sabia se aquele “tão bem” significava que ela e Damien já tinham se conhecido bastante intimamente, numa cama, e isso amargou momentaneamente o humor do médico.
Depois disso, eles montaram um piquenique e se sentaram para comer. Tudo bem que Mark roubou parte da comida, inclusive um sanduíche das mãos de Damien, mas isso fez todos rirem, então o ruivo nem conseguiu se importar. Ok, ele se importou um pouco quando Mark roubou seu segundo sanduíche, mas na terceira vez com certeza aquele urso aprenderia uma lição!
– Está começando a nublar... – Taylor comentou para Damien, que estava deitado no lençol estendido na grama. As crianças brincavam de pega-pega com Drika, Mark e outras crianças que visitavam o lugar com os pais. – Pelo que lembro, estavam mesmo marcando temporal para hoje à noite. Parece que vai vir mais cedo.
– É melhor a gente ir, então. A última coisa que eu quero é que eles peguem um resfriado.
Damien sentou e começou a jogar tudo dentro da cesta do piquenique. Chamou as crianças para irem embora e foi aquela reclamação de que não queriam ir embora e lá foi Damien obrigado a pegar um gêmeo embaixo de cada braço enquanto Taylor segurava Charlie.
– Quando a gente chegar em casa, fazemos um acampamento na sala. O que acham? – O ruivo perguntou na tentativa de acalmar as crianças. Isso as fez parar de reclamar e começar a falar, ao mesmo tempo, que queriam armar barracas e fazer fogueira. – Errr... Fogueira dentro de casa não vai dar. Mas a gente pode fazer outras coisas.
Eles de despediram de Drika e de Mark e voltaram correndo para o carro antes que o céu resolvesse desabar sobre as suas cabeças.
XxxX
Sam estava num dos salões do orfanato, brincando de mímica com as crianças menores, quando a chuva começou. Ele se distraiu tanto brincando que sequer percebeu o quanto o céu havia fechado. E, quando desceu, a chuva desceu forte, iniciando em poucos minutos um temporal violento, com direito a assobios do vento e tudo. Ele fechou rápido todas as janelas e depois pegou no colo uma menininha que começou a chorar.
– Hei, florzinha, não chore. Os trovões não vão te pegar aqui do lado de dentro. – Tocou no narizinho dela, que tentou segurar o choro com soluços baixos. – Boa menina.
– M-Meu mano... Ele tinha dito que ia brincar lá fora. – Ela murmurou. – Cadê o meu mano?
– Nós vamos achá-lo. Ele deve ter entrado. – Sam garantiu. – É Travis o nome do seu mano, não é?
– Sim... – Ela murmurou.
Uma das moças que trabalhavam no orfanato apareceu e chamou as crianças para a outra sala, onde havia uma televisão e vários pufes. A ideia era distraí-los com alguma animação.
Sam procurou entre as crianças, mas não encontrou Travis. Isso começou a preocupá-lo. Ele saiu apressado da sala de televisão, mas acabou dando um encontrão em John. Ah, ótimo! Justamente quem ele não queria encontrar!
– Uma das crianças sumiu. – Falou, preocupado, deixando o constrangimento pela noite de quinta-feira passada de lado.
John abriu a boca para reclamar pelo encontrão e dizer que Sam devia olhar por onde andava, mas as palavras morreram quando o loiro afirmou que uma das crianças estava desaparecida. Ele nem ao menos teve tempo de pensar em se preocupar se Sam lembrava ou não do que ele havia dito no último encontro dos dois. Encontrar a criança era mais importante.
– Quem é? – Perguntou em um tom sério. Não poderia deixar que o desespero assumisse. Tinha que manter a cabeça fria.
– Travis, irmão da Lyla. – Falou rápido. – Perguntei para Trisha que já checou os quartos... Ela disse que não o viu. Lyla falou que ele havia ido brincar lá fora.
John deu as costas para o loiro e fez o movimento de que iria se afastar, mas Sam o segurou pelo braço.
