Caderno de Memórias

4 Capítulo 4 — O enterro Parte II


Notas iniciais
Olá, pessoal, tudo bem com vocês? Bom eu tenho algumas coisas para falar, então vamos lá. Primeiramente, quero agradecer a todos que comentaram no capítulo passado. Adorei cada review, de verdade. Saber que vocês gostam me incentiva muito mesmo. Vocês são demais! Sobre o capítulo, tem um link de de música e, algumas partes em itálico são a carta que as meninas escreveram. Vocês irão entender. Boa leitura =D

“Mas eu desconfio que a única pessoa livre,

realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.”

Luis Fernando Veríssimo

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Respira, inspira. Respira, inspira. Respira, inspira. Respira, inspira...

Meu Deus, a visão que eu estava tendo só poderia ser miragem: o mesmo cara que vi hoje mais cedo estava aqui, agora, analisando-me atentamente. Senti minhas bochechas esquentarem automaticamente.

Ele é japonês! Como eu não havia percebido isso antes?! Japoneses sempre foram meu ponto fraco. E bem, o homem que estava em minha frente neste exato momento, com certeza era o ponto fraco de muitas mulheres...

Respira, inspira. Respira, inspira. Respira, inspira.

O cara deveria ter 1,80 de altura, pele clara, cabelos meio avermelhados, olhos ônix, traços fortes, maxilar perfeito, corpo coberto pela roupa social — o que era muito sexy -, era japonês e não tinha nenhuma aliança nos dedos... Definitivamente o meu tipo de homem!

Assim como eu, ele também me encarava. Tive vontade de desviar o olhar, mas não conseguia. Deixando de lado toda aquela perfeição — que aliás me fez pensar por alguns segundos há quanto tempo eu estava sem um homem — havia algo a mais nele.

Aqueles olhos, eu sonhei com eles... E apesar dele parecer sério naquele momento, aqueles olhos diziam-me muito. Ele tinha um olhar inquisitivo, quase ameaçador... Era simplesmente hipnotizante, por mais estranho que isso soasse.

Naquele instante eu decidi que não me importaria com o que aconteceria ou o que ele me diria, mas que eu deveria conhecê-lo melhor. Afinal, eu sonhei com ele, de certo modo. Isto deve significar algo, não é?

— As mocinhas foram denunciadas. Parece que estavam enterrando partes de um corpo em uma casa desabitada. — a voz do policial que parecia uma espécie de Willy Wonka loiro me trouxe de volta a realidade.

Incredulidade passou pelo rosto do meu japonês e depois ele parecia querer rir.

Rir do quê?! Da desgraça alheia?!

Finalmente lembrei-me de onde estava: na delegacia.

Eu realmente era a pessoa mais azarada da face da terra... Logo eu, uma mulher que deveria ser bem sucedida, estava passando por uma situação dessas. Que vergonha!

O que diria ao policial Willy Wonka?

"Ah, é que bem, eu e minhas amigas temos um diário desde crianças e viemos para Catskill para enterrá-lo. Aquilo não era um corpo! Aquela velha coroca está louca!".

Sim, soa muito idiota. Mas, como ele poderia acreditar que estávamos enterrando um corpo? Esse Max deveria ser um novato, ele poderia simplesmente abrir o buraco que cavamos e ver que não se passava de um caderno, não poderia? Não, não poderia, porque nós fomos burras o suficiente para não conseguir falar qualquer coisa coerente, sem contar que as circunstâncias não nos ajudaram em nada.

Agora sim que eu não explicaria coisa nenhuma... Já estava sendo humilhada o bastante na frente do japonês sexy, não precisava de mais, dizendo que estávamos só enterrando um e caderno e...

— Ah, nós só estávamos enterrando um caderno! Só isso, eu juro!!! — Juvia berrou, interrompendo meus devaneios.

Ah, não, não, não. Que vergonha!

Droga, ele poderia imaginar que éramos algum tipo de espiãs-sexys-bad-girls que foram pegas fazendo algo grande, mas não... Agora ele sabia que estávamos enterrando um diário... Que meigo!

