C L A R I C E
2 Balistieri
Notas iniciais
Nunca estive tão feliz por estar em uma casa — que não fosse a minha. Logo pela manhã, quando as negociações em relação ao aluguel e depósito haviam terminado, despachei minhas malas todas para o meu novo apartamento. Eduardo ainda dormia quando, cerca de dez ou dez e meia da manhã, apareci à porta com meus pertences em mãos. Sei disso porque, enquanto apertava incessantemente a campainha, ouvi o bocejar nada educado do garoto que, pelo que eu via, não se importava muito com horários. Ele me atendeu, no entanto, com um sorriso verdadeiramente caloroso no rosto, embora ainda usasse seu pijama de moletom e tivesse enormes bolsas escuras debaixo dos olhos.
— Bom dia! — sussurrei, soando propositalmente irônica quanto ao seu estado visivelmente ainda sonolento.
— Bom dia — ele respondeu, a voz rouca e pouco mais grave que o normal — Precisa de ajuda com isso aí? — e apontou para as bolsas que eu tentava empilhar em meus braços. Acenei com a cabeça, respondendo-o positivamente.
Ele me ajudou com algumas das bagagens mais pesadas, enquanto eu levava o restante sem maiores problemas. Fiquei no quarto, como ele mesmo havia sugerido. Despejei-as, as malas, num canto qualquer, agradecendo-o.
— Não se preocupe — disse ele, estalando a língua.
— Ei, espere — falei, vendo que Eduardo se afastava rapidamente — Vamos dividir o guarda-roupa também?
— Se lembra do meu depósito?
Olhei ao meu redor, tentando captar o máximo que pudesse daquele ambiente. Pouco antes, Eduardo havia deixado o quarto e imaginei que fosse voltar a dormir. Havia um banheiro, como ele me dissera, e que não tive interesse em olhar a princípio. Uma cama de solteiro com um colchão, como a maioria dos móveis ali, aparentemente novíssimo. Ao lado da cama, havia um armário de tamanho médio, comportando apenas algumas divisórias e fechado em somente um dos lados por uma porta de correr, de modo que o outro permanecia aberto — o lugar perfeito para empilhar meus livros, pensei. Além destas mobílias, havia ainda um tapete de camurça da mesma cor da poltrona da sala, uma cadeira repleta de almofadas pretas e, ainda, um criado-mudo que comportava uma pequena luminária. Dada finalmente por satisfeita, desfiz minha bagagem e distribuí tudo — roupas, livros, sapatos, maquiagens — no espaço do armário, de modo que esse ficasse sem um só espaço vazio ao fim de minha organização.
Quando terminei, e era quase meio-dia, ouvi novamente o bocejar de Eduardo vindo da sala, então pressupus que esse finalmente havia se levantado — dessa vez, por sua própria vontade.
Ouvi também o protesto nada delicado vindo da minha barriga; eu estava faminta.
Estar perto de Eduardo era como tentar me esconder do sol com um óculos sem lente. Não importava o quanto eu detestasse suas piadas sem-graça, a entonação super gay de sua voz ou o fato de que, mesmo em situações extraordinariamente ordinárias, como almoçar, ele ainda assim mantinha aquele sorriso irritante no rosto. E realmente não importava as minhas tentativas infrutíferas de ignorá-lo, porque seu bom-humor era simplesmente insuportável.
Tanto faz. De qualquer maneira, deveria existir pessoas piores para se dividir um apartamento, certo?
— Então… Você sabe que eu estudo — ele disse, enquanto mastigava um bolinho de arroz já quase frio — Mas ainda não sei o que está fazendo em SC.
Estou cuidado da minha vida, tive vontade de responder.
— Sou uma dançarina. Faço balé desde bem pequena. Estou aqui para um programa da Academia de Artes de Santa Catarina.
— E você diz isso como se não fosse grande coisa…
— Não é isso — não contive um sorriso embaraçado, sentindo minhas bochechas corarem — Estou mesmo animada, sério. Amanhã é o meu primeiro dia e estou apavorada.
— Então essa é você tentando não parecer… apavorada? — ele arqueou uma das sobrancelhas.
— Exatamente — assenti.
— Você vai se sair bem.
Espero que sim, pensei.
— Sei que sou uma boa bailarina. Sei o quanto me esforço. Só tenho medo de que as outras pessoas não vejam o mesmo — murmurei, deixando que minha voz soasse cada vez mais baixa.
— Você é muito bom nisso — falei, aumentando o meu tom novamente —, em deixar as outras pessoas abertas, mesmo que não percebam o quanto estão se abrindo.
Forcei um sorriso.
— Não consigo evitar — ele levou o último bolinho à boca, ainda que, se não estivesse mastigando, eu poderia jurar que riria de volta.
