C.H.A.O.S - A origem
7 O guerreiro
Povoado de Merida — Escócia
Merida era o povoado mais próximo de Raikra. Havia poucos habitantes e a maioria deles trabalhava em pequenas plantações.
Despedindo-se temporariamente do cavalo Pégaso, Alys e Gaia adentraram ao povoado causando espanto aos moradores, tanto pela pele negra de Gaia quanto, pelo vestido coberto de sangue de Alys.
Alheia a esse espanto coletivo, uma senhora idosa de baixa estatura e um pouco acima do peso, aproximou-se das duas estranhas.
– Sejam bem-vindas a Merida, viajantes! Vejo que devem estar precisando de ajuda...
– Sim, senhora... Eu sou de Raikra e acabei de perder meus pais... Tudo que preciso é um banho rápido e uma refeição digna. Existe algum local nesse povoado onde possamos nos hospedar apenas por algumas horas?
– Coitadinha... Eu também perdi meus pais muito cedo... Quanto ao lugar, não temos um específico, mas ofereço minha casa... A mesma é simples, mas serão bem acolhidas. Meu nome é Iona.
– Muito obrigada, senhora Iona. Será abençoada pelos deuses por seu bom coração. Vamos senhora Gaia, achei um lugar para ficar.
As duas entraram na casa simples de Iona que, providenciou um banho quente e passou a preparar uma refeição para as visitantes.
Enquanto Gaia meditava em sua missão, Alys aproveitava seu momento de privacidade para tentar discernir tudo que havia sucedido e o que aconteceria à frente.
Deus... Que destino é esse que preparaste para mim?! Tantas pessoas no mundo... Por que eu fui escolhida?
Nesse momento Gaia entrou no quarto trazendo roupas limpas.
– Alys eu trouxe roupas limpas e a refeição que a senhora Iona preparou.
Assim que saiu do banho e observou as roupas, Alys ficou extremamente intrigada.
– Senhora Gaia, que roupas são essas?
– São roupas especiais para combate Alys. De criação divina, possui um fino revestimento abaixo da camada de tecido de um material nobre que não é mais utilizado pela raça humana desde a destruição de Atlântida, o Oricalco. Isso dará proteção contra cortes, perfurações... Enfim, vai te proteger.
– Se vai me ajudar, aceito de coração! – Respondeu Alys enquanto se vestia prontamente.
Ora, a roupa era uma peça única na cor negra que cobria por completo as pernas e os braços, com limites no pescoço, pulsos e tornozelos. Lembravam um traje masculino, mas por ser justa, deixavam em evidência as curvas de Alys. Possuía detalhes em prata na região do pescoço semelhante a um colar, contendo uma pedra de cor dourada no meio.
Alys também recebeu uma espécie de cinto com alguns pequenos compartimentos para acessórios, um suporte nas costas para a foice e proteções de metal na cor prata para as mãos que deixavam apenas os dedos expostos e para os pés, semelhante a uma bota com um pequeno salto, como peças de armaduras.
– Senhora Gaia, como vou colocar essa foice enorme nesse suporte?
– Você não reparou, mas a foice pode ser dividida em duas facilitando o transporte.
Alys então dividiu a foice e a colocou no suporte em suas costas.
– A comida da senhora Iona parece deliciosa! – Disse Alys admirando a bela refeição a sua frente. – Precisamos recompensá-la de alguma forma, senhora Gaia.
– Não se preocupe, eu já sei como. – Sorria Gaia planejando a melhor forma de presentear a bondosa senhora.
A jovem princesa devorava sem piedade o assado de carne com legumes à sua frente, enquanto Gaia apenas observava.
– Pronto, podemos ir senhora Gaia, já terminei! Antes, eu podia só fazer algumas perguntas?
– E desde quando você pede permissão para perguntar-me? – Sorria Gaia ternamente para Alys como uma mãe para uma filha.
– Então... Qual é o critério de escolha dos primordiais para com os representantes dos deuses?
– Escolhemos pessoas hábeis em combate e que tenham bom coração.
– Então por que eu fui escolhida se não sabia lutar?
– Bem, sua escolha teve a influência de Moros, a personificação do Destino. Quando sua mãe pediu aos deuses que salvassem sua vida há muitos anos atrás, Moros viu a mulher que você se tornaria e isso fez com que o Caos a elegesse.
