C.D.T. - O homem que vive nas sombras
3 Capítulo 3 - Amigos
Quando chegaram no final do corredor, eles puderam ver a arena pela primeira vez. Era uma área circular elevada a um metro do chão que tinha aproximadamente dez metros de diâmetro. O piso, feito de pedras, era um pouco irregular.
Várias pessoas estavam acomodadas nas arquibancadas em volta dela.
Akio estava um pouco desorientado, por isso Bill pensou que seria uma boa ideia dar a ele algumas explicações.
— Está vendo aqueles velhacos na área cercada das arquibancadas? São os apostadores. Consigo contar quinze deles. O irônico é que lá de cima eles provavelmente não terão uma visão muito boa das lutas, mas sabe como é, essa gente faz sempre questão de estar numa posição superior em relação aos outros.
Logo abaixo está a plateia. Todos eles tem algum motivo para estar aqui. Alguns são mestres em artes marciais que trouxeram os seus discípulos. Outros são militares procurando por lutadores talentosos. E há também homens de negócios, provavelmente amigos dos apostadores. Deve haver cerca de cem pessoas... um público grande. Impressione-os, Akio!
É lá que eu vou ficar, você pode escolher um lugar no restante da arquibancada, junto aos outros participantes. A competição deve começar logo, tome cuidado e fuja se tiver problemas.
“Fuja se tiver problemas”. Já era a segunda vez que Bill usava essa expressão. Isso não fazia Akio se sentir mais confiante.
Não era uma tarefa fácil encontrar um bom lugar para se sentar em meio aos outros participantes. Eles observavam a caminhada de Akio de maneira atenta e ameaçadora. Ficar perto demais daqueles homens não seria apenas desconfortável. Seria também algo perigoso.
O taberneiro tinha falado a verdade. Ser estranho era a regra naquele lugar, não a exceção. Havia um homem careca de pele branca que tinha uma caveira tatuada no rosto e uma foice apoiada no ombro. O competidor sentado ao seu lado possuía um corpo extremamente peludo, uma boca cheia de dentes amarelos e uma comprida lança artesanal. Avançando um pouco mais, Akio pôde ver um participante isolado dos outros conversando com as suas facas como se elas fossem duas crianças.
Um forte sentimento de tensão pesava sobre cada um dos competidores, mas dentre eles havia dois homens que eram a notória exceção à regra. Eles pareciam estar se sentindo perfeitamente à vontade mesmo naquele ambiente hostil, pois conversavam animadamente e o humor deles era tranquilo e despreocupado.
O homem do lado direito tinha cabelos lisos de cor castanha que chegavam até a altura dos ombros. No rosto, uma barba muito bem aparada. Seus olhos eram verdes e a pele bronzeada. Ele vestia uma camiseta vermelha e apoiadas em seu colo estavam duas espadas: A primeira era uma rapieira, a segunda uma cimitarra.
O homem do lado esquerdo tinha pele negra. Seus cabelos eram crespos e curtos e seus olhos eram marrons. Ele era muito magro e pouco se parecia com um lutador. Usava uma camisa verde e segurava na mão direita uma bonita flauta cinza. A pequena bolsa de viagens feita de couro que carregava consigo já estava bastante desgastada.
A conversa dos dois rapazes estava chamando bastante atenção, mas eles não pareciam se importar muito. A fala do homem branco era cheia de alegria e emoção. Seu amigo era mais contido, porém possuía uma voz melodiosa e muito bonita, do tipo que não passa facilmente despercebida. Naquele instante o primeiro falava em alto e bom som para todos que quisessem ouvir.
— Ah, isso vai ser divertido! Nada melhor do que uma boa luta para alegrar o dia!
O homem negro respondeu sorrindo.
— Na verdade, eu poderia citar pelos menos meia dúzia de coisas que são muito mais interessantes e não envolvem arriscar a própria vida.
— Ora, pare de choramingar, Sortudo! Não estou te obrigando a competir. Você só não admite, mas gosta da ação tanto quanto eu. Nenhuma resposta? Era o que eu esperava. Foi muito esperto da sua parte descobrir este campeonato, mas da próxima vez se certifique de me acordar na hora certa, assim nós não precisaremos correr tanto para chegar a tempo!
— Eu te acordei no horário combinado, Arthur! Não me culpe se você ficou a noite inteira bebendo como um camelo e dançando como um macaco.
— Está bem, talvez a culpa tenha sido minha. Porém isso não importa mais, afinal aqui estamos nós... E adiantados! Mas pelos céus, não gostaria de repetir essa maratona. Os meus joelhos estão me matando!
Akio observava a discussão curioso e entretido. Resolveu participar da conversa.
— Não sei se seria uma boa ideia falar isso em voz alta. Seus adversários podem usar esta informação contra você.
O homem não pareceu surpreso nem ofendido quando olhou para Akio. Começou a conversar com ele naturalmente, como se os dois já fossem amigos.
— Que usem, então. Talvez assim as coisas fiquem um pouco mais interessantes. Como devo chama-lo, nobre senhor?
— Meu nome é Akio. E você é Arthur, certo?
— Arthur Normandut Maxmillien Terceiro. Ás suas ordens.
— E ele é...
O flautista se levantou.
— Sortudo. Prazer em conhece-lo.
— Seu nome é Sortudo?
— Está mais para um apelido, todos me chamam assim. Por mim está tudo bem, não gostava mesmo do meu nome antigo.
— Entendo. Vocês dois vão competir?