– Vou procurá-lo. Não posso deixá-lo nesse temporal! Há um galpão lá fora. Ele pode ter corrido para lá. Volte e fique com as crianças.
– Pro inferno que você vai procurá-lo sozinho. – Sam ultrapassou John e correu em direção ao pátio. A chuva o atingiu com força quando colocou os pés para fora do orfanato, encharcando-o em segundos. Os pingos estavam gelados e pareciam cortar a pele.
Sam torceu para que o menino estivesse mesmo naquele galpão.
– Travis! – Gritou enquanto corria, tentando ver alguma coisa em meio àquele borrão de água. – Travis?
John amaldiçoou aquela teimosia de Sam. Correu até ele, segurou-o pelo braço e começou a puxá-lo em direção ao galpão. Se Travis estivesse fora do prédio, teria corrido para o galpão. Essa era a orientação que as crianças recebiam para situações como aquela: se estivessem perto do prédio principal deveriam voltar para lá, se não estivessem deveriam correr para o galpão.
A água estava gelada e o vento frio fez com que John sentisse que estava congelando até os ossos.
O moreno empurrou a porta do galpão e chamou pelo menino, mas não obteve resposta. Ele abriu a boca para dizer que talvez ele estivesse escondido dentro de prédio principal quando seu celular começou a vibrar. Lá fora a chuva se intensificou ainda mais.
– Diretor, encontramos o menino! Ele estava em um dos quartinhos encolhido com medo dos trovões. – Era uma das funcionárias. O vento causou um estrondo e a porta do galpão fechou com violência. – Diretor?
– Eu ouvi. Mantenham as crianças calmas. Está chovendo granizo. Não vou poder voltar agora. Samson está comigo no galpão. – Ele explicou. – Pensei que Travis pudesse estar aqui. Pelo menos ele está a salvo aí dentro.
A moça pediu desculpas e disse que iriam ajudá-los assim que pudessem, mas John insistiu que eles deveriam permanecer perto das crianças.
– Encontraram o Travis. Ele estava dentro de um quartinho com medo dos trovões. – John explicou enquanto guardava o celular. – Vamos ficar aqui um tempo. – Disse e percebeu que Sam estava tremendo de frio. Ele olhou ao redor e viu que havia algumas mantas em uma caixa. – Tire a roupa. – Falou enquanto ia até a caixa para pegar uma manta para o loiro.
– Até parece que eu vou tirar as minhas roupas na sua frente, seu tarado! – Sam falou sem pensar e, aproximando-se, arrancou uma das mantas das mãos de John. O moreno também estava ensopado e a camiseta grudava no corpo másculo. Sam desviou o olhar, corando, e colocou a manta ao redor de seus ombros. – Que bom que ele estava lá dentro...
– Às vezes você parece uma das crianças. – John disse fingindo indiferença.
Ele estava tenso por estar preso com Sam e sem qualquer perceptiva de sair tão cedo, mas não deixaria transparecer isso e muito menos deixar Sam perceber que John queria muito sim vê-lo sem roupas.
– Mas se você quer ficar doente, a opção é sua. – John começou a desabotoar a blusa e a pendurou para que ela secasse. Depois fez o mesmo com a calça e, diante de um avermelhado Sam, tirou a cueca ficando completamente nu perante do loiro. Depois se enrolou na manta se sentindo bem mais aquecido. – Dizer para você vir até aqui e sentar comigo deve estar fora de cogitação, não é?
Sam estava de olhos arregalados e completamente perplexo por John ter ficado nuzinho como veio ao mundo na sua frente.
– Você não precisava ter tirado até as cuecas, idiota! – Sam exclamou e, assim que terminou de falar, espirrou três vezes seguidas. – Droga... – Murmurou e, irritado, deu as costas a John. Pendurou a manta e começou a retirar suas roupas com as mãos trêmulas pelo frio. Diferentemente do moreno, ele manteve as cuecas.
