CINZAS E BRUMAS

16 ÓDIO E SINERGIA



De volta ao abrigo em Zadarmo, o pedido de John Dickson ainda ecoava, pesado como chumbo. Sike encarou o amigo por longos segundos antes de soltar uma risada nervosa.


— Vem cá... você está bêbado? — perguntou o mago, incrédulo.


— Você sabe que eu não consigo ficar bêbado, Sike. Meu corpo processa o álcool antes que ele chegue à minha cabeça.


Sike bufou, gesticulando freneticamente.


— Ah, é verdade! Então você só bateu a cabeça com muita força e endoidou de vez. Só pode ser isso.


— Já chega de piadinhas, Sike — cortou John, a voz baixa e grave.


— Piadinha? Não, isso não é uma piadinha! — Sike explodiu, o sarcasmo dando lugar à indignação. — Piadinha é você pedir para alguém invadir e derrubar a porcaria do Império de Rôga! Isso não tem graça nenhuma, John!


John deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.


— Sei que o que te peço é demais. Mas sozinho... sozinho eu não consigo tirar Luces do trono que ele nunca deveria ter assumido.


Sike respirou fundo, tentando se acalmar. O fogo nos seus olhos diminuiu um pouco.


— John... você sabe por que eu fugi de Rôga. Por que você acha que eu voltaria para aquele inferno?


— Eu não acho. Eu apenas confio em você — respondeu John com uma sinceridade que desarmou o mago. — Quando você me disse que fugiria para Zadarmo, confiou em mim para guardar seu segredo. O mesmo eu peço agora. Confie em mim quando digo que Luces deve cair. Pelo bem de todos nós.


Sike desviou o olhar, pensativo.


— Luces é um desgraçado, John. Se eu pudesse, eu mesmo o reduziria a cinzas. Mas como faríamos isso? A capital tem pelo menos uma centena de magos de guerra, um exército que você mesmo treinou, sem falar do...


— Eu lutarei contra o Vince — interrompeu John de forma definitiva. — Você não precisará enfrentar seu antigo professor.


O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sike sentiu um calafrio.


— Você está mesmo disposto a ir até o fim, não é?


— Nem que custe a minha vida.


Sike viu a chama da determinação nos olhos de John. Ele abriu a boca para responder:


— John, eu...


O som de metal cortando o ar interrompeu a frase. Um machado de arremesso pesado veio em direção à cabeça de Sike. Com um reflexo sobre-humano, John sacou sua espada e rebateu a arma, que cravou em uma viga de madeira com um baque surdo.


De um dos becos, surgiu um homem colossal, um caçador de recompensas conhecido como "Big Billy". Ele recuperou o machado, bufando.


— Que droga... eu queria eliminar esse tampinha primeiro para não ter dor de cabeça. Bom, fazer o que, né? Não quiseram morrer do jeito fácil, agora não adianta chorar.


Do lado oposto, outro mercenário surgiu brandindo uma foice longa e curva.


— Ei, Billy! Não vai querer ficar com a recompensa de 15 mil só para você, vai?


Aos poucos, as sombras das ruelas revelaram outros caçadores. Todos com o mesmo brilho de ganância nos olhos. Todos visando o pescoço de John Dickson.


John entrou em pose de combate, os músculos tensos.


— Ah... isso vai ser chato. Sike, fique atrás de mim e...


John parou ao notar a atmosfera mudar. O ar ao redor de Sike começou a vibrar. O rosto do mago estava distorcido por um rancor puro, quase infantil, mas mortal.


— Esse gordo desgraçado... — sibilou Sike, a voz trêmula de ódio. — Ele me chamou de quê? De tampinha?


John arregalou os olhos.


— Eita.


O que se seguiu não foi uma luta, foi uma execução científica.


Em um estalo de dedos, Sike expandiu sua mana. Instantaneamente, Big Billy e os outros caçadores foram envoltos em cristais de gelo de mana pura, congelados no meio de seus passos. Antes que pudessem sequer sentir o frio, Sike ergueu colunas de fogo ruginte diretamente sobre os blocos de gelo.


Ele repetiu o processo — congelamento absoluto e calor extremo — em uma sucessão tão rápida que o ar ao redor estalava com o som de vácuo. Os corpos dos mercenários, incapazes de suportar o choque térmico violento, simplesmente entraram em colapso molecular.


Em segundos, onde havia um pequeno exército de caçadores, restava apenas vapor e fragmentos de cristais que derretiam. Sike não havia suado uma gota.


John guardou a espada, visivelmente apreensivo. O cheiro de ozônio e mana queimada estava tão forte que ele sentia uma náusea ácida no fundo da garganta.


— Isso... era realmente necessário? — perguntou John, cobrindo o nariz.


Sike virou-se para ele, as mãos ainda fumegando.


— Você me acha um tampinha, John?


— De jeito nenhum! — respondeu John com rapidez, sem querer ser o próximo alvo daquela termodinâmica letal.


O ar estava saturado de resíduos mágicos, incomodando os sentidos de John como se ele estivesse respirando veneno. Sike suspirou, o ódio se dissipando para dar lugar a uma resolução sombria.


— Que bagunça... — resmungou o mago. — John, vamos voltar para a taverna. Tenho que te mostrar algo.


O convite não era apenas para uma conversa.

Era sua resposta a John.