CINZAS E BRUMAS
9 FRAQUEZA E REALEZA
Alguns dias antes do julgamento de Mirabel, o sol de Drake ainda brilhava sobre as torres de pedra do palácio. Naquele reino, força e poder não eram apenas virtudes, mas moedas de troca social. A hierarquia era absoluta: quem possuía poder ascendia; quem não o tinha, permanecia nas sombras, independentemente de sua linhagem. Os Dracos — como eram chamados os habitantes — podiam ser seres racionais, mas jamais abandonaram a dependência da força bruta.
O Rei Mahuma III assumira o trono após o falecimento de seu pai, Mahuma II. Ele não era um homem mau, mas sim impiedoso. Para ele, tudo no mundo poderia ser quebrado, menos a lei do reino. Suas filhas, no entanto, cresceram como faces opostas de uma mesma moeda.
Charlotte, a primogênita, demonstrou um talento marcial avassalador desde cedo. Escalou a hierarquia militar com uma velocidade impressionante e hoje servia como Comandante do Exército Real, sendo uma das Dracos mais poderosas de sua geração.
Já Mirabel, a segunda filha, transbordava fragilidade. Onde Charlotte tinha chamas, Mirabel tinha brumas. Apesar dessa dualidade, as duas cresceram unidas. Charlotte prometera ser o escudo de Mirabel, e a irmã mais nova sorria, aceitando aquela proteção com uma admiração incontestável.
Em uma tarde comum, Charlotte cruzou com Mirabel nos corredores de mármore do palácio.
- O que houve hoje, Bel? — perguntou a comandante, com um sorriso de canto. — Está toda arrumada... vai a um encontro?
Mirabel corou imediatamente, desviando o olhar.
- Cale-se, Charlotte! E, mesmo se eu fosse, não seria da sua conta.
Charlotte soltou uma gargalhada ruidosa e envolveu o pescoço da irmã com um braço musculoso, puxando-a para um abraço apertado.
- Está bem, está bem. Mas não ouse perder minha nomeação oficial a Comandante Real hoje à noite, hein? Nenhum homem no mundo vai superar a importância da sua irmã!
- Está bem... apenas me largue, pode ser? — pediu Mirabel, visivelmente incomodada pelo aperto sufocante.
Soltando-a com um tapinha nas costas, Charlotte seguiu seu caminho.
- Não esqueça: hoje à noite!
Mirabel massageou o pescoço, sentindo a dor do abraço excessivo, mas um sorriso suave surgiu em seu rosto enquanto observava a irmã se afastar. No entanto, assim que se viu sozinha, sua expressão mudou para algo mais focado. Ela desceu as escadarias e deixou o palácio, seguindo para uma gruta árida e escondida, nos limites da capital.
Ao adentrar a escuridão da caverna, sua voz ecoou com uma energia que ela nunca demonstrava no palácio:
- Cheguei, Lifiz!
Um elfo a esperava sentado sobre uma pedra lisa. Ele a olhou com serenidade.
- Ah, Princesa. Foi rápida desta vez.
- Sim, sim — Mirabel gesticulou, ansiosa. — Vamos continuar com a história! Conte-me mais sobre a Cidadela e o que o Tok pode realmente fazer.
O elfo ergueu as mãos, pedindo paciência.
- Calma, alteza. Onde paramos mesmo? Ah, sim... a Cidadela de Kidma, o coração de Vilini. O lugar onde o impossível se torna realidade através do fluxo do Aetherium...
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