Cada história escrita por Ela.

3 Sempre ao Meu Lado - Parte 01


Notas iniciais
Olá pessoal! Então, eu tinha viajado e claro que levei o meu noot e escrevi mais um capítulo, mas claro que a história foi de uma maneira que não imaginava e acabou ficando maior do que pensei, então dividi em duas partes. Espero que gostem *_* " Rachel é uma estudante do último ano do ensino médio, ela sofreu mau tratos na infância e após ser adotada por uma família pode recomeçar e muito mais do que isso, conhecer o verdadeiro significado da palavra amor.

Eu apenas sentia a fivela do cinto batendo em minhas costas, a dor era insuportável. A cada vez mais que eu suplicava para que ele parasse, mais ele continuava. Eu tinha perdido o fôlego para chorar, meu corpo ainda estava em choque em cada momento em que aquele cinto arranhava a minha pele. E foi nesse momento que senti uma mão em meu braço e uma voz bem distante.

– Rachel... Está tudo bem.

Eu abri meus olhos rapidamente como se algo estivesse me sufocando, senti meu rosto molhado de suor. Aos poucos fui me acalmando enquanto sentia os seus dedos quentes percorrendo meus cabelos e alisando a minha testa molhada.

– Eu estou aqui, foi só um pesadelo.

O Ryan estava deitado de lado me abraçando enquanto me apertava contra o seu corpo. Existia sempre algo nele que me acalmava naqueles momentos, aos poucos eu fui recuperando meus sentidos. Este tipo de pesadelo era frequente, aquele homem que aparecia no sonho era o senhor Hemelt, conhecido como meu pai biológico.

– Obrigada, eu estou bem.- Falei um pouco ofegante.

– Quer que eu fique um pouco? – Ele me respondeu com um tom de voz suave.

– Sim. – Eu achei quase por um momento que minha voz não ia sair.

Eu virei meu corpo de lado, de frente para ele enquanto sentia seus braços envolta do meu corpo me abraçando. A lateral do meu rosto estava pressionada contra o seu peitoral, ainda era possível sentir o seu cheiro e a sua respiração, mais importante do que isso era poder ouvir as batidas do seu coração, que naquele momento estavam acelerados. Eu sempre contava por um minuto para adormecer e hoje elas estavam mais alto do que o normal. Será que ele tinha se assustado com algo? Foi nestes tipos de pensamentos que adormeci mais uma vez.

***

– Rachel, você vai se atrasar para a aula!

– Já vou, estou terminando.

Finalizei a minha maquiagem que não estava nada muito pesada, apenas tinha colocado para disfarçar as minhas olheiras, a minha cara pálida e talvez melhorar um pouco a cor dos meus olhos que eram azuis. Terminei de pentear meus cabelos longos e loiros e fui pegando a minha mochila. Assim que terminei de descer as escadas eu olhei o Ryan que estava terminando de colocar ovos mexidos em nossos pratos.

– Eu tenho o melhor irmão do mundo – Falei entusiasmada.

– Não venha me enrolar, se apresse e venha comer.

– Ok senhor mandão – Eu caminhei em direção a mesa e fui devorando tudo que ele tinha colocado, claro que deixando um pouco para ele.

– Não sei como não engorda. – Ele retrucou enquanto se sentava a mesa. O Ryan tinha cabelos escuros, seus olhos eram bem escuros, um preto. Ele era mais velho que eu 7 anos, já estava trabalhando e tinha uma barba crescendo. Além disso, ele era alto, bem alto perto de mim, eu tinha 1,64 cm e ele 28 cm a mais.

– Hoje não posso te levar a escola, tenho uma reunião.

– Tudo bem, eu pego o ônibus. – Eu esbocei um sorriso e ele também.

– Qualquer coisa me liga. – Ele foi me falando às últimas recomendações finais antes de me deixar ir embora para o colégio.

– Eu já tenho 18 anos sabia disso?

– Eu sei, eu sei – Ele sorriu da minha cara irônica.

– É hoje a tarde, não se esqueça. – Eu o lembrei.

Assim que saí da casa eu fui até o ponto de ônibus. Era ainda estranho pensar que fazia 5 anos que nossos pais haviam falecido, todos os anos nós íamos ao túmulo de nossos pais, colocamos flores e até mesmo conversamos individualmente. Era nítido que sentíamos saudades todo o tempo deles dois. Fiquei atenta enquanto percebia os pontos de referências, afinal poderia passar despercebido.

– Rachel! – Ela acenou esboçando um sorriso enquanto me olhava.

