Cúmplice
1 Dissonância
Notas iniciais
O mais irritante no amor é que se trata do tipo de crime que exige um cúmplice.
-- Charles Baudeleire
Chovia do lado de fora do Instituto de Guerra. As paredes de mármore brilhavam com os relâmpagos, enquanto que os vitrais azuis da enorme sala exibiam uma luz reluzente cada vez que os raios cortavam os céus escuros da madrugada. Um quinteto de invocadores, trajados de seu clássico manto fúcsia com um espaçoso capuz acima da cabeça para que suas identidades não fossem reveladas, admiravam em uma tela filmagens de uma disputa recente que haviam feito, que havia resultado em derrota, sentados em volta de uma mesa retangular. Alguns pareciam concentrados, outros, distraídos e aborrecidos. Os campeões mantinham-se de pé próximos aos seus respectivos invocadores. Katarina observava as filmagens, um pouco inquieta e hesitante, exibindo em face um olhar amedrontador, como se estivesse prestes a assassinar alguém naquela sala. Jayce e Sejuani, de pé e não montada em seu javali, uma visão bastante rara, mantinham um olhar neutro e meio afetado. Leona parece sentir-se culpada, ficando de pé com as duas mãos apoiadas em sua espada, e seu olhar cálido fitando a tristeza na face de seu invocador. Ezreal, no entanto, mantém-se recostado á parede próxima á porta. Os braços cruzados e o olhar entediado exibiam a maior quantidade de tédio possível. Revira os olhos no momento em que Katarina lança-lhe um olhar ameaçador e furioso, quando aparece em tela a cena na qual a ruiva salta em Draven e Sona para dois abates, que teriam sido de sucesso, se o loiro não houvesse usado sua translocação arcana para longe da luta em tentativa de fuga, tornando-a a vítima que tornou o carrasco implacável.
Á esquerda, podia ser vista a sala ao lado através de um vidro tênue, porém resistente, que separava as mesmas. Nesta, os invocadores riam e conversavam entre si enquanto assistiam ás mesmas cenas que o quinteto na sala de clima depressivo. Ezreal observava a boêmia dos mesmos. Vangloriando-se por completo, dando parabéns um ao outro por cada jogada de mestre que viam e reviam no telão, que os teriam levado á vitória. Ahri dançava animadamente ao ritmo de uma das músicas de Sona, enquanto Draven fazia caras e bocas em frente ao vidro que separava as duas salas, provocando os campeões ao lado do loiro. Não demorou muito para que as filmagens no telão fossem cessadas. As luzes foram acesas novamente, e os invocadores viraram-se um frente ao outro na mesa. Como de costume, uma película escura foi posta por entre o vidro, fazendo com que assim as salas não pudessem ver uma a outra. Ezreal acena para Draven com um sorriso sarcástico, antes que a película encobrisse sua face. Após um gesto obsceno para o explorador, Draven afasta-se, e a placa cobre por completo a visão da sala á esquerda.
- Então... – O invocador de Jayce inicia, com as mãos frente á boca e o olhar gélido passeando pela face de cada invocador e campeão em volta da mesa. – Precisamos rever urgentemente alguns conceitos aqui.
- Eu não entendo! – Dessa vez, o invocador de Leona se pronuncia. – Nós tínhamos uma sinergia tão boa em mãos. Como não conseguimos vencer?
- Vocês sabem muito bem o que faltou! – A invocadora de Ezreal comenta, chamando a atenção do campeão, que sorri.
- Faltou atenção da Sejuani á minha rota! – O invocador da Katarina afirma, em um tom de voz que soou como um grito impaciente, batendo o punho cerrado com força na mesa de vidro. A ruiva assente com a cabeça, fazendo a nativa de Freljord rolar os olhos. Campeões não possuem permissão de se manifestar verbalmente durante uma discussão de seus comandantes, mas comentários medíocres como esse faziam Sejuani se irritar bastante.