Olhei de soslaio para o meu japonês, ele fazia uma careta, como se estivesse sendo muito dolorido conter o riso. Debochado!

Oh, Deus, me leva contigo!

Suspirei, lembrando-me de todo o ocorrido. E eu achando que não teríamos mais histórias para contar...

Respira, inspira. Respira, inspira. Respira, inspira. Respira, inspira...

— ✖ —

1 hora antes:

— É, parece mesmo abandonada — disse Erza, espiando pela janela do carro.

Nós havíamos acabado de estacionar na frente da antiga casa de Virgo e como Erza falou, parecia realmente abandonada.

A pintura da casa já estava desbotada, as grades do portão estavam tortas, faltavam algumas vigas das janelas e, para completar, havia um matagal enorme em volta da "moradia".

— Será que dá mesmo pra gente entrar aí? Isso não é invasão de domicílio ou algo do tipo? — manifestei-me, com medo. Nós sempre nos ferrávamos de alguma forma, sentia que desta vez não seria diferente.

— Claro que não! Não tem ninguém morando aí dentro! Vamos entrar logo. — disse Juvia impaciente, saindo do carro.

— Peguem as pás! — gritou ela.

— Cala a boca, Juvia, não grita! – Erza repreendeu-a — Quer que a vizinhança toda escute?! A minha avó pode escutar!

Era estranho, mas Erza nunca perderia esta mania. Ela poderia ter 90 anos, e ainda assim continuaria com medo de que a Codinome Poluscão ouvisse tudo o que nós dizíamos.

— Que escutar... Ninguém vai escutar... — Juvia, disse, olhando ao redor.

Deu para perceber que nossa chegada causou curiosidade em algumas pessoas, pois vi que a vizinha do lado da casa de Virgo estava espiando pela janela.

— Dessa vez vou concordar com a Erza... Isso são sinais para nós não enterrarmos nada! — falei meio alto, devido ao nervosismo.

— Vamos, sim! Nós viemos para enterrar e vamos enterrar! — Juvia bateu o pé.

— Tá bom, tá bom... Quero só ver. — murmurei, rendendo-me.

— Certo, Juvia, vamos enterrar, mas se alguma coisa acontecer, saiba que a culpa vai ser sua! E sua também, Lucy! — disse, apontando para mim.

— Não mesmo! — disse, defendendo-me — Até parece que a ideia foi só minha! — falei, ofendida.

— Chega! Pega a bolsa e a caixa! Vamos precisar do saco também... — Juvia ordenou.

— Vamos todas nós pegar, Juviazinha... — Ela riu, em resposta.

Depois de muita dificuldade para entrar no local e muita discussão para decidir onde enterrar, por fim colocamos a "mão na massa".

— Certo, vamos cavar — disse, Erza, cravando a pá no chão. — Esse negócio não tá afundando — lamentava, batendo com a ferramenta na terra que parecia não se mover.

Ok, já vi que nada daquilo seria fácil. Decidi ficar na minha e ver onde tudo aquilo ia dar. Muito ajuda quem não atrapalha.

— Deixa eu tentar, Erza. Sai daí — Juvia ordenou, tomando o lugar que antes era ocupado por Erza.

— Isso, Juvia, cava pra gente! – encorajei. Alguém tinha que incentivar as pessoas aqui, não é?

Juvia esperneava, pisava nas bordas da pá para ver se conseguia penetrar na terra, mas nada.

— Meu Deus, nós somos muito burras! Como não conseguimos nem cavar? – dizia nossa amiga, já enraivada. Nunca vi uma pessoa tão emotiva quanto Juvia.

De repente ela parou, curvou-se e ficou mexendo na terra com a ferramenta, como se estivesse curiosa com algo. Quando fui me aproximar para ver o que era, Erza gritou:

— Cava, Juvia, é minhoca!

Ela voltou ao trabalho, resmungando. Comecei a rir dela, que fechou a cara, porém continuou com a tarefa.

— Para de rir e vai cavar também, Lucy. Vamos terminar isso logo. – Erza me olhou.

