Cada história escrita por Ela.

2 Uma História nada Convencional.


Notas iniciais
Olá pessoal! Estou aqui novamente para postar outra história. Na verdade me inspirei nela ontem quando estava na rua e espero que gostem. " Helen, 16 anos é uma garota incomum, ela é cadeirante, o que torna a vida dela além de ser adolescente um motivo a mais de ser diferente. Porém apesar de todos os desafios ela encontra um menino badboy no colégio que diferente de todo mundo que a trata gentilmente é completamente mal educado. Será que tem clima no ar? Ou é o garoto popular Nick que vai roubar seu coração?"

– Obrigada pelas anotações Helen.

– De nada — Eu esbocei um sorriso.

– Então você vai para a festa que terá na quinta?

– Eu... ainda não sei, vou ver.

– Ah é, tinha me esquecido que você com essa cadeira talvez não dê para ir.

– É, talvez. – Eu tive que sorrir um pouco sem jeito.

Na verdade eu tinha sofrido um acidente quando tinha uns 6 anos e desde então eu não conseguiria voltar a andar. Minha família tentou de todos os métodos e tratamentos para que eu conseguisse a andar de novo, mas ao invés de ficar me alimentando de esperanças, resolvi me aceitar do jeito que sou, cadeirante. Porém muito mais do que apenas uma pessoa não tão normal como as outras, aprendi que eu venho primeiro do que a minha deficiência. Eu sempre fiz tudo que todas as garotas normais fazem, tenho minha independência, não preciso de ajuda para ir nos lugares, porém existem ainda o problema da falta de acesso, nem todo estabelecimento tem.

Eu realmente chamava atenção da escola, eu era a única que vivia de cadeira de rodas, porém com o tempo as pessoas foram se acostumando com o meu jeito. Apenas os novatos notavam mais de inicio, afinal as pessoas ainda tem preconceito ou ainda fazem um olhar em choque quando vêem uma cena assim no seu dia a dia. O sinal tocou, aquele era um indicativo de que precisava resolver algumas coisas após a aula, claro que eu era representante da minha sala e teria reunião. Já era o segundo ano em que eu era representante da turma pelo simples fato de que sempre gostava de ter alguma tarefa. A maioria das pessoas achavam chato, mas eu gostava de verdade de assumi-las. Tive que recolher as atividades e levar até a sala dos diretores, coloquei elas em meu colo e fui em direção a diretoria. Claro que esperei o corredor se acalmar um pouco, afinal à hora da saída sempre era uma agonia. Assim que percebi que haviam poucas pessoas eu fui me locomovendo em direção a diretoria e foi quando um menino apareceu bem na frente, não dando tempo de virar a cadeira ou parar de me movimentar. Senti que bati nas suas pernas e as atividades caíram.

– Me desculpe. – Eu falei.

– Olhe por onde leva esse troço aí!

Eu olhei para cima, na verdade era um garoto estilo roqueiro, ele estava com os cabelos bem bagunçados e tinha alargador nas suas duas orelhas, dava pra perceber que havia uma tatuagem subindo pelo seu pescoço.Ele foi grosso e apenas saiu, me deixou lá com as atividades no chão. Na verdade todos sentiam “pena” de mim. Então sempre quando acontecia aquele tipo de situação, todos iam me ajudar. Mas pela primeira vez eu experimentei aquela sensação de alguém não se importar comigo, de ser apenas mais alguém normal no colégio. Eu desci da cadeira e fiquei no chão segurando as atividades enquanto percebi que uma tinha voado para longe.

– Droga

Falei um pouco baixo enquanto tentava arrastar meu corpo para o outro lado para pegar a atividade, mas logo percebi que alguém tinha pegado para mim. Era a Alice.

– O que aconteceu? Você está bem?

Ela era uma das únicas pessoas com quem eu realmente conversava no colégio. A Alice não era uma daquelas que tinha pena de mim, talvez ela fosse minha única amiga diante de tantas pessoas que eram “gentis” comigo.

– Está sim. Na verdade eu me esbarrei em um menino e acidentalmente os papeis caíram e aí vim buscar.

– O que? – Ela parecia não acreditar muito.

– Ele não te ajudou? – Ela estava ainda com os olhos arregalados.

– Sim. Estranho não é? É a primeira vez que passei por isso. – Eu esbocei um sorriso enquanto tentava voltar para a cadeira.

– É mais estranho ainda você ter gostado disso.