– Oi Sarah. – Eu esbocei um sorriso a retribuindo enquanto nós nos aproximávamos.

– Então, você viu os gatinhos novos esse ano? – Ela pareceu animada.

– Não. Você sabe que não reparo. – Eu fui sincera.

– Ah é claro, você está apaixonada pelo seu irmão – Ela foi irônica.

– O que? Tá louca? Ele é apenas meu irmão.

– Rachel, vocês são irmãos adotivos, o que tem isso de errado? São dois amigos de infância que cresceram juntos, na mesma casa. – Ele pareceu ser sincera no que falava.

– Mas... mesmo assim, fomos criados como irmãos. – Eu respondi como se ainda continuasse achando aquela história um absurdo.

– Quando você vai assumir isso para você? Pensa... você não se interessa por ninguém, já rejeitou os meninos do colégio, fica ansiosa pra ir pra casa e nos finais de semana parece que some.

Eu... não poderia estar.. apaixonada por ele, era errado. Apesar de ter lembranças da minha infância dolorosa, eu fui morar na casa dos Rupert’s quando eu tinha 5 anos. Eles foram maravilhosos comigo, o meu pai Brian e minha mãe Elouise. Eles me trataram como se eu fosse filhas deles, então desde então me senti um membro da família. Acho que pelo fato do Ryan ser mais velho que eu, isso não gerou muitas brigas no inicio, até porque quando eles me adotaram, o meu pai Brian era da polícia. Ele recebeu um chamado em um bairro e desde então ele se tornou o meu herói. Ele que havia me resgatado nos braços daquele monstro em que me atormentava todas as noites. Lembro que minha mãe Elouise cuidou das minhas feridas, que até hoje são marcas em minhas costas, são cicatrizes deixadas pelo senhor embriagado Helmet. A minha mãe biológica? Ela faleceu quando me teve, na verdade meu pai biológico me culpava pela morte dela, era a única coisa que me lembro dele falar.

– Ei... não é verdade. O próximo menino que me convidar para sair eu aceitarei. – Eu falei confiante. Na verdade eu precisava provar para ela que nada disso era verdade, apenas era um amor fraternal. Eu havia enfrentado muita coisa na minha vida, a minha relação com Ryan era diferente dos irmãos normais, a minha relação com a família Rupert era diferente.

– Jura? – Ela pareceu surpresa e foi aí que o sinal tocou nos fazendo entrar na sala de aula.

**

– Eu cheguei mais cedo hoje, o filho de vocês está atrasado novamente. Lembra quando vocês sempre reclamavam dele ter se atrasado? Pois é, hoje claro que ele iria fazer isso. – Eu esbocei um breve sorriso de saudade pelas memórias trazidas e continuei.

– Então, eu tenho crescido bem, o Ryan trabalha bastante para tentarmos manter a casa. Mas não se preocupem, a herança que vocês deixaram está ainda guardada, usamos bem pouco, porque não queremos passar apertos futuramente. O Ryan diz que está guardando para minha faculdade, mas ainda não acho certo. Mas sei exatamente que vocês concordariam com ele não é verdade? – Eu comecei a rir do que tinha falado. O rosto dos meus pais e o que eles provavelmente diriam, sempre vinha a tona.

– Mãe, eu ainda não arranjei nenhum namorado, mas hoje fiz uma aposta com uma amiga que aceitaria sair com algum garoto. Pai, não fique bravo eu sei que tenho que terminar a faculdade primeiro. – Eu esbocei um sorriso enquanto me ajoelhava olhando para o túmulos deles.

– Eu trouxe umas flores para deixar o túmulo de vocês mais alegres. Eu realmente não sei se vocês me ouvem, mas eu me sinto bem falando. — Eu apenas me calei e coloquei cada buquê em um túmulo. O cemitério não era macabro, era lindo, um jardim lindo.

– Eu demorei mais cheguei. – Ouvi a voz do Ryan enquanto se aproximava.

– Eu olhei para trás e o sol havia iluminado demais o rosto dele, não dava para enxergar direito. Aos poucos ele foi se aproximando e agora como estava dando sombra era mais nítido os traços dos seu rosto, ainda mais naquele ângulo era mais bonito do que o normal. Aquele tipo de pensamento fez virar meu rosto rapidamente olhando o túmulo dos meus pais.

– Já estava fofocando sem mim? – Ele interrompeu meus pensamentos.

– É tudo mentira o que ela disse, eu estou sendo responsável e ela ainda é birrenta. – Ele fez um tom de brincadeira e eu sorri com a sua frase.

