Círculo de Fogo
10 Capítulo 09
Notas iniciais
Capítulo 09
“Mas eu sinto que eu to viva, a cada banho de chuva que chega molhando meu corpo nu.”
Ichigo
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O teto nunca me pareceu tão interessante como naquele momento. Acho que nunca me senti tão mal como estava me sentindo naquela hora. As palavras dela ficavam rondando minha cabeça e de tempos em tempos me atingiam como flechas repletas de veneno.
Por conta disso, tive uma noite conturbada de sono. Será que tinha sido duro demais com minhas palavras? Como eu sou idiota... É claro que sim! Como ainda poderia ter alguma dúvida, depois daqueles olhos tão magoados? Mas eu simplesmente explodi.
No momento as palavras saltaram de meus lábios em um impulso de autodefesa. Inúmeras sensações totalmente descontroladas haviam tomado conta de mim e eu tinha que admitir, que não entendia o que eu sentia. Não sabia mais distinguir se era apenas uma quente atração ou o começo de...
E tudo isso me deixava extremamente frustrado e sem saber o que fazer.
Deveria pedir desculpas? Mas exatamente pelo quê? Tudo que eu tinha dito era verdade. Não iria retirar nada do que tinha dito. Como um sub-xerife, não podia voltar atrás no que dizia ou no que fazia.
Ainda assim, me sentia culpado.
Levantei da cama e andei na direção da porta, parei com a mão na maçaneta, hesitei por um instante até abrir e me deparar com uma estranha calmaria. Olhei para os lados para conferir se uma frigideira com ovos não estava voando na