Caderno de Memórias
3 Capítulo 3 — O enterro Parte I
Notas iniciais

✘
— E então Juvia, como sua mãe está? Faz tanto tempo que não a vejo. – dizia minha mãe, encarando minha amiga.
Assim que chegamos na minha casa, mamãe quase nos matou com um abraço sufocante. Com muita dificuldade, conseguimos sair do aperto. Eu já estava acostumada com aquilo, só temia por minhas amigas que sabiam o jeito que ela era, mas ainda não tinham prática em desvencilhar-se dos braços de Layla.
Com meu pai foi bem mais tranquilo, claro. Almoçamos no meio de muita conversa e agora, enquanto ele estava cortando a grama – porque minha mãe o obrigava – nós nos encontrávamos em meu antigo quarto.
A casa não havia mudado em absolutamente nada, exceto pela parte de que meus pais instalaram uma piscina de chão no pátio dos fundos. Isso gerou uma pequena revolta de minha parte... Esperaram a filha ir embora para comprar uma piscina? Tudo bem, eu supero.
Deixando este pensamento de lado, enquanto elas conversavam, eu estava concentrada no meu antigo quarto. Minha mãe o manteve do mesmo jeito que eu o deixei. Eu simplesmente amava o quão aconchegante aquele ambiente poderia ser.
Todas as paredes eram creme, pois eu sempre gostei de coisas claras e discretas, tudo o que eu não conseguia ser. Bem no meio, havia uma enorme janela, que dava pra varanda do segundo andar da casa. Era minha parte favorita de lá. Lembro-me de que quando eu era criança, todos os dias eu esperava meus pais dormirem para poder abrir a janela e ficar observando as estrelas. Era a melhor paisagem, pois ainda conseguia enxergar toda Catskill à noite. Era divino, pra falar a verdade. Agora a janela estava tapada por um par de cortinas presas. Uma brisa agradável vinha da rua.
Observei as paredes do meu quarto, e sorri. Ainda estavam colados todos os pôsteres das minhas bandas favoritas. No centro deles, haviam um enorme do Green Day... Bons tempos.
— Ela está bem, eles não se acostumaram com o “agito” de Nova York. Pra falar a verdade, pareceram mais do que felizes em ir embora para ficar com meus avós. – disse Juvia com o rosto corado.
Desireé e Andrew, os pais de Juvia, mudaram-se de Catskill pouco tempo depois de ela ir morar em Nova York. Claro que eles não aguentariam ficar um segundo sequer longe da filha, então nada melhor do que mudar-se para lá e certificarem-se de que estava tudo bem com a menina deles. Porém, mais tarde decidiram que aquela cidade não fazia o seu "tipo".
Subitamente lembrei-me de Gray. Juvia não tocou nele um segundo sequer e agora que eu havia me lembrado disso. Minha mãe abriu a boca para responder, mas eu a cortei imediatamente.
— Juvia, falando nisso... Gray não se importou por você passar o fim de semana aqui, só com a gente?
Erza que até então permanecia calada, com os olhos fechados, abriu-os e encarou nossa amiga. Parecia que ela estava interessada na resposta.
Imediatamente Juvia endureceu, como se estivesse lembrando-se de algo que não queria, que fazia mal a ela. Ela abriu e fechou a boca várias vezes e nós ficamos esperando ela falar algo, pacientemente. Minha mãe notou o clima e nos deixou a sós... Estávamos sentadas em minha cama, que ficava em uma parede ao lado da janela.
No momento em que ela enxergou a fotografia no meu mural de nossa formatura, minha amiga desabou em um choro silencioso. Desde que chegamos a Catskil, ela parecia estar se contendo.
Novamente Erza e eu nos olhamos apavoradas e abraçamos Juvia que estava sentada na cama encolhida, escondendo o rosto entre suas pernas, segurando-as com seus braços.
— Gente, eu preciso desabafar — falou, ainda com o rosto escondido.
Ai meu Deus... Cadê o caderno? Quando Juvia falava que precisava desabafar, geralmente o assunto era Gray.
Nós esperamos até que ela tivesse vontade de conversar, porém nada saia de seus lábios. O nervosismo já começava a aflorar dentro de mim.
— Juvia, o que foi? — Erza foi a primeira a quebrar o silêncio, depois de um longo tempo.
Erguendo um pouco a cabeça, tentando esconder as lágrimas ela apenas citou uma palavra num murmúrio tão baixo que eu e Erza tivemos que pedir para que ela repetisse.
