C L A R I C E

1 Colega de Quarto


Notas iniciais
Espero que se divirtam e que se sintam bem recepcionados por este primeiro capítulo, que preparei com todo o carinho - boa leitura!

Nada daquilo parecia real. Eu havia esperado tanto por aquele momento que minha ficha não caía. A brisa trazida pelo inverno de Santa Catarina soprava, entrecortante, no meu rosto. Nem todo o agasalho que eu havia trazido de Niterói, minha cidade natal, parecia ser capaz de suportar as temperaturas que, como eu acabava de perceber, eram infinitamente inferiores às do inverno do Rio. Talvez parte de todo o frio que sentia fosse consequência do meu estado inconsciente de ansiedade, mas eu sinceramente não saberia dizer por certo. Afinal, fazia 4º celsius.

Senti, quando pisei os meus pés fora do avião, que aquele era o começo pelo qual eu tanto ansiava. Desde que dissera aos meus pais que a arte era a minha vida, era daquilo que eu estava falando, da chance de poder encarar tudo sozinha. Se seria fácil? A resposta não me importava. Era a minha oportunidade, e desistir não era uma opção. Agarrei-me à minha mochila, os olhos marejados de água, as pernas bambas, as palmas das mãos suadas e quase congeladas; valeria a pena. Tinha certeza disso. O caminho até ali não tinha sido fácil, e apesar de todo o suporte que eu recebera da minha família, a Academia ainda era uma sonho distante; mas não mais. Eu estava ali, Clarice Vienna, admitida pela Academia de Artes Balistieri de Santa Catarina.

Quase não ouvi quando meu celular vibrou, visto que apenas há alguns minutos eu o havia religado. Era uma mensagem da minha mãe, que me pedia uma ligação imediata assim que chegasse em Florianópolis. Disquei seu número rapidamente e esperei enquanto a chamada era feita.

— Lissa? — ouvi sua voz carregada de alegria no outro lado da linha.

— Ei, mãe. Recebi sua mensagem. Estou entrando no aeroporto neste exato momento.

— É um alívio saber que tudo deu certo — ela respondeu — Seu pai e eu já estamos com saudades.

— Eu também, mãe…

Suspirei. Poucas vezes meus pais e eu ficávamos tão distantes, mas em todas elas nós sabíamos exatamente quando é que iríamos nos ver de novo. Não agora. Doía em mim pensar que ficaria meses sem poder ver ou abraçar as pessoas que mais amava em minha vida. Ouvi burburinhos que se sobrepunham à voz de minha mãe, e imaginei logo que seriam Gabriel e Alice, meus irmãos mais velhos.

Gabriel acabava de completar vinte e cinco anos e era literalmente o xodó da família. Desde quando éramos pequenos, era evidente sua vocação para a medicina — o que ficou ainda mais claro quando entrou para o ensino-médio. Ele ainda estudava na Universidade Estadual do Rio. Alice, por outro lado, tinha trinta e três e estava noiva do cara mais sortudo do mundo. Ela era incrível.

Eu sentia tanto orgulho dos meus irmãos que era quase um fardo para mim ter que superar as incríveis pessoas que haviam se tornado.

— Boa sorte amanhã com o apartamento, querida. Ligue se precisar de mais alguma coisa, tudo bem?

— A partir daqui eu me viro, mãe. Não se preocupe! Boa noite — e desliguei, vendo que minhas malas apareciam ao fim da esteira de desembarque.

Florianópolis era incrível. Era noite quando cheguei, então tive o privilégio de, enquanto pegava o táxi para chegar à cidade, assistir ao espetáculo da lua iluminando aquele oásis de água. A movimentação dos bares por onde passamos, típica de um sábado à noite, indicava que também havia diversão para quem não quisesse se ater às praias. Dava para ver o mar de onde estávamos, da estrada. Negro como o céu, refletia somente a luz das estrelas, que apareciam de pouco em pouco, e da própria lua.

O taxista me explicou que muito da Ilha era ocupado por morros, como no Rio.

— Não vi nada que se parecesse com o Rio aqui, meu senhor — e gargalhei. Ainda que sim, muito dali fosse habitado no alto de morros, como acontecia no Rio de Janeiro, a semelhança se limitava a esse fato. As favelas de Niterói, e a casa onde minha família morava era bem próxima de uma, não tinham nada em comum com aquelas habitações.