- Não! Faltou disciplina, foco! Vocês passaram tanto tempo discutindo que nem sequer deram atenção aos objetivos.
- Ele tem razão! – O invocador de Jayce confirma. Ezreal ri de canto. Apenas ele naquela sala sabia a real identidade de sua invocadora, tal como seu gênero. Afinal, apenas os campeões têm acesso á esse tipo de informação sobre seus respectivos invocadores.
Como sempre, esse tipo de conversa levou a uma discussão demorada e entediante de estratégias para partidas futuras. O loiro já não aguentava mais esse tipo de coisa. Nunca resultava em nada! Sempre durante as partidas aparecia algum invocador tonto e insolente que fazia alguma besteira e resultava na derrota para seu time. Disfarçadamente, Ezreal anda passo por passo até a porta. Trancada. O loiro pragueja para si mesmo. Normalmente, em situações como esta, simplesmente usaria sua translocação arcana para o lado de fora, mas a vida nunca mandara coisas fáceis para o garoto prodígio. Obviamente, não poderia usar suas magias dentro do instituto de guerra. Os invocadores haviam proibido o uso de magias, armas, presságios, maldições, almas ou qualquer outra coisa que pudesse ser usada contra outros campeões ou contra os próprios invocadores durante reuniões do conselho desde que Darius e Garen haviam se envolvido em uma pequena batalha por um motivo idiota que o loiro não se importou em relembrar.
Mas isto era apenas uma lei. Uma mera e estúpida lei do instituto da guerra. Claro, não o permitiriam andar por aí com sua manopla, assim como qualquer outro campeão não poderia estar com sua fonte de poder.
“A luva não é o único poder que tenho, invocadores...”, pensou para si mesmo. De fato, a magia de verdade fluía por suas veias. A manopla era apenas uma maneira de canaliza-la de modo que não fosse perder o controle e causar estragos acidentalmente, mas nocautear alguém não estava nos planos momentâneos de Ez. Além disso, o garoto já era bem crescido, provavelmente não teria mais nenhum problema. Com a facilidade comum, o garoto aproveitou o momento de distração dos invocadores, que discutiam entre si, para teletransportar-se pelas portas trancadas a sete chaves. O clarão do relâmpago momentâneo também o ajudara nesta fuga.
- Fácil demais! – Sussurrou para si mesmo, espreguiçando-se. Tudo que mais queria era ir pra casa. Sabia que Caitlyn estaria esperando por ele com o carro em frente ao instituto, como sempre faz quando é invocado, para leva-lo de volta a Piltover. Sabia também que ela daria por falta de Jayce, mas que é esperto o suficiente para inventar uma desculpa perfeitamente plausível. E também sabia que Jayce chegaria a Piltover mais tarde, com frio e raiva, por ter tido que ir até a cidade a pé debaixo de chuva, e que tanto ele quando Cait o iriam dar bronca por mentir, mas o loiro não se importava. Ainda tinha lição para terminar, mapas para fazer ( apesar de, segundo suas crenças, um explorador de verdade não precisar de mapas ) e bolinhos que sua amiga frenética Lulu o havia dado de presente para comer. O explorador caminha pelo corredor solitário, rindo orgulhosamente de suas façanhas.