Eu ri pelo seu comentário e foi aí que continuei a me locomover agora já na cadeira até a sala dos professores. Entreguei as atividades e fomos embora do colégio. Eu e Alice.

****

Era a aula de educação física, na verdade era a aula de natação a que mais eu gostava. Sentia meu corpo mais leve e por incrível que pareça, eu era a mais rápida da minha turma. Sempre gostei de nadar, a água me trazia uma sensação incrível, me sentia livre e tinha o domínio maior do meu corpo, podia sentir minhas pernas se movendo e essa era uma sensação agradável. Observei que ainda estava a turma B do segundo ano na piscina, enquanto nós da turma C esperava para entrarmos. Foi aí que percebi que as meninas estavam comentando de algo:

– Ele é lindo não é? – Uma menina da minha sala comentou.

– Não gostei, ele é muito roqueiro. – A segunda menina respondeu o comentário.

–Nossa, ele é totalmente meu tipo. Badboy. – A terceira suspirou enquanto falava

– Fiquei sabendo que ele foi expulso de várias escolas, ele é mal humorado. – A segunda menina retrucou.

– Ele é novato não é? – Eu me intrometi na conversa das meninas.

– Sim, ele veio da High Lowessf – A primeira menina bastante informada respondeu e continuou

– Ouvi dizer que ele não tem pais e veio do ofarnato.

– E meu irmão falou que ele faz parte de uma guangue pesada aqui. – A segunda menina adicionou mais uma informação

– Ai... ele é totalmente meu estilo, Perigoso e lindo.

– Como se chama? – Uma das meninas perguntou

– Jackson. – A terceira suspirou enquanto falava o seu nome.

De fato aquele menino era badboy, pior do que isso talvez. Eu nunca fiz sucesso com os garotos, porque será não é? Apenas me viam como uma menina indefesa ou ser de outro mundo, então nunca experimentei ficar com ninguém, beijar ninguém. Já tinha meus 16 anos e a maioria das meninas da minha idade já estavam bem avançadas se tratando de relacionamentos. Apesar dos garotos populares do colégio falarem comigo, nenhum deles parecia estar interessado. Porém havia um em especial que eu não parava de pensar que talvez ele pudesse gostar de mim também. Ele me tratava diferente do que o normal das pessoas, isso me chamava atenção.

– Helen

Era ele correndo em minha direção, ainda estava com a bermuda do colégio molhada, seu corpo tinha acabado de sair da piscina, seus cabelos castanhos claros estavam bagunçado pela testa. Eu podia ver a reação das meninas babando por eles. Essa era uma parte que todas tinham inveja naquele momento. Até ouvi um comentário uma vez que queriam usar cadeira de rodas para ganhar atenção do Nick. Como pode isso? Mal elas sabem... apenas sorria em momentos como aquele. Aquelas crianças, não sabem o que falam.

– Quero ver se você é mesmo boa. Vamos competir?

– Sim – Esbocei um sorriso. Na verdade ele sabia que eu adorava um desafio. As meninas ainda permaneciam caladas enquanto eu cheguei à cadeira de rodas mais perto da partida de largada. Na verdade todos já estavam saindo para piscina, apenas minha turma estava ali e algumas pessoas da turma do segundo ano C. Notei que algumas pessoas pararam para ver até quando aquilo ia chegar. Muitos achavam que eu ia me afogar. Era engraçado perceber o quanto as pessoas me subestimavam. Eu fui até a largada e me sentei colocando meu corpo curvado em direção a água.

–1,2,3 e já. – Ele falou iniciando a partida.

Na verdade eu como não tinha impulso pelas pernas, usava uma maneira de meus braços impulsionarem e assim nadei bastante, a vitória seria quem batesse primeiro. Eu nadei bastante até que toquei a parede e assim que ergui uma parte do meu corpo para fora da água, percebi que o Nick estava quase perto. Eu esbocei um sorriso, claro que tinha ganhado.

– Droga! Você é boa nisso.

Começamos a sorrir e muitos aplaudiam naquele momento. Foi aí que percebi que alguém batia palma de forma diferente.

– Não foi justo. Ele deixou você ganhar.

Eu olhei de onde vinha aquela voz e percebi que era ele se aproximando. Era o Jackson indiferente.

– Se ele me deixou ganhar, porque você não vem aqui e compete comigo.