Ele me disse ainda que exercia aquele trabalho há trinta anos, e que a cidade nunca se cansava de o encantar. Imagine a mim, então. Perguntei-lhe sobre alguns pontos turísticos, já que era a primeira vez que ia à Ilha.

Ele respondeu:

— Tudo aqui é turístico. Você pode passar a tarde em qualquer dessas praias: Ingleses, Moçambique, Joaquina… Estão quase sempre cheias de turistas. Ou ainda, se quiser atravessar a cidade, a Lagoa da Conceição também atrai muito movimento. Temos um mercadão no centro, mas em quaisquer mediações de praia há lojas. Bares, pubs, boates, restaurantes… Em tempos de férias, todo canto em Floripa vira pointing turístico.

Como no Rio, pensei, lembrando-me do caos da capital em Dezembro e Janeiro.

— E shopping? — perguntei, temendo a resposta.

— Claro que sim! — ele pareceu ofendido — Não é porque estamos numa Ilha que não temos o que toda metrópole tem… Inclusive, muito trânsito — foi quando o carro parou, engarrafado numa movimentada avenida.

Enquanto tentava nos tirar dali, traçando uma rota diferente para o hotel, o taxista continuou seu pequeno tour, explicando-me que a maioria dos viajantes dividiam sua estadia em pousadas, invés de hotéis, que eram infinitamente mais caros.

— Não posso ficar numa pousada — defendi-me — Vim para morar. Fico no hotel só até encontrar um apartamento para alugar, o que espero fazer amanhã.

— Você não se incomodaria em dividir o aluguel?

Não respondi de imediato.

— Se não for o destino, não conheço outra palavra para explicar! — ele prosseguiu — Um passageiro conversava comigo ainda ontem… Catarinense, mas da Ilha. Vinha para morar na cidade, estudar na Universidade. Deixou um telefone, disse que precisaria de alguém para dividir o aluguel do apartamento; pediu que se eu escutasse algo parecido, entregasse.

Quando o carro parou novamente, já fora do engarrafamento, mas num semáforo, ele se virou para mim e me entregou um cartão amarelo — cuja única inscrição era um número de telefone celular e um nome: Eduardo Rodrigues.

— Não tem um endereço — argumentei — Você não se lembra de onde o havia deixado?

— É um daqueles prédios — ele apontou para a esquerda, onde, há cerca de quatro ou cinco quilômetros, vi um aglomerado de prédios residenciais e comerciais — Não fica muito longe do hotel que estamos indo.

Agradeci as informações e guardei o cartão em minha mochila.

Não demorou muito até que chegássemos. Paguei o taxista, dando-lhe ainda uma cortesia, agradecendo o tour e o cartão. Apanhei minhas malas, adentrando o hotel — que era um pouco menor do que eu imaginava. Tudo bem. Eu teria que me desfazer da minha mania megalomaníaca carioca de qualquer maneira. Minha nossa, eu estava louca por um banho. Entre a espera pelos voos nas escalas e o atordoamento dos aeroportos, aquele havia sido um longo dia para mim. Já se passava das nove da noite quando, por fim, tranquei-me em meu quarto de hotel, passados o check-in e todo o procedimento padrão.

Apesar de não parecer muito grande por fora, o quarto em que eu estava era confortável e, de certa forma, se parecia um pouco com o meu. As persianas, o tapete cinza de veludo, as paredes opacas e até a decoração — os quadros, o criado-mudo posicionado à direita da cama… Era como estar em casa, mas a alguns quilômetros de distância. O banheiro era um espaço pequeno distribuído entre um chuveiro e uma banheira, separados por um boxe de vidro, uma pia de mármore e um vaso sanitário, todos da mesma cor. Tratei de logo encher a banheira, enquanto tirava algumas das minhas roupas das malas.

Eu não precisaria de muito. O roupão, chinelas, pantufas, vestidos, um par de blusas e um jeans deveriam servir. Afinal, minha intenção era ficar ali o menor período de tempo possível. Minhas aulas teriam início na segunda-feira, e isso era apenas dois dias adiante. Nunca havia aproveitado tanto um banho quente quanto o que tomei quando encontrei a banheira suficientemente cheia, de modo que, quando me dei conta de que já estava ali há quase uma hora, o cansaço me caiu aos olhos como uma luva em minha mão. Deitei-me logo em seguida, tomada pela exasperação de um longo dia de viagem e a ansiedade da minha primeira manhã em Florianópolis. Adormeci rapidamente, meu corpo se esquecendo de que a minha última refeição decente havia sido feita há mais de doze horas.

