Cada dia da minha vida
8 Capítulo 8 – Veja tudo desaparecer
Capítulo 8 – Veja tudo desaparecer
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2018/e/f/seIAipRACQK8XgfTxi1Q/cena-8-2.jpg)
— Amália...
A ruiva olhou para Samara. Afonso tinha ido embora há algumas horas e todos na casa estavam quietos perdidos em pensamentos e temores sobre a guerra.
— Eu não devia lhe pedir isso. Afinal estamos todos vivos, é apenas algo que não consigo tirar da cabeça.
— Você pode me dizer. Não há problema algum.
— Nunca estivemos numa guerra antes, apesar de todas as dificuldades que passamos. Eu não sei o que pode acontecer.
— Samara, nós vamos sobreviver.
— É o que tenho repetido pra mim mesma, mas eu tenho Levi. Você deve entender como me sinto agora.
Amália olhou para a barriga de três meses, admitindo para si mesma que também temia, embora tivesse tentado evitar até agora. Voltou a encarar Samara, que olhava em volta para ter certeza que Levi não estava por perto.
— Por favor. Se algo me acontecer, cuidem do meu menino. Nós não temos mais ninguém. Cuidem dele como se fosse de vocês – a morena lhe implorou com os olhos marejados.
Amália a encarou sem saber o que mais dizer. Como consolar uma mãe de tal tipo de medo? Devia ser impossível, especialmente com um filho muito jovem. E no fundo Amália já conseguia entendê-la. Seu bebê era muito pequeno para ser salvo se algo lhe acontecesse agora, mas se fosse possível, se algo lhe acontecesse, também ia querer que ele fosse salvo e protegido.
— Eu prometo.
******
A casa dos Giordano estava quieta, mas em um caos interior tão grande quanto à guerra lá fora. Levi chorava silenciosamente abraçado a Constância. Antes da guerra realmente começar todos haviam temido por suas vidas e Amália prometera a Samara que cuidaria de Levi como seu próprio filho se algo lhe acontecesse. Afonso prometera o mesmo. Nenhum dos dois estava aqui agora, mas Constância sabia que honrariam sua promessa.
Levi tinha parecido indiferente no momento em que Samara se foi, mas quando o choque se foi e o peso da perda da mãe se abateu sobre ele minutos depois, o menino se isolou na sala de mantimentos, e Constância foi atrás dele. Ela mesma também chorava agora, mas por sua própria família. Martinho estava tão desesperado quanto ela. Amália e Diana não tinham chegado em casa até agora, Afonso e Tiago estavam lutando. Martinho queria sair para procurar a filha, mas Constância ficou com medo. Além de sua filha grávida, o que seria dela se seu marido também sumisse?
— Perdi todo mundo hoje...
O menino chorou mais. Se sentia culpado pela morte da mãe e a falta de Amália e Diana. Samara o estava procurando quando foi atingida por uma flecha. Constância e Martinho encontraram os dois, mas não conseguiram encontrar Amália e Diana. E nem o médico para tentar ajudar Samara. Fizeram o que estava a seu alcance, mas a flecha tinha atingido um ponto vital.
— Não meu filho, não – Constância lhe disse entre as lágrimas – Afonso é um guerreiro experiente e muito habilidoso e forte, ele vai voltar. Tiago é um excelente arqueiro, também vai se sair bem. Amália, Diana, vamos encontrá-las quando as coisas se acalmarem.
******
— A cidade foi atacada com os feirantes e moradores ainda circulando – Afonso reclamou enquanto se escondia com Cássio em uma das casas perto da feira.
Os dois eram irmãos de criação e tinham se mantido firmes na decisão de não lutar um contra o outro. Afinal Afonso se opunha às decisões e atitudes injustas de Rodolfo e não a qualquer pessoa de Montemor, especialmente Cássio.
— E acha que o insano do rei se importa com isso?
Os dois se abaixaram e se esconderam com um som alto do lado de fora e as chamas que viram pelas frestas da casa.
— De qualquer forma – Cássio continuou – Eu entrei na cidade logo no começo da invasão, vi os soldados de vocês ajudando o povo a recuar com segurança, eu mesmo ajudei discretamente retardando um grupo dos nossos que estava muito perto.
— Não sei se Amália e Diana estavam na feira, ou Samara, ou qualquer pessoa.
— Eu sinto muito, meu amigo, mas não podemos nos preocupar com isso agora.
— Eu sei.
— O filho que vocês esperam está bem?
— Sim, os dois estão. Eu espero que ainda estejam enquanto lutamos aqui.
— Apesar de tudo isso, você sabe que estou do seu lado. Quando essa guerra ridícula acabar, vença quem vencer, ainda estou disposto a ajudar vocês se precisarem se afastar do tal Virgílio.
— Eu agradeço muito por isso, Cássio – Afonso falou com sinceridade antes de serem obrigados a sair do esconderijo e voltar ao combate.
******
Constância, Martinho e Levi se levantaram com as batidas desesperadas na porta, trocando olhares de apreensão. Sempre poderia ser Virgílio ou algum soldado de Montemor.
— Quem é? – Martinho perguntou.
— Sou eu! Diana! Abram, por favor!!
Ela estava claramente chorando. Teria se ferido? Por que não ouviam a voz de Amália também?
Constância abriu a porta e puxou a loura para dentro, sentindo o pânico crescer em seu coração ao não ver Amália. Fechou a porta e levou Diana para se sentar numa das cadeiras da cozinha.
— Diana, Diana, tente se acalmar, por favor! – Constância pedia ao mesmo tempo tentando ajudá-la e interrogá-la.
