Cada dia da minha vida

9 Capítulo 9 – O amor que já se foi


Capítulo 9 – O amor que já se foi

— Vamos voltar por todos os lugares onde vocês foram, ela pode ter voltado e buscado ajuda com alguém na cidade – Afonso falou – E vamos mais longe na floresta e no campo.

— Continuem ajudando as pessoas, por mais que isso seja difícil agora – Tiago pediu.

Diana e Levi entraram nervosos na casa quando os dois já estavam saindo.

— Meu amor, o que foi? – Tiago perguntou à namorada.

— O Virgílio. Ele sumiu. Sumiu... Não está em lugar nenhum.

— Vocês não podem deixar ele encontrar a Amália! – Levi se desesperou.

— Levi – Afonso chamou apoiando as mãos nos ombros do filho adotivo – Não vamos deixar isso acontecer. Vamos sair agora e encontrá-la onde quer que ela tenha ido parar. Virgílio está ferido e fraco, não conseguirá ir longe. Eu sou seu pai agora. E eu quero que você tente se acalmar. Fique aqui e ajude Constância, Martinho e Diana com os feridos enquanto voltamos. É o que Amália estaria fazendo – sorriu para o menino, apesar de toda a tristeza que envolvia o momento, e Levi lhe deu um leve sorriso.

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— Isso é muito suspeito, Tiago. Virgílio sumiu enquanto estávamos dentro de casa.

— Mas nos disseram que ele pareceu realmente transtornado. Se não estava, é um bom ator. Ou ficou ainda mais louco e saiu pra procurar mesmo machucado.

— Temos que achá-la depressa... Ainda há alguns soldados de Montemor nos arredores. A princesa Catarina foi capturada e o rei Augusto fugiu. Podem estar atrás dele.

— E como isso vai nos ajudar?

— Vou encontrar Cássio. Ele disse que nos ajudaria se precisássemos de fato afastar Amália de Virgílio caso ele descobrisse a gravidez e ficasse violento. Eu o encontrei durante o combate. Foram poucos e desesperadores minutos, mas falamos sobre isso. Ele pode ainda estar em Artena.

Os dois percorreram novamente o centro da cidade, ajudando algumas pessoas desesperadas no caminho. Famílias separadas, crianças chorando aterrorizadas, feridos, pessoas mortas, casas destruídas, animais que haviam fugido assustados, estabelecimentos comerciais destruídos, incluindo a loja de Virgílio que havia pegado fogo, e todo tipo de caos.

— Como Rodolfo foi capaz...? – Afonso sussurrou para apenas Tiago ouvir, sua voz misturava raiva e dor diante de tudo que tinham visto.

— Eu imagino o quanto deve ser difícil pra você ver seu próprio irmão ser o responsável por isso, Afonso.

O moreno assentiu em silêncio enquanto se encaminhavam para o campo onde Amália costumava trabalhar. Desmontaram dos cavalos perto do lugar onde Amália o havia encontrado ferido quando se conheceram, e caminharam através das árvores e do capim alto. Algumas folhas de capim estavam soltas no chão ou sendo levadas pelo vento, as cascas das árvores tinham marcas de espadas ou pedaços arrancados e até mesmo sangue. Encontraram dois soldados de Artena caídos no chão, sem vida, e marcas onde momentos atrás devia haver alguém caído também, talvez soldados mortos de Montemor já retirados para serem levados de volta. Observando o horizonte, Afonso esbarrou em alguém e por pouco não puxou sua espada.

— Afonso!!

Cássio parecia apreensivo e tão afetado quanto as pessoas da cidade.

— Cássio!!

Os dois se abraçaram brevemente e logo olharam em volta para ter certeza de que não tinham nenhuma companhia além de Tiago.

— Achei que estivessem tentando ajudar o povo.

— Eu temia que você já estivesse a caminho de Montemor. Precisamos de informações sobre o que aconteceu nos lugares onde não estávamos. Amália desapareceu.

— O que?! Mas ela...

— Minha irmã e Diana estavam na feira quando Amália sumiu – Tiago lhe disse – Então o combate começou, houve um tumulto e foram separadas. Diana ainda se arriscou a procurando quando a quantidade de pessoas diminuiu, e depois saiu com minha mãe pra procurá-la mais uma vez, mas ninguém sabe onde ela está.

— Ela acabou de completar três meses de gravidez, Cássio. Corre muito mais risco que qualquer um de nós. Quero saber se você viu ou sabe de civis que conseguiram passar pela batalha e fugir pelo campo ou pela floresta.

— Estive o tempo quase todo dentro da cidade, mas quando nossas tropas começaram a se retirar ouvi sobre civis fugindo pelo campo, alguns tentaram descer o penhasco até o rio quando se depararam com soldados de ambos os reinos. Se eu ficar mais tempo aqui vão perceber que ainda não fui embora, mas aconselho que procurem nesses lugares. E se precisar de mim, estarei no lugar de sempre. Espero que a encontrem depressa. Eu avisarei se souber alguma coisa.