— Gray... — pronunciou, fazendo uma careta. — Nós... Ele terminou tudo... — novamente o choro voltou, desta vez mais forte, mais alto, mais dolorido.
Ok, eu estava petrificada. Gostaria de me mexer, conseguir respirar e pronunciar alguma palavra de consolo, mas eu não conseguia. Notei que Erza estava na mesma situação. Automaticamente meu olhos caíram sobre as mãos de Juvia. O anel não estava lá, eu estava tão ansiosa com toda esta viagem que nem havia percebido isso.
Tudo bem que Gray era um tanto quanto irritante e tínhamos nossas diferenças, mas terminar com Juvia? Como assim? Ele sempre me pareceu bem apaixonado, embora não fosse exatamente o tipo romântico que ela sempre sonhou. Ele se esforçava, às vezes até se inspirava para surpreendê-la. O anel dela foi um exemplo disso.
— Não, não, não... Isso não é possível! Como assim ele terminou? O que ele te disse? Ele não pode simplesmente "terminar tudo", quem ele pensa que é? — finalmente falei, jogando minhas mãos para o alto. Tinha quase certeza que meus olhos estavam saltados, como sempre.
— Ele disse que não iria dar certo. Disse que não combinávamos e que não... Que ele não estava feliz comigo... — e lá vinha mais uma maré de lágrimas.
— Eu não entendo... — desta vez foi Erza que falou, era quase como se estivesse conversando consigo mesma. De repente, caindo em si, ela continuou:
— Não fica assim, Juvia, calma. Olha, esquece isso, a gente vai aproveitar esse fim de semana, tá bom? De repente, até arrumamos uns gatinhos aqui e vamos nos esbaldar. — dava pra notar que nem a própria Erza acreditava nas palavras que acabara de proferir.
Eu ainda não acreditava que Gray havia sido tão filho da mãe assim pra dar essa desculpinha esfarrapada pra Juvia. Será que tinha dedo de mulher no meio disso? Não pude evitar este pensamento, minha mente desconfiada tinha tendência a ir sempre por este caminho. Seja como for, Erza estava certa em tentar animá-la. Tinha que focar no dilema de Juvia.
— É, ela está certa. — eu disse, tentando acalmá-la — Juviazinha, para de chorar. Não vale a pena ficar assim. Vai ver foi o destino que te afastou dele. Bola pra frente que a vida continua, e nós ainda temos pendências pra resolver aqui.
— Mas e agora? O que eu vou fazer? Eu sinto falta dele... E como eu vou contar pra mãe que nós terminamos? Ela vai me matar, e depois vai matar ele... — desta vez eu tive que me conter para não rir.
Lembrei-me de quando Desireé deu várias pancadas com um guarda-chuva na cabeça de nosso colega de classe Ren, acreditando que os dois eram namorados. Ela era assim com todos os admiradores da filha, mas nós sempre soubemos que ela só queria o melhor para Juvia. Eu e Erza simplesmente adorávamos Desireé, ela sempre foi um amor com a gente.
— Eu ainda me lembro quando a Tia Desireé ficou brava pela festa de 18 anos do Hibiki, lembram? — Erza gargalhou da lembrança.
— Sim — falei, já rindo loucamente — Ela me perguntou depois se alguém havia molestado a Juvia lá! — eu já estava chorando de tanto rir.
Nós tínhamos apenas 15 anos quando fomos a esta festa e claro, desfrutamos de nosso primeiro porre e ainda para ajudar, foi com vinho. Eu passei a noite toda chorando de tão bêbada que estava, consegui até quebrar uma cama, não me lembro como, com sacanagem que não era. Juvia estava pior que todas nós. Chorava, vomitava e dormia. Ela usava uma jaqueta branca e não me lembro como, mas ela conseguiu rasgar a parte interna do capuz com sua corrente. Por isso a mãe dela achava que ela tinha sido "molestada". É, eu não lembrava de muita coisa.
Os meninos maldosos sabiam que nós não éramos do tipo que bebia, então, obviamente nos fizeram beber vinho até com água misturada. Erza era a única que não estava bêbada, felizmente. Foi um alvoroço para voltarmos para casa já que não podíamos deixar nossos pais nos verem daquela forma. Até chapinha nós passamos no cabelo da Juvia, que estava todo vomitado por sinal.
Nosso esforço de nada valeu, pois quando ela chegou em casa vomitou em todo o banheiro. Eu já não tive este problema, muito menos Erza. Claro que nós escrevemos isso no nosso caderno com direito até a recortes do rótulo do vinho. Este episódio foi nomeado por nós "O Dia dos Namorados Macabro". Sim, a festa foi no dia dos namorados.