Eu até poderia pensar nisso... Porém, Juvia estava mais do que entretida com a tarefa. Não iria ser eu a estragar a diversão.

— Não, enquanto ela cava, vamos abrir a caixa e ajeitar tudo. Assim nós já adiantamos um pouco as coisas.

A ruiva concordou. Juvia sequer ligou, no momento ela travava uma batalha árdua com a pá e a terra. Eu é que não atrapalharia aquela competição. E quando Juvia colocava alguma coisa na cabeça dela, ninguém conseguia tirar.

Eu e Erza nos curvamos sobre a caixa e descobrimos tarde demais que talvez nosso caderno não coubesse dentro dela.

— Anda! Enfia logo isso aí dentro antes que alguém chegue! — eu já estava irritada com aquilo.

Nós empurrávamos, de modo que até mesmo a própria caixa de madeira já começava a se debater.

— Era só o que me faltava... Acho que não vai caber! — Erza encontrava-se do mesmo jeito que eu.

— Vamos tentar colocar essa parte primeiro, e depois empurramos o resto – sugeri, apontando para a lateral do caderno.

— Eu conto até três e nós empurramos com força! – respondeu.

Não me surpreendi por nós termos tanta dificuldade com algo de podia ser tão simples, aliás, que deveria ser tão simples. Era sempre assim conosco: às vezes pensávamos nos mínimos detalhes, já em outras, o negócio era meio complicado...

Preparei-me ao ouvir Erza começar a contagem:

— Um... Dois... Três!

Empurramos ao mesmo tempo e embora o nosso caderno tenha ficado meio torto dentro da caixa, ele entrou. Isso que importava.

Depois de colocar “carta de despedida” que havíamos escrito para este momento, trancamos com o cadeado e pusemos tudo dentro do saco de lixo.

Saco de lixo... Que pobreza.

Agora só nos restava esperar Juvia vencer sua guerra contra a pá e o chão e claro, a coragem para nos desfazer de um bem precioso...

Narrador

— ✖ —

A senhora que observava a cena escondida atrás de sua janela espantou-se. Tentava a todo custo descobrir o que aquelas três meninas desconhecidas faziam naquele terreno abandonado.

Elas pareciam afoitas e nervosas, como se não quisessem que ninguém visse o que elas faziam ali, o que acabou por dar asas a sua imaginação.

Inclinou-se o quanto pôde na janela para ouvir melhor o que as moças falavam. Sua audição fraca não ajudava muito. Para sua sorte, elas não eram nada discretas.

Começou a pensar o pior quando escutou algumas das frases proferidas por elas naquele terreno...

"... Ninguém vai escutar... São sinais para não enterrarmos nada... Viemos para enterrar e vamos enterrar... Se alguma coisa acontecer... Enfia antes que alguém chegue..."

Oh, não! Imediatamente lembrou-se de que na noite passada ela havia visto no noticiário da região sobre uma onde de crimes que poderia estar interligada a uma gangue... Os "Bala na Cara". Eles disfarçavam-se, e usavam até mesmo crianças para conseguir enganar as pessoas e espalhar o terror.

Inclinou-se ainda mais a fim de ver o que as duas meninas faziam abaixadas, até que viu que ambas seguravam um saco de lixo, enquanto a terceira cavava.

A idosa deu um passo para trás apavorada... Era impossível conter seu nervosismo.

Assassinas em Catskill?

Justo ela, que havia se mudado há pouco tempo em busca de paz e sossego, deparava-se com três assassinas tentando enterrar um corpo naquele terreno abandonado...

Precisava avisar a polícia imediatamente!

— ✖ —

Lucy Heartfilia

Por sorte e com muitos xingamentos, Juvia conseguiu cavar um buraco fundo, tipo, fundo mesmo. Ela consegue ser persistente, na verdade, esta era uma de suas principais características.

"Oi, caderno! Aqui é a Erza escrevendo e bem, hoje é um dia meio triste, porém, um dia especial. Nós decidimos que vamos lhe enterrar. Não entenda isto mal, por favor. Eu e as meninas ainda temos planos para o futuro..."