Percebi que todos tinham feito uma expressão surpresa. Primeiro pelo fato dele falar naquela maneira comigo, segundo pela minha resposta. Eu olhei para a cara do Nick ele parecia querer falar algo e foi assim que ele me olhou, apenas neguei. Ele tinha entendido. Isso era algo que tinha que resolver sozinha.

– O que ganho se eu ganhar?

– Se você ganhar eu faço suas lições por um mês.

– Hum.. nada mal. E se você ganhar? – Ele parecia achar aquela resposta plausível.

– Você ficará um dia de cadeira de rodas. – Eu o desafiei.

– Ficar nesse carrinho o dia todo? Fácil, escolha outra coisa. – Ele foi esnobe.

– Será essa fácil mesmo.

Eu falei enquanto tirava o meu corpo fora da água. O professor não tinha visto aquela cena, percebi que alguns colegas estavam mantendo ele ocupado, sendo assim fui me preparando subindo no pódium novamente. Jackson permanecia com um sorriso no rosto bem convencido, eu olhava para a cara das pessoas, todas pareciam não acreditar. A Alice fez uma negação com o rosto, como se quisesse dizer que era para desistir. Mas eu sabia muito bem que aquele era o momento em que eu provaria não só para os outros, mas para mim mesma do que eu era capaz. Atrapalhando meus pensamentos, tratei de me concentrar e ouvi alguém falar :

–1,2,3 e JÁ !!

Demos a partida, eu estava um pouco cansada do nado anterior, mas essa definitivamente eu não poderia perder. Eu senti que eu tinha que dar tudo de mim, não deixaria aquele menino exibido ganhar, não daria essa ousadia e sinceramente imagino que ele não aguentaria nem o final das 24 horas na cadeira de rodas. Eu nadei tanto, meu braço começou a doer, mas eu não parei, eu prendia mais a minha respiração para não perder o ritmo e foi quando eu cheguei no final da primeira volta, dei um impulso com meus braços e voltei a nadar. Era aquele o final. Eu estava tão concentrada que não percebi onde ele estava, não queria ver, apenas me concentrei. Assim que segurei na borda da piscina eu respirei bastante ofegante. Eu olhei para o Nick e ele estava sorrindo para mim, olhei em minha volta e muitas pessoas sorriam, até mesmo a Alice batia palma,aquele era um sinal de que eu realmente tinha ganhado. Olhei para o lado e estava o badboy ofegante enquanto se recuperava na borda da piscina. Eu esbocei um sorriso e foi pela primeira vez que ele sorriu para mim. Havia algo diferente na sua expressão, ele tinha um sorriso completamente diferente daquele menino que se esbarrou em mim no corredor.

– Tenho que admitir, você é mesmo boa.

– Eu avisei – Nick se intrometeu um pouco no assunto.

– Então, amanhã trarei uma cadeira de rodas, você usará por 24 horas. Fechado?

– Sim. – Ele estendeu a sua mão para que selássemos um acordo. Apertamos as mãos e esbocei um sorriso.

– Vamos começar a aula. Alunos do Segundo ano B, vão pra sala logo.

Aquela foi a primeira vez em que me senti desafiada realmente, porque até então não tinha tanta certeza de que o Nick competia comigo ou me deixava ganhar, mas de fato aquele garoto eu sabia que ele tinha nadado, afinal era um mês de lições feitas. Eu estava experimentando sensações pela primeira vez no meu segundo ano colegial.

***

– Helen para que está levando outra cadeira pro colégio?

– Ah tia, teve uma competição lá e eu ganhei – Falei contente.

– Que tipo de competição?

– Um menino falou que todos me deixavam ganhar por pena de mim na natação, aí competi com ele. Se ele ganhasse eu faria a lição dele por um mês, se eu ganhasse ele iria ficar 24 horas na cadeira de rodas.

– Uau que idéia fantástica! – Ela sorriu enquanto eu terminava de comer.

– Tenho que ir. – Eu estava de fato com muita pressa.

Eu pegava o ônibus, na verdade eu já conhecia os passageiros do ônibus, sempre gentis e paciente comigo, pois o ônibus era acessível para todos, inclusive para mim. Eu estava com outra cadeira e estava pesado, eu percebi que as pessoas me ajudavam com a cadeira.