Apenas com elas, começou a torcer seus cabelos encharcados ainda de costas para John. Seu corpo tremia de cima abaixo, mas apesar do frio em seu corpo, o principal motivo que dera as costas ao moreno é porque vê-lo nu o havia deixado excitado lá embaixo. E de jeito nenhum ele deixaria John perceber isso.
John ficou observando atentamente enquanto Sam tirava cada peça de roupa e, na visão do moreno, cada movimento parecia estar sendo feito em uma câmera ultra-lenta. O corpo de John começou a reagir e ele gemeu baixinho quando sua mão desceu, involuntariamente, até a dolorosa ereção que crescia. Dois malditos anos. Naqueles dois anos seu pênis parecia morto para outras pessoas. Ele tentou. Mas ninguém conseguia excitá-lo. Só Sam. Bastava pensar em Sam para que aquela porcaria resolvesse reagir. John se recusou a transar com outra pessoa pensando nele. O que faria se deixasse o nome dele escapar e isso acabasse, de alguma forma, chegando aos ouvidos das fofoqueiras da cidade?
Ele engoliu em seco enquanto deslizava os olhos pelas costas brancas do loiro. John queria lambê-la, chupá-la, marcá-la. Nunca foi um homem possessivo, mas não conseguia se controlar em relação a Sam.
Sem pensar muito, ele levantou e se aproximou por trás. Abriu a própria manta e abraçou Sam, fechando a manta logo em seguida, mantendo-o preso em seus braços. John não conseguia fazer sentido algum quando estava com Sam. Ele queria mantê-lo longe, mas não conseguia. Ele queria odiá-lo, queria parar de desejá-lo, porém esses sentimentos estavam absolutamente fora do seu coração.
Sam petrificou ao ser envolvido pela manta e pelos braços quentes de John. Pôde sentir a ereção dele contra suas costas e a respiração morna em seu pescoço. O coração do loiro poderia entrar em falência a qualquer momento. Há dois dias havia dito que John nunca teria outra chance, e agora simplesmente não encontrava forças para mandá-lo se afastar.
– John, o que está fazendo? – Sussurrou imóvel.
– Nos mantendo aquecidos. – John sussurrou enquanto aumentava a pressão em torno da cintura do menor. Os cabelos de Sam estavam pendendo para a direita e John não conseguiu resistir ao ver o pescoço alvo livre: se inclinou e começou a depositar alguns beijos lá, antes de começar a chupar de uma forma que certamente deixaria marcas. – Eu me sinto embriagado quando estou perto de você. – Sussurrou sem nem ao menos perceber que estava falando em voz alta.
A chuva lá fora parecia estar ainda mais violenta. Mas isso não importava. John queria esquecer o mundo lá fora. Queria esquecer todas as palavras do pai. Queria esquecer tudo o que havia acontecido naqueles dois anos e fingir que aquele era o dia seguinte ao que transaram no banco de trás do seu carro.
Sam segurou-se nos braços do moreno e inclinou a cabeça para o lado, gemendo baixinho e apertando os olhos, enquanto os arrepios desciam por suas costas e deixavam os pelinhos de sua nuca e braços eriçados. Sem conseguir se conter, acabou se virando e agarrando John pelos cabelos antes de ficar na ponta dos pés para beijá-lo de maneira rápida e sem controle. Pressionou seu corpo contra os músculos do tórax dele, gemendo novamente como num ronronar. Sem resistir, desceu a mão e envolveu o falo rígido dele em sua palma, pressionando-o entre seus dedos.
John mal conseguiu acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Ele desceu as mãos até as nádegas de Sam e o puxou para cima fazendo com que o loiro enrolasse as pernas em volta sua cintura. O moreno, sem deixar de beijá-lo, começou a andar até um amontoado de colchões e caiu com Sam lá tomando cuidado para não esmagá-lo com o seu peso. Depois ele desceu a mão e livrou o loiro da única peça de roupa que ele ainda vestia, levando a mão de Sam até os seus falos indicando que queria que ele os masturbasse juntos.