Arthur soltou uma sonora gargalhada, chamando a atenção de todos que estavam em volta deles.
— “Competição” não é bem a palavra. Isto será um passeio.
Akio achava graça na situação, pois o homem não estava blefando ou tentando assustá-lo. Ele realmente acreditava em tudo que estava dizendo.
— Nesse caso, espero que nossos caminhos não se cruzem.
— Ora, não há razão para temer. Eu não sou um bárbaro, sou um duelista. Um cavalheiro. E você parece ser um oponente digno, não te mataria nem mesmo se quisesse. Na verdade... Acredito que lutar com você não seria tão tedioso. Poderia até ser divertido.
Akio não tinha certeza se a última frase era um elogio. Preferiu admitir que sim.
— As duas espadas são suas?
— São.
— E você pretende usar ambas? Isso deve ser difícil.
Arthur respondeu sorrindo.
— É bem mais simples do que parece.
Akio olhou bem para as espadas. A rapieira era elegante. Seu punho era dourado e três joias azuis o enfeitavam. Reta e fina, possuía um formato apropriado para estocadas rápidas. A cimitarra por outro lado tinha um cabo simples e uma lâmina larga e curva que parecia ser bem mais pesada. Era difícil para ele imaginar um estilo de luta que utilizasse ao mesmo tempo aquelas duas armas tão diferentes.
A conversa dos três rapazes foi interrompida naquele instante. Um menino ruivo carregando uma bolsa cheia de envelopes passou por eles e entregou uma carta selada a cada um. Dentro havia uma pequena folha de papel onde estava impressa uma única frase. Arthur foi o primeiro a ler.
— Quarto grupo! Que lástima, gostaria de ser o primeiro. O que diz o seu, Sortudo?
— Grupo dois. Akio?
— Hum... Grupo seis.
Naquela mesma hora, um homem alto subia na arena. Ele caminhava com passos largos em direção ao centro do círculo enquanto um profundo silêncio tomava conta do ambiente. Vestia um elegante paletó preto com uma calça da mesma cor e segurava uma bengala azul na mão direita, embora não precisasse dela para se apoiar. Seu cabelo era grisalho como também a sua barba e seu rosto era um pouco enrugado, porém ele ainda não era o que muitos considerariam “velho”. Parou um instante para olhar bem para o público e começou a falar logo em seguida.
— Cavalheiros e damas... Sejam todos muito bem vindos.
Hoje é um dia especial, um dia para celebrar! Hoje celebraremos a grande lei que rege a natureza e o homem... A lei do mais forte. Uma lei que muitas vezes tentamos negar mas que não pode ser ignorada. O forte vive. O fraco morre. Desde o início dos tempos é assim que as coisas são.
Agora respondam, porque um homem luta? Por ouro? Por amor? Por honra? Não. Nós lutamos porque somos animais. Lutamos porque está em nosso sangue! Porém algumas pessoas são covardes demais para admitir isso. Sim, pois nós vivemos em uma sociedade covarde. Fala-se muito sobre diplomacia, mas tenham certeza de uma coisa: a diplomacia sozinha não será capaz de resolver todos os seus problemas.
O homem continuava com o seu discurso. Falava agora alguma coisa a respeito de guerras antigas e sobre a glória que há em morrer por algo em que se acredita. Sortudo deu uma leve cotovelada em Akio para chamar a sua atenção.
— Acho que sei porque esse homem gosta tanto de guerras.
— Por que?
— Porque nunca esteve em uma, é claro! O nome dele é Yuri Ziberman. É provavelmente o maior vendedor de armas de todo o Império. O que ele realmente aprecia é o dinheiro que ganha enquanto outros morrem.
— Entendo. Mas como você sabe disso?
Foi Arthur quem respondeu à pergunta.
— Acostume-se, Sortudo sabe de tudo. Não é verdade, amigo?
— A informação está em todos os lugares, basta saber onde procurar. Agora vamos ouvir o que ele tem a dizer, suspeito que já esteja acabando.
— Competidores... todos vocês já são vencedores! Meu coração se enche de alegria quando contempla tamanha bravura. O mundo precisa de mais homens que não fujam de um bom combate. Mas hoje teremos somente um vencedor, e para ele será oferecida a grata recompensa de quatrocentas moedas de ouro!
O público explodiu em aplausos.
— É com muita felicidade que anuncio que contamos com a presença de sessenta e quatro competidores para esta edição do campeonato! Isto significa que nosso evento está se tornando cada vez maior e mais representativo, porém este fato torna inviável organizar as lutas em eliminatórias simples por confrontos individuais.
Por este motivo, vocês foram divididos em oito grupos de oito pessoas. Os lutadores de cada grupo irão se enfrentar simultaneamente, e de cada confronto emergirá somente um finalista que passará para a segunda fase.
O competidor será eliminado em qualquer uma das seguintes condições: morte, inconsciência, desistência, imobilização por mais de trinta segundos ou saída da arena. Todas as armas são permitidas, mas lembrem-se: se um competidor agredir alguém fora do campo de batalha, será punido de maneira exemplar.
Da arquibancada, alguém perguntou qual seria esta punição. Yuri Ziberman sorriu enquanto respondia.
— Digamos apenas que só é possível ser punido uma vez. Alguém deseja esclarecer outra dúvida? Não? Pois bem... Como disse anteriormente, palavras vazias não levam os homens a lugar nenhum. Os competidores do primeiro grupo devem apresentar-se imediatamente. A luta começa em cinco minutos.
Fale com o autor