–Obrigada – Eu sorri enquanto ficava quieta ali no meu lugar reservado enquanto imaginava a cara do menino tendo que enfrentar tudo que eu passava todos os dias em cima daquela cadeira. Acho que ele pararia mais com aquela arrogância e se colocaria no lugar de outras pessoas, não só de mim, mas de qualquer uma. Assim que cheguei no colégio, todos pareciam estar agitados e ansiosos. Logo percebi que algumas meninas me ajudaram a pegar a cadeira que de fato estava bem pesada. Eu olhei para o badboy de longe.

– Nossa que incrível que você ganhou, de verdade fiquei chocada – Uma menina comentou.

– Bem feito, aquele metido irá aprender agora. – Uma revoltada falou.

– Ai... ele é lindo de qualquer jeito, com, sem cadeira... – Uma apaixonada suspirou.

– Helen ! – Alice apareceu me salvando daquela multidão curiosa,estava aliviada graças a ela naquele momento.

– O que foi aquilo? De verdade não acredito que você vai fazer ele usar isso 24 horas.

– Nem eu, mas foi ele quem começou – Comecei a esboçar um sorriso.

– Helen, vá devagar. Não conhecemos esse menino e boatos surgem o tempo todo no colégio. Talvez ele não tenha gostado da brincadeira ou queira se vingar.

– Não se preocupe Alice, ficarei bem.

– Então, vamos começar logo essa palhaçada? – Ele falou com desdém enquanto se aproximava. Eu percebi as meninas abrindo a cadeira e colocando perto dele.

– Sim. Mas uma coisa.

Eu segurei um bracelete, ele era um dispositivo. Ele já havia sentado na cadeira, me aproximei e me encurvei colocando aquilo no tornozelo dele.

– O que é isso? – Ele perguntou.

– Este é um dispositivo. Ele estará em seu tornozelo por 24 horas, caso levante da cadeira aparecerá no celular de todos que você descumpriu sua palavra, será o covarde.

– Não acredito nisso – Ele sorriu ainda me subestimando.

–Tente. –Eu o desafiei.

Ele se levantou e foi aí que o celular de todos começaram a tocar.

–UAU! OLHA ISSO.

–Que maravilhoso, ela é muito inteligente.

– Meu Deus que genial!

Acho que naquele momento nem ele tinha acreditado no que eu tinha feito.

– Isso é fácil, é só ti... – Antes de completar a frase ele tentou tirar o bracelete, mas não conseguiu. Eu esbocei um leve sorriso.

– Esse bracelete é o mesmo material do que os presos americanos que usam em semi-liberdade. Eu tenho o código para tirá-lo, no final das 24 horas estará liberto.

– Ok, sem problemas.

Ele sentou novamente na cadeira como se aquilo fosse mais fácil do mundo. O sinal tocou e assim percebi que ele estava indo em direção a sua sala. Na verdade me perguntei o quanto ele iria aguentar aquilo. O mais estranho era perceber que eu estava gostando daquele tipo de situação, na verdade muita gente prefere não ter problemas na vida ou até mesmo que não tenha ninguém para desafiar. Mas a vida é um saco quando as pessoas são gentis o tempo todo, porque a verdade é que ninguém é.

Não demorando muito, tocou o sinal do recreio. Percebi que algumas pessoas estavam no corredor fazendo gozação com ele, empurravam a cadeira, chutavam, até mesmo deixava as coisas dele cair no chão para que ele pudesse pegar. De fato eu não queria que essa parte acontecesse, o desafio não era para que todos fizessem este tipo de atitude com ele. E foi aí que percebi que alguém tinha colocado as atividades da classe no colo dele e ele teria que levar para a sala dos professores. A cada atitude deles, ele não respondia, apenas aceitava aquilo como uma penitencia. Eu percebi que alguém tinha se esbarrado de propósito na cadeira deixando as atividades cair, ninguém ajudava. Todos ignoravam aquilo, até gostavam. Eu pude perceber o quanto as pessoas eram más, será que havia alguém que passava por aquilo? Eu tive muita sorte, mas nem sempre as pessoas eram gentis. Eu fui em direção a ele, desci da cadeira e peguei as atividades, assim que terminei de recolher eu percebi que ele havia descido na cadeira e estava no chão junto comigo me observando.

– Aqui está. – Eu falei com um breve sorriso.

– O que é você? – Ele permanecia pensativo.

– Como assim?

– Você não tem orgulho? Nunca ajude ninguém que te humilhou. Entendeu?