Acordei no dia seguinte com as pernas e os braços ainda latejantes. Ainda assim, levantei-me num só salto e me troquei o mais rápido que pude. Apanhei minhas chaves e um casaco, e saí dali vestida confortavelmente em um vestido rodado e sapatilhas. Mesmo que o serviço do Hotel oferecesse o café da manhã como parte do pacote de hospedagem, decidi que tomaria o meu na cidade, aproveitando a deixa para conhecê-la melhor. O clima, como eu já previa, estava úmido e frio. O vento gélido batia, não como uma brisa, mas violentamente, em meu rosto, enquanto eu tentava de todas as maneiras me proteger com meu fino casaco de algodão.

Corri para a cafeteria mais próxima, mais preocupada em me proteger do frio do que propriamente com o meu desjejum. O Café Honorário era um estabelecimento de dois andares, requintado por fora e, graças aos meus pedidos, quente por dentro. Não me importei muito com a escolha da minha mesa, mas percebi que a havia feito bem. Sentei-me no segundo andar, visto que as mesas do primeiro estavam já todas ocupadas. A movimentação do local indicava que era já muito buscado e reconhecido. Eu estava ao lado da vidraçaria, que me permitia ver todo o espaço de fora da cafeteria; as ruas ainda se encontravam com poucos transeuntes, que iam e vinham despreocupadamente, sem rumo certo ou horário para cumprir.

Pedi à garçonete um café expresso e uma fatia de cheesecake, certa de que a refeição bastaria até a hora do almoço. Ela levou o meu pedido e saiu, enquanto me deixei observar os pequenos detalhes de uma fria manhã em Santa Catarina. Não demorou muito para que estivesse servida, de modo que quinze ou vinte minutos após o meu pedido, a mesma garçonete estivesse de volta. Servi-me pacientemente, sem me importar com o fato de que, enquanto me deliciava com a fatia de cheesecake, o café esfriava até que se tornasse intragável.

GPS em mãos, pernas dispostas a uma longa caminhada pelas ruas da cidade, deixei a cafeteria e fui em busca do apartamento. Decidi começar pelo cartão que recebera do taxista, já que, mesmo se me metesse em alguma furada, estaria próxima de diversos outros prédios residenciais e oportunidades para me instalar, então imaginei que seria um bom começo. Disquei o número que estava no cartão.

— Bom dia — ouvi uma voz masculina do outro lado da linha quase de imediato, cuja entonação pensei pertencer à de um animador de festas.

— Hum, alô — respondi — Falo com… Eduardo Rodrigues?

— Sim, fala. E eu, falo com quem?

— Clarice. Estive no aeroporto ainda ontem, venho do Rio de Janeiro. O taxista que me trouxe de lá foi quem me entregou o seu cartão. Tenho interesse no apartamento.

— Ah, é um pouco tarde para a sua ligação, Clarice. Sinto muito. Um rapaz saiu há uma hora daqui, pediu que eu aguardasse sua resposta até o meio-dia. Ele pareceu muito animado quando saiu, então… Quero dizer, você pode esperar minha ligação se quiser, mas estou sentindo que...

— Não tem problema, não se preocupe! — interrompi-o — Você pode me dar o endereço do seu prédio? Queria uma referência para começar a procurar.

— Claro. Te mando uma mensagem com a localização, pode ser?

Respondi afirmativamente. Recebi a mensagem algum tempo depois, e vendo no GPS que ficava a bons quilômetros de onde eu estava, decidi esperar por um táxi. Tudo bem, pensei, não poderia ser tão fácil assim mesmo.

Não imaginei que encontrar um apartamento ou quarto para alugar pudesse ser tão difícil. Passei o resto da manhã perambulando pelo específico ponto que, aparentemente, era a minha válvula de escape. Tinha de ser ali. Os prédios eram todos juntos, próximos da Academia e numa área movimentada, onde era muito fácil de encontrar qualquer outro lugar na cidade. Visitei dezenas de quartos, e embora alguns até estivessem disponíveis e acessíveis para a quantia de dinheiro que meus pais estavam dispostos a pagar mensalmente, não passavam de quatro ou cinco metros quadrados. Peguei-me desprovida da esperança de encontrar o que quer que estivesse procurando no prédio seguinte, que pouco se diferenciava dos demais e cuja construtora parecia ter abandonado.