Diana respirou fundo algumas vezes quando conseguiu parar de chorar.
— Diana, onde está Amália? – Martinho questionou em desespero.
— Eu não sei... Quando ouvimos os gritos dos soldados a feira virou um tumulto. Os soldados de Artena e Montemor se misturaram às pessoas na multidão. Em um segundo fomos afastadas. Eu gritei por ela várias vezes, mas não conseguimos voltar pra onde estávamos. Eu andei por todos os lugares onde era possível passar sem levar uma flechada, tentei chegar à floresta, mas já havia muitos soldados, perguntei a todos que encontrei, mas as pessoas estavam desesperadas fugindo, e nenhuma delas viu Amália. Tentei encontrar Afonso, mas não sei onde ele está, e os arqueiros devem estar nos arredores da cidade, não encontrei Tiago.
Diana voltou a chorar, agora acompanhada por Constância, enquanto Martinho tentava não entrar em pânico e Levi não sabia o que dizer.
— Vamos cuidar desses ferimentos – Constância falou observando os arranhões nos braços de Diana, provavelmente ela tinha usado os braços para se proteger da batalha do lado de fora enquanto procurava Amália – E depois vamos dar um jeito de procurar e encontrar Amália.
— Constância...
— Martinho! Já há pânico e tristeza o suficiente aqui. Não comece uma discussão se for nisso que está pensando. Se sairmos agora seremos mortos. Vamos cuidar de Diana e pensar em como nos proteger lá fora. Amália é muito inteligente, vamos ter esperança e sair o mais rápido possível.
— Me perdoem – Diana murmurou entre as lágrimas.
— Não foi culpa sua, não foi. Só vamos pensar em como resolver, venha – a mulher mais velha a puxou para outro lugar, indo pegar remédios.
Martinho olhou para Levi, chorando novamente. Os dois fitavam a porta, se segurando para não irem lá fora.
— Ei, ei... – colocou a mão no ombro do menino – Eu sei que o seu dia está sendo difícil, bem mais que o de todos nós, mas vamos conseguir resolver tudo. Daqui a pouco vamos sair, e vamos encontrar Amália.
******
— Milha filha! Amália! Você a viu?
O morador negou com a cabeça. Desde que o combate havia terminado, após devastar quase que completamente o reino, Constância e Diana estavam andando por todo lugar à procura de Amália. Martinho e Levi estavam em casa, ajudando as várias pessoas feridas e desabrigadas que estavam acolhendo lá desde o dia anterior.
— O médico! O médico está vivo! – Diana apontou a direção onde viu o homem passar e as duas o seguiram correndo.
— Dona Constância – ele a cumprimentou no mesmo tom triste de todos os sobreviventes.
— Amália! Você a viu?
— Ela não está com vocês?
— Ela sumiu desde ontem – Diana informou – Na hora que a batalha começou e o tumulto na feira aconteceu, ela desapareceu no meio das pessoas. Ela está com três meses – disse mais baixo, o médico sabia que estavam guardando segredo e por que.
O homem acenou negativamente com a cabeça.
— Eu não a vi, mas serei o primeiro a procurá-los se isso mudar.
As duas assentiram e continuaram sua busca.
— Muitas pessoas desapareceram ou foram encontradas sem vida – uma mulher falou por onde passaram – Perdemos pessoas da família... Meu marido, foi atingido por uma flecha segundos depois de nos empurrar pra dentro de casa, nada pudemos fazer – ela disse antes de começar a chorar.
Os olhos de Diana se encheram de lágrimas com a possibilidade de isso ter acontecido com Amália, e Constância não ficou num estado muito melhor. Chegaram a pensar que Virgílio poderia tê-la levado, mas ele próprio estava ferido e caído num canto na frente da casa junto às outras pessoas que estavam ajudando, e havia se mostrado transtornado com o sumiço de Amália, mas estava fraco para reagir e sair atrás dela quando o questionaram. Após também não a encontrarem na floresta, acharam melhor retornar. Tiago e Afonso prometeram voltar assim que o combate acabasse.
— Como assim não a encontram?! – Ouviram a voz de Afonso dentro da casa quando chegaram.
— Diana e Constância saíram há horas para procurá-la...
— E não encontramos – Diana respondeu quando entraram e Tiago correu para abraçá-la com força.
Afonso abraçou a sogra e depois Tiago fez o mesmo.
— Martinho me contou tudo – Afonso falou – Eu fico aliviado por saber que vocês estão bem, apesar do que houve a Samara. Mas precisamos encontrar Amália o quanto antes. Ela pode ter se desorientado e se perdido, Virgílio pode estar mentindo, alguém pode tê-la levado, ou pode estar desmaiada ou ferida em algum lugar...
— Afonso tem razão. Onde vocês não procuraram?
— Andamos por todo o local da feira – Constância começou – Pelos lugares da floresta onde ela costuma trabalhar, perguntamos a todos, mas ninguém a viu. Ouvimos relatos de pessoas desaparecidas e mortas.
Constância se entregou às lágrimas novamente e foi abraçada pelo marido.
— Eu e Tiago vamos sair, vamos ao outros locais da batalha, ela não pode ter virado poeira, tem que estar em algum lugar – falou calmamente tentando manter Constância tranquila.
— Fiquem aqui – Tiago falou – Ajudem as pessoas, não saiam e fiquem atentos a tudo.
Diana assentiu e Afonso se abaixou para ficar no nível de Levi, sentado numa cadeira.
— Eu vou trazê-la de volta. Não vamos perdê-la.
O menino assentiu, apesar de a tristeza continuar nublando seus olhos.
Fale com o autor