Ele pegou os papeis bem depressa das minhas mãos e com dificuldade tentou subir a cadeira de rodas. Só que ele havia esquecido de travar, assim que ele tentou subir, ela escorreu, o fazendo cair. Eu tentei ajudar, mas percebi que ele não queria. Eu lentamente fui voltando para a minha cadeira enquanto percebi que ele tentava levantar de novo e a cadeira ia escorregar de novo. Garoto estúpido. Fui em direção a cadeira e apertei a trava, ele ficou a me olhar sem entender. Decidi não ver o final daquele momento, apenas dei as costas, afinal o sinal havia tocado, aquele era o final do recreio.

***

O final das 24 horas se encerraria. Na verdade ele foi muito bem, não houve nenhuma mensagem no celular, sinal de que aparentemente ele não burlou e se manteve fiel a sua palavra. O sinal já havia tocado algum tempo, o corredor estava vazio. Comecei a procurá-lo, afinal aquela era a minha cadeira e precisava dela.Assim que passei em frente a biblioteca que estava vazia, ele estava na cadeira se esticando para pegar algum livro na prateleira, mas não conseguia pois era realmente muito alto. Sem falar muitas palavras disse antes de me encurvar para o tornozelo e tirar o dispositivo

– O seu tempo acabou.

Assim que tirei o dispositivo ele levantou da cadeira, eu apenas me concentrei de dobrar a cadeira no meio para ser mais fácil para levar. Eu de verdade não queria puxar mais assunto com ele, nosso assunto já estava resolvido e pronto, tinha acabado ali. Ele também não falou nada, apenas me virei de costas e fui em direção ao corredor e foi quando ouvi uma voz.

–Saia comigo nesse sábado.

O que? Eu olhei a minha volta e não tinha nenhuma menina. Eu não dei importância, deveria ser alguma outra pessoa, porque esse tipo de coisa não acontece comigo.

– Helen, esteja no parque central, neste sábado as 10:30. Estarei te esperando.

Como assim? O que aconteceu? Eu me virei para o olhar e ele estava de costas já caminhando pelo corredor. Ninguém nunca me chamou para um encontro, será que ele queria se vingar de mim? Eu definitivamente estaria morta naquele sábado. Só podia ser isso, será que ele vai chamar a gangue dele e dará um fim na minha vida? Eu comecei a ficar nervosa. Talvez eu tenha ido longe demais, a Alice estava certa. Porém, eu tinha que aceitar as consequências, afinal eu tinha provocado aquela situação em parte. Imagino que ele queria descontar a raiva de ter sido humilhado no colégio em cima de alguém e claro que eu seria a maior culpada daquilo. Aquele assunto me deu um enorme arrepio pelo meu corpo.

***

Sábado, 09:36 am.

Eu ainda estava na cama olhando para o relógio e imaginando o que ele iria aprontar. Eu não podia ir, eu não estava preparada para sofrer alguma violência física, aliás ninguém é preparado para isso, mas a minha curiosidade de saber o que ele queria sempre era maior do que qualquer sentimento deste tipo. Eu me levantei e fui me arrumar, assim que terminei de tomar banho, vesti um vestido simples e coloquei um casaco jeans, calcei um all star branco e me olhei no espelho. Meus cabelos castanho claro ainda estavam molhados e bagunçados, fiz questão de arrumá-los. Meu rosto parecia um pouco pálido, comecei a passar lápis nos olhos, afinal eles se destacavam mais, o castanho esverdeado ficava perfeito. Passei apenas um gloss de cereja nos lábios e já estava pronta.

10:22 am.

–Droga, vou me atrasar!

Eu tentei de me apressar na cadeira enquanto ia para o ponto de ônibus. Para a minha sorte, minha família não estava em casa, todos haviam ido para a casa do meu tio Franco. Como falei que estava cansada, todos me respeitaram e me deixaram em casa dormindo. A minha sorte é que o ônibus passou naquele momento. O que será que ele quer comigo? Esse será meu fim? “Menina cadeirante encontrada morta em parque central.” Aquele tipo de noticia passou na minha cabeça por um momento. Eu estava nervosa, afinal aquele tipo de situação me fez sair da zona de conforto. Não demorando muito o ônibus tinha chegado, eu desci do ônibus e fui em direção ao parque central.

– Ele não falou o lugar não é? Apenas disse que era no parque. Merda!