Eu ri mais ainda ao notar que Juvia já tinha substituído suas lágrimas de tristeza, por lágrimas de alegria, de tanto que ela ria das nossas lembranças idiotas.
— Eu não acredito que vocês deram de presente pro Hibiki pares de meias, e ainda por cima iguais! — acusou-nos Erza.
— Nem vem falar nada Erza, porque eu me lembro muito bem que você não deu nada pra ele! — revidou, Juvia. Ótimo, ela já estava curada.
— Nós éramos muito idiotas, essa que é a verdade... — os risos aos poucos foram cessando.
— Éramos? — as duas me olharam.
— Ainda somos, acho até que piorou com o tempo.
— Mas quando estamos juntas, piora mais ainda. — disse Erza, sorrindo.
Olhei para Juvia, mais uma vez ela parecia querer chorar. Eu odiava essas situações, pois nunca sabia como agir ao certo. Não tinha nada que eu ou Erza pudéssemos fazer, senão tentar distraí-la, porém, era certo que quando Juvia estivesse sozinha ficaria remoendo suas lembranças com Gray. O medo de enfrentar sua mãe, de nada ajudava.
— Juvia, não chora de novo, se não eu vou te dar um soco na cara! — Pronto. Eu sabia que Erza não seria compreensiva por muito tempo. Era sempre assim: primeiro a doçura, depois o espancamento.
— Ora, me dar um soco na cara! Eu que vou dar um soco na tua cara, Erza! — exclamou.
Comecei a me irritar também. Erza e Juvia sempre tiveram essas discussões de amigo, essas que nunca acontece nada depois.
— Certo, agora calem a boca. — interrompi, irritada — Juvia... Você vai voltar para a casa dos seus pais? — isso era uma dúvida que eu tinha.
Ela pareceu pensar, até que respondeu com um suspiro:
— Eu não posso, mesmo que quisesse. Não dá pra simplesmente abandonar meu emprego. E com toda certeza também não quero voltar para o apartamento do Gray — falou o nome dele fazendo uma careta. — Na verdade, todas as minhas coisas já estão no carro da Erza.
A ruiva a olhou surpresa:
— Por isso tanta bagagem? Bem que eu estranhei.
— Ué, eu não ia deixar nada meu lá. E nem pensar que eu volto. — se manifestou, ainda com a voz chorosa.
Que bom, esqueceram que eu as mandei calar a boca. Ri internamente, claro.
— Bom, você pode morar comigo. O apartamento não é lá grande coisa, mas serve para duas pessoas. Além do mais, você pode pedir transferência! — dei a ideia, e confesso que já estava empolgadíssima!
— Sério? Eu quero! Pelo menos até eu arrumar um lugarzinho pra mim... — respondeu, batendo palmas.
— Ah, e eu? Não acredito que vocês vão me deixar de lado! — reclamou, Erza.
— Ninguém vai deixar ninguém de lado. Além do mais, a Juvia está precisando e pelo que eu sei, o departamento em que ela trabalha não possui sede em Westbury.
Erza deu de ombros, fingindo indiferença.
— Então, vai escrever um último "Preciso Desabafar" no caderno?
— Eu quero, Erza, mas agora a preguiça bateu. Depois eu escrevo...
Eu sabia bem o aquilo significava: ela iria esquecer e só se lembraria quando fôssemos enterrá-lo. Era sempre assim, às vezes ficávamos vários meses sem escrever no caderno. Isso levantou outra questão em minha mente:
— Falando nisso, temos que enterrar o caderno... E temos que fazer logo, antes que a gente perca a coragem.
Quando a ideia surgiu, ela me pareceu boa, mas agora... Sei lá, não parecia fazer tanto sentido assim. Aquele caderno era nosso bem mais precioso. Era a prova real de que, mesmo que nós brigássemos ou ficássemos algum tempo sem nos ver ou nos falar, nossa amizade estaria sempre lá, intacta.
Porém, o que parecia tentador de escrever alguns anos atrás, já não era mais tão convidativo. Há tempos que já não havia mais nenhuma história para compartilhar em nosso caderno, exceto os nossos desabafos. Esse era um dos motivos que nos levou a querer enterrá-lo.
— Nem me fala... Quero só ver a gente enterrando o caderno. Já pensou se a Virgo ainda estiver morando naquela casa? — Juvia disse, rindo.
Eu acho que ela é bipolar... Ou, TPM. Hum, acho que é TMP, eu passo por isso.
