CINZAS E BRUMAS
7 CHUVA E FAGULHAS
Ofegante após a corrida, Tessia alcançou os portões de Nádej e estancou. Avistando um grupo de cavaleiros imperiais no centro da vila, ela se escondeu atrás de uma mureta de pedra, o coração batendo na garganta. Ela ouviu a voz estrondosa do comandante:
- Viemos atrás de um fugitivo do Império de alta periculosidade! Temos fortes indícios de que ele se esconde neste lugar. Entreguem-no imediatamente para evitarmos a truculência!
Os aldeões sabiam exatamente a quem eles se referiam, mas um silêncio desafiador pairou no ar. Ninguém se manifestou.
Hank, o ancião, adiantou-se com passos calmos em direção ao grupo armado.
- Acalme-se, autoridade. Esta é uma simples vila de pescadores. Por que nós abrigaríamos alguém desse nível?
O comandante varreu os moradores com um olhar gélido e perguntou em alto e bom som:
- Vocês têm certeza de que não escondem ninguém com o nome de John Dickson!?
Para a surpresa de todos, o aldeão que havia ofendido John em seu primeiro dia deu um passo à frente e disse, com um tom de deboche genuíno:
- John Dickson? Isso por acaso é o nome de algum vinho caro da capital?
Irritado e com a certeza de sua suspeita confirmada pelo silêncio cúmplice, o comandante rosnou:
- Então é assim que querem fazer... Por mim, tudo bem.
Ele desembainhou a espada e proclamou em um grito:
- Por traição ao Império de Rôga, eu sentencio a destruição desta vila e a execução de todos os seus moradores!
O desespero foi imediato. Tochas foram acesas e os soldados avançaram. As primeiras casas começaram a arder. Gritos, choros e o som do aço cortando carne preencheram a noite.
Tessia, em choque e em prantos, deu meia-volta para correr de volta à floresta e chamar John, mas trombou violentamente contra uma armadura de metal. Era um soldado imperial. Sem hesitar, ele lhe desferiu um soco no rosto e a agarrou pelos cabelos, arrastando-a para o centro do caos. Com o nariz sangrando e a visão turva, Tessia clamava:
- Não, por favor! Não machuquem eles... Eu imploro... Por favor...
Hank viu a cena. O velho ancião, enfurecido, correu na direção do soldado, gritando:
- Solte minha neta, seu desgraçado!
Não houve tempo para reação. A espada do soldado girou e transpassou o peito de Hank. O velho parou, os olhos arregalados, e desabou no chão poeirento... sem vida.
Tessia viu tudo. Um olhar catatônico tomou conta de seu rosto, uma expressão branda e quebrada.
- Vovô? — ela sussurrou.
Então, o grito veio. Uma agonia pura, uma tristeza profunda que rasgou sua garganta.
- Calem essa garota! — ordenou o comandante, irritado com o barulho.
O soldado acatou a ordem. Pressionou Tessia contra o chão e encostou a ponta fria da espada na nuca dela.
Sem forças para reagir, Tessia olhou para os portões da vila. O tempo pareceu desacelerar. Entre a fumaça e as chamas, ela viu um vulto correndo com desespero e urgência. Os olhos de Tessia brilharam por um último instante e, com um breve sorriso triste, ela sussurrou, quase inaudível:
- Veio terminar a história, né... John?
O soldado empurrou a lâmina. Tessia morreu.
John viu a cena.
Um borrão atravessou os portões. Ele atingiu o soldado que matou Tessia como um trem de carga, agarrando seu pescoço e quebrando-o com um estalo seco antes de jogar o corpo para o lado como lixo. Relutante, com as mãos trêmulas, John virou a cabeça para Tessia, imóvel no chão.
Ele se ajoelhou lentamente e abraçou o corpo da garota, ignorando o caos ao redor. Por um momento, o mundo de John ficou mudo; só era possível escutar o crepitar das chamas devorando as casas.
O resto do grupo imperial percebeu a presença do guerreiro. O comandante, vendo sua chance de glória, gritou:
- Vamos, homens! Ali está nosso alvo! Com a cabeça dele, garantiremos a aposentadoria de nossas próximas gerações!
Vendo o grupo avançar com espadas em punho, John pousou lentamente o corpo de Tessia no chão. Ele se levantou e pegou a espada do soldado que acabara de eliminar.
Veias saltaram em sua testa e pescoço. O ar ao redor dele parecia ficar pesado, insuportável; qualquer um que olhasse para John Dickson naquele momento sentiria o cheiro da própria morte.
Mas, ao avançar, não houve gritos de guerra, nem explosões de ira. Havia apenas um velho cavaleiro com um semblante vazio, desprovido de humanidade.
Ele transpassou o grupo. Foi um massacre rápido e cirúrgico. Não houve som de metal batendo contra metal, nem gritos de cavaleiros duelando — apenas o som abafado de armaduras caindo, uma após a outra, com gargantas cortadas ou corações perfurados.
O comandante, apavorado ao ver seu esquadrão dizimado em segundos, tentou fugir. Mas, num piscar de olhos, John estava à sua frente. O comandante viu o mundo se separar em dois quando a lâmina de John o cortou ao meio, da clavícula ao quadril.
Após o massacre, o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo fogo. O belo entardecer havia dado lugar a nuvens negras e pesadas. A chuva começou a cair sobre Nádej, misturando-se ao sangue e apagando o fogo das casas, deixando para trás apenas fumaça, cinzas e fagulhas agonizantes.
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