Passava-se do meio-dia quando me dei por vencida. Atirei-me no estofado de um restaurante libanês, exausta e faminta. Pedi o prato da casa. Quase não acreditei quando, enquanto esperava pelo meu almoço, vi que meu celular recebia uma ligação de número desconhecido. Atendi, vendo que se tratava do mesmo telefone que havia me atendido mais cedo, em relação ao apartamento que o taxista me indicara. Era o mesmo homem, Eduardo. Sua voz parecia fatigada, diferente de quando nos falamos pela primeira vez. Ele dizia que seu provável inquilino havia desistido há alguns minutos, e que precisava daquela parte do dinheiro ainda hoje, sendo eu, portanto, sua última esperança. Recíproco, pensei. Respondi que estaria a caminho o mais rápido possível, assim que terminasse meu prato.

Comi tão depressa que a comida desceu como um bolo de massa pela minha garganta, de maneira que o gosto chegou a não me agradar muito. Animada com a possibilidade de me livrar daquela tarefa, corri para o apartamento imediatamente depois de almoçar. Segui a localização que havia recebido mais cedo, chegando ao prédio mais alto da região. Prostrei-me ali do lado de fora, apoiada no muro que dava para o estacionamento. Um grupo de jovens cantarolava e tocava violão ao lado de onde eu estava, parecendo verdadeiramente animados e soltando trechos de músicas diferentes e simultaneamente. Liguei para Eduardo, uma vez que não tinha o andar ou número do apartamento. Espantei-me quando vi emergir, do grupo que cantava, um rapaz pelo menos dez centímetros mais baixo do que eu com um telefone celular na mão.

Só pode ser brincadeira, pensei de imediato.

— Ei! Clarice, não é? — ele veio em minha direção, enquanto minha reação foi de súbito afastamento.

Eu era definitivamente mais alta que Eduardo, embora não tanto quanto imaginei, vendo-o sair agachado de seu grupo de amigos. Ele era, no entanto, uma figura completamente diferente do que eu pensei que seria. Com seus prováveis um metro e setenta, cabelo loiro-platinado, olhos castanhos e uma pele centenas de vezes mais limpa e sedosa que a minha jamais estivera, Eduardo abraçou-me antes que eu pudesse o responder ou impedir, pressionando seu casaco jeans preto cheio de fivelas contra a fenda do meu vestido, o que quase me fez gritar.

— Fala sério, você é maravilhosa! — continuou, a voz carregada de entusiasmo — Vamos, nós precisamos ver o apartamento… E por favor, tenha carinho ao olhar. Eu preciso de você!

— Obrigada — respondi, forçando um sorriso.

— Nós estaremos no sexto andar, caso fique com o lugar. Você pode ficar com o quarto, porque eu tenho o costume de estudar até tarde da noite e o meu computador está instalado na sala. É claro que você pode usar, contanto que não abra o meu histórico de navegação — e riu com escárnio, alegando se tratar de uma brincadeira — Dois banheiros, uma cozinha, tevê, mesa de jantar… e uma varanda. E, ah, tenho o meu próprio depósito. Desculpe, você não pode entrar lá.

Paramos de frente para a porta do apartamento, a que ele abriu após me encarar por alguns milésimos de segundos. A mobília era simples, embora parecesse nova. As paredes e piso eram de um cinza fosco, tornando todo o ambiente um pouco mais escuro.

— Meu Deus, como você é séria — ele abriu um sorriso torto, parecendo incomodado.

— Ah, me desculpe — desabei na poltrona de veludo, o primeiro móvel que vi desde que havia adentrado — Estou um pouco cansada da viagem, e realmente preciso de um lugar para ficar. Cada diária naquele hotel é uma fortuna — revirei os olhos.

— Vamos negociar o preço, então? — ele perguntou, parecendo tão disposto a terminar aquela negociação quanto eu. Respondi afirmativamente.

Notas finais
Eu erro! Caso tenha reparado, favor me alertar nos comentários ♥ Por favor, não se esqueça de deixar suas considerações sobre o capítulo - é de extrema importância para a continuação da história. Obrigada e até a próxima! xoxo