Onde nós encontraríamos forças para deixar nossas lembranças ali naquele lugar abandonado?

"...Talvez nós tenhamos nos dado conta tarde demais que nós crescemos e que agora temos responsabilidades. Não somos mais as garotinhas que ficavam até tarde da noite jogando bola no meio da rua, ou olhando filmes e conversando sobre garotos. Porém, gosto de pensar que isso nunca morrerá em nós..."

Não é como se nunca mais fôssemos nos lembrar do que vivemos e aprontamos juntas, o fato é que ali estava a prova real de tudo... Passamos anos escrevendo nossos sentimentos ali, anos desabafando.

"...Todavia, agora temos responsabilidades. O tempo que temos para escrever é praticamente escasso, então voltamos para Catskill, onde tudo começou, para selarmos um compromisso com você... "

Mais uma vez aquilo não parecia tão convidativo, por que é que nós tínhamos essas ideias mesmo?

"Minha vez! Aqui é a Juvia e isso com certeza não é um fim, é um novo começo. Gray terminou tudo comigo... O porquê, eu não sei... Sim, eu estou sofrendo, mas somente esse dia que passei com minhas amigas me fez ficar bem novamente. Esta decisão que tomamos, não foi fácil... Mas agora, mais do que nunca, isto representa novos começos para todas nós..."

— Sério mesmo que nós vamos enterrar? — indaguei, necessitando saber o que elas pensavam.

Trancamos a caixa com um cadeado, colocamos dentro do saco e agora nos encontrávamos ao redor do local onde a enterraríamos.

“Os anos irão passar, e cada uma vai seguir seu próprio caminho. Na verdade, nós já estávamos fazendo isso. Portas se abrirão, outras se fecharão, mas você, querido diário, sempre permanecerá em nossos corações...”

— Eu sei que é complicado, mas foi o que combinamos... Acho que nós precisamos disso, afinal — Erza respondeu num sussurro.

— Nós precisamos mesmo?

— Sim, precisamos, Juvia... — mais uma vez Erza respondeu.

— Vamos pensar pelo lado bom — eu disse, tentando nos animar — Daqui a alguns anos nós vamos voltar aqui e desenterrá-lo. Vai ser legal... Nostálgico.

“...A cada passo dado, a cada escolha tomada, vamos ter em mente de contar tudo para você depois. Porque não importa quanto tempo passe ou quanto o mundo mude, nós teremos sempre este espírito de criança e de amizade dentro de todas nós...”

Certamente eu estava tentando ser um pouco otimista. Eu tinha que ter certeza que nos veríamos futuramente. De certa forma, agora eu já estava mais "aliviada". Saber que Juvia moraria comigo por um tempo fez as coisas melhores, não que eu estivesse contente pelo estranhíssimo rompimento dela com Gray, porém assim era garantido que até mesmo Erza estaria por perto.

— Pensar no futuro é nostálgico, não é mesmo? — a ruiva citou.

Era incrível como Erza conseguia ser tão sábia e filosófica de vez em quando.

"...Isso mesmo... Lucy escrevendo! E sim, vamos ter novos começos, mas não vamos deixar de escrever, mesmo que separadamente... Vamos ter muitas novidades para contar, com certeza! Isto é uma promessa, viu? Nós nos reencontraremos e escreveremos todas as notícias...”

— Vamos enterrar — dissemos juntas, pegando na mão de Juvia, que se encontrava calada até então.

— Vamos prometer que não importa o que aconteça, daqui a dez anos nós vamos voltar e desenterrar nosso caderno. Vamos assegurar que nada vai mudar entre nós até lá. Ainda seremos a Juvia, a Lucy e a Erza. Certo, meninas? — Juvia disse.

“... Você é a nossa garantia, saiba disso. Você é o que nos fez mais unidas ainda. Você é o nosso maior segredo. Você foi a melhor coisa que fizemos juntas. Obrigada por guardar todas as nossas confissões, por criar este elo entre a gente. Nós te amamos muito!"

