Caçada

14 Lagrimas.


- Penny, Penny. – berrava alguém enquanto eu sentia vários choques em meus braços. A mesma pessoa que berrava, sacudia-me como se eu fosse uma boneca de pano.

Eu ainda estava arfando. Podia ainda sentir as garras do tigre branco me mutilando como se eu fosse um bando de trapo velho. Por mais que tentasse, eu não conseguia abrir os olhos, tamanho era meu medo de ver os animais albinos me atacando.

- Ela não está acordando. – choramingou alguém.

- Ela está acordada, mas não quer abrir os olhos. – corrigiu outra pessoa.

Ao longe, podia ouvir alguém chorando. Sabia que não era eu, porque não conseguia sentir as lagrimas sendo raptadas de meus olhos e escorrerem por todo o meu rosto. E som do choro era diferente do meu. Muito diferente.

-Deixe-me vê-la. – sussurrou uma nova voz.

Ao ouvir aquele som, meu estomago se afundou e senti que eu estava ficando quente demais. Muito quente. Mas era uma quentura que me envolvia de dentro para fora. As mãos que me davam choque foram substituídas por mãos fortes, mas macias. Quentes e meio suadas, não sei bem o porque. Será que ele percebia que onde ele tocava, uma eletricidade diferente da que estava sendo feita para mim, me envolvia?

- Penélope? – sussurrou Sebastian.

No mesmo momento abri os olhos e a primeira coisa que vê, foi a cor caramelo me envolvendo. A repulsa logo tomou conta de mim, tal era o medo de que ele fizesse alguma coisa comigo ali, tão indefesa.

- Já consegui abrir os olhos. – resmunguei, me soltando de seus braços, mas suas mãos foram para as minhas e, por mais que eu tentasse solta-las, senti que não conseguia.

Olhei em volta e me lembrei que estava no chalé de Artemis. Mas estava tudo tão difícil de reconhecer. Ao em vez de prata e de cada elemento para dizer qual era a personalidade da pessoa, estava tudo branco e fofo. Por um misero segundo, me lembrou do palácio de Despina e eu tive medo de que ainda estivesse lá. Bani esse pensamento e continuei a fitar os outros.

Thalia, Bruna, Jessica e Sebastian estavam a minha volta, ambos estremeciam de frio, já que também estavam cheios de neve fofa. Emma, Katie, Helena e Mandie estavam do lado oposto, abaixadas, murmurando para uma figura chorosa que me pareceu ser Lucy.

- O que aconteceu aqui? – perguntei, erguendo as sobrancelhas.

- Você estava muito agitada durante o sono. Eu podia sentir você se mexendo, mas só quando vi que estava começando a nevar dentro do chalé, sabia que você estava tendo algum tipo de pesadelo. – sussurrou Thalia para mim.

Mordi os lábios e tentei não fitar novamente os olhos caramelos.

- O que houve com Lucy? – minha atenção voltou-se para a figura que ainda chorava feito um bebê.

Bruna deu um longo suspiro.

- Lucinda tentou vir te ajudar. Tocou sua testa e começou a recitar para gente seu sonho. E foi sinistro, cara. Ela conseguia imitar sua voz direitinha, até o que estava passando na sua mente durante a visão. – explicou Bruna, meio assombrada.

- E então ela começou a berrar quando você olhou diretamente para o espirito lá. E interrompeu a conexão. Então tentamos acorda-la de uma outra maneira. – continuou Jessica.

Meus olhos se voltaram para Sebastian, que olhava para mim, um tanto quanto preocupado.

- E onde você entra nessa historia? – exigi.

- Não sei. Alguém meio que sussurrou para mim que eu tinha que vir até aqui, ver se estava tudo bem. – respondeu ele. Depois deu de ombros, como se não se importasse. Como se só se importasse com seus dedos tocando os meus carinhosamente.

- Penny, se importa? As lagrimas de Lucy estão meio que congelando. – disse Emma.

Agitei a cabeça uma vez e a neve que caia do teto parou, suspensa no ar. Depois derreteu e evaporou-se. O chão voltou ao seu estado normal, como se nunca tivesse estado daquele jeito.

Tirei as mãos de Sebastian das minhas com um puxão e corri para o lugar onde Lucy jazia, chorando sem parar, ofegante e soluçante. Tive tanta pena de ver a filha Dos Sonhos ali, não conseguindo respirar direito sem derramar lagrimas.

- Lucy, qual o problema? – perguntei em uma voz doce, tentando acalma-la. Os olhos dela se voltaram para mim, e foi como se, por trás deles, eu pudesse rever todos os meus melhores sonhos e piores pesadelos.

- O... O ga-ga-garoto n-n-na cadeira do seu s-s-sssonho. – soluçou ela, tentando parar de chorar.

- Sim?

- Ele é meu irmão mais velho. – respondeu com amargura, e logo mais voltou a se despedaçar em lagrimas.

- Eu sinto muito. – sussurrei, envolvendo os ombros dela com meus braços e trazendo-a para perto de mim, começando a nina-la e ver se ela se acalmava um pouco.

Suas lagrimas pingavam e ensopavam toda a minha blusa. Senti as mãos de Sebastian em meus ombros, mas não me importei. Estava ocupada demais com minha amiga ali, que não parava de chorar pelo irmão que havia morrido, se transformado em uma alma maligna e sombria. O pior de tudo, ter virado depois, pequenino servo de minha mãe. Ela deveria ter repulsa de mim, mas não o demonstrou. Ela chorava e se agarrava em mim, como se eu fosse sua única esperança, sua única família... Lagrimas começaram a cair de meus olhos também, mas pelo fato daquelas desconhecidas que, depois de algumas semanas, se tornaram minha família, de uma maneira que eu nunca pensei que teria.

Lucy parou de chorar e ergueu seus olhos azuis para mim. Era tão estranho e tão bonito ver o contraste do azul com o vermelho de tanto chorar em seus olhos.

- Acha que é verdade? – perguntou ela, em um sussurro.

- O que? – perguntei, embora já soubesse do que ela estava perguntando.

- O que Despina disse sobre os deuses estarem lutando pelos mortais.

Dei um longo suspiro.

- Creio que sim. Não teria outra maneira de Despina pedir minha lealdade. E também isso explica um bocado o porque os monstros estão atacando o Acampamento. E ainda mais, as grandes mortes que estão ocorrendo por todo o mundo.

Ela concordou com a cabeça.

Nem percebi que Thalia estava ao meu lado. Só tomei consciência de sua presença quando ela disse, firmemente.

- Temos que falar com Quíron e pedir uma missão, mesmo que não sejamos exatamente do Acampamento.