— Tá louca?! Nem brinca com isso! Ah, não, eu não vou lá fazer fiasco! — tinha que ser a Erza-estraga-prazeres-arregona.
— Vai sim! Nós não vamos passar vergonha sozinhas e até parece que você não é fiasquenta! — Juvia revidou.
Que ótimo, tinha mais essa agora. Combinamos de enterrar o caderno na casa de Virgo, uma amiga nossa que se mudou há algum tempo de Catskill. Pelo menos foi o que minha mãe disse.
Ao que parecia, a casa estava abandonada, então seria melhor que nós enterrássemos o caderno lá, já que se eu enterrasse em minha casa, lógico que minha mãe leria. Na antiga casa de Juvia também não, pois mesmo que seus pais tenham ido morar no interior com os avós dela, ainda era arriscado. E nunca, jamais, em hipótese alguma, poderíamos enterrar na casa do Codinome Poluscão.
Só nos restou a ideia de enterrar na casa de Virgo mesmo. Era estranho porque estávamos agindo feito garotinhas de 15 anos, mas eu nem ligava. Estava adorando.
— Bom, de repente nem vai ter ninguém lá. Até porque vai ser rapidinho. A gente vai lá, cava o buraco, coloca o caderno na caixa, enrola num saco de lixo e enterra! — Juvia disse novamente, batendo palmas.
— Vamos de uma vez, então — Erza disse, levantando-se.
— Certo, vão indo pro carro. Eu vou pegar as pás com meu pai.
— E o que você vai dizer pro seu pai, Lucy?
— Como assim o que ela vai dizer, Erza? Ela vai falar que vai enterrar um caderno... — Juvia disse, como se aquilo fosse normal.
— Eu não! Até parece que minha mãe não vai atrás só pra desenterrar e ler. Eu é que não vou arriscar de contar pro meu pai... — meu corpo inteiro tremeu ao pensar na possibilidade de que minha mãe descobrisse que eu já transei com um cara no banco de trás do carro dele no dia da festa de aniversário da minha avó. Não, não, não. Eu iria pegar as pás escondida.
— Tá bom, vai lá então e pega. Nós vamos te esperar. — ao que parecia, Juvia já tinha se recuperado.
Bom, agora é hora de cumprir o nosso objetivo. Peguei a bolsa que mantinha nosso caderno guardado...
É... Caderninho, provavelmente não vamos nos ver por um longo tempo.
— ✖ —
Natsu Dragneel
Meus olhos já estavam quase fechando, tamanho era o sono que eu tinha. O dia tinha sido longo, e embora já fizesse um mês que eu havia sido transferido do Japão para morar nos Estados Unidos, meu corpo ainda não tinha se acostumado com a troca de fuso-horário.
Encarei o homem sentado do outro lado da minha mesa. Era visível que Gray estava abalado e não é pra menos. Terminar o relacionamento de anos dele com a noiva não deveria ser uma tarefa fácil.
Eu mesmo já tinha passado por esta situação, a diferença é que eu nunca amei Lisanna. Afinal de contas, quando se trabalha para o FBI, tudo tem que se manter dentro do sigilo e a segurança das pessoas que nos cercam é importante.
Lembrei-me do triste episódio. Eu até fiquei feliz por terminar com ela, pois aquilo já se tratava de apenas sexo. Nem mais, nem menos. Não senti remorso quando ela chorou, e por incrível que pareça consegui ver graça na situação, mesmo quando ela decidiu quebrar todo o meu apartamento e rasgar minhas roupas.
Não me importei com aquilo, pois sabia que logo eu mudaria de país. E aqui estou.
Fiquei sentido por Gray, a situação dele era diferente da minha. Ele amava sua noiva, mas nada poderia ser feito, pelo menos até que esta situação se resolvesse.
— E então, o chefe lhe passou as informações? — perguntei, o encarando.
Ele suspirou antes de responder:
— Sim, e cara, é melhor se preparar, provavelmente vamos ter que viajar... Parece que o golpe deles vai ser grande e o tempo para impedirmos será escasso.
— Viajar?! Eu definitivamente preciso de um aumento — bufei, irritado — O problema é que a única pista que temos é o anel que você comprou pra sua... — parei de falar assim que vi sua expressão.
— Eu sei, e ainda foi sorte. Ainda mais por cair em nossas mãos primeiro. Juro que quando isso tudo terminar, eu vou tomar um porre. Vou beber por uma semana... — Realmente, aquilo me pareceu uma boa ideia — E você, conseguiu algo na delegacia?
— Nada de interessante... A única chance que temos de encontrar o código é pegando aquele caderno. E bom, elas já estão na cidade...