– Enquanto lutava, parecia que a foice guiava-me como uma marionete...
– Não conte com isso novamente... Aquilo foi uma ajuda direta do meu Pai, mas isso não irá se repetir. Aquilo te deixou esgotada e se Hergol fosse mais forte você não resistiria. Mas não se preocupe... Com a ajuda dos outros representantes, você aprenderá a lutar. Agora vamos, sinto que meu escolhido corre perigo!
– Vamos!
Agradecendo e despedindo-se da senhora Iona, dirigiram-se para um pouco distante do povoado para que Pégaso viesse novamente buscá-las.
Como presente a senhora Iona, Gaia providenciou que as suas plantações produzissem o dobro até o fim de sua solitária vida.
Tribo Hamer — Sul da Etiópia
O dia parecia que tinha começado mais cedo para o povo Hamer, afinal era um dia de grande festa. O sol brilhava intensamente sobre as habitações de madeira e uma leve brisa circulava o ambiente, tornando-o agradável.
Vários rapazes iriam passar pelo Ritual do Salto, fazendo a transição para a fase adulta, o qual consistia de um teste onde o jovem, completamente despido, teria que saltar quatro vezes consecutivas uma fila de 7 a 10 touros.
As mulheres preparavam a comida, se enfeitavam e faziam penteados especiais. Ansiavam pela hora das escolhidas dançarem e provarem sua honra.
Um pouco distante dali, um homem alto, de corpo musculado, olhos profundos negros e cabelos negros crespos, trançados e longos, preparava os animais.
Usava um colar de pedras brancas no pescoço e um pedaço de pano amarrado à cintura para cobrir a nudez. Tinha as bochechas pintadas com linhas brancas, sendo uma de cada lado, além do peito e braços.
Naquele momento ele recordava-se do dia em que foi submetido ao mesmo teste e do medo que sentia. Medo que fora superado a partir do exemplo de coragem demonstrado pela sua irmã gêmea.
Ora, ele era um jovem franzino quando se juntou a fila dos iniciados. Era nítido o medo em seus olhos e a descrença dos outros que o observavam, duvidando das suas capacidades.
Na época, ele tinha 15 anos de idade, porém sua altura e peso eram muito inferiores em comparação com os outros da mesma idade, tanto que, ninguém, nem mesmo seus próprios pais, acreditavam que ele conseguiria passar no teste. Exceto uma pessoa: sua irmã gêmea, Yana, que apesar das críticas, se ofereceu para ser açoitada durante o salto do seu irmão.
Isso porque, nos costumes do povo Hamer, um familiar do sexo feminino, por iniciativa própria, se oferecia para ser açoitada durante o salto, com o objetivo de ter cicatrizes, as quais representavam orgulho, dedicação e respeito. Os Hamer acreditam que o ritual reforça os laços entre o iniciado e a mulher açoitada.
Sua coragem, confiança e postura motivaram seu irmão que, contrariando a todos, executou perfeitamente os saltos e daquele momento em diante, a natureza e seu empenho o transformaram num guerreiro orgulhoso, habilidoso e imponente, respeitado e admirado por todos.
Ao longo dos anos, sua admiração e amor por sua irmã foram aumentando, de modo que ele era capaz de qualquer coisa para protegê-la. Até sacrificando seu corpo, assim com ela sacrificou um dia por ele.
Porém, seus pensamentos cessaram ao ouvir gritos desesperados provenientes da festa que havia se iniciado no meio da tribo.
Com grande velocidade, o homem dirigia-se ao lugar sem entender o que sucedia, até deparar-se com uma criatura enorme, semelhante a um homem, porém com apenas um olho na face.
O espanto era coletivo. Os homens que tentaram investir contra o monstro foram lançados para longe como gravetos.
– Deus, o que é ISSO?! — Exclamou o homem posicionando-se entre o monstro e o povo.
– Sou a morte, homenzinho! – Respondeu o monstro. – Ouçam todos vocês, pois não vou repetir novamente. Eu só tenho um interesse nessa tribo medíocre: a cabeça de um homem chamado Chimalsi. Se me derem o que peço, deixo vocês em paz... Não tenho prazer em usar minha força contra gente fraca.
Após a solicitação do monstro, o homem engolia seco e um estranho medo percorria seu corpo. Um medo que ele nunca sentira antes, afinal...
...O seu nome era Chimalsi...
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