Enquanto Sam fazia isso, John interrompeu o beijo e começou a descer os lábios pelo rosto do loiro, o queixo, o pescoço, até alcançar os mamilos.
– Isso não deveria ser tão bom... Não deveria. – John sussurrou desesperado.
E as palavras dele despertaram algo em Sam. Ele parou abrindo os olhos, percebendo que, assim que saíssem daquele galpão, John voltaria a tratá-lo daquela maneira rude e odiosa como ele o tratava desde a noite no carro. Sam não iria aguentar outra vez. Não iria aguentar entregar-se dessa vez não apenas de corpo, mas também de coração, ao moreno, para depois ser magoado repetidamente, dia após dia.
As lágrimas saltaram de seus olhos e ele empurrou John, fazendo-o cair para o lado no colchão. Depois se enrolou na manta e se afastou, sentando-se no chão no outro extremo do galpão.
– Não chegue perto de mim outra vez. – Pediu, trêmulo, mas dessa vez não de frio.
John sentiu o corpo ficar malditamente frio assim que Sam o empurrou. A única razão para ele ter feito aquilo só podia ser uma, e o coração de John se revoltou de ciúme pela possibilidade. E, sempre que ele agia impulsionado pelo ciúme, os dois acabavam brigando.
– Por que não? Não quer trair aquele desocupado? Pensei que já tivesse feito isso na quinta com aquele brutamontes cheio de músculos. – Se esforçou para que o seu tom fosse o mais jocoso possível.
Sam pegou o objeto mais próximo de seu alcance e atirou na direção de John. Era uma chaleira antiga feita de barro. John conseguiu se desviar no último segundo e o objeto se espatifou na parede às costas do moreno.
– Vá pro inferno, John! – Gritou novamente de pé, segurando a mão ao redor do corpo com uma mão. O tecido escorregou deixando seus ombros à mostra em meio aos cabelos despenteados e úmidos. – Quer saber?! É isso mesmo. Não quero trair Damien, ele é um homem muito melhor que você. Ele me trata com carinho durante o sexo e depois dele também. Ele não tem vergonha de ser quem ele é, e muito menos desconta as frustrações dele em mim! – Acusou.
John cerrou as mãos em punhos enquanto Sam falava. Ele queria muito, muito, muito quebrar alguma coisa. De preferência, queria quebrar o nariz daquele ruivo desocupado. O moreno se esforçou para não imaginar Sam nos braços dele. Se deixasse sua mente divagar por esse rumo não havia granizo que o impediria de ir até a casa de Damien para mandá-lo ficar longe de Sam.
– Claro. Enquanto fica com você escondido e continua se exibindo pela cidade como o maior pegador de mulheres! Ele é muito melhor do que eu. – John ironizou.
– Não importa! – Sam exclamou em retorno, balançando a cabeça com os olhos apertados. Depois tapou os olhos com uma das mãos. – Você acha que se eu e você ficássemos juntos eu iria exigir que você saísse do armário da noite para o dia? Que eu iria exigir que toda a cidade soubesse sobre nós imediatamente? – Ergueu o olhar novamente, odiando-se por continuar com lágrimas nos olhos. – Eu só iria querer você!
Sam tapou a boca com a mão e escorregou novamente até o chão, sentindo-se um idiota pelo que havia falado.
Todo ímpeto que John tinha para brigar com Sam se esvaiu quando ele ouviu aquilo. Ele se viu desejando ir até o loiro, abraçá-lo e pedir para que ele terminasse com o ruivo e ficasse com ele, pois ele tentaria ser uma pessoa melhor, se aceitar e aceitá-lo. Mas era tarde demais. Sua teimosia, seu medo e principalmente seu preconceito fizeram com que ele perdesse Sam.
“Como eu posso ter perdido? Eu nunca nem o tive”, John pensou se sentindo subitamente exausto.
– É tarde demais... – ele murmurou enquanto se largava no chão do lado oposto ao que Sam estava. John nem ao menos soube se sua voz o alcançou. – Você está com ele. O máximo que posso fazer é tentar não ser ríspido por causa do Davi. Ele te ama. Sabe o que ele me disse? – O moreno esboçou um sorriso triste. – Que queria que eu namorasse você. Mas isso é impossível.