– Então pai e mãe, tenho alguém para apresentar a vocês. – Ele continuou.

O que? Que pessoa ele tinha que apresentar? Será uma mulher? Uma namorada? Eu o olhei com uma expressão de curiosa, na verdade ele nunca havia falado de nenhuma garota, especialmente naquela ocasião. Eu ficava sabendo claro que ele tinha seus casos, afinal a cidade era pequena e ficávamos sabendo deste tipo de coisa, mas sempre que eu perguntava ele negava e falava que era sem importância.

– Acho que vocês a aprovariam.

Eu não falei nada apenas ouvi o que ele queria dizer, aos poucos eu me levantei e fui me afastando, sabia que era um momento que ele queria ter a sós com nossos pais, afinal eu tive um pouco atrás. Como assim? Ele parecia falar sério. Ele estava apaixonado por alguém? Ela certamente deveria ter mexido com ele. Porque eu sinto um aperto no peito? Porque eu sinto meu corpo fraco? Não demorando muito eu percebi que o Ryan havia se aproximado e mais uma vez me fazendo despertar dos meus pensamentos.

– Obrigado por me deixar um pouco a sós com eles.

– Tudo bem. – Eu apenas dei um breve sorriso.

– Já comeu?

– Não.

– Quer comer fora?

– Estou sem vontade, quero ir para casa.

– O que aconteceu? Você sempre gosta de sair daqui e comer fora. – Ele parecia preocupado.

– Estou com dor de cabeça. – Menti.

– Quer algum remédio?

– Não, está tudo bem, jajá passa. – Eu fui caminhando em direção nenhuma.

– O carro está do outro lado. – Ele me alertou. Foi aí nesse momento em que parei e comecei a segui-lo, afinal eu não sabia onde ele tinha colocado o carro. Assim que chegamos perto de casa ele puxou assunto.

– Eu vou ter que sair, quer alguma coisa da rua?

– Não, obrigada.

Eu não queria perguntar para onde ele iria, eu era apenas irmã dele e não mãe, na verdade ele não tinha que me dar satisfação de nada.

– Eu vou me encontrar com o pessoal do trabalho.

– Tudo bem. Está com a chave?

– Sim.

– Até amanhã.

– Eu volto cedo

– Obrigada pela carona.

Apenas esbocei um breve sorriso e nem ao menos olhei para o seu rosto e já fui saindo do carro e caminhando em direção a casa. Eu percebi que ele tinha deixado o carro parado enquanto eu caminhava para entrar na casa. O que era aquilo que aconteceu? Eu estava... com raiva dele? Mas por que? Racionalmente ele não me fez nada, ele apenas... disse que iria apresentar alguém importante para nossos pais. Eu nunca tinha pensado que um dia isso poderia acontecer e eu não me preparei para esse dia. Ele tinha chegado.

***

– Vamos para patinação no gelo sábado? — Sarah me convidou.

– Vamos! – Eu falei um pouco animada.

– O que houve? Você não tem planos? – Ela pareceu surpresa.

– Não. Preciso me distrair.

– Ótimo, é assim que se fala. Então, o pessoal do terceiro ano vai também. Fiquei sabendo que tem um gatinho querendo te conhecer.

– O que? Como fica sabendo dessas coisas? – Era impressionante o quanto Sarah sabia do colégio.

– Fácil! Tenho meus informantes.

– Quem é? – Eu perguntei um pouco curiosa.

– Se você for sábado eu direi. – Ela permaneceu pirracenta.

– Ahhh qual é. Vai deixar sua amiga morta de curiosidade? – Fiz birra.

– Sim.

– Sarah... mudando de assunto. Quando você fica com raiva sem motivo o que poderia ser?

– Como assim? Explique o contexto.

– Uma menina fica com raiva de um garoto quando ele diz que vai apresentar outra garota para os seus pais.

– O que? Aonde aconteceu isso?

– Eu vi em um filme. – Menti, claro.

– Como você é boba. É óbvio que ela ta com ciúmes dele.

– Não sabia que esse tipo de sentimento poderia ser ciúmes.

– Claro que é bobinha, veja bem. Quando você tem ciúmes é como você sentisse que vai perder o que tem para outra pessoa, alguém vai tirar aquilo que você mais gosta perto de você. Isso é ciúmes.

– Ah... entendi – Eu ainda permanecia confusa. Será que eu... teria? Eu estava com ciúmes dele? Ciúmes do Ryan? Não... não poderia ser.

– Ele arranjou uma namorada foi?