Aquilo me animou mais, nada de mal poderia acontecer. Nós não deixaríamos que acontecesse.

— Certo! Nós seremos amigas sempre! — sorri, olhando para elas.

— Sempre! — ambas responderam-me com um sorriso no rosto.

Enterramos nosso diário em silêncio. Com certeza, assim como eu, as outras também pensavam em como tudo seria daqui pra frente.

Distraímos-nos por um som estranho que ecoou no local...

— Isto é uma sirene? — Erza indagou.

— É o que parece... E está se aproximando. — Juvia respondeu.

Certo, aquele dia estava muito estranho...

— Meninas, acho melhor nós sairmos logo daqui.

Elas concordaram na hora, porém, quando estávamos saindo do pátio...

— Mãos ao alto, senhoritas. Aproximem-se lentamente, sem movimentos bruscos. Tenho permissão para levá-las a sede da delegacia e interrogá-las. — um cara com uma viatura da polícia nos disse.

Ele estava mais para Willy Wonka do que para policial... Eu e as meninas nos apavoramos, é claro, mas fizemos o que ele pediu.

— O que aconteceu? — Indaguei, com receio.

— Se eu estivesse no lugar de vocês, ficaria quietinho por ora – ele deu um sorrisinho vitorioso antes de prosseguir — Mas não se preocupem, vocês terão que falar muito, logo, logo...

Certo, minha carreira estava acabada.

— Eu vou matar vocês duas! — foi a última frase que ouvi, antes de entrar no carro. Claro, aquilo só poderia ter sido dito pela Erza.

— ✖ —

Presente

[...]

Bem, e aqui estamos nós.

Enquanto eu estava quieta, torcendo para que o japonês saísse logo dali para que eu pudesse confessar "nosso crime", tendo em vista que Juvia havia tomado a iniciativa de contar tudo, as meninas continuavam balbuciando coisas sem sentido algum.

— Caderno? Vamos ver, já mandei Warren investigar a área. Vocês não vão escapar desta vez. — dizia o Sr. Willy Wonka.

Aquele tom de deboche na voz dele estava começando a me irritar. Ele não poderia achar-se superior a nós por ter mais autoridade. E nem estou levando em consideração o fato de que nós não enterramos um corpo.

— Gente... — Juvia pronunciou — Eu preciso ir no banheiro, sério!

— Mas o que?! — o policial esbravejou.

— Juvia! — eu e Erza repreendemos.

— Mas vocês sabem, quando eu fico nervosa eu tenho que...

— Tudo bem, tudo bem, já entendemos — interrompi — Segura só um pouquinho, nós já vamos sair daqui, Juvia.

— Ai... Tá bom. — ela respondeu.

Mais uma vez olhei de soslaio para o ruivo... Ele parecia incrédulo, mas não riu. Menos mal.

— Muito otimista de sua parte achar que sairão daqui logo — o policial riu, sarcástico.

— Já chega! — Erza parecia que explodiria a qualquer momento — Nós estamos falando a verdade! Não tem corpo nenhum enterrado, você não tem o direito de nos fazer passar por isto! — esbravejou a ruiva.

Uma das características de Erza é que, quando ela fica brava, fica brava mesmo.

— Ela está certa! Quem disse pro senhor que nós estávamos enterrando um corpo, ou qualquer coisa do tipo? Onde estão as provas? Isso tudo é um mal entendido... — ajudei Erza.

Tudo bem que eu estava com vergonha pelo meu japonês estar presenciando tudo aquilo, mas que se dane. Eu não iria presa, nem minhas amigas. O cara não deixou nós termos o nosso momento de despedida.

Juvia permanecia calada. Tenho certeza de que ela sabia que se ela acabasse por proferir mais alguma palavra nós estaríamos mais ferradas ainda.

Todos nos encontrávamos em uma pequena sala dentro da sede. Ao contrário do que eu imaginava, não estávamos em uma sala escura, com somente uma mesa e cadeiras sendo interrogadas por um policial, sob a luz de uma única lâmpada enfraquecida. Não.