– Você tornou impossível. – Sam murmurou e também não se importou se John o havia escutado.
Os dois ficaram em silêncio até que o granizo parasse. E, ainda que a chuva continuasse, Sam recolocou suas roupas em silêncio e saiu do galpão, sem esperar por John.
XxxX
Assim que as crianças colocaram os pés dentro de casa foram correndo até o quarto para pegar colchões e lençóis para armar uma barraca na sala. Eles chegaram um pouco antes de começar a chover, conseguiram até passar no supermercado antes e comprar umas guloseimas, mas agora parecia que o mundo iria se afogar em tanta água.
– De onde elas tiram tanta energia? – Damien perguntou desesperado enquanto se largava no sofá.
– Crianças... – Taylor comentou carregando as poucas compras que haviam feito. – Elas têm energia quase inesgotável nessa idade.
Os gêmeos e Charlie voltaram dos quartos trazendo as coisas e começaram a montar o “acampamento”. Mas os meninos não deixavam Charlie fazer muita coisa, e Damien se viu obrigado a levantar para entreter a menina enquanto Phil e Oliver se ocupavam bagunçando a sala. O ruivo ligou a televisão e ficou zapeando os canais procurando algo que Charlie pudesse assistir. Seu seriado estava passando, mas ele passou voando pelo canal porque não era algo que Charlie ou os gêmeos pudessem ver. Não que fosse um Game of Thrones da vida, mas também não era lá muito comportado.
Taylor estava na cozinha preparando um lanche para as crianças com o que haviam comprado, e Damien estava passando por um canal que transmitia clipes quando Charlie gritou:
– Eu gosto dessa música! Dança comigo, padrinho! – Ela exclamoou enquanto saltava para o chão e já começava a balançar o corpinho de um lado para o outro tentando imitar a cantora Meghan Trainor.
Damien riu e continuou bem plantado na cadeira. Não tinha quem conseguisse obrigá-lo a se levantar para dançar. A música já estava na metade e Charlie logo cansaria daquela história. Pelo menos era o que ele pensava. Taylor retornou à sala naquele momento trazendo uma travessa de “sanduíches de biscoitos” com recheio de marshmellows e chocolate derretido.
– Sério? – Damien perguntou, e o médico deu de ombros.
– Sou médico, mas eu mesmo já tive minhas noites de comer gordices quando era criança. Não mata ninguém, desde que não se torne rotina... – Ele largou os quitutes sobre a mesinha da sala. Phil e Ollie ainda estavam muito ocupados e distraídos montando a barraca, já Charlie ficou enfezada com a falta de atenção do padrinho.
– Padrinho! – Charlie gritou batendo pé e cruzando os bracinhos sobre o peito. Em seus lábios, um adorável bico contrariado.
– Não, desculpe, Charlie, o padrinho não sabe dançar e...
Taylor deu um cutucão no ruivo em meio à negação dele. Os lábios de Charlie começavam a tremer e os olhos a lacrimejarem. É, ninguém o obrigaria a dançar jamais... Exceto Charlie e suas lágrimas.
– A música acabou! – Damien ainda tentou se livrar, indicando a TV enquanto se levantava. Mas aí começou a passar Shake It Off da Taylor Swift, e Charlie deu gritinhos animados e bateu palminhas.
– Bailarinas, padrinho! Você disse que queria que eu ensinasse você a dançar! – A menina teimou, usando suas próprias palavras contra o ruivo. Taylor abafou uma risadinha, mas fingiu assobiar quando Damien lhe lançou um olhar estreitado.
– Elas não estão dançando balé, Charlie... – Damien retrucou tranquilo, quem sabe Charlie mudasse de ideia... Ele se calou prontamente quando os olhos dela voltaram a se encher de lágrimas. – Tá, tá, eu danço!