– O que? – Eu fiz uma cara de surpresa

– Rachel, a única inocente aqui é você. Fala logo, solte o verbo. Sabe mais do que ninguém que pode confiar em mim.

– É.. que... ontem no túmulo dos nossos pais, ele falou que iria apresentar alguém a eles amanhã e ontem ele saiu para beber com os “amigos.”

– Definitivamente tem outra garota na jogada.

– Ele iria apresentar ela aos seus pais hoje?

– Acho que sim.

– O que estamos esperando? Vamos até lá e descobrir quem é essa mulher. – Sarah falou como uma investigativa.

– O que? Não podemos, é errado, eu estaria espionando o Ryan. Eu não...

– Vamos, para com isso. Eu sei que você está curiosa para saber quem é.

Eu não podia negar. Eu realmente estava curiosa para saber quem era a mulher que o Ryan iria apresentar aos nossos pais. Sem pensar muito eu apenas segui a Sarah, as aulas já haviam acabado.

– Mas não sabemos o horário que ele vai – Sarah questionou.

– Na verdade ele sempre pode ir no horário de almoço.

– Você é uma Stalker – Ela brincou.

– Olha só, você que me convida e eu sou uma stalker? – Ambas rimos.

Assim que saímos do colégio pegamos o ônibus em direção ao cemitério. Na verdade eu estava bastante curiosa para saber quem seria ela, qual seria o tipo de meu irmão, qual garota o atraía. Eu suspirei enquanto descemos do ônibus e caminhamos pela entrada do cemitério

– Onde é o túmulo? – Sarah perguntou.

–Aqui, vem.

Eu fiz sinal para ela se esconder atrás de uma árvore. Por sorte ela nos manteria um pouco longe do local, mas perto o suficiente para ver claramente a nova “namorada” dele. Aos poucos formos perdendo a paciência, haviam se passado 1 hora e 30 minutos.

– Eu não agüento mais, maldita idéia minha – Sarah falou sentada com as costas encostada na arvore.

– Será que eu entendi direito? – Comecei a me questionar.

– Vamos embora, estou com fome. – Ela respondeu sem paciência.

– Vamos esperar só mais um pouco e vamos.

Assim se passaram 15 minutos e foi quando eu vi o carro dele de longe estacionando, eu olhei para Sarah e fiz um sinal para ela.

– É ele, ele chegou!

Prontamente ela levantou e nós duas ficamos olhando por trás da árvore. Aos poucos eu percebi que ele havia caminhado sozinho na frente do carro. Mas... logo apareceu outro carro estacionando ao lado do dele e uma mulher saiu. Espera... ele estava esperando ela sair do carro também. Ela era quase da sua altura, estava bem arrumada, parecia ser um pouco mais velha, porém estava bem conservada, com cabelos curtos pretos, ela era... linda, madura. Eles pareciam conversar enquanto caminhavam pelo jardim. Eu virei meu rosto, senti meu coração bater forte, senti uma sensação estranha, era algo que nunca havia sentido na minha vida.

– Uau ela é realmente bonita. Parece ser mais velha.

Sarah apenas reforçou tudo que eu tinha pensado. O que seria aquilo que estava sentindo? Eu.. poderia de fato estar gostando do meu próprio irmão? Eu de verdade achei que estava apenas confundindo as coisas, não podia ser, eu...

– Voce está bem? – Sarah parecia adivinhar o que eu estava pensando.

– Sim.- Menti.

– Não dá pra ouvir nada do que eles conversam. Droga. – Sarah afirmou.

Assim que me virei para olhar, eu percebi que eles estavam rindo. Quem eles pensam que eram? Assim tão próximos e rindo no túmulo de nossos pais? Que falta de respeito. Eu não aguentava suportar aquilo. Era isso, eu estava indignada pelo fato dele ter levado uma estranha sem a minha permissão para ver nossos pais.

– Eles parecem estar se divertindo

– Vamos pra casa – Eu falei.

– Shiu... quero ouvir o que eles falam. – Sarah permaneceu curiosa.

– Eu não quero ouvir nada, quero ir pra casa. – Eu falei um pouco mais alto do que deveria. Sarah imediatamente se escondeu atrás da árvore e tapou a minha boca, aquele era um sinal que talvez eles tivessem visto a gente. Eu suspirei de alivio quando percebi que meu irmão havia saído.

– O que fazem aqui escondidas? – Era a voz do Ryan.

– Olá Ryan, a Rachel queria visitar seus pais hoje, mas percebemos que estava ocupado e resolvemos esperar. – Sarah respondeu.