Esperaram até que Cássio desaparecesse. Não resultaria em nada de bom soldados de reinos opostos na batalha serem vistos juntos naquele momento.

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Até Virgílio estava confuso com a guerra agora. Não confiava totalmente em Catarina e se perguntava se não havia sido ferido por acaso, e o que realmente ela teria feito com Amália enquanto ele vagava em busca de ajuda, pois claramente sua família estava desesperada com a falta dela. Ainda sentia dor, e sabia que não estava em perfeitas condições para uma viagem, mas não havia tempo.

— Estou atrasado... Que direção terão tomado?

Ele sabia que a carruagem partiria da floresta após Amália ser capturada, mas já não havia qualquer sinal disso.

— Se correr ainda poderá alcançá-los.

Virgílio fez o cavalo se virar para a direção oposta quando a voz de Brice o assustou. Como ela fazia isso? Tinha certeza que ela não estava ali e que não o tinha seguido.

— Você não sairá do reino? Quase nada restou.

— Moro entre os dois reinos, minha casa está segura e ambos são próximos pra mim. Vou ficar mais um pouco. Você é que deveria se apressar. Aqueles que você procura estão com pelo menos uma hora de vantagem. Amália está viva, mas logo você pode estar morto para ela.

— O que quer dizer com isso?

— Eu lhe avisei mais de uma vez, Virgílio. Todo ciclo tem um tempo, para começar e para terminar. E cada feitiço também é um ciclo. O tempo está acabando e a magia está perdendo o poder. Logo Amália se lembrará de tudo. E você sabe o que fazer pra impedir.

— Afonso ainda está vivo, mas darei um jeito de acabar com ele através de outra pessoa, sem levantar suspeitas de onde eu estiver.

— Boa viagem.

— Não podem passar muito perto de nenhum reino, tenho uma ideia do caminho – ele falou antes de orientar o cavalo para correr na direção contrária de Brice, que continuou o observando.

— Eu poderia ter lhe dito que não chegará a seu destino. Eu poderia ter lhe dito que de nada adiantará matar Afonso se uma parte dele continuar viva dentro de Amália. Mas sabe-se lá o que poderia fazer. Ela ainda será útil no futuro – falou para si mesma – Após todo esse tempo não há uma maneira segura de matar a criança sem matá-la junto.

******

Afonso e Tiago ficavam mais assustados a cada passo que adentravam no campo de Artena onde Amália costumava colher ervas e laranjas. Capim pisado ou cortado, sangue, pedaços de roupas rasgadas, pertences perdidos, carroças quebradas, seus donos não estavam à vista.

— Vamos olhar em volta. Nem todas as pessoas desaparecidas podem estar mortas, podem ter fugido da cidade no primeiro transporte que encontraram, mesmo sem se conhecerem.

Tiago concordou e andou na direção de uma carroça abandonada, tentando encontrar algum objeto familiar que pertencesse à Amália ou alguém que conheciam. Afonso rumou para a direção que levaria para fora de Artena, notando algumas flechas fincadas no chão e outras largadas em volta. O capim estava amassado ou rasgado como se uma luta tivesse acontecido ali, ou alguém tivesse fugido com muita pressa, ou arrastado alguém à força. Se abaixou para examinar as flechas, afastando as folhas do capim alto do campo para ver melhor.

— Não... – sua voz quase não saiu, se sentiu tão mal que poderia desmaiar ali mesmo – Não... – repetiu deslizando os dedos pela corrente quebrada do objeto preso ao chão por uma das flechas.

Afonso removeu a flecha do chão para pegar o colar manchado de sangue. Ele nunca vira outra pessoa usando aquele colar em sua vida. E por que somente o colar? Onde Amália estava?! Levantou-se desesperado, olhando em todas as direções possíveis e procurando mais marcas no chão.

— Amália!! Amália!!

Tiago correu em sua direção enquanto o chefe da guarda corria na direção da floresta. Se alguém a havia levado, devia ter ido por lá, se ela queria se esconder, na ausência do exército, a floresta era um bom lugar.

— Ela esteve aqui, Tiago! Ela esteve aqui!

— Como sabe disso? – O mais jovem segurou o braço dele quando finalmente o alcançou.

— Eu nunca vi outra pessoa na minha vida usando esse colar, Tiago.

Seus olhos já ardiam quando entregou o colar ao arqueiro, que ficou tão chocado e desnorteado quanto ele.

— Amália!! – Tiago também chamou – Minha irmã, responda!!

Os dois correram pelos arredores até onde era possível procurar sem precisar de um cavalo para ir mais longe. O sol começava a se pôr quando os dois voltaram ao campo com a certeza de que ela não estava ali. Uma estrela solitária já brilhava no céu. Uma das estrelas sob as quais eles haviam conversado e se aconchegado um no outro tantas vezes à noite antes dela perder a memória. Os olhos de Tiago não estavam menos úmidos que os dele, mas o jovem preferiu se manter em silêncio enquanto subiam nos cavalos. Fechando os olhos enquanto beijava a única evidência deixada pela maior razão de sua vida, Afonso chorou.