Ao findar da noite em Nádej, o silêncio era absoluto. John cavou as covas e enterrou cada morador do vilarejo, um gesto de respeito e profunda gratidão por aqueles que o acolheram. Enquanto trabalhava sob a lama e o frio, seu olhar voltava a ser o que era antes: vazio, morto e desprovido de qualquer luz, como no dia em que surgira naqueles portões.


Ele carregou os corpos de Hank e Tessia para um ponto elevado da vila, de onde se podia ver o horizonte. Lá, cravou duas cruzes de madeira. John despiu as roupas do pai de Tessia, dobrando-as com um cuidado que suas mãos calejadas raramente conheciam, e vestiu novamente seus trapos rasgados e a armadura amassada que trouxera do Império. Enterrou avô e neta lado a lado. Ao concluir, deixou a muda de roupa do filho do ancião sobre a terra fresca, junto a Tessia.


John estancou diante das lápides. Sua boca secou, o brilho nos olhos desapareceu por completo. Ele lembrou-se das palavras da garota: "Se quer assumir um pecado, que seja o seu, e não o dos outros". Mas aquele pecado, ele sabia, pertencia apenas a ele. A tentação de sentir, mesmo que por pouco tempo, o calor de uma família fora seu maior erro. E, desta vez, ele sabia que não haveria perdão.


Com a voz fraca e trêmula, ele inclinou a cabeça para o céu nublado e sussurrou:


— Feliz aniversário... pirralha.


John virou as costas e deu o primeiro passo para longe das covas. De repente, sentiu um estalo familiar; um tapa firme em suas costas. Ele girou o corpo, assustado e confuso, mas não havia ninguém ali. Apenas o vento soprando entre as cinzas.


Ele cobriu os olhos com a mão e sussurrou para o nada:


— Droga...


Seguiu seu caminho sem rumo definido. Contudo, naqueles olhos antes desanimados, uma chama nova começava a arder — uma certeza que vento nenhum no mundo seria capaz de apagar: John Dickson destruiria o Império.


Enquanto isso, no extremo oposto do continente...


A princesa Mirabel era transferida do calabouço real para a temida prisão de Konec, nos limites das terras de Drake. No meio do trajeto, a carruagem de escolta parou bruscamente. Uma figura encapuzada bloqueava a estrada.


— Alto lá! — gritou um dos guardas, desembainhando a espada. — Quem se aproxima?


A figura não respondeu. Apenas estendeu a mão e permitiu que um sorriso gélido escapasse sob o capuz. No instante seguinte, as carruagens de escolta explodiram em uma chuva de estilhaços e fogo. Soldados foram lançados pelos ares, feridos ou mortos instantaneamente.


O encapuzado caminhou calmamente entre os escombros até a carruagem principal. Ao escancarar a porta, porém, deparou-se com o vazio. Mirabel não estava lá. Para sua surpresa desagradável, a princesa havia escapado; ela podia não ser uma guerreira ágil, mas o sangue dracônico ainda corria em suas veias, e a distração do ataque fora o suficiente para que ela se esgueirasse pelas sombras.


A figura olhou para a lua prateada e sibilou:


— Você está apenas complicando as coisas, princesa.