– Rachel, quero que conheça alguém.

Oh céus. Essa não. Eu não havia me preparado para essa parte, eu realmente não queria conhecer alguém como ela hoje. Eu apenas queria vê-la de longe.

– Tina, essa aqui é minha irmã Rachel e essa é sua amiga do colégio Sarah.

– Olá Rachel, prazer em conhecê-la. O seu irmão falou muito de você.

– Olá Tina, igualmente, mas não ouvi falar de você. – Esbocei um breve sorriso.

Percebi que meu irmão e ela sorriram, o sorriso dele eu sabia que era de estar um pouco sem graça, mas o dela eu ainda não soube identificar. A maldita da Tina era mais linda ainda de perto, ela não parecia ser falsa. Eu não sei, mas diante de tudo que passei e tudo que minha mãe me ensinou eu sabia identificar algumas características das pessoas só de olhar para elas e pelo olhar da Tina, achei que ela talvez fosse legal e o pior que isso é que eu estava sentindo uma dor mais apertada ainda.

– Eu... preciso ir. – Falei convicta.

– Vai pra casa? – Meu irmão me perguntou.

– Sim.

– Talvez a Tina pudesse te dar carona, eu vou voltar para o trabalho.

– Só um minuto, preciso falar com você Rachel. – Sarah me interrompeu, antes mesmo que eu fosse dar uma resposta.

A Sarah me puxou pelo braço me levando para um canto mais distante deles. Eu ainda não tinha entendido o que ela queria me dizer, mas estava prestes a descobrir.

– Essa é a oportunidade que você tem de conhece-la. Mantenha a mais perto possível para descobrir quem é ela e o que ela tem com seu irmão. Se for o caso, nós a destruiremos.

– O que? Não quero destruir ninguém- Eu ri um pouco do seu comentário.

– Ah, você entendeu.

Na verdade a Sarah tinha razão. Eu tinha que saber o que aquela Tina, na verdade quem era ela, o que ela e o Ryan tinham. Assim que voltamos eu concordei com ele em ter que voltar com ela de carro para casa. Assim que entrei no carro tentei permanecer calada durante a ida para casa, mas ela insistia em falar comigo.

– Seu irmão fala muito de você. Na verdade, percebo que vocês tem uma ligação muito forte, imagino que deve ser difícil pra vocês após perder os seus pais.

O que ela queria que eu fizesse? Que eu abrisse meu coração e falasse tudo para ela? Eu não iria falar nada do que estava sentindo e muito menos diria nada da minha vida com meu irmão.

– É sim nós temos uma ligação forte. E foi difícil sim como imaginou. – Apenas confirmei o que ela havia dito.

– Então... um dia talvez ele se case e você também. Imaginaria viver separada dele?

O QUE? AQUILO ERA DEMAIS PARA MIM. Eu suspirei. Como assim? Eu mal conheci aquela mulher e ela queria falar de casamento, ela queria se casar com meu irmão e pior do que isso... ela queria que eu me separasse dele. A minha sorte é que havia chegado em casa.

– Eu mal te conheço, acho que se você se casar com ele ainda vai demorar um pouco.

– Mas.. eu...

– Olha, eu realmente me enganei. Se você quer ficar com meu irmão fique, não precisa ficar arranjando uma maneira de me separar dele.

– Eu... – Ela tentava falar algo, mas não deixei ela falar.

– Obrigada pela carona.

Eu caminhei atravessando a rua e finalmente chegando em casa. Eu corri até meu quarto, tranquei a porta e joguei meu corpo na cama, senti meu rosto afundar no travesseiro. Achei por um breve momento que fosse sufocar, mas depois virei meu rosto de lado e as minhas lagrimas corriam sem parar. Eu não tinha controle sobre o que eu estava sentindo. Será que minha vida seria assim? Eu teria que suportar ver uma mulher estranha todos os dias com o Ryan e aos poucos sem estar perto dele, morando em outra casa sozinha talvez. Aquele tipo de sentimento tinha chegado no meu limite eu... não estava suportando aquilo. Eu percebi que ele bateu na minha porta e tentou abrir, mas pela primeira vez eu não deixei ele entrar, era demais para mim encará-lo naquele momento.

***

– Titia, vem cá brincar comigo.

Era um menininho pequeno puxando a barra do meu vestido e assim que eu olhava tinha mais 2 e assim ia se tornando vários menininhos.