O ruivo não começou lá muito empolgado e apenas movia os pés de forma tímida. Charlie riu animada e segurou as mãos dele, começando a balançá-las para incentivá-lo a se mexer de maneira mais solta. As bailarinas no clipe começaram a fazer alguns passos e Charlie largou o padrinho para imitar. Em dado momento, Damien tentou imitar, erguendo um pé e se remexendo virando o corpo.
Foi o momento exato em que Phil puxou o tapete com ajuda de Oliver, e o ruivo se estatelou de bunda no chão. Taylor e Charlie caíram na gargalhada junto com os gêmeos.
– Você é péssimo nisso, padrinho! – Phil zombou.
– Ah é, espertinhos?– Damien bufou, levantou e jogou os braços para os altos, balançando-os de um lado para o outro enquanto imitava a cantora na tela. Isso arrancou mais risadas de todos já que o ruivo era mais duro do que uma rocha e suas tentativas de rebolar não eram lá muito bem sucedidas.
Ainda dançando, o ruivo foi até Taylor e o agarrou pela cintura, obrigando-o a pagar mico com ele. Isso incentivou os gêmeos a entrarem na brincadeira, e eles começaram a dançar junto.
– Isso me lembra... – Damien comentou. – O nome dela é Taylor. Mas ela tem pei... – Ele levou um pisão no pé dado por Taylor.
– Ela tem o que padrinho? – Phil perguntou curioso, parando e olhando para a televisão com um olhar especulativo.
– Pernonas! Parece uma girafa! – O ruivo apressou-se em dizer.
As crianças riram.
– Girafa tem pescoção, padrinho! – Charlie o corrigiu.
– Tá vendo? A Charlie é mais esperta do que eu. – O ruivo disse para Taylor fingindo drama.
– Eu nunca duvidei disso. – Taylor retrucou com um sorrisinho no canto da boca, fingindo que não estava todo arrepiado por culpa do braço de Damien circulando firme sua cintura.
Os cinco ficaram tão entretidos em dançar que mal perceberam quando a música trocou para outra igualmente agitada. Charlie pulou no colo de Damien e Taylor, ficando entre os dois enquanto riam e dançavam. Phil tentou empurrar Oliver algumas vezes, e Oliver retribuía dando beliscões na bunda do irmão.
A música agitada mudou então para uma mais tranquila: Thinking Out Loud, do Ed Sheeran.
Oliver e Phil começaram a dançar juntos, fingindo com expressões solenes algo entre tango e dança de salão, era difícil definir. Charlie quis descer para usar seus passos de balé no chão, mas como estava deixando novamente Damien e Taylor “sozinhos”, ela teve uma brilhante ideia:
– Tio Taylor tem que dançar com o padrinho! – Ela exclamou.
Damien coçou a nuca de leve, sorriu sem jeito, mas ofereceu a mão para que o médico a segurasse. Quando ele aceitou, após parecer hesitar um pouco, o ruivo passou o outro braço em volta da cintura dele e o trouxe para juntinho de si. Damien começou a balançar o corpo lentamente, sentindo Taylor o acompanhar.
Como era mais alto, ele encostou a bochecha na cabeça de Taylor e desceu um pouco mais a mão pelo corpo do médico.
Taylor se arrepiou de novo, seus braços ao redor do pescoço de Damien.
– Se continuar me pegando desse jeito, vou acabar achando que tem segundas intenções. – Sussurrou para o ruivo, evitando que as crianças o escutassem.
– Talvez eu tenha? – Damien retrucou com a voz rouca e, sem resistir, deu um beijo no ombro do médico. Depois, o afastou e o rodopiou fazendo com que ele ficasse de costas e Damien o abraçou por trás enquanto continuava movendo o corpo de um lado para o outro ao som da música.
– Vocês tem certeza que não estão namorando? – Phil perguntou olhando-os analiticamente.
Os dois levaram um choque de realidade frente à pergunta. Taylor se soltou rapidamente antes que começasse a hiperventilar e demonstrar outros sinais de excitação bem em frente às crianças.
