C.H.A.O.S - A origem

3 Dor e Esperança


Eu fiquei em estado de choque.

Só conseguia olhar para o corpo do meu pai e para os olhos da minha mãe. Foi a primeira vez que eu vi os gentis e corajosos olhos da grande rainha Nerys sem brilho algum.

Vazios.

Aquilo era um pesadelo, não podia ser real.

Eu não tinha forças para mais nada, a não ser derramar lágrimas sem fim.

Então, num movimento brusco, dois soldados se posicionaram atrás de nós e nos seguravam com muita força. Quase que instintivamente, dei uma cotovelada em busca da liberdade, mas sem muito êxito.

Os soldados estavam se divertindo. Malditos. Até que Hergol pediu que trouxessem a minha mãe até ele.

Um medo profundo começou a tomar conta de mim. Ele iria machuca-la, eu sei... Ela era bonita...

Eu não queria ver aquilo...

Minha mãe não falava nada. Nenhuma reação. Parecia aceitar seu trágico destino.

Os soldados começaram a despi-la... Ele iria violenta-la e eu não podia fazer nada... Então, Hergol começou a retornar a forma original e partiu em direção da minha mãe.

Numa ação inesperada e desesperada, minha mãe retirou uma faca que estava oculta em seu cabelo e tentou golpeá-lo. Hergol desviou facilmente e jogou-a longe. Passou a insulta-la, a agredi-la... Golpes físicos tão fortes que ela perdeu o equilíbrio...

Covarde...

Começou a chuta-la... Chutes e mais chutes... Eu abaixei a cabeça. Eu queria matar aquele monstro e protege-la. Eu não aguentava mais.

Percebendo minha reação, Hergol ordenou um soldado que levantasse minha cabeça e a segurasse até o fim. Eu não podia mais escolher ver ou não... Era uma tortura psicológica... Até que, ele parou... Aliás, um grande silêncio se espalhou. Só um som era perceptível.

Minha mãe estava a rir.

Todos começaram a pensar que já delirava, ou tinha ficado louca. Até que, após reunir todas as forças que tinha, disse em alto e bom som:

– Pode me insultar... Pode me bater... Até me matar... Eu nunca vou me submeter a você... Eu tenho nojo de você... E mesmo... Você tendo essa nova forma... Nunca será bem sucedido... Seu destino é o fracasso... Filha... Eu não tenho força para te salvar... Mas eu... Ainda tenho esperança... Não perca a sua... Lute e...

Antes que ela pudesse completar a frase, Hergol em total estado de fúria agarrou-a pelos cabelos e começou a arrasta-la até uma arvore. Ordenou então que os soldados a amarrassem. Em seguida, Hergol abriu uma garrafa com rum e jorrou o liquido sobre todo o corpo dela. Por fim... Ele... Pegou uma tocha e... Deus...

Eu fiquei estática.

Parecia que o tempo tinha parado junto comigo.

Depois de algum tempo, ele começou a me encarar. Sorria sarcasticamente... Parecia sentir prazer com meu sofrimento. Mas... Eu já não retribuía com expressão de dor ou sofrimento. Ódio... Só ódio existia em meu olhar. E no fundo do meu ser parecia que surgia uma força incontrolável prestes a explodir a qualquer momento...

Meu olhar provocou a ira do monstro que logo partiu para agressão quando uma voz forte o interrompeu.

Todos tentavam identificar o dono da voz... De onde ela vinha... Até que uma luz intensa veio do céu. Tão intensa que começou a deixar Hergol e seus soldados confusos... Parecia que os machucava. Mas eu não sentia nada... Pelo contrário, parecia que reconfortava meu coração. Com isso, o soldado que me segurava soltou-me.

Em seguida, um objeto pontiagudo vindo dos céus começou a cair em minha direção. Parecia um raio e, ao chegar ao solo cravou o chão...

Era uma foice, uma foice dupla. Parecia até que me chamava...

Cautelosamente me dirigi a ela, atendendo sua convocação. Eu sentia que me pertencia.

Enquanto admirava a arma, mais uma vez a voz misteriosa se pronunciou. Agora, estava claro que vinha do céu. Suas palavras foram:

– Criança, eu te dou duas escolhas. Se quiseres fugir, vais para o norte e serás acolhida. Porém, cedo ou tarde o mal irá atrás de ti. Mas se quiseres lutar, aceite este presente e ele mostrará o caminho do seu destino. Um destino de grandes feitos.

Minha decisão foi em forma de ação.

Mesmo aparentando ser pesada, eu tentei retira-la. Para minha surpresa, facilmente a retirei do chão. Ela tinha lâminas extensas e um cabo extenso negro e, ambos possuíam inscrições de uma língua desconhecida gravadas em dourado. Era tão imponente.

Era minha.

Assim que fiz minha escolha, a luz cessou. Hergol e seus soldados começaram a se recompor.

Ao se darem conta que segurava uma arma, todos sem exceção ficaram surpresos. Buscavam entender como tinha se dado aquilo. Mas Hergol tinha assumido sua forma de monstro e ferozmente estava vindo em minha direção. Mas eu não sentia medo... Eu sentia desejo intenso de lutar...

Agora era minha vez...