– Não, não. – O desespero ia tomando conta de mim de ver tanta criança falando comigo enquanto eu percebia o meu irmão com Tina casados, eu tinha desaparecido e estava agora em uma casa escura sem nenhuma luz, caminhava pelos corredores sem ouvir absolutamente nada.

– Esse é o lugar onde você merece – Meu pai biológico havia me falado enquanto percebi que estava tirando um cinto novamente.

– NÃO!

Eu abri meus olhos, minha respiração estava ofegante. Minhas lágrimas escorriam pelo meu rosto. Aquele sonho tinha sido real demais para mim. Eu olhei para o meu lado e não havia ninguém. Ele sempre estava quando eu abria meus olhos dos meus pesadelos, ele me resgatava deles sempre, mas hoje eu estava sozinha. Aquele sentimento de solidão me invadiu, eu simplesmente não sabia o que pensar. Foi aí que ouvi a porta do quarto se abrindo e ele tinha caminhado mais rápido do que o comum.

– Você está bem ?

– Não – Pela primeira vez fui sincera.

– Desculpa ter chegado tarde.

Ele se aproximou da minha cama, eu encostei o meu corpo mais para o lado e foi aí que ele pegou a coberta e me cobriu, ele havia inclinado o seu corpo e senti seus lábios quentes em minha testa. O seu cheiro ainda continuava me causando sensações estranhas, o calor do seu corpo por um momento me fez querer pedir para que ele ficasse mais, porém que direito eu tinha? Ele tinha agora... uma namorada. Eu virei meu corpo para o outro lado e susurrei.

– Não esqueça de fechar a porta. Boa noite.

Não demorando muito ouvi um barulho da porta se fechando. Eu não podia evitar, as lagrimas continuavam rolando do meu rosto, elas não paravam nenhum minuto sequer. Eu tinha que crescer, eu tinha que aprender a não precisar mais dele, tinha que enfrentar meus pesadelos sem ter ninguém do meu lado me consolando, eu tinha que ser forte.

***

– Alô?

– Pela sua voz, acabou de acordar. Já está atrasada Rachel, venha logo.

– Quem é?

– Quem mais poderia ser? Sua única amiga. Venha logo que os meninos estão esperando.

– Certo.

O QUE? Eu arregalei os olhos e olhei para o despertador. Droga! Já estava realmente tarde.Já era quase meio dia e Ryan não havia me acordado, isso se ele estivesse em casa ou então tava de amores pela Tina. Assim que terminei de tomar um banho rápido, coloquei uma calça jeans, uma blusa de manga e um casaco por cima. Hoje fazia muito frio, então peguei um cachecol vermelho que minha mãe costumava sempre usar. Assim que desci correndo pelas escadas eu vi o Ryan deitado no sofá.

– Vai sair?

– Sim

– Pra onde você vai?

– Você não é meu pai ta? Não volto tarde.

Eu nem quis ouvir o que ele tinha falado e já fui saindo de casa, mas foi justamente naquele momento em que percebi que eu estava começando a passar dos limites. Ele sempre foi assim, ele sempre cuidou de mim e eu não tinha o direito de estar com raiva. O Ryan merecia ser feliz, eu desejava que ele fosse feliz, mesmo que isso significasse que eu fosse ficar sozinha ou fosse apenas unilateral. Não demorando muito eu havia chegado no lugar. Sarah estava com um grupinho, haviam 3 meninos e uma menina do colégio.

– Que bom que veio. – Sarah esboçou um sorriso enquanto eu a cumprimentava.

– Gente, essa é Rachel.

– Rachel essa é Antonelli, Kevin, Liam, Bruce.

A Antonelli era uma ruiva com algumas sardas no rosto, isso era o seu forte, pois era bem exótico, porém era um pouco mais baixa que eu. O Kevin era moreno alto, tinha uns olhos cor de mel, de fato chamava bastante atenção. O Liam tinha um cabelo cacheado, parecia um anjinho, era bem branquinho. O Bruce era irmão da Antonelli, era também ruivo só que um pouco mais alto do que nós. Foi nesse momento que percebi que a Sarah havia dito que um deles estava afim de mim.

– Qual deles? – Eu perguntei pra ela bem discretamente.

– Vai ter que adivinhar. – Ela esboçou um sorriso.