Aquela sala era bem clara, com paredes brancas e uma mesa enorme de madeira, num tom bege. Havia vários e vários papeis em cima dela. As cadeiras, todas com um estofado cinza, até que eram confortáveis. Estavam todas enfileiradas, de frente para a mesa.

Várias escrivaninhas estavam lado a lado, com computadores. E ao que parecia, o local também tinha vários armários de arquivo. As únicas duas janelas que ali tinha, estavam tampadas por cortinas persianas brancas. O cheiro de limpeza vagava na sala. De fato, até que era um lugar legal.

Ao que parecia, não havia mais ninguém no local, somente um policial do lado de fora, tão esquisito quanto esse Max e o Warren, que foi investigar a "cena do crime".

Poderia até entender aquela empolgação do loiro, pois nunca acontecia nada em Catskill, tanto é que na delegacia não tinha quase ninguém. Provavelmente ele queria sentir-se útil ou algo do tipo.

Agora me pergunto se o Sr. Dragneel também é policial daqui, porque se for, vou me amaldiçoar pelo resto da vida por só ter vindo para cá agora.

— Vocês que não têm o direito de falar comigo nesse tom! — empertigou-se o policial — Só estou contando com a chegada de Warren. Temos até uma testemunha e vocês não perdem por... -

— Basta! — o meu japonês interrompeu.

Até então ele permanecia de pé encostado na parede.

— Max, diga-me, como você sabe que estas... — pausou, como se estivesse em dúvida de qual palavra usaria — Estas moças são culpadas?

Hum, moças.

O loiro engoliu em seco antes de responder:

— Sr. Dragneel, a testemunha ligou para cá e relatou tudo. Eu poderia ter mandado dois subordinados investigar, mas preferi ir eu mesmo. Há tempos estamos atrás deles e...

— Max... — levantou a mão, interrompendo o outro — Você sabe que fez tudo errado... Não sabe? Por favor, me diga que não é assim que vocês fazem inquéritos aqui... — disse, sentando-se em uma das cadeiras, suspirando pesadamente.

Como ele não respondeu, meu japonês continuou:

— Qual o nome da testemunha? — indagou.

— A tes-tesmunha, senhor, é uma idosa que mora perto do local... — ele estava nervoso, eu estaria também. — Sra. Mary Willians.

Eu e as meninas apenas nos entreolhávamos, curiosas.

— Sra. Willians? — pousou a mão no queixo, pensativo — A mesma Sra. Willians que também denunciou os Watson dizendo que a família, supostamente tinha um corpo enterrado em sua residência, porém, na verdade aquilo era somente o espantalho de enfeite para o Halloween que havia caído no chão, ficando com as pernas para cima?

Max arregalou os olhos e empalideceu.

— C-como o senhor sabe?

— Não fique nervoso, por favor. Esqueceu-se de que eu dei uma olhada nos arquivos daqui? E você sabe tão bem quanto eu que este não foi o único equívoco que a Sra. Willians cometeu.

Essa Sra. Willians que deveria ser presa, pelo amor de Deus.

— Então nós estamos aqui porque uma idosa é equivocada. É isso mesmo? — Erza pronunciou — Por favor, eu mereço! — praguejou.

Os homens apenas nos encararam.

— Eu sei que sua intenção era ajudar, mas você começou isso da pior forma possível. Diga-me, por que não investigou o local na hora? Você poderia muito bem ter visto o que é que foi enterrado. Tendo em vista que o histórico desta senhora que denunciou é muito duvidoso, você precisaria ter tomado outro procedimento. — continuou o japonês.

Uau, esse Sr. Dragneel – gostei do nome — me parecia meio intimidador mesmo. Fez o tal Max baixar a crista rapidinho. Meu herói!

— Sr. Dragneel, eu sinto muito mesmo... — Max agora estava vermelho de vergonha.

— Eu fico com pena? — sussurrei, para que somente as meninas escutassem.

— Pena nada! Ele debochou de nós! — Juvia rebateu.

