C.H.A.O.S - A origem
4 A chama da justiça
O céu estava rubro, as casas estavam destruídas, as árvores sendo consumidas pelo fogo, cadáveres espalhados em todas as direções e eu no centro do caos. Soldados inimigos me cercavam e um monstro de mais de três metros de altura vinha ferozmente em minha direção.
Eu acreditava que não teria a menor possibilidade de vencer, mas eu queria lutar e, em uma prece silenciosa, eu pedia a Deus que me ajudasse, não a sobreviver, mas a fazer justiça e matar aquele monstro.
Mesmo que isso custasse a minha vida.
Assim que terminei a prece, uma luz começou a emanar da foice. Uma luz dourada que confortava meu coração. Era magnífico!
Parecia um pequeno sol que afastava as trevas que me cobriam, envolvendo meu corpo por completo e trazendo uma serenidade que eu nunca havia sentido antes.
O monstro estava cada vez mais perto e seu punho gigantesco estava pronto para me atingir. Porém, quando o punho direito de Hergol ficou a quase um metro de distância do meu corpo, algo inexplicável aconteceu.
Seu punho foi decepado pela minha foice.
Enquanto o monstro se contorcia no chão, agonizando por conta da dor e pela perda de sangue, eu me perguntava exatamente o que tinha acontecido.
Mesmo que eu quisesse, não teria força ou velocidade para tal ação. Então eu percebi que não fui eu quem fez aquilo.
A foice tinha vida própria.
Como uma marionete, ela me conduziu para o êxito.
Os soldados ficaram abismados. Não sabiam o que fazer, que atitude tomar. Mas levados pela sede de matar, partiram praticamente ao mesmo tempo para me atacar.
Mas uma vez, meu corpo guiado pela foice fazia manobras incríveis.
Defesa.
Ataque.
Saltos.
Eu era apenas uma expectadora de mim mesma.
Cabeças e membros eram decepados. Sangue me banhava. Eu parecia um leão feroz destruindo suas presas. Só que, minha visão estava começando a embaçar...
Eu comecei a sentir uma grande exaustão. Meu corpo já não aguentava manter o ritmo. Mas eu não podia parar. Deus havia atendido minhas preces e eu não poderia sucumbir.
Lágrimas de raiva começaram a vir aos meus olhos.
Meu corpo estava esgotado.
Caí de joelhos no chão e a foice parecia tão pesada...
Hergol, mesmo sangrando estava em pé novamente e os soldados começaram a debochar e a ficarem novamente confiantes. Suava frio. Respiração forte. Mas não era hora de parar. Um milagre estava sendo feito.
Era a minha única chance.
– Então menininha, acabou sua força? Sua vida por um milagre ainda persiste, mas vamos te matar!
Levantei novamente, mesmo sentindo dor e exaustão.
Acho que a minha determinação fazia a foice brilhar mais e mais. Um brilho quase ofuscante, o qual afetava tanto Hergol quanto seus soldados. Entendi que deveria usar aquilo como vantagem e partir para o ataque.
Atônitos, os soldados nem sabiam a quem estavam ferindo com suas espadas, flechas e lanças.
Eles estavam atingindo seus próprios companheiros e na minha condição física, só tinha forças para esquivar e atacar nos momentos certos, o que naquele momento era o mais adequado.
Parecia uma grande confusão.
O mal estava se autodestruindo.
O ataque só parou quando o número dos soldados estava grandemente reduzido e Hergol ordenou que parassem, pois havia se dado conta do meu plano.
Aquela altura eu já não tinha mais forças. Cravei a foice no chão para usá-la como apoio. Não havia ideias. Até a luz que anteriormente usei como vantagem havia se apagado.
Hergol estava mais enfurecido do que antes, afinal eu feri seu orgulho de comandante.
Como uma garota que nunca empunhou uma espada na vida poderia ter matado centenas de seus soldados?
Até eu me perguntava isso.
Eu acreditava piamente que era um milagre divino. Mas só outro milagre poderia ajudar naquele momento.
De cabeça baixa, eu procurava fazer outra prece, porém sem êxito. Fui surpreendida por um golpe certeiro do monstro. Quando dei por mim, tinha caído a dois metros de distância de onde estava.
Meu corpo ficou cheio de hematomas, arranhões e um pouco de sangue escorria pelo canto da boca. Eu mal acreditava que tinha saído viva daquele golpe... Em pensar que esse foi exatamente o mesmo golpe que traspassou o corpo de meu pai.
Quando Hergol se deu conta que eu ainda estava viva e, sem nenhum osso quebrado, ficou estático e me perguntou:
– Você é imortal, menina? O que é você?
– Sou apenas alguém que não vai deixar você sair vivo daqui.
Respondi demonstrando confiança, embora não fizesse ideia do que fazer a seguir. Afinal, a foice estava distante de mim e Hergol estava bem na minha frente pronto para avançar a qualquer momento junto com seus soldados.
De qualquer forma, eu tinha que continuar. Eu havia chegado tão longe... Nessa hora, eu lembrei certas palavras que meu pai havia dito quando eu era criança:
Os seres humanos não sabem o poder que tem. Quando nos deparamos com adversidades temos de encontrar a força dentro de nós mesmos para prosseguir.
Ele tinha razão.
Só me restava encontrar a força dentro de mim mesma e ninguém, principalmente um ser desprezível como Hergol, poderia me derrotar.
Comecei a concentrar toda a força que me restava para me levantar e exclamar em alto e bom som para todos aqueles malditos que estavam ali:
– Eu posso até morrer, mas eu vou levar todos vocês comigo, porque o bem e a justiça sempre vencem o mal!
– Então garotinha, morra!
Hergol e todos os seus homens partiram na minha direção. A morte era certa, ainda mais desarmada. Meu corpo não tinha mais resistência, mas em meu coração queimava a chama da justiça e eu me apeguei a ela.
Se os seres humanos realmente tem um grande poder dentro de si, eu o traria a tona custe o que custasse!
Estava tão concentrada que só depois percebi que Hergol e seus homens estavam agachados e se contorcendo na minha frente. Eu estava brilhando. Uma aura dourada me envolvia. Era quente...
Em meu interior queimava literalmente uma chama... Uma sensação indescritível... Eu precisava externar aquela energia... Eu não podia mais retê-la...
Naquele momento só uma coisa veio a minha mente e involuntariamente a gritei liberando toda a energia:
– ÉLENCHOS TOU CHÁOUS! (Controle do Caos)
A energia liberada era incrível. Parecia uma enorme explosão dourada que seguia por todas as direções devastando tudo que encontrava pelo caminho. Mas eu só tive a real visão de seu poder quando a nuvem de poeira que a mesma levantou baixou.
Hergol e seus soldados, outrora tão prepotentes e agressivos, tinham se desintegrado.
Raikra, que já estava destruída e coberta de corpos, foi convertida em meras ruínas.
Caminhando cambaleante fui até foice. Podia ver meu reflexo em uma das lâminas...
Meu vestido, outrora branco, estava coberto de sangue e meu rosto e corpo estavam machucados. Sem forças, caí de joelhos.
Por um breve momento, levantei meus olhos aos céus. Se Deus quisesse levar a minha alma naquele momento, eu morreria feliz.
Nesse breve momento, percebi que o dragão estava me observando do alto. Seus olhos e os meus se encontraram novamente... E novamente eu não senti medo e por incrível que pareça, sorri para ele.
Sorri confiante que tinha vencido.
Perguntava-me há quanto tempo ele estava ali. Só sei que ele não me atacou. Foi embora magnífico pelos céus.
Caí por terra sem forças e fechei meus olhos.
Eu só queria dormir...
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