Era tarde. Quatro ou cinco da tarde, quando me dei conta de que havia passado o dia todo assistindo à TV. Passei de canal a canal, programas desinteressantes, filmes a que já havia assistido centenas de vezes, séries de investigação policial e novelas mexicanas. Eduardo havia se tornado quase invisível, praticamente acoplado ao monitor de seu computador. Percebi que não teria muita privacidade ali, ao menos que ficasse em meu quarto. De qualquer forma, eu ainda não tinha ideia da minha grade de horários e provavelmente ficaria todo o dia na Academia. A Academia. Não pude conter o bolo que se formava em meu estômago, só de pensar no dia seguinte… Eu estaria realmente preparada? A resposta era uma enorme incógnita para mim, é claro. Embora tivesse esperado tanto tempo por aquele momento, por aquela oportunidade, era como se eu estivesse voltando à minha primeira apresentação, quando ainda era uma criança. A insegurança tomando conta de cada parte do meu corpo, a ansiedade fazendo com que me sentisse a ponto de desmoronar; e havia, é claro, aquele arrebatador frio que percorria toda a minha espinha.
Os melhores estariam ali. Eu seria mesmo uma deles?
Quase não consegui dormir naquela noite. Eu sabia que poderia passar a madrugada fazendo algo além de simplesmente olhar para o teto do meu novo quarto, visto que meu colega de apartamento era visivelmente um morcego. Sabia que não precisava torturar a mim mesma, que poderia tornar aquelas últimas horas suportáveis, mas senti que merecia. Era como um preparatório para mim, que de certa forma me tornaria apta a enfrentar o que quer que viesse no dia seguinte. Coração palpitante, corpo calmamente sendo levado pelo cansaço, músculos tensionados passando lentamente por um processo de relaxamento e, finalmente, alcancei um profundo sono — que fui capaz de aproveitar por cinco horas.
Acordei com o irritante tilintar de sinos do despertador — o som que eu havia configurado para me acordar pelo celular. Ainda que tivesse descansado muito pouco nas últimas quarenta e oito horas, levantei-me num só pulo, carregada de ansiedade e excitação. Olhei na tela do celular: o relógio marcava sete e quinze da manhã. Ainda vestida em meu pijama de moletom, que a propósito havia se tornado o único capaz de suportar as baixas temperaturas da madrugada de Florianópolis, corri para o banheiro com roupão em mãos.
Era aproximadamente sete e trinta e cinco quando, impressionantemente, vi que já havia quase terminado tudo o que havia de fazer antes de pegar o táxi — que estaria em frente ao edifício a qualquer momento. Mentalmente, refiz o checklist de tudo o que precisaria para estar na Academia. O collant preto, que neste momento eu havia escondido sob um casaco de lã cáqui, meia calça, sapatilhas de couro (cuidadosamente guardadas em minha bolsa), saia, polainas e… o coque. Eu havia completamente me esquecido.
Encarei meu reflexo no espelho do banheiro, soltando um longo suspiro antes de começar. Envolvi os longos fios de cabelo cor-de-jabuticaba em minhas mãos, traçando uma espiral no ponto médio da parte de trás da minha cabeça. Com a ajuda de alguns grampos, fixei a volumosa bola que acabara de substituir as compridas ondas desalinhadas que formavam o meu cabelo. Sorri para o meu reflexo, embora cada parte do meu corpo gritasse insegurança. Mantendo a postura ereta e inabalável, apanhei minha bolsa e desci as escadas do prédio antes das oito.
Não antes de comprar um cappuccino do Café Veneza, deparei-me com a magnitude da estrutura que comportava a mais renomada Escola de Artes profissional do Brasil. Era enorme. Beberiquei os últimos goles que restavam do meu café enquanto admirava, ainda estupefata, o edifício de três andares localizado na esquina de uma movimentada avenida.
Despedi-me do taxista. Agarrando-me ao meu casaco de lã, lutando contra a brisa fria da manhã que golpeava o meu rosto, caminhei rumo ao portão da entrada principal.
— Nome completo, por favor — a voz aveludada da mulher que se prostrava à minha frente me surpreendeu. Naquele momento, eu me encontrava numa fila de cadastramento de novos estudantes. Absorta pelos detalhes do lugar, não vi que havia chegado a minha vez.
— Ah, claro. — assenti, entregando-a minha identidade.
— Só um instante. Esperei alguns segundos até que ela se voltasse para mim, desta vez com um crachá e uma folha de papel em mãos. — Esse é o seu cartão de identificação. Você só entra ou sai daqui com ele em mãos, tudo bem? Certo. Essa é a chave para o seu armário, que fica no seu espaço de ensaio. — vi o número grafado na chave: 322 — Preciso que preencha esse formulário e em seguida o coloque ali, naquela caixa de vidro — a mulher apontou para trás — Seja bem-vinda.
