CINZAS E BRUMAS

21 CORAGEM E PARTIDA


As luzes oscilante da taverna de Eudora pareciam mais distantes conforme o presente retomava seu lugar nos pensamentos de John. Sike, percebendo que o amigo despertava do transe das lembranças, encarou-o com uma seriedade incomum.


— O que você escondeu tão bem para demorar esse tempo todo? — perguntou John, a voz rouca.


— Bom, isso não é algo que eu pretendia usar tão cedo — respondeu o mago.


Com um movimento ágil, Sike retirou do bolso um medalhão pesado. No centro da peça, incrustada em prata antiga, brilhava uma gema de Aetherium, pulsando com uma luz azulada e rítmica. John reconheceu o artefato no mesmo instante.


— Espere... esse é o brasão da Cidadela de Kidma! Como diabos conseguiu isso?


Sike deu um sorriso enigmático, recuperando parte de sua pose habitual.


— Digamos que eu ajudei o cara certo, no lugar certo e no momento certo.


— Seu idiota! — John gritou. — Vai continuar com esses mistérios desnecessários agora?


O clima mudou subitamente. O sorriso de Sike desapareceu, e ele olhou para John com uma gratidão que o cavaleiro não estava preparado para receber.


— Eu te agradeço, John.


O mestre cavaleiro calou-se, surpreso pela quebra brusca no tom de deboche.


— Eu sempre tive, no fundo do meu coração, a vontade de destruir aquele lugar — continuou Sike, com a voz carregada de uma amargura profunda. — Tirando as memórias das nossas pequenas aventuras, Rôga só me remete a dor e solidão. Eu nunca tive coragem de voltar. Eu fiquei mais forte, mais experiente... mas todas as noites, quando fecho os olhos, ainda vejo os pesquisadores, as mordaças e os bisturis.


Sike respirou fundo, as mãos levemente trêmulas.


— Quando você me chamou para isso, eu congelei de medo. Tentei disfarçar com raiva, mas era terror puro. Porém, eu vi o seu olhar. Vi que você também perdeu tudo por conta do Império, mas não vi medo. Em nenhuma parte de você eu vi hesitação. E eu me envergonhei profundamente disso. Então, John... se for para evitar que aconteça com outros o que aconteceu comigo, eu vou te seguir. E não terei mais medo.


John, que até então só conseguia enxergar o garoto tímido e traumatizado que sentia pena, agora via um homem. O Mago Prodígio havia finalmente tomado o lugar da criança.


— Bom — respondeu John, tentando disfarçar o nó na garganta. — Se já parou de tentar me fazer chorar, pode explicar o plano?


Sike soltou uma risada curta e se recompôs.


— Não seremos capazes de enfrentar o poderio de Luces sozinhos. Por isso, vamos recorrer ao dono deste medalhão. Ele será vital para acabarmos com aquele merdinha.


— Imagino, então, que nosso rumo seja o território de Vilini, correto?


— Sim. E teremos que partir agora. Chamamos atenção demais com aqueles caçadores de recompensas.


— "Nós", não é? — ironizou John, sarcástico.


Após as explicações, os dois começaram a caminhar para os limites de Zadarmo, mas foram interrompidos pela voz áspera de Eudora. A elfa jogou uma mochila pesada de suprimentos na direção de Sike, que a pegou no ar.


— Ei, moleque! Não vá se meter em confusão desnecessária! Ainda preciso receber sua parte do mês! — gritou a velha.


Sike acenou de volta, sem parar de andar, com um sorriso largo no rosto.


— Relaxa, velha! Deixei uma bolsa com moedas de prata escondida na taverna. Boa sorte para encontrar!


Eudora observou-os partir, resmungando em tom baixo, mas com um brilho de preocupação no olhar:


— Hum... que moleque atrevido. Tome cuidado, Sike...


Fora das muralhas de Zadarmo, o vento noturno soprava em direção às florestas do norte. John quebrou o silêncio:


— Então, moleque... em todos os meus anos como Mestre Cavaleiro, eu nunca fui adepto da diplomacia. Jamais visitei Vilini. Como atravessamos a fronteira de um país em guerra?


— Relaxa, eu conheço um caminho — explicou Sike. — Teremos que passar por Zival, a Vila dos Homens-Feras. É a única forma de garantir uma travessia calma.


— Homens-Feras? — John parou por um segundo, surpreso. — Eu achava que estavam extintos. Como eles mantêm uma vila em território Ludíano?


— Eles não mantêm. A vila fica exatamente em cima da linha da fronteira. Como Vilini é muito mais tolerante com outras raças do que o Império, e os batedores de Ludí não exploram aquelas matas fechadas, eles conseguem se camuflar bem entre as nações.


John assentiu, intrigado.


— Entendo. A última vez que vi um Homem-Fera, eu ainda era um escudeiro. Isso vai ser interessante.


Com a convicção de que um rei precisava cair para que o mundo pudesse respirar, o Cavaleiro e o Mago seguiram em direção às sombras de Zival.