O parque era grande, já se passavam 20 minutos, eu estava atrasada é claro. Eu passei, algumas pessoas me olhavam e inclusive as crianças, mas estava preocupada apenas em olhar para ver se ele estava ali. Será que ele viu que eu me atrasei e foi embora? Bem provável. Ele não parece ser daquele tipo que espera alguém que se atrase. Depois de ficar alguns minutos no parque tentando achar algum rosto conhecido eu finalmente vejo um. Era o Nick. Como ele estava lindo, vestido com uma calça, um tênis descolado e uma jaqueta, ele estava com alguns amigos e sorriam o tempo todo, até que percebi que apareceu uma menina linda, bem arrumada. Ela era loira, alta, parecia uma modelo, foi nesse momento que percebi que ele colocou os braços envolta do ombro dela e quando foi dar um beijo na sua bochecha percebi que nossos olhares se encontraram, eu fiz questão de desviar meu olhar para outra coisa. Fiquei encarando o chão, afinal ele poderia não ter me visto, estávamos um pouco longe. Era apenas ilusão achar que ele não tinha me visto, eu percebo que o tênis dele se aproxima da minha cadeira eu olho para cima, ele tinha feito sombra para o sol que estava batendo no meu rosto.

– Oi Helen!

– Ah.. Oi Nick. – Eu falei um pouco sem jeito.

– Fiquei surpreso em te ver aqui. – Ele sorriu, como sempre simpático.

– Pois é... – Eu ainda falei sem graça.

– Você está bonita. É diferente sem a farda do colégio.

Como ele falava aquelas coisas tão fáceis? Ele estava tentando ser gentil Helen, mas nada alem disso. Afinal você viu ele com outra garota também.

– Obrigada, você também não está nada mal – Eu esbocei um sorriso.

– O que veio fazer aqui?

E agora o que eu responderia? O senhor Jackson Evil marcou minha morte aqui no parque na frente de todo mundo? Pior do que isso, ele marcou minha morte e desistiu porque cheguei atrasada e agora estou aqui SOZINHA. Eu realmente não sabia o que responder.

– Ela está comigo.

– O que? – Nick fez uma reação surpresa. Eu olhei para trás e vi que era o Jackson. Ele estava com uma calça bem despojada preta, estava com uma blusa com desenhos de caveira e uma jaqueta por cima, claro que não tinha que me esquecer a bota que usava. Ele era realmente bem peculiar, mas não deixava de chamar atenção.

– É o que você ouviu. Estamos em um encontro. Você se atrasou Helen, vamos.

Ele virou as costas caminhando, Nick estava mais surpresa do que eu sinceramente. Como assim encontro?

– Vem Helen, não me faça esperar — Jackson falou impaciente.

Eu olhei para Nick que ainda permanecia olhando aquela situação, eu apenas o cumprimentei novamente encurvando de leve minha cabeça e virei a minha cadeira em direção ao Jackson. O que tinha sido aquilo? Espera, encontro? Assim que fui me aproximando dele eu o indaguei.

– Encontro?

– O que achou que fosse?

– Eu não sei, achei que ia me matar no parque ou sei lá, sua guangue me bater. – Eu falei de uma forma que fosse engraçada, ele começou a sorrir enquanto parava e sentava em um banco. Ele segurou a lateral da minha cadeira e me puxou me fazendo ficar de frente para ele. Senti que ele tinha se aproximado um pouco mais de mim.

– Não saia distribuindo sorrisos para outros meninos...

–Você parece uma presa fácil fazendo isso. – Ele completou a frase.

– Eu não estava distribuindo sorrisos. Era o Nick, ele é gentil comigo. – Eu o respondi.

– Ah.. entendi.Você gosta do almofadinha.

– Não, eu não gosto. – Falei rapidamente.

– Imagino que sim. A princesa na cadeira e o príncipe que vem ajudar, só faz coisas educadas.

– Essa história é tão clichê não acha? – Eu o respondi e ele parecia ter se suprrendido.

– Como assim? Achei que gostasse das gentilezas.

– Eu gosto, mas na minha condição, as gentilezas são mais por pena, do que por ser gentil propriamente dito.

– É, você tem razão- Ele me respondeu e ficou um pouco pensativo.

–Então, já que é um encontro, o que planejou fazer? – Eu o indaguei.

– Primeiro vamos comer, estou com fome.

– Ok – Concordei, afinal não podia negar que também estava.

