Caçada
11 Guardiã do fogo.
Em mandato de Thalia, sai um pouco antes de todas e fui para o refeitório, ver se tudo estava nos conformes e tentar impedir qualquer homem de se sentar o mais próximo possível de nossa mesa.
Meus olhos esquadrilhavam as mesas, enquanto pequenos rosnados me eram escapados assim que via algum garoto tentando se aproximar. Minha atenção se deteve novamente na pequena figura próxima a fogueira. Ela era uma menina, de pelo menos uns 12 anos, no máximo. Os cabelos louros avermelhados davam a impressão de ser a própria fogueira. E eu me perguntei se ela não sentia calor por estar tão próxima assim do fogo.
Me aproximei lentamente para o local onde a garotinha estava, me protegendo com a tiara que havia feito nevar em volta de mim. Tentei ignorar o fato de todos estarem me olhando meio assombrados demais, como se eu fosse algum tipo de monstro, ou sei lá o que.
- Você não está queimando ai? – perguntei para a garotinha.
Ela deu um sorrisinho que brilhou tanto quanto a fogueira. Tive que proteger os olhos com a mão.
- Penny, pensei que você não iria vir conversar comigo. – queijou-se ela.
Pisquei várias vezes, por estar confusa e pelo fogo estar quase me cegando. Me pareceu que um balde de água fria estava me molhando as costas e, quando virei-me para ver, percebi que estava mesmo toda molhada. A neve que tinha sido criada pela tiara estava derretendo por eu estar perto demais da fogueira. Aquilo me fez tremer.
- Ah, sinto muito. O fogo não é lá muito bom para você. – desculpou-se a garota.
Senti o calor do fogo diminuir e claridade ficar um pouco mais fraca, a ponto de deixar eu ver tudo normalmente. Ainda mais a pequena criatura a minha frente.
- Quem é você? – perguntei, franzido os lábios para a pequena.
- Sou a guardiã do fogo, mas pode me chamar de Héstia. – disse, sorrindo levemente.
Meu cérebro trabalhou por apenas cinco segundo até eu me lembrar que, a garota pequena a minha frente, que aparentava ser mais jovem que eu, era muitos séculos mais velha que eu. Não sei muito bem o porque, mas me senti familiarizada com ela. Não me importava se ela era o oposto do que eu era, não... Era mais porque ela era tão esquecida quanto minha mãe.
Dei um sorriso para ela.
- Lady Hestia. – falei, dando um aceno de respeito por ela.
- Estou aqui, querendo conversar com você, porque sua mãe pediu. – começou ela.
Um gelo que não me fortalecia e muito menos tinha a ver com o ar ao meu redor me atingiu. Minha mãe queria me dizer alguma coisa. Com toda certeza, seria pelo fato de que eu não estava fazendo o que ela queria. Quase sorri ao pensar nisso. Quase.
- O que ela quer comigo? – perguntei, meio paralisada e tensa. Héstia sorriu para mim, um sorriso pedindo desculpas.
- Ela disse que vai deixa-la trilhar seu próprio caminho. Mas...
- Mas...?
Um longo suspiro vindo da deusa.
- Mas terá consequências. Terá que mostrar lealdade a ela e para a Caçada.
- Que tipo de consequências.
Hestia me olhou por um instante, como se me visse pela primeira vez. Seus olhos brilharam novamente, um brilho caloroso que protegia, mas que poderia queimar.
- Você já sabe qual é a consequência. – disse levemente.
Concordei com a cabeça. Só poderia ser isso, com toda certeza. Qual mais seria uma consequência e um modo de se mostrar leal a caçada? Meus olhos varreram pelo refeitório até se deter na mesa ao lado das caçadoras. Da mesa que abrigava a minha consequência, a minha forma de mostrar lealdade e, poderia também ser, o meu caminho proibido.
- Aceita as consequências? – perguntou Héstia calmamente, me fitando com atenção.
Virei meu rosto para ela. E foi como se eu estivesse em algum tipo de jogo diabólico feito pela minha mãe que me deixara sozinha no mundo, que queria mandar em mim sem nem mesmo me conhecer de verdade, queria que eu caminhasse nos locais que ela queria que eu fosse e que achava ter total domínio sobre mim. Mal sabia ela que estava errada.
- Aceito as consequências- respondi friamente.
Os olhos de Héstia me estudaram por vários segundos e depois ela concordou com a cabeça. Lentamente, escreveu no ar algumas letras que eu não consegui decifrar. As letras foram absorvidas pelo fogo e, dentro da fogueira, por um segundo, pareceu que ia gelar tudo ali, mas logo evaporou e foi para os céus.
Héstia voltou sua atenção para mim com um pequeno sorriso.
- A mensagem foi dada. – avisou.
Forcei um sorriso para ela e me despedi, com um aceno. Voltei a caminhar pelo refeitório, vendo que as garotas estavam se aproximando. Um engraçadinho de Ares havia tentado se aproximar e sentar-se na nossa mesa.
- Então, você é uma...- começou.
Peguei rapidamente uma flecha, coloquei-a no arco e mirei nele.
- Cai fora. – falei rispidamente, entredentes.
Ele ergueu as mãos, como que se redê-se.
- Mais mal-humorada que eu, tá loco. – resmungou, se retirando para a mesa, sentando-se perto dos irmãos e sendo zoado por ficar com medo de uma menina de nada.
Pensei em atirar flechas nos engraçados estúpidos ali, mas sabia que não ia ser bom. Eu estava fora de mim por culpa da minha mãe, por Afrodite que havia se aliado com ela para tentar me fazer perder a cabeça e, principalmente, pela grande consequência.
Senti uma mão em meu ombro e virei rapidamente, espumando raiva até ver que era apenas Thalia, me observando com intenso interesse.
- Algum problema, Penny? – perguntou ela, franzido a testa.
Concordei com a cabeça rapidamente.
- Está tudo bem, apenas minha queria mãezinha me dando avisos. – resmunguei, fungando em seguida.
Senti que pequenos raios me eletrizaram, mas não doía. Era como se Thalia tentasse me animar através da eletricidade que emanava dela. Em resposta ao seu “carinho”, toquei seus cabelos e alguns flocos de neve prenderam em seus fios.
- Obrigada de qualquer jeito, Thalia. – murmurei baixinho, sorrindo para aquela estranha que agora era como uma grande amiga para mim.
Sentamos na mesa, com Thalia sentada no centro e eu logo no seu lado direito. Mas eu não prestava atenção no que elas conversavam. Estava tensa demais e observando a minha consequência.
- Por que você está olhando tanto para Sebastian, Penny? – perguntou Mandelaide.
Sorri um sorriso forçado.
- Ele não é tudo o que as garotas dizem ser, não é mesmo? – falei com sarcasmo.
Todas riram.
Os olhos de Sebastian encontraram os meus e eu senti um fogo percorrer todas minhas veias.
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