Gray engoliu em seco. Deveria ser estranho mesmo, ter a pessoa que gosta tão perto, e ao mesmo tempo tão longe.
— Elas vão enterrá-lo, Juvia me disse. Teremos que segui-las e pegar depois.
— Não precisamos. Cara, nós somos do FBI, é só mostrar a identificação e elas serão obrigadas a ceder. Nós somos a Lei, não temos tempo de ficar esperando, seguindo. — na minha opinião, ele apenas gostaria de ver Juvia. — E enterrar? Que idade essas meninas têm, dez anos?
Mais um suspiro da parte dele.
— Elas vão fazer perguntas se você falar com elas. Temos que agir com discrição, Natsu. Sem falar que precisamos manter nosso emprego... Sigilo, lembra?
— Merda, isso vai ser mais demorado do que eu pensei. — realmente, seguir os passos do meu pai não parecia mais tão tentador. — Pra onde foram?
— Na casa da Lucy. Temos que ir logo, se elas já foram, seremos obrigados a falar com elas depois. Aliás, você será obrigado a isso.
Lucy... Lembrei-me de quando as vi. Tinha alguma coisa no olhar daquela garota que me deixou perdido. Eu tinha vontade de falar com ela, por mais estranho que isso parecesse.
Eu só posso estar louco, não dá pra acreditar que eu estou me interessando por uma pessoa que escreve num diário e depois o enterra.
— Isso é falta de sexo, cara. — Gray disse, debochado.
Eu falei em voz alta?
— Falou, babaca. E continua falando. Se a Lucy não estivesse pensando em me matar, o que eu acho difícil, eu te arrumaria um encontro com ela... — ele continuou, com a mesma expressão — Só pra afogar o...
— Eu já entendi, Gray. — o interrompi, me levantando e pegando as chaves do carro — Vamos logo, antes que eu quebre essa sua cara.
Não dei tempo para que ele respondesse, e saí apressado, entrando no carro. Esperei que ele se acomodasse no banco do carona para dar partida.
— Vai falando pra onde tenho que ir.
— Sim senhor, chefe. — pelo visto, nem o término do seu romance fez com que Gray perdesse seu "humor divino".
[...]
Já fazia quase uma hora que estávamos de tocaia na frente da casa dos Heartfilia e nenhum sinal delas. Até que ligamos para a casa da garota, já que Gray tinha o número. Inventamos uma desculpa qualquer, e a mãe dela disse que elas haviam saído há algum tempo.
Ótimo, teríamos que abordá-las. Na verdade, eu gostaria muito de olhar na cara da loira e chamá-la de infantil. Só para desencargo de consciência, claro.
Já estávamos voltando, quando algo chamou a atenção de Gray.
— Pare o carro — ele disse — Olha ali, é o carro da Erza! — saiu apressado.
— Certo, mas... O que o carro delas faz aqui na delegacia? — Eu estava realmente curioso. As infantis na delegacia?
— Entre lá e descubra o que está acontecendo. Juvia não pode me ver, pelo menos, não agora.
Com certeza ele estava preocupado. Acenei com a cabeça e entrei no local.
Tudo parecia calmo, até que ouço vozes abafadas:
— Olha só, eu juro que não foi nada de mais... Foi um mal entendido.
Curioso, abri a porta. Por sorte, os policiais já sabiam que eu era alguém importante, então não se importaram com minha presença ali.
Logo meus olhos caíram sobre as três garotas sentadas em volta da mesa. Reconheci-as de imediato. Tinha que admitir, eram bonitas. Estavam todas com os olhos arregalados. A ruiva murmurava palavras como "eu sabia que isso iria acontecer". Eu tive que me conter para não rir, a expressão delas era cômica demais.
— O que está acontecendo, Max? — minha pergunta pareceu chamar a atenção delas.
Mais uma vez, meu olhar encontrou-se com a loira, Lucy. Existia algo nela, eu não sabia se tinha definição. Ela tinha os olhos castanhos mais bonitos que já vi. Na verdade, pareciam bem comuns, mas me chamaram atenção mais do que qualquer coisa nela.
Ela me olhava, como se estivesse me analisando detalhadamente, por algum motivo, me senti desconfortável com aquilo.
— As mocinhas foram denunciadas. Parece que estavam enterrando partes de um corpo em uma casa desabitada. — respondeu-me Max, fazendo com que eu parasse de sustentar o olhar dela.
Enterrar partes de um corpo?! Quando foi que o caderno virou algum tipo de esquartejamento?!
Algo ali não se encaixava.
Fale com o autor