Atravessamos a rua, do outro lado do parque, haviam muitos restaurantes. Certamente agora já era praticamente perto do almoço. Assim que ele parou em frente a um restaurante percebi que era pequeno para a minha cadeira passar, mesmo assim só deu para ficar na entrada. As cadeiras e mesas eram muito próximas uma das outras. Eu achei que fosse penitencia por aquilo, será que ele queria me humilhar, me fazer arrastar pelo chão? Aquilo me fez ficar com uma certa raiva e sinceramente só queria voltar para casa. Ele foi caminhando sem nem me olhar, certamente eu tinha que me virar sozinha. Eu desci da cadeira e percebi que alguém ajudou apenas a dobrar a cadeira, tentei olhar envolta onde ele estava sentado mas não o encontrei. Antes me arrastar, senti alguém me segurar pelos braços, na verdade me assustei muito por aquilo. Eu olhei para o seu rosto, era ele sério enquanto caminhava pelo restaurante, claro que aquela cena chamou atenção de algumas pessoas. Pela primeira vez estava sendo carregada por algum menino da minha idade e senti o cheiro dele. Ele era mais bonito de perto do que achei, a curva dos seus lábios, seu nariz, seus olhos e sua pele eram diferentes do que achava.

– Porque esta me encarando? – Ele me perguntou me fazendo ficar sem graça.

– Eu ... não estava. – Menti, virei meu rosto pra frente e foi aí que ele me colocou sentada na cadeira do restaurante de frente para ele.

– Eu sei que sou bonito. – Falou bem convencido.

– Ah ta. – Falei bem irônica e ambos sorrimos.

– Querem alguma coisa para beber por enquanto? – Uma moça simpática veio nos atender.

– Eu quero um suco de laranja – Eu respondi.

– Dois. – Ele respondeu.

– Então, porque queria ter um encontro ? – Eu o perguntei.

– Isso é tão obvio. Porque queria sair com você, tem outro motivo? – Ele sempre era bem objetivo.

– Sim, o motivo de se vingar de mim. – Eu fui sincera.

– Não ia me vingar de algo tão bobo como aquilo. – Ele pareceu ser um pouco menos imaturo.

– Então, como foi as 24 horas na cadeira? – Eu queria ouvir, afinal estava curiosa.

– Não tão fácil. – Ele continuava pensativo.

– Qual foi a maior dificuldade que achou? – Eu continuei puxando assunto.

– Transferir de um lugar para outro. Você tem que sustentar o peso do seu corpo nos braços. Achei essa parte mais difícil.

– É verdade, mas com o tempo você acostuma. – Eu esbocei um sorriso enquanto dava um gole no suco que havia acabado de chegar.

– Você mora com seus pais? –Eu perguntei, afinal tínhamos ficado um pouco em silencio.

– Só com a minha mãe, meu pai nos abandonou.

– Lamento – Eu disse.

– E você? – Ele me perguntou.

– Eu moro com minha tia. Meus pais faleceram quando eu tinha 6 anos.

– Eu.. não sabia. – Ele estava sem muita expressão, apenas pensativo.

– Foi no mesmo acidente em que me deixou assim, por isso as vezes é doloroso olhar para mim e me lembrar daquele dia. – Suspirei um pouco.

– É por isso que as pessoas tem tanta pena de você? – Ele me questionou.

– Ninguém do colégio sabe que meus pais faleceram. Muitos acham que meus tios são meus pais.

– Porque falou? Não tem medo de que amanhã todos saibam?

– Eu sei que você não contaria. – Eu esbocei um sorriso e foi quando a comida tinha chegado.

De verdade estava uma delicia. Não podia parar de comer, aquele lugar era realmente muito bom. Era um tipo de restaurante que eu não iria com minha família, por causa do acesso. Eles sempre arranjavam um em que eu pudesse estar incluída, sem me sentir constrangida. Ao passar do tempo, eu percebi que o Jackson era mais gentil do que imaginava. Na verdade ele era muito diferente a forma como era gentil do que as outras pessoas. As pessoas sempre o julgavam pela aparência ou por algumas atitudes dele, mas o fato é que hoje eu soube que ele tinha um bom coração e isso era surpreendente. Assim que terminamos de comer, fomos dar mais uma volta no parque.

– Eu achava que você era a menina mais frágil no colégio. – Ele me surpreendeu com aquele comentário.

– Jura? – Eu realmente fiquei surpresa.

– As pessoas sempre te tratam como se fosse um vidro, prestes a se quebrar. Por isso, quis ter aquelas atitudes.

– Ah entendi, fez um teste comigo. E tirei a nota máxima? – Eu comentei sorrindo e isso o fez sorrir também.

