Caçada

13 Sonhos.


Eu sabia que estava sonhando. Ou melhor, eu pensava que estava sonhando.

Entenda, eu sempre sonho em preto e branco. Às vezes, só uma cor se destaca. Já nesse meu “sonho”, tudo estava em cores misturadas. Era um turbilhão de cores que me deixou meio zonza. Olhei para os meus pés e vi que estava flutuando...

É eu realmente estava sonhando.

Percebi que aquele turbilhão de cores era uma trilha. Mas só percebi isso ao ouvir uma voz sussurrando que me esperava no fim, quando as cores se misturassem e voltassem a sua cor original. Sem nenhum sentido, claro, mas mesmo assim segui, flutuando.

O caminho todo, ouvi vários murmúrios e lamentos vindos de ambos os lados da trilha. Aquilo me fez estremecer de medo e querer acordar logo, mas não consegui, mesmo que eu tentasse. Eu só conseguia fazer uma coisa, seguir em frente.

Percebi que as cores estavam desbotando e fiquei temerosa, pensando se deveria continuar mesmo. E continuei. Até que a trilha não existia mais. Aquilo me deixou em pânico. Droga,onde eu estava e porque eu não conseguia acordar?

O turbilhão de cores voltou, dessa vez girando em minha volta. E girando, e girando e girando...

“Pensei que você não ia vir nunca” resmungou uma voz. Abri os olhos e percebi que estava em um grande salão branco. No teto, neve caia silenciosamente e se prendia no chão aos meus pés, que estava fofo e gelado, com a neve já acumulada. Havia cinco cadeiras ali, majestosas. Todas se entrelaçavam em si, se juntando como se fossem uma só. Eram brancas e cinco pessoas estavam sentadas ali, a me fitar. E, logo atrás delas, ainda mais majestoso, um grande trono branco, fofo e cheio de flores mortas e congeladas enroscando-se em si. Uma mulher estava sentada e eu tinha absoluta certeza que a conhecia.

“Mamãe.” Falei amargamente, olhando para a figura a minha frente, que parecia comandar as outras cinco figuras.

“Penélope, venho tentando conversar diretamente com você através de sonhos, mas você vem me bloqueando” advertiu ela, como se estivesse irritada. Uma mãe furiosa com a filha que não lhe obedecia corretamente.

“Mas infelizmente você conseguiu me chamar, não?” perguntei com sarcasmo na voz.

Ela sorriu e todo o salão reluziu.

“Ah sim. Não desisto facilmente, docinho” disse ela, alegremente.

Dei um longo suspiro e meus olhos voltaram a fitar as cinco figuras que estavam sentadas nas cadeiras. Despina percebeu que eu estava curiosa para saber quem eram e respondeu.

“Ah, vejo que está interessada em minhas criações.” Falou docemente.

Ergui uma sobrancelha, sem compreender.

“Criações?” perguntei, com curiosidade que logo bani.

“Sim, criações. São as almas que consegui coletar de Hades. Aquelas com o coração tão frio que poderiam banir qualquer sinal de felicidade no mundo” disse.

Aquilo me deixou incrédula. Eram pessoas e, por isso que de inicio pensei que talvez fossem estatuas. Despina odiava os mortais. Thalia até havia me dito que era um mistério como eu nasci. Mas pensar que as criaturas a minha frente eram almas... Isso era assustador.

“Como conseguiu coletar as almas que pertencem ao marido de minha tia?” perguntei.

Vi que ela havia feito um barulho de desgosto por eu chamar Perséfone de tia, mas ignorei isso, sentindo por dentro verdadeiro triunfo por ter conseguido irritar minha querida mãezinha.

“Essas almas são recusadas até mesmo no Hades.” Disse friamente.

Fitei o garoto que estava a minha frente, o que estava sentado ao meio das mulheres. Seus cabelos eram de imenso negro que dava contraste a pele tão branca quanto a neve que jazia em seus pés. Seus olhos eram negros, sem qualquer indicio de branco. E percebi que, ao olhar naqueles olhos, poderia ver o qual gélido era o coração do rapaz. Balancei a cabeça.

“Posso ir embora?” perguntei para Despina, querendo sair o mais rápido possível dali.

“Não, ainda lhe tenho algo a dizer e um aviso”. Disse, se esquecendo completamente que eu havia a aborrecido.

“Vamos logo com isso” resmunguei.

“Zeus acha que vocês, heróis, não deveriam saber o que está acontecendo, mas acho que ele não tem domínio sobre o que eu devo fazer e sobre o que devo contar a minha única filha”. Começou.

Ouvir que eu era sua única filha e perceber o tom materno no qual ela havia dito, me fez querer ir abraça-la, mas continuei em meu lugar, sem realmente entender meus sentimentos.

“Os deuses estão em guerra com os primordiais. Não sei bem o porquê, mas todos estão achando que a culpa é da humanidade, pelo mundo estar se desintegrando aos poucos. Os Primordiais resolveram que libertariam todos os males do mundo, dentre eles, todos os titãs. Os outros deuses não estão querendo isso, achando que podem fazer os mortais resolverem isso” ela revirou os olhos, como se sentisse que tudo aquilo era uma piada.

“E o que eu tenho a ver com isso?” perguntei, sem qualquer entusiasmo.

Os olhos de Despina brilharam, um brilho maligno e cheio de malicia.

“Essa é a minha prova. Você tem que se mostrar leal a mim, se juntando comigo na batalha” disse, com um sorriso sinistro nos lábios.

Meus pelos se arrepiaram.

“Como assim?” perguntei, dando um passo para trás. Agora Despina estava erguida e, não sei como, eu conseguira flutuar até seu trono, ficando frente a frente com ela.

“Eu odeio os mortais. Ou seja, me aliarem com os Primordiais. E, por EU a ter criado, ter feito e trazido você ao mundo, deve ficar sempre ao lado da sua criadora” disse friamente, com um sorriso cínico nos lábios.

“O que?” perguntei, ainda sem entender qualquer coisa que ela dissesse. Eu estava zonza demais. Prestes a cair no sonho, como se fosse possível. Eu não ia me aliar a ela. Não mesmo. Não era obrigada, era?

“É obrigada sim, você disse a Hestia que aceitaria as consequências” disse ela, amargamente. Porcaria.

“Não vou ficar contra meus amigos” contra-ataquei.

“Mas não pode ficar contra sua própria mãe”.

Percebi que vários animais felinos, todos albinos, começaram a sair de tudo quanto era lugar e indo em passos silenciosos para onde eu estava. Um tigre albino me olhou nos olhos por um segundo e pulou para cima de mim.

Dei um berro.