C.H.A.O.S - A origem
8 A lança de Gaia
Medo. Nenhuma palavra poderia definir melhor o que Chimalsi sentia naquele momento.
Suor escorria por sua face, manchando as pinturas em sua pele. Tinha o pulso acelerado, a respiração ofegante e as pernas trêmulas.
Porém, seu orgulho de guerreiro jamais permitiria que tal medo fosse demonstrado e, com expressão firme, avançou na direção do monstro calmamente.
O monstro tinha mais de três metros de altura. Sua pele era semelhante à humana e usava uma veste que cobria da cintura para baixo até o joelho. Não tinha pelos e seus olhos eram cor carmesim.
– O que foi homenzinho? Por acaso você é quem procuro? – Questionava o monstro em tom de desdém.
– Eu so... — Antes que pudesse completar a frase, o gigante o agarrou firmemente com a mão direita, suspendendo-o no ar. – Ahhhhhhh!
Chimalsi sentia a força do gigante na própria carne, à medida que o monstro apertava-o sem dó.
– Espera! — Uma voz feminina saía da multidão em tom autoritário. — Espera seu monstro ridículo! Quem você pensa que é invadindo nossa tribo? Mesmo que aqui tivesse algum homem com esse nome, não o entregaríamos a você. Agora vá embora antes que se arrependa!
O gigante mal podia acreditar tanto nas palavras que ouvia, quanto em relação a quem às pronunciava.
Ora, era uma jovem de pele bem negra, alta, de olhos profundos negros e cabelos negros crespos, longos e trançados. Trajava uma veste na cor vermelha que cobria apenas da cintura para baixo até os joelhos, deixando os seios à mostra.
– Ora, mulher atrevida! Eu que pergunto quem és para falar num tom desse comigo?! Quer morrer?! Se bem que... Acho que poderia fazer outras coisas com você... Hahaha...
A mulher se aproximava cada vez mais do monstro sem temor algum, insultando-o em gritos.
Apesar da dor, Chimalsi estava profundamente preocupado, afinal, a mulher nada mais era que Yana, sua irmã gêmea.
Enquanto isso um garotinho assustado trazendo consigo uma lança, aproximava-se escondido do gigante.
Ao ver o garotinho, o guerreiro compreendeu no mesmo momento o plano de sua irmã e sabia exatamente o que fazer.
– Gigante imbecil, sua hora está marcada! – Exclamava Yana em tom ameaçador.
– Ah é mesmo?! E o que uma formiguinha como você pode fazer contra mim?
– AGORA!
Quase que de imediato, um grupo de crianças saiu de uma das habitações atirando pedras contra o olho do gigante, sendo que, uma foi certeira, deixando-o cego temporariamente.
Agonizando, o monstro soltou Chimalsi que, pegou rapidamente a lança da mão do garotinho e passou a escalar até o alto de uma habitação próxima.
Chegando ao alto da habitação, deu um grande salto pousando sobre o braço direito do monstro que permanecia agonizando, pegando assim impulso para outro salto, chegando à altura da face do gigante e cravando a lança em seu olho.
O gigante, tão confiante em si, agora caía morto diante dos olhos de todos, que aliviados, comemoravam a sua queda.
Chimalsi foi correndo na direção de Yana que sorria de forma convencida para ele.
– Sou incrível, pode admitir. Sabia que se identificaria ao monstro sem nem pensar em algum plano...
– Certo, você é sim... Mas, naquela hora eu agi por...
– Orgulho, não é? Irmão, isso um dia pode te matar...
– Eu sei... – Sorria, abraçando-a em seguida. – Obrigada...
– Chimalsi, olhe aquilo! – Exclamou Yana, surpreendendo-se com o que ocorria ao cadáver do monstro.
Ora, o corpo estava mudando de tamanho, atingindo a aparência de um humano normal, de altura mediana, calvo e de pele morena.
Chimalsi assistia o fenômeno incrédulo e talvez, se sua lança outrora cravada no olho do monstro, não estivesse alojada na testa do morto, não acreditaria em seus olhos.
Porém, o momento de alegria e alívio foi interrompido por nuvens misteriosas que cobriam o brilhante sol da manhã.
Raios cortavam o céu e um vento agressivo ameaçava pôr abaixo as habitações da tribo.
Logo, uma criatura gigante alada de pele escamada cor ocre, apareceu entre as nuvens.
Era possível ver a sombra de uma pessoa saltando da criatura ao encontro do solo.
À medida que se aproximava, o alguém misterioso revelava uma forma gigantesca semelhante ao gigante, causando um grande estrondo ao tocar o chão, levantando uma enorme nuvem de poeira.
– Que lindo o amor de irmãos! – Uma voz misteriosa e grave partia do local deixando todos confusos.
– Quem está aí?! – Questionava Chimalsi, olhando para todas as direções a procura do dono da voz.
Até que um gigante idêntico ao que fora abatido caminhava lentamente em direção ao corpo de seu semelhante com a expressão abatida, meditando no ocorrido.
Khafra, como você se deixou ser derrotado por um humano comum? Seu idiota...
Sua meditação cessou ao encarar de modo extremamente frio os responsáveis pela morte do seu igual.