O pessoal na verdade era bem legal, a Antonelli e o Bruce brigavam o tempo todo, bem diferente da minha relação com o Ryan. O Kevin era bastante engraçado, senti que a Sarah estava caidinha por ele, então descartei logo ele. O Liam era um pouco mais quieto, tímido, mas era divertido. Por um momento eles conseguiram me distrair, mas a minha mente... eu só pensava no Ryan. Eu imaginei o quanto ele se divertiria ali comigo fazendo um boneco de neve, um anjinho na neve ou até mesmo patinando comigo no gelo. Assim que terminei de patinar eu vi de longe uma mulher... era a TINA. Ela estava com um homem do seu lado e um... menininho? Não poderia ser. Ela era CASADA? Meu Deus. Meu irmão se envolveu com uma mulher casada? Ele era amante? Impossível, ele não era desse tipo. Ela então tinha enganado ele. Só podia ser a explicação mais óbvia.

– Olha aquilo Sarah.

– Meu Deus, ela é casada?

– Eu vou lá.

– Não, não, pode piorar as coisas – Sarah falou.

– Eu preciso ir Sarah.

Eu fui em direção a Tina e foi nesse momento em que ela me reconheceu. Eu estava com uma feição um pouco séria. Eu ouvi claramente o menino chamando ela de “mamãe”.

– Querido já volto – Ela falou para o marido enquanto vinha na minha direção.

Que mulher cara de pau. Por mais com raiva que eu estivesse naquela situação do meu irmão casar com ela, ela não tinha o direito de fazer isso com ele.

– Precisamos conversar, não aqui. – Ela falou.

Ela foi na frente enquanto eu a segui, na verdade fomos até um café que ficava em frente a pista de gelo. Lá realmente era mais quente e aconchegante.

– Antes que fale alguma coisa, deixa eu explicar.

– Não quero saber, quero que você seja sincera com meu irmão. Voce tem uma família e está enganando ele? Acha isso certo para uma pessoa da sua idade Tina?

– Me escuta primeiro. Você falou demais Rachel e não me ouviu um segundo sequer. – Ela havia falado um pouco mais agressiva.

– O seu irmão se encontrou comigo porque ele estava preocupado com você, por causa dos seus pesadelos.

– Como assim? Ele te contou... – Eu mudei drasticamente minha expressão, estava surpresa.

– Sim, ele me contou. Eu sei de tudo o que aconteceu, sei que você é adotiva, onde seu pai a encontrou. Eu sou psicóloga Rachel. Ele não quis que você soubesse, pois várias vezes você recusou conversar com alguém que não fosse a sua mãe adotiva Elouise.

– Eu.. eu não sabia. Me desculpa – Realmente eu estava arrependida por ter falado aquelas palavras para a Tina.

–Tudo bem. Eu sei que você já não é mais menina, já é maior de idade e acredite que sei o que passou. O meu pai me abusou quando eu era criança, então eu posso imaginar a sua dor. Só que diferente de você, eu não tive nenhuma família adotiva e alguém para cuidar de mim as noites nos meus pesadelos.

– Eu... lamento... pelo seu pai. – Eu realmente não sabia o que falar, aquela mulher era surpreendente. Como ela aprendeu com aquela dor tão grande e sozinha?

– Está tudo bem agora. Seu irmão se importa muito com você e faria ele feliz se ao menos você aceitasse conversar comigo mais vezes. – Ela tinha sido bem objetiva, acho que tinha percebido que esse tipo de joguinho não funcionava comigo, tudo tinha que ser o mais claro possível.

– Tudo bem, eu aceito. – Eu falei sem pensar muito.

– Certo, esteja segunda as 15:30 no meu escritório. Aqui tem um cartão com o endereço.

– Obrigada. – Eu a agradeci.

– Tina... desculpas mais uma vez.

– Tudo bem, sem problemas. Ela esboçou um sorriso simpático e caminhou em direção a saída do café. Eu olhei para o cartão que estava entre meus dedos e suspirei. Era um sentimento imenso que invadia de alívio e também de culpa.

**

– Obrigada pela carona Liam. – Eu falei enquanto saia da moto retirando o capacete. Ele de verdade era um menino que parecia ser bastante agradável.

– Sem problemas Rachel.

– Foi bem divertido estar com vocês hoje. Te vejo por aí. – Eu entreguei o capacete e me virei de costas, fui caminhando em direção a porta da entrada e foi quando quase estava perto da porta eu ouvi.

– Rachel.

Era o Liam correndo em minha direção,apenas parei para observar. Será que eu tinha esquecido alguma coisa? Houve algo?

– Quer ir comigo no parque nessa sexta? Digo... vai um pessoal e...