Nos calamos ao ouvir a resposta do meu japonês:

— Bom, acho que não é comigo que você deve se desculpar. Eu espero que isso não aconteça novamente. Eu sei que você dá tudo de si, Max. Porém, não deixa que o "prestígio" de solucionar um caso suba sua cabeça novamente.

Além de lindo, era psicólogo.

Okay, Lucy, já chega! Mais uma vez a minha falta de foco entrou em cena. Eu estava a ponto de ser presa a qualquer momento, mas preferia ficar pensando no quão lindo aquele homem era.

Porém, tinha um ar de mistério. Minha curiosidade de jornalista – que não serviu de nada na hora de argumentar — estava pronta para saber mais dele. Infelizmente, perder o foco era mais forte do que eu.

O problema em si é que, eu poderia desesperar-me, poderia ficar histérica e até chorar. E apesar de toda a vergonha e o nervosismo que senti, não pude evitar a onda de segurança que se apossou de mim quando o ruivo apareceu ali.

Talvez eu estivesse enlouquecendo. De fato, estes últimos dias não foram fáceis para mim. Meu psicológico não estava lá muito confiável.

— Em todo caso, eu vou pedir para que as senhoritas me acompanhem. Vou averiguar o local eu mesmo... – interrompi meus pensamentos ao ouvir sua voz — Você não se importa, não é Max?

Acompanhá-lo? Até pra lua!

— Claro que não! Sinta-se a vontade para resolver o problema da forma que quiser. – respondeu, prontamente.

Pelo jeito esse cara não pediria desculpas para nós tão cedo.

— Bom, preciso que me deem uns dez minutinhos. – disse, olhando para nós — Esperem-me aqui, volto logo.

Assim que ele fechou a porta, Max começou a resmungar coisas sem sentido. Só entendi palavras como “asiáticos” e “se acham”.

Ele sequer nos deu a chance de responder. Realmente, ele pareceu nos ignorar o tempo inteiro.

— Espero que estejam felizes – proferiu o Willy Wonka, olhando com desdém.

— Ora, seu... – Erza levantou-se de seu lugar, pronta para atacar o policial, porém eu e Juvia a impedimos.

— Calma, calma... Agora tudo vai se resolver. Nós vamos voltar lá e mostrar que... – argh, tinha me esquecido deste detalhe — Vamos mostrar que é só um caderno – resmunguei.

— Espero mesmo. Sério, eu preciso de um banheiro – dizia Juvia, com a voz chorosa.

Eu e Erza apenas nos resignamos a suspirar pesadamente.

Max já havia sentado em sua cadeira, provavelmente jogando “paciência” no celular. Ele tem cara de que faz isso.

O jeito agora era esperar tudo se resolver... Agora eu já estava ansiosa. Provavelmente poderia conhecer mais o homem que nos livrou desta enrascada. Qual seria o seu nome?

— ✖ —

Natsu Dragneel

Eu já não sabia mais se ria da situação toda ou se chorava. Certamente, eu estava ganhando muito pouco.

Assim que saí da delegacia, fiquei feliz por poder suspirar ar puro. Aquele cheiro de desinfetante já estava me deixando enjoado.

Não posso dizer que sempre achei que em cidades pequenas as coisas fossem mais “desleixadas”, porém jamais pensei que aqui em Catskill tudo estivesse desta forma. Aquilo era no mínimo, preocupante.

De todas as outras vezes que tive que falar com Max, nunca imaginei que ele fosse realmente assim. Tudo bem, aquelas garotas foram patéticas a ponto de querer enterrar aquele caderno em um terreno praticamente abandonado. Contudo, mais patético ainda foi aquele novato, que se diz policial, acreditar nas lorotas de uma senhora que confundi qualquer coisa com cadáveres.

Por outro lado, até que tive sorte de encontrar as meninas ali. Não teria que segui-las, cortaria logo o mal pela raiz. Seria bem mais fácil de pegar o caderno, levando-as até o local. Era nisso que eu queria acreditar.

Parei ao entrar no banco do carona, no carro estacionado do outro lado da rua.

