CINZAS E BRUMAS

17 DEVER E SENTIMENTOS



Ao mesmo tempo, no Reino de Drake, o ar pesava com o cheiro de enxofre e a tensão de uma guerra que já durava nove meses. Charlotte se apresentou diante do trono e curvou-se com o rigor de quem carrega o destino de um exército nos ombros.


— Eu retornei, meu senhor.


O Rei Mahuma III, sentado em seu trono de pedra, respondeu sem desviar o olhar do horizonte:


— Muito bem, comandante. Diga-me, como se saiu em sua missão?


— Conseguimos neutralizar os inimigos e desmontamos sua artilharia profana na fronteira — relatou Charlotte, com a voz firme.


— Excelente... E com relação a Mirabel? — perguntou o rei, a voz baixando um tom.


Charlotte, mantendo-se impassível como uma estátua, respondeu:


— Ainda não conseguimos encontrar a prisioneira, mas estamos investigando severamente sua localização. Além disso, meu rei, os homens que sobreviveram ao ataque afirmaram que foi obra de um mago.


O rei, intrigado pela revelação, endireitou a postura:


— Um mago? Impossível. Isso significaria que o Império de Rôga estaria por trás desse ataque!


— Os soldados relataram que quem os atacou apenas estendeu a mão e, em sequência, houve várias explosões — continuou Charlotte. — Fortes o suficiente para ferir e matar um draco. Isso não é apenas magia humana; é um poder de elite que dificilmente o Império ignoraria.


O rei levantou-se, a fúria contida transparecendo em seus gestos:


— Se o que diz for verdade, comandante, vou interpelar Luces Rubrê em nossa próxima negociação de suprimentos. Dependendo da resposta desse imperador prepotente, não lutaremos apenas em uma guerra. Está dispensada, comandante.


— Como desejar, lorde Mahuma.


Enquanto ela saía, o rei murmurou para o vazio:


— O mundo esqueceu o temor que o sangue dos dracos inspira. A tolerância de Drake foi confundida com mansidão, mas o tempo da diplomacia acabou. Se eles não nos respeitam pela palavra, que nos temam pelo fogo.


Ao cruzar os corredores do palácio, Charlotte foi interceptada pela figura sombria de Ron. O general a provocou com um sorriso gélido:


— Oh, minha comandante suprema, não consegue encontrar sua própria irmã? Que tragédia.


— Isso não lhe diz respeito, general Ron. Cuide de suas tarefas e deveres — respondeu ela, sem diminuir o passo.


Ron, porém, continuou a segui-la:


— Claro, minha senhora. Mas sabia que possuo uma vasta rede de inteligência? Um de meus espiões me disse que avistaram uma mulher muito parecida com a princesa fugitiva, Mirabel.


Charlotte arregalou os olhos. Em um movimento que parecia um borrão, ela pressionou sua lâmina contra a garganta de Ron. Com um olhar aterrorizante, ela sibilou:


— Pare com os seus jogos, Ron! Onde está Mirabel? Se não responder agora, vou depô-lo do cargo por ocultar informações de importância vital para o Reino!


Ron permaneceu imóvel, a lâmina sequer o fez piscar. Zombando ele respondeu:


— Onde foi que ele disse mesmo? Nas fronteiras com Rôga? Nas montanhas perto de Zelezo? Ou, quem sabe, nos Vales de Sence? Será que a coitada sobreviveria por lá?


Tomada pelo ódio, Charlotte rangeu os dentes:


— Verme desgraçado!


— Ah, o que é isso, comandante? — continuou ele. — É lógico que eu não levaria isso na brincadeira. Meus homens vão capturá-la e trazê-la de volta. Isso se ela não oferecer resistência. Caso contrário, eles não terão alternativa senão executá-la.


O olhar da comandante tremeu. Ron concluiu com crueldade:


— É muito perigoso para nós deixar uma princesa de nosso reino em terras estrangeiras, não acha?


Em um surto de fúria, Charlotte atacou a jugular de Ron com a intenção de matar. Para sua surpresa, o general deteve o golpe com as mãos nuas. Charlotte, mesmo em sua raiva, paralisou de espanto.


— Você realmente teve uma ascensão meteórica, princesa, e é verdadeiramente um dos dracos mais fortes da sua geração... Mas eu não sou da sua geração.


Ele a empurrou de volta.


— Não se esqueça, princesa, da regra central de nosso reino: apenas o poder importa. E você, Charlotte, filha de Mahuma, não possui poder suficiente.


Aquelas palavras foram devastadoras. Ron retirou-se satisfeito, deixando Charlotte perdida em sua própria culpa, questionando seu valor e sua força.


Enquanto isso, longe do calor de Drake, na fronteira arborizada de Vilini, o destino se movia em silêncio. Sob as sombras das árvores, elfos patrulheiros encontraram uma figura caída.


Era uma mulher de cabelos escuros, vestindo um traje negro rasgado. Ela estava desacordada, a respiração fraca após uma fuga extenuante. Os soldados de Vilini a recolheram, sem saber que em seus braços carregavam a princesa Mirabel.