– Tudo bem. – Eu falei sem muito ter o que pensar, afinal eu tinha apostado com a Sarah. Então era ele, o Liam que a Sarah tinha falado. Ele era gentil, tinha um sorriso lindo, era lindo, mas... ele não era o Ryan. Ele não tinha idéia do que eu havia passado, ele não convivia comigo, será que ele suportaria minhas crises? Será que ele suportaria minha tpm? Será que ele agüentaria ver as cicatrizes nas minhas costas? O Ryan já tinha feito tudo isso e... o Liam por mais legal que fosse, talvez não suportaria esse tipo de coisa. Assim que nos despedimos eu entrei em casa e vi que o Ryan estava em pé perto da porta. Eu caminhei em passos rápidos e o abracei forte. Coloquei meus braços envolta do seu pescoço e fiquei quase pendurada enquanto sentia o seu cheiro.

– Me desculpa, eu não tinha o direito de falar assim com você. Para compensar eu faço o jantar hoje certo? – Eu me afastei e o olhei, ele por um momento ficou sem entender, mas aos poucos eu fui me afastando e ficando um pouco sem jeito, acho que eu tinha exagerado demais no abraço.

– Tudo bem, desculpa aceita. E.. quem era ele?

– Ele? – Eu fiquei ainda pensativa, afinal meus sentimentos estavam a mil naquele momento, a minha mente por um momento ficou em branco.

– O garoto da moto. – Ele falou.

– Estava me espiando? – Eu arqueei a minha sobrancelha e depois comecei a rir.

– Eu ... – Ele arregalou os olhos e mal deixei ele terminar de falar.

– Ele é lá do colégio, Liam. Nós estávamos com o pessoal lá na pista de gelo, foi bem divertido. Acabei encontrando Tina.

– Ah... jura? E como foi? – Ele permaneceu ainda sem graça.

– Eu...não fazia idéia do quanto você estava preocupado. E... marquei uma consulta com ela segunda certo?

Ele pareceu surpreso, afinal ele não esperava que eu descobrisse tão cedo, claro que um dia eu iria saber, mas acho que ele havia ficado receoso com a minha reação, afinal tantas vezes ele havia tocado no assunto e eu sempre me mantive distante ou até mesmo desconversava.

– Está tudo bem, eu sei que tem sido difícil para você. – Eu suspirei me sentando no sofá enquanto já estava sem o casaco e o cachecol.

– Não é difícil para mim Rachel, acredite, você não é um peso na minha vida. Eu quis falar com a Tina porque ela pode te ajudar, ela pode fazer coisas que eu não consiga fazer.

– Eu sei, eu entendo o que você quer dizer. Na próxima vez, por favor me diga apenas a verdade eu.. achei que...

– Você achou que eu ia casar com ela? – Ele esboçou um sorriso, aquilo me fez ficar um pouco mais tímida, senti minhas bochechas corarem, eu desviei o meu olhar.

– Eu achei que ela fosse me separar de você e... teria que ficar sozinha.

– Rachel, eu nunca deixaria você sozinha. Está mais fácil você me deixar sozinho. – Ele respondeu com um tom de brincadeira.

– Afinal você agora está com namoradinhos do colégio, vou ficar velho e abandonado.

– Nenhum deles é você.

Aquele momento eu percebi pelo silêncio dele, eu havia falado demais. Ele não soube responder, aquele era o indicativo que a nossa conversa iria parar por ali mesmo. Eu inventei uma desculpa de ter que colocar as roupas na secadora. O que houve comigo? Porque eu falei aquilo? Saiu sem ao menos que eu percebesse. Tina teria que me ajudar a entender o que se passava comigo. Eu fui ocupando a minha mente com os afazeres da casa. Sempre fomos um bom time, o Ryan deixava tudo bem organizado e eu também era assim. Fui fazer o jantar enquanto eu percebi que ele estava assistindo um jogo na televisão. Desde aquela conversa estranha pela tarde não nos falamos muito. Assim que terminei de fazer a janta eu coloquei tudo na mesa bem arrumado e caprichado. Eu tinha dado o meu melhor naquele jantar, afinal era o meu pedido de desculpa para ele.

– Está um cheiro bom! – Ele falou se aproximando.

– Já terminou o jogo?

– Sim, 2x0. – Ele estava feliz é claro, afinal o seu time tinha ganhado.

– Acho que você deve brigar mais vezes só pra fazer comida para mim todos os dias. – Ele brincou.

Aquele jantar estava divertido, nós conversamos, rimos, foi um momento em que senti que éramos normais, apenas eu e ele naquela casa. Aqueles momentos seriam registrados como uma das minhas melhores memórias.

Notas finais
Eu espero que tenham gostado *_* Ainda hoje postarei novo capítulo ;*