– Na verdade você foi a única garota que conseguiu me surpreender.

Eu percebi que ao dizer aquilo ele não olhava para mim, apenas para o chão. Ele estava sem graça? Aquilo fez meu rosto corar, eu queria me esconder. Eu não sabia o que responder então tentei ser um pouco mais discontraída.

– E que venceu em um desafio – Falei sorrindo.

– Sim.

Ele ainda permaneceu sério e pensativo. Nós havíamos parado de caminhar. Ele tinha sentado em um banco da praça. Eu resolvi sentar no banco da praça um pouco próxima dele. Assim que desviei meu olhar para frente, era o sol que já estava se pondo. Será que passamos tanto tempo assim juntos? Aquela cena era realmente perfeita. Podia sentir o cheiro da grama verde, senti o vento balançar um pouco meus cabelos e tocar o meu rosto, meus olhos estavam voltados para aquele cenário incrível.

– É lindo não é?

– Sim.

Eu podia sentir que o seu rosto estava virado na minha direção. Foi aí que virei lentamente meu rosto e o olhei. Ele estava quieto e sereno, apenas me observava, fiquei um pouco sem jeito tentei desviar o olhar, mas senti a sua mão quente entrelaçando seus dedos entre os meus. Aquele simples toque fez meu corpo se estremecer por dentro, senti um leva calafrio e senti meu coração acelerar. O que era aquilo? Aquele tipo de sensação? Ele tinha um olhar penetrante que fazia com que meu coração disparasse ainda mais. Eu não podia estar... meu corpo apenas reagia ao seu toque, senti meus dedos pressionar os deles também, era algo involuntário, apenas correspondi o seu toque.

***

– Eu te conheci há exatamente 56 anos em cima daquela cadeira de rodas. Você não fazia idéia do quanto era linda passando por aqueles corredores enquanto seus cabelos acompanhavam a velocidade em que você passava. Era uma das garotas mais fortes e desafiadoras que apareceu no meu caminho e todos os dias eu percebo o quanto fui feliz no momento em que você se esbarrou em mim naquele corredor. Eu não imaginaria passar minha vida ao lado de outra pessoa a não ser você Helen. Passamos muitas coisas no colegial, enfrentamos muitos preconceitos, inveja, ciúmes, mas permanecemos juntos durante todo esse tempo. Lembra quando tivemos nosso primeiro encontro? Eu já estava completamente apaixonado por você e aquele por do sol foi o cenário perfeito para me dar coragem para segurar a sua mão. Eu não fazia idéia se você fosse me corresponder, mas você mesmo assim fez. Aquilo foi o suficiente para entender que pertenceríamos um ao outro dali para frente e desde então fizemos. Lembra da nossa primeira noite juntos? O quanto foi especial? Aquele tipo de sentimento foi único por mim, eu menti dizendo que já tinha feito aquilo, na verdade você foi a primeira e única com quem compartilhei muitas experiências e sentimentos. Eu te achava linda mesmo quando chegava em casa e via você cansada de ter que cuidar dos nossos filhos e arrumar a casa, te achava linda chegando do trabalho cansada, mas com uma enorme saudade de estar em casa com nossos filhos e comigo. Eu te achava linda todos os dias acordando pela manhã com aqueles cabelos bagunçados e mesmo com olheiras nos olhos porque cuidou dos nossos filhos pela noite. Helen, você é e sempre vai ser a mulher da minha vida. Por isso, descanse em paz, porque eu tenho certeza que também não tenho muito tempo por aqui, afinal meu lugar é ao seu lado. Eu te amo Helen!

Eu ouvi os aparelhos apitando, aquele era um sinal de que ela não estava mais ali. Dos meus olhos saíram grossas lagrimas, afinal a mulher que eu mais amei na minha vida tinha acabado de partir. Eu sempre tive esperança de que estaríamos juntos até além dessa vida, mas aquele momento era o que na história ninguém quer contar. A dor de perder alguém que se ama. Apesar de saber que tudo tem um começo e tudo tem um fim, nós fomos felizes.

Eu e Helen fomos felizes.

THE END.

Notas finais
Quero saber o que acharam *_* Essa é minha segunda história. Na verdade eu estou acostumada a escrever uma história completa, então fazer episódio únicos tem sido desafiador, passar o mesmo sentimento em histórias curtas é mais complexo do que achava. Enfim, espero que estejam gostando. Beijos ;*