– Quem quer comer?! – Exclamou, indo pegar a travessa grande com bolachas de chocolate e marshmellow esquecida sobre a mesinha. As crianças soltaram urros de empolgação ao ver que comeriam doce e não comida de verdade. – Essa é especialidade do chef. – Taylor brincou.
Ao menos Phil havia se esquecido da pergunta e não exigiria nenhuma resposta.
Damien suspirou frustrado. Havia esquecido as crianças. Que péssimo padrinho ele era. Mas como conseguir se controlar quando tinha Taylor dançando com ele daquele jeito, com o corpo colado ao seu? O ruivo meio que desligou momentaneamente. E que família de casamenteiros ele tinha arrumado: Carl, tia Camille e Charlote!
Ele pegou um dos biscoitos e comeu, se lambuzando todo, e começou a lamber os dedos para tentar se limpar.
Os cinco se acomodaram na barraca que Phil e Oliver haviam montado para comerem.
– Você é pior que criança. – Taylor acusou revirando os olhos, ignorando a vontade que tinha de ele próprio lamber aqueles dedos... “Deus do céu, Taylor, você está entre crianças! Pare de pensar nessas coisas!” se recriminou mentalmente, desviando o olhar.
– É! Até eu me sujo menos que o padrinho! – Charlie falou cheia de certeza, apesar de estar com o rosto e os dedinhos ainda mais lambuzados que os de Damien. Todos riram da menina, que sorriu também com os dentes manchados de chocolate.
– Isso é muito bom! Eu quero isso de almoço amanhã! – Oliver falou enchendo a boca com uma das bolachas.
– Eu quero isso pra sempre! – Phil retrucou.
É, Carl e Dakota teriam trabalho em fazê-los comer comida dali em diante. Taylor se sentiu levemente culpado, mas, bem, pais deviam ter pulso firme, não os “tios”.
Damien riu, mas estava com a boca cheia e saiu um som estranho fazendo com que todos começassem a dizer que parecia um porco.
– Eu amo vocês, seus pestes, mas chega. Cansei por hoje. Vão dormir! – O ruivo exclamou emburrado. Quem sabe talvez, se tivesse sorte, poderia passar um pouco daquele chocolate nos lábios de Taylor e provar lá.
Damien começou a bater os punhos fechados contra a testa para tirar aquela imagem da cabeça.
– O padrinho ficou doido. – Charlie disse com os olhos arregalados. – Tio Taylor! Ajuda o padrinho! – Pediu chorosa.
– Eu estou bem, Charlie. – Damien apressou-se para acalmá-la. – É só uma mania besta que eu tenho de bater em mim mesmo quando penso bobagens.
Charlie não pareceu muito convencida e olhou para Taylor pedindo ajuda.
Taylor se aproximou lentamente de Damien, olhando-o diretamente nos olhos. Ele segurou o rosto do ruivo com ambas as mãos e o encarou intensa, profunda e fixamente.
– Loucura, sai desse corpo que não te pertence! – Sussurrou alto, com um ar de curandeiro mágico das histórias antigas. E se afastou sorrindo para aliviar Charlie. – Pronto, agora ele não vai continuar louco!
Damien girou os olhos enquanto Charlie batia palmas, impressionada, com os “poderes” de cura de Taylor. Os gêmeos continuavam mais interessados em se empanturrar do que prestar atenção em qualquer outra coisa.
– Padrinho, padrinho! – Charlie o chamou quando o ruivo achava que tinha escapado de qualquer outra pergunta. – Quando você e o tio Taylor casarem, eu posso ser dama de honra?
O ruivo engasgou e os gêmeos enfim largaram a comida e correram para o lado do padrinho para dar soquinhos nas costas dele.
– Eu falei alguma coisa errada? – Charlie perguntou com ar de choro.
Taylor, que também havia arregalado os olhos com a pergunta, balançou a cabeça e fez carinho no topo da cabeça da menina.
– Quando seu padrinho casar, seja com quem for, aposto que ele vai adorar ter você como dama de honra! – Taylor garantiu para a menina.