— E então, é grave? Juvia tem ferimentos? Foram assaltadas? – Gray indagava, nervoso.

— Bom, acredito que neste caso, as criminosas eram elas – respondi contendo o riso.

Realmente, foi cômico ver a expressão facial delas, diante das acusações de Max.

— Como assim?! – gritou.

— Hey, você quer que a Juvia te escute? – sorri.

— E você quer que eu faça o que? Porra, Natsu, fala de uma vez! – respondeu, irritado.

— Tudo bem, tudo bem. Chega de alterações por hoje – disse, levantando as mãos — Resumidamente, elas foram enterrar o caderno, uma senhora viu e pensou que fosse um corpo esquartejado, chamou Max – que é meio incompetente – e ele as trouxe para cá acreditando ter resolvido o caso do século.

— Natsu, eu já disse para falar de uma vez, chega de sarcasmo – rosnou o outro.

— É sério. – respondi.

Ele encarou-me por alguns segundos, procurando sinais de que eu estivesse mentindo. Notando que eu estava falando a verdade, ele pôs as duas mãos na cabeça, praguejando.

— Preciso de vodka. – disse, apenas.

— Então vá beber. Eu vou precisar levá-las até onde enterraram o caderno. A menos que você queira ir junto, acho melhor...

— Entendo – interrompeu-me — Vou andando...

Ambos saímos do carro, até que ele parou, encarando-me:

— Juvia está bem mesmo? – perguntou com um semblante triste.

— Não se preocupe, ela está bem – afirmei. Mais uma vez senti pena do meu amigo.

— Certo... E Natsu, não se esqueça de pegar o número da loira, sabe... Aproveita, porque você está precisando.

Ele estava quietinho demais para ser verdade. Estava demorando para ele começar a falar merda.

— Gray... – rosnei, mas parei, lembrando-me de algo — Não vou perder tempo com você, acredito que Juvia não possa esperar muito – o provoquei, sabendo que funcionaria.

— O que você quer dizer com isso, Dragneel? – esbravejou, vindo até mim.

— É que ela estava um pouco nervosa e sabe, quando isso acontece, ela precisa ir ao banheiro — gargalhei, ao ver sua cara.

Com certeza ele estava se perguntando como eu sabia daquilo. Por fim, ele sorriu também.

— Juvia... – citou, olhando para a sede — Bom, vá logo. Me dê notícias depois. Eu vou tentar entrar em contato com nosso infiltrado, precisaremos estar um passo a frente quanto aos códigos.

Apenas acenei com a cabeça em resposta, indo em direção a delegacia.

Talvez não fosse tão necessário assim que eu levasse as meninas até o local onde elas enterraram o caderno. Mas no fundo eu sabia que na verdade, aquela vontade tinha nome e sobrenome.

Deixava-me curioso o fato daquela garota parecer ser diferente. Não que eu estivesse pensando nela de outra forma ou algo do gênero, entretanto não é todo dia que se encontra uma mulher que vai presa por enterrar um diário importantíssimo com as amigas.

Tentei evita-la a todo custo dentro daquela sala, mas – pensando na nossa missão e na segurança delas, é claro – não seria tão ruim assim eu me aproximar.

Lucy Heartfilia... Lembrei-me de seus olhos.

Talvez eu devesse seguir o conselho de Gray.

Notas finais
Era isso gente. Sobre o capítulo, o que acharam? Gostaram? Odiaram? Vocês preferem que haja esta alternação de narração ou não? Isto é algo que me perguntei bastante antes de escrever, mas enfim, me deem um feedback. E pra todo mundo que se perguntava o que foi que essas meninas aprontaram: TCHARAM! O Natsu foi o grande salvador da pátria, hahahahahaha. Pra terminar, vou dizer que não tenho previsão pro próximo. Assim que eu tiver uma data definida, coloco no meu perfil. Dia 24 eu entro de férias, então acho que terei um tempinho para escrever. Desculpem qualquer erro, eu reviso depois. Nos vemos nas reviews, certo? Até o próximo, beijos!