Agradeci-a e me retirei rapidamente. O hall principal era uma enorme sala que abrangia quase todo o primeiro andar. Havia gente, muita gente, e sofás por todo o canto. Dos papéis de parede aos lustres pendurados, tudo ali parecia estar em perfeita harmonia. Preenchi o formulário em pouco tempo. Respondi à perguntas como “o que você espera da sua experiência na Academia?” e despejei a folha num receptáculo de vidro, onde outras inúmeras estavam já amontoadas.
Todo o procedimento de inscrição já tinha sido feito pela internet, antes mesmo que eu partisse de Niterói. Baseado em seu currículo de apresentações e em cartas de recomendações — sendo essa última parte a mais importante —, os diretores da Academia selecionavam alguns dos milhares de nomes que tentavam a inscrição para seu programa de formação.
Eu fui um desses nomes.
Subi as escadas para o segundo andar, escolhendo-as em vez do elevador. Busquei, na infinidade de salas e auditórios, a porta que me levasse ao Estúdio de Ballet. Andei pelos corredores quase que tropegamente, esbarrando vez ou outra em outros alunos desnorteados. Eles eram, no entanto, a minoria. Quase todos ali formavam rodas, pareciam já se conhecer intimamente e trocavam piadas e brincadeiras entre si. Era como se nós, os novatos, fôssemos invisíveis.
Subi mais um andar, sentindo a contração dos meus músculos ao correr por aqueles lances de escada que pareciam não ter fim. Finalmente, cheguei ao terceiro piso. Agradecida, avistei o Estúdio de Ballet ao fundo, largas portas duplas de madeira. A placa de metal indicando: eu estava no lugar certo.
Era como eu imaginava. Era como as dezenas outras salas em que eu havia passado grande parte da minha vida. A não ser pelo tamanho e pela quantidade de pessoas, era como estar em Niterói novamente. Na minha antiga escola.
Alguns dos alunos já se alongavam, de modo que muitos ainda trocavam cumprimentos e conversavam espontaneamente. Pus minhas sapatilhas, guardei o meu mocassim e crachá na bolsa e a guardei em um dos pequenos armários presentes no canto da sala, compartimentos de cerca de trinta centímetros. 322.
Mal comecei o meu alongamento, ouvi o súbito fechar das portas de madeira. Os burburinhos agora deram lugar a um absoluto silêncio. Olhei para frente, para a mulher que havia entrado. Ela tinha pelo menos um metro e oitenta e ainda não havia desviado seu olhar para nós. Entrei em posição, logo atrás de uma outra garota que também parecia ser nova. Meus olhos passearam pela postura da mulher à nossa frente, praticamente perfeita. Sua voz pareceu entrecortar o silêncio, desejando-nos um bom dia.
Prof. Darcy era incrível. Lembrava-me de minha primeira professora de dança, uma senhora de cinquenta e oito anos que gerenciava todo o estúdio sozinha. Embora fosse pelo menos vinte anos mais jovem, ou que simplesmente parecesse ser. Graciosa, passos leves como uma pluma, Darcy mal poderia ser percebida ali se não fosse sua voz a anunciando. Alongamos juntas. Conversamos antes dos primeiros passos. Darcy era o oposto da ideia que eu tinha de como seria a Academia.
Durante quarenta minutos ou mais — eu não saberia dizer por certo —, reproduzimos algumas sequências de passos já bem conhecidos. Éramos bons. Todos naquela sala. Exceto por uma ou duas alunas, provavelmente nervosas, não houve erro.
Descansamos. Alongamos novamente. Mais algumas sequências.
— Monótono, não é? Aposto que achou que seria diferente.
Olhei para o lado. Era uma das alunas que havia se confundido nos passos. Fitei-a por um tempo. Tinha cabelos castanhos presos num coque meio torto, e olhava para mim com curiosidade.
— Mais ou menos — respondi apenas.
Mais um descanso. Uma hora e meia de aula.
— Ei! — ouvi-a se aproximar de mim enquanto ia em direção ao meu armário — Eu sou Paula. Qual é o seu nome?
— Clarice. Lissa, se você preferir — dei de ombros, voltando-me para o meu armário.
— Bem, Lissa, seja bem-vinda. É o meu terceiro semestre aqui. Se precisar de ajuda em alguma coisa… Hum, não deve ser difícil de me achar. Aposto que nunca viu um coque tão desajeitado.
Não contive um sorriso.
— Obrigada.
Ela se despediu com um meneio de cabeça, voltando-se para sua antiga posição. Estávamos prestes a recomeçar. Fiz o mesmo.
— Paula? Você vai almoçar por aqui hoje?
Fale com o autor