Eles terminaram de comer e não surgiu mais nenhuma pergunta constrangedora naquele meio tempo. Depois os gêmeos insistiram que queriam ver um filme de terror. Damien tentou brecar dizendo que não era próprio para Charlie, mas a menina disse que sabia que era tudo de mentirinha e que não ficaria assustada. Isso não convenceu o ruivo, porém os gêmeos eram teimosos e foram colocando o filme no DVD sem a autorização do padrinho.
Não demorou muito para que Charlie começasse a tremer e se encolher contra o corpo de Taylor. Damien suspirou e se aproximou mais fazendo com que a menina ficasse entre os dois. O ruivo segurou a mãozinha da afilhada.
– Eu e o Taylor estamos aqui. – Disse carinhoso enquanto fazia carinho na mão dela. – Se você está com medo, nós podemos ir para o quarto.
– Não estou com medo – Charlie respondeu, mas nem olhava para a tela.
– Que padrinho bobo o seu, né? Nós nem estamos com medo, não é? Olha ali, quem sentiria medo daquilo? Aquele zumbi parece até um pato manco que não toma banho há séculos! – Taylor zombou do filme e, a cada cena que passava, ele sussurrava algo engraçado para a menina, que aos poucos foi relaxando e começou até a rir enquanto espiava o filme entre os dedinhos que tapavam o rosto.
Damien ria dos comentários que Taylor fazia para Charlie e logo o filme estava parecendo muito mais uma comédia do que terror. Lá pela parte final do filme a menina começou a cochilar e o ruivo a levou para tomar um banho e escovar os dentes. Ela já estava tão cansada que nem ensaiou muito uma reclamação. Porém Charlie não quis ficar sozinha no quarto, então Damien a levou de volta para a sala quando o filme já tinha terminado.
Depois, enquanto Taylor arrumava Charlie em um dos colchonetes, o ruivo levou os gêmeos para o banho e escovar os dentes. Com eles a coisa foi um pouco mais difícil e Damien precisou ameaçar deixá-los de castigo se eles não colaborassem. Ele não soube se eles ficaram com medo da ameaça ou se só tinham cansado mesmo de brincar, mas o fato é que acabaram terminando de se arrumar e voltaram para a sala onde se largaram em outros colchonetes.
– Preciso te levar no colo até o banheiro? – Damien sussurrou próximo à orelha de Taylor que estava meio adormecido no colchonete com Charlie.
O médico se arrepiou inteiro de novo e resmungou algo ininteligível, espreguiçando-se de leve.
– Já estou indo. – Murmurou ainda meio adormecido. Levantar às cinco e meia da manhã todos os dias e ir dormir depois da meia noite cobrava seu preço nos finais de semana. Ainda mais em finais de semana agitados como aquele. – Eu perdi um episódio do meu seriado. – Resmungou novamente, aleatório, e, em vez de levantar, acabou se acomodando melhor no colchonete.
Damien sorriu enquanto passava o dedo lentamente pelo rosto do médico.
– Depois eu sou a criança, né? – Murmurou e, sem qualquer aviso, pegou o médico no colo. – Não pode dormir sem escovar os dentes. – O censurou.
– Damien! – Taylor tomou um susto. Desorientado pelo sono, acabou quase achando que estava caindo e se abraçou ao ruivo. Isso aproximou seus rostos e o médico arregalou os olhos ao perceber isso. Abriu um sorrisinho irônico. – Você realmente sabe como fazer um cara acordar.
Damien riu.
Quando chegaram no quarto, Taylor não aguentava mais. Eles quase haviam se beijado antes e agora o ruivo o estava carregando como uma mocinha até o quarto! Não era possível que estivesse entendendo as coisas tão erradas de novo, ou era? Então, ele decidiu assumir de uma vez:
– Damien, eu sou homossexual. Sabe... Você tem flertado com um homossexual que definitivamente não tem peitões.
E seu coração disparou enquanto esperava pela reação do ruivo.
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