CINZAS E BRUMAS

20 INCIDENTE E ARREPENDIMENTO



Após dois anos do encontro de John e Sike.


John Dickson estava ajustando as correias de sua armadura, preparando-se para a patrulha matinal, quando o som de passos apressados e gritos ecoou pelo pátio de treinamento.


— Ei, John! Espera aí!


Sike parou diante do cavaleiro, ofegando, com os cabelos bagunçados e o rosto corado pelo esforço.


— Você... está saindo para a patrulha, não está? — perguntou o garoto, tentando recuperar o fôlego.


— Bom, sim. Como já terminei a papelada de hoje, resolvi esticar as pernas — respondeu John, sem desviar a atenção de suas luvas de combate.


— Posso ir junto? — Sike perguntou, os olhos brilhando com uma ansiedade quase desesperada por um pouco de ar puro fora das muralhas do palácio.


John parou o que estava fazendo e encarou o jovem.


— O Vince sabe que você está aqui?


Sike começou a assobiar, olhando para o céu com uma inocência fingida.


— Vince? Quem é esse?


John suspirou, sentindo uma dor de cabeça começar a surgir.


— Ah... olhe aqui, Sike. Você tem apenas quinze anos e é o mago mais importante desta nação. Sabe o que aconteceria comigo se eu o levasse em uma patrulha sem a permissão do seu tutor?


— Ah, vamos, John! Desde quando você liga para consequências? — insistiu o garoto, abrindo um sorriso teimoso.


John murmurou para si mesmo, enquanto montava em seu cavalo:


— Eu acho que criei um pirralho rebelde. — Ele olhou para o menino por um longo segundo antes de ceder. — Está bem, você vem comigo. Mas é uma patrulha rápida, entendeu?


-Isso!- Respondeu Sike vitorioso.


Enquanto cavalgavam pelas trilhas que rodeavam a capital, o silêncio era agradável. John, querendo quebrar o gelo, perguntou:


— Desembucha, moleque. Como vai o seu treinamento?


— Agora estou conseguindo controlar melhor o fogo. Meus ataques com as chamas ficaram mais precisos, e o gelo também melhorou; posso mantê-lo estável por muito mais tempo — respondeu Sike, orgulhoso.


— E aquela outra? A tal da luz?


O ânimo de Sike murchou instantaneamente. Ele baixou a cabeça, olhando para as rédeas.


— Essa... ainda não sei como usar. Vince diz que eu tenho o potencial, mas ainda não entendi como despertá-la.


— Relaxa, garoto. Já já você pega o jeito — disse John, tentando animá-lo.


Sike coçou a cabeça, soltando uma risada nervosa. Ao erguer o braço, a manga de sua túnica escorregou, revelando o horror. O antebraço de Sike estava coberto por marcas de agulhas, cicatrizes de cortes cirúrgicos e queimaduras químicas resultantes de experimentos.


O tom de John caiu para um sussurro perigoso.


— Eles ainda fazem isso com você, garoto?


O sorriso de Sike desapareceu por completo. A máscara de criança caiu, revelando uma alma exausta.


— É... fazem. Não vou bancar o durão e dizer que não dói ou que não tenho medo. Porque a verdade é que dói sempre. Às vezes, eu só... peço para não estar mais vivo quando a sessão acaba.


John fechou os punhos com tanta força que o couro de suas luvas rangeu. Ele não disse nada; apenas escutou, deixando o ódio contra o sistema que ele mesmo servia queimar em seu peito. No fim da patrulha, ele olhou para o menino e disse:


— Ei, Sike. Vou tentar conseguir com o velho Tyron uma permissão oficial para levar você em algumas das minhas patrulhas daqui em diante.


Os olhos de Sike se arregalaram em choque e esperança.


— É sério, John?


— Mas se eu disser para carregar o equipamento, não quero corpo mole, hein?


-É Claro que não!



Três anos depois.


Sike agora tinha dezoito anos. John estava parado do lado de fora de uma das salas de laboratório subterrâneas. O som que vinha lá de dentro era insuportável: gritos de agonia que não pareciam humanos. John mantinha cada músculo do corpo tenso, lutando contra o instinto de chutar a porta e massacrar os cientistas lá dentro.


— Por que não está dando certo? — ele ouviu um pesquisador perguntar friamente. — O espécime já deveria ser capaz de manifestar a luz. Por que ele resiste?


Quando a sessão terminou, a porta se abriu. Sike saiu cambaleando, o rosto pálido e os olhos injetados de sangue. John o segurou antes que ele atingisse o chão.


— John... eu... não consigo mais... — sussurrou Sike, a voz falhando. — Não... aguento...


O ódio de John finalmente transbordou.


— Já chega, garoto. Que tudo vá para o inferno. Vou falar com Vince e, se for preciso fazer aquele engomadinho comer terra, eu farei.


Sike usou o resto de suas forças para segurar o pulso de John.


— Não, John... por favor. Eu já tenho um plano. Com a sua ajuda nas patrulhas, eu consegui ver o mundo lá fora. Eu sei que qualquer lugar é melhor do que este inferno.


Mesmo fraco, o olhar de Sike era de uma determinação inabalável.


— Eu vou fugir esta noite. Se quer mesmo me ajudar, retire os guardas da rota que eu vou usar. Só isso.


John sentiu um pesar gigantesco. O mestre cavaleiro, o homem mais forte do império, não era capaz de proteger seu amigo dentro daquelas paredes. A única forma de salvá-lo era deixando-o partir.


— Sike... está bem. Eu garanto o caminho livre.


Sike sorriu, uma expressão de alívio puro.


— Haha... Obrigado, John Dickson. O Mestre Cavaleiro...


Naquela noite, Sike contou que seguiria para Zadarmo. E assim, o prodígio desapareceu de Rôga, deixando para trás apenas cinzas e silêncio.


Voltando ao presente.


John foi arrancado de suas lembranças pela voz sarcástica de Sike, que o cutucava no ombro.


— Ei, John! Está dormindo em pé? Ficou velho a esse ponto, é?


John deu uma risada

curta, o canto da boca se erguendo em um gesto raro de afeto.


— Hum. Você continua sendo um fedelho, Sike.