– Outro gigante maldito? Quantos vocês são?! – Questionava Chimalsi, frustrado com o rumo das coisas.
– Eu sou Cheops e esse que caiu morto, por um golpe de sorte seu e que a moça em seus braços chamou de imbecil, era meu irmão. E, de fato, ele era... Mas, não posso deixar isso para lá, afinal ele era meu sangue. Porém, de onde venho, uma morte paga outra morte. — Sorria malignamente o homem misterioso ao terminar de falar.
O tom gélido das palavras do monstro parecia congelar o coração de Chimalsi, como se pudesse sentir a intensidade do ódio de Cheops em seu próprio corpo.
Então, Cheops partiu em velocidade máxima na direção de Chimalsi e Yana.
Como por instinto, Chimalsi empurrou Yana para longe, recebendo em cheio o impacto, sendo arremessado para longe.
Tal arremesso fez com que a pele entrasse em atrito com o solo, gerando escoriações em várias partes do corpo do jovem guerreiro.
– CHIMALSI! – Gritava Yana, desesperada com o estado do seu irmão.
Mas, Chimalsi não sucumbiria assim. Ele jamais permitiria ser derrotado por aquela criatura sem ao menos desferir um golpe. Portanto, se reergueu decido a lutar até o fim.
– Hahaha... Vejo que é resistente. Você é do tipo que me dá prazer em machucar.
– Sinta prazer nisso, desgraçado! – Yana, apareceu atrás do monstro, tentando cravar-lhe a lança que segurava, sem êxito.
A pele de Cheops parecia ter resistência maior que o normal.
– É, moça... Até que fez cócegas... Hahaha
– Yana, saia daqui, eu posso cuidar dele! Vá emb... YANA!
Cheops desferiu um golpe com toda força contra a jovem, que foi lançada a metros de distancia vomitando sangue.
– Yana... Não... NÃO! – Gritava Chimalsi, enquanto corria desesperado em direção a sua irmã.
Porém, o monstro apareceu no caminho de Chimalsi, dessa vez, o jogando contra uma das habitações, destruindo-a parcialmente.
Com fortes dores e em lágrimas, Chimalsi se contorcia no chão. Mas ele não poderia parar...
O que eu faço?... Yana... Eu não posso deixar esse monstro me derrotar... Eu tenho que salvar minha irmã e a tribo... Eu tenho que levantar...
Embora o corpo derramasse sangue por praticamente todas as partes, Chimalsi levantou bravamente.
– Agrada-me seu gosto pela dor. Porém, o próximo golpe será definitivo!
– Pode vir, pois eu não tenho medo de morrer!
Com bastante violência, Cheops lançou seu punho contra Chimalsi, que surpreendentemente, deu um grande salto esquivando-se do golpe.
Em seguida, rapidamente pegou a lança que Yana tentou cravar no gigante anteriormente e, girando-a no ar, pegou impulso para lançá-la com toda força contra o peito de Cheops.
Porém, a mesma não conseguiu transpassá-lo, causando apena um ferimento leve.
– Bravo, Chimalsi! Foi uma bela tentativa, mas, agora será seu fim! – Cheops sorria ironicamente.
Cheops partia com toda força contra Chimalsi, quando uma aura esverdeada começou a se espalhar por todas as direções.
Com esse fenômeno, Cheops parou seu ataque procurando o dono da aura.
Em seguida, um grande tremor partia do chão tendo maior intensidade perto de Chimalsi.
Logo ao lado do guerreiro, um objeto pontiagudo começou emergir, como uma árvore brotando no chão.
Chimalsi parecia ignorar o que sucedia, pois estava estático admirando a visão de duas mulheres em cima de um cavalo branco alado que sobrevoavam sobre sua tribo.
– Chimalsi, pegue essa lança e você terá o poder para matar esse monstro! – Exclamava a mulher negra, conhecida como a Mãe-Terra.
Voltando a si, Chimalsi agarrou a lança sentindo um grande poder percorrendo seu corpo.
O mesmo passou a ser envolvido por uma aura de cor também esverdeada.
– Não pode ser... NÃO PODE SER! – Gritava Cheops em evidente desespero, partindo violentamente na direção de Chimalsi.
Repetindo o movimento de outrora, Chimalsi deu um salto desviando do golpe do gigante, girou a lança no ar em busca de impulso, atirando com toda a sua força.
A lança de cabo negro e inscrições douradas transpassou o peito de Cheops, que caiu descrente ao chão com seu sorriso irônico desfeito, morrendo em seguida.
Chimalsi largou a lança no chão, seguindo mancando até sua irmã.
Caindo de joelhos ao seu lado, Chimalsi a segurou nos braços, abraçando-a.
– Vo-cê conse-guiu, irmão... Estou orgulhosa...
– Nós conseguimos... Yana...
– Eu te amo, irmãozinho... Você vai ter que se cuidar sozinho daqui para frente... Acredite em si mesmo e cuidado com o orgulho...
– Irmã, eu também te amo... Não... Não morra...
A jovem deu seu último suspiro, deixando aquele que compartilhava seu sangue em prantos.
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