Desce rapidamente as escadas de mármore que levavam até o primeiro andar do instituto. Uma sala aberta, com o chão totalmente coberto com um tapete vermelho. Lá, alguns poucos campeões conversavam entre si. Aqueles que Ezreal define como ‘Os que não têm nada melhor para fazer da vida’ por ficarem no instituto após uma disputa, e não simplesmente irem para casa. Annie conversava animadamente com Amumu, que parece meio acanhado, como sempre. Skarner tenta se soltar do aperto de Taric á seu ferrão, que o homem julgava ser ‘pura emoção’. Ezreal abaixa a cabeça ao passar pelo cavaleiro das gemas. Ainda tinha lembrança da ultima vez que teve o mesmo como seu suporte na rota inferior. Ele usara a mesma expressão á qual se referia a Skarner repetidas vezes para julgar os fios loiros do rapaz, retirando a concentração do explorador e fazendo-o ficar atrás em ouro comparado Lucian, que estava no time inimigo. Mordekaiser e Yorick tocavam juntos uma música estilo Heavy Metal, enquanto Karthus cantava. O loiro apenas segue em linha reta, ignorando as vozes ao seu redor. Dá o seu último passo quando fica frente a frente com a saída. Com os braços cruzados nas costas e o olhar gélido que o caracteriza, estica levemente o pescoço para olhar o lado de fora sem ter que sair na chuva, que parecia ter se intensificado desde que fugira da sala de conferência. Olha para a direita. Apenas árvores, montanhas e água, muita água, alcançaram sua vista. Olha para a esquerda. Novamente, árvores, montanhas, água, e um vulto solitário sentado no desnivelamento que separava a estrutura do instituto do solo. Os cabelos loiros molhados caídos pelos ombros, empapados e sem vida. Uma fungada era ouvida a cada curto período de tempo. Ezreal ergue uma sobrancelha.
“Uma campeã?”, ele se pergunta. “Ela é insana?”
O explorador pensou em dirigir alguma palavra á garota, mas decidiu não perturba-la em seu momento de insanidade. Continuou a olhar em volta. Nenhum sinal do carro de Cait para busca-lo. Um pouco de raiva toma conta do rapaz.
- Aquela maldita... – Pragueja para si mesmo novamente, em voz baixa. Mas o mínimo ruído emitido pelo garoto chamou a atenção da loira distraída. Imediatamente, esta vira o olhar em direção ao rapaz. Os inchados e vermelhos olhos cor safira pareciam exibir uma expressão de medo e um pouco de pânico, encontrando com o olhar turquesa de desprezo e curiosidade do explorador, que olhava para ela de canto de olho como quem observa uma gata borralheira esfregar o chão de um chiqueiro. Logo seu rosto é tomado por um desprezo em mesma quantidade ao de Ezreal, virando-se novamente em direção ao horizonte, com o rosto apoiado nos joelhos.
- O que pensa que está fazendo nessa chuva? – O garoto prodígio ousa perguntar, com as mãos apoiadas nas extremidades do portal que demarcava a entrada do instituto, o torso um pouco dependurado para o lado de fora enquanto as pernas cruzadas davam-lhe apoio por trás. Ela ri curta e sarcasticamente, encurtando a paciência do rapaz.
- De que te interessa? – Responde, sem mudar o foco do olhar. O explorador sorri de canto. Após tanto tempo em Piltover, sendo subestimado e julgado como ‘apenas o garoto que faz mapas’, desenvolveu suas habilidades de persuasão durante as muitas vezes que teve de convencer Caitlyn, Jayce e Vi a deixarem-no ir a missões com eles. Dá o primeiro passo para o lado de fora do instituto, ouvindo o som de seus passos no chão molhado ecoarem em sua cabeça. Aproxima-se da garota, já sentindo o frio ambiente penetrar sua pele enquanto as gotas fortes de chuva machucavam-no levemente.
- De que te interessa se isso me interessa? – Ironiza a ela, com as mãos nos bolsos das calças pretas, tentando disfarçar o frio cortante que sentia. A jovem revira os olhos, em reflexo a quão infantil a frase do loiro havia sido.
- Você não deveria estar aqui, Ezreal! – Ressalta, agora mantendo contato visual com o garoto. O fato de ela saber o nome do rapaz confirmou para ele a identidade da loira. Um sorriso de canto surge na face do explorador.
- Você também não deveria estar aqui, Luxanna. – Ele olha em direção ao que antes a loira observava. Nada fora do comum. Apenas a área aberta que havia em frente ao instituto, destinada a treinamento para os campeões. Ela parecia admirar os alvos de madeira repletos de flechas, lanças e marcas de queimaduras que ocupavam uma parte do campo.
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