Akio caminhava ao lado de Bill em uma estrada larga e bastante movimentada, cercada por comércios de ambos os lados. Havia muitas pessoas em volta deles, mas elas estavam distraídas demais com os seus próprios afazeres para reparar naquela dupla que avançava rapidamente sem trocar nenhuma palavra. O mau humor de Bill não combinava com aquela tarde quente e ensolarada.

Naquele momento, o taberneiro estava recordando de sua própria participação no campeonato, anos atrás. Ele se sentia preocupado, pois sabia que a vitória não dependia unicamente de uma grande habilidade como lutador. Uma boa dose de inteligência seria igualmente necessária, e ainda assim era possível que o resultado fosse decidido por um simples golpe de sorte.

Bill já havia alertado Akio dos perigos que estavam à frente. “E se você morrer?”, ele perguntou mais cedo. Naquela ocasião, Akio apenas sorriu. Aquele sorriso calmo e sincero revelava ao mesmo tempo um sentimento de tranquilidade e de melancolia. Era como se alguma coisa estivesse sendo escondida.

De qualquer maneira, ele se sentia cada vez mais responsável pelo que poderia acontecer com Akio, então decidiu que aquela caminhada silenciosa era uma boa oportunidade para reforçar os seus avisos.

— Garoto... Já que você decidiu ir em frente com esse plano, é melhor que uma coisa fique bem clara.

Akio riu.

— Mais uma coisa, Bill?

— É, mais uma. Este campeonato existe somente por um motivo: apostas. Quem vai vencer ou como vai vencer não importa muito, desde que que a vitória seja lucrativa o bastante para as pessoas certas. Tudo gira em torno dos apostadores. Eles são muito ricos, muito poderosos e também muito sádicos. As regras são confusas de propósito, assim eles podem beneficiar o lutador que quiserem. Acredite, justiça é a última coisa com a qual eles vão se preocupar. Eu por exemplo tive que lutar contra dois adversários ao mesmo tempo na etapa final.

— Dois contra um? E como isso foi justificado?

— Teoricamente era cada um por si, porém os dois perceberam que seria melhor se livrar de mim primeiro para só então decidir um vencedor. Bem, eu tornei a escolha mais fácil para eles.

— Eu definitivamente quero ouvir essa história.

— Escreva a sua própria hoje. Tenho certeza de que Sofia estará ansiosa para ouvir.

— É uma pena que ela não tenha vindo conosco.

— Acho que é melhor assim. Lembre-se de que as coisas podem dar errado. Muito errado. Akio, se você se meter em problemas e precisar fugir, não me espere. Corra para a taberna e eu voltarei assim que possível. Sofia vai estar lá para te receber.

— Não se preocupe, as coisas na verdade são bastante simples. Primeiro passo: vencer as lutas. Segundo passo: receber o prêmio. Terceiro passo: sair inteiro.

— Esse é o plano. Mas mantenha os olhos abertos e a espada perto de si. Você está entrando na toca dos tigres.

— Tigres por acaso vivem em tocas?

— Pelos céus, você entendeu!

Bill ainda estava de mau humor. Akio decidiu mudar de assunto para amenizar a tensão da conversa.

— Ainda não entendo porque este lugar se chama Aldeia Cinza.

Bill respondeu com um tom de voz ríspido, sem nem ao menos virar o rosto.

— Você logo vai entender.

Os dois continuaram caminhando em silêncio por cerca de dez minutos enquanto a estrada pouco a pouco se tornava cada vez mais deserta. Avançando um pouco mais, eles puderam enxergar ao longe um aglomerado de casebres muito pobres de cor opaca. Bill apontou naquela direção.

— Aquela é a área mais humilde da aldeia. O povo de lá é simples e trabalhador. São pessoas muito honestas e muito fortes que possuem o básico para a própria sobrevivência, mas nenhum luxo. E na condição deles, uma pintura nas paredes da casa seria um luxo. Então eles apenas deixam uma camada fina de cimento seco por cima dos tijolos. É por isso que quando olhamos de longe para essas moradias elas se assemelham a uma grande mancha cinza no horizonte. O campeonato só acontece aqui porque este lugar fica longe o suficiente da fiscalização do Império. Não se engane, os apostadores não gostam de se misturar com “gente inferior”.

Bill cuspiu no chão como um sinal de desagrado. Ele claramente não aprovava a maneira como essas pessoas eram discriminadas.

— Sabe, eu cresci aqui. Infelizmente meus pais morreram dois anos atrás. Meu pai tinha sessenta e dois anos e minha mãe tinha sessenta. Morte natural. É uma maneira bonita de morrer, não é? Em paz.

Paz. Essa era uma palavra em que Akio costumava pensar com frequência. Talvez um dia ele pudesse conhecer este sentimento.

— Sim. É uma morte digna.

Durante o período de silêncio que se seguiu, eles adentraram em um labirinto de becos estreitos. Depois de virar para a esquerda e para a direita algumas vezes, já estavam bem perto do seu destino. Bill começou a falar.

— Nós estamos quase lá. O campeonato vai acontecer na Casa dos Jogos, uma arena grande o suficiente para abrigar mais ou menos duzentas pessoas. Ela foi construída duas décadas atrás por ordem de um regente que na verdade nunca se importou muito com o bem estar da população. Nos disseram que isso fazia parte de um projeto para promover o crescimento da aldeia e trazer diversão para as pessoas, porém só consigo recordar de dois eventos que aconteceram aqui, depois disso as portas foram fechadas. Todos sabem a verdade: esta arena existe somente por causa do campeonato. A construção dela foi financiada pelos apostadores.

— Eles devem ser pessoas realmente muito ricas.

— Mais do que você imagina. Akio, gostaria de te dizer só mais uma coisa.

— Estou ouvindo.

— Os moradores. Eles dão um apelido para esta competição.

— Um apelido?

— Sim. Banho de Sangue.

Dois guardas estavam de pé em frente ao portão principal. O homem do lado direito segurava um enorme martelo com as duas mãos. Era apenas um pouco menor do que Bill e tão musculoso quanto ele. Á sua esquerda estava um homem negro que tinha aproximadamente a mesma altura de Akio.

Este último guarda se aproximou dos dois com uma mão pousada no cabo da espada que carregava na cintura. Perguntou calmamente pelos convites, ao que Bill respondeu com uma aparente irritação.

— Eu não preciso de um maldito convite, agora saia da minha frente antes que eu quebre todos os seus ossos.

A surpresa foi tão grande que deixou Akio sem reação por um milésimo de segundo. Instintivamente, ele levou sua mão ao punho da katana, pois esperava que uma luta fosse se iniciar naquele mesmo instante. Bill estava desarmado. Provavelmente estava louco também, mas continuava sendo seu amigo.

Porém o guarda não pareceu ofendido. Ele apenas deu um passo para o lado e deixou que o homem maior abrisse os portões para que os dois pudessem passar. E assim o fizeram, seguindo por um corredor bem iluminado que levaria até as arquibancadas. Akio ainda estava perplexo.

— Bill, você não acha que foi só um pouco grosseiro? Aquilo foi desnecessário.

— Aquilo, meu bom amigo, era a senha. Só os apostadores precisam de convite.

— Continua sendo estranho para mim.

— Estranho. Que palavra engraçada. Seus olhos prateados não são exatamente o que eu chamaria de “normais”. Mas não tem problema. Olhe bem ao seu redor, garoto. Você vai ver que ser estranho é praticamente um pré-requisito para lutar aqui.

Notas finais
Esse capítulo foi um pouco mais descritivo. Achei que poderia ser uma boa opção pra deixar vcs melhor situados no cenário e etc. Mas e aí, muito monótono? Para o bem ou para o mal, to esperando vcs nos comentários! XD O capítulo 3 será postado na meia noite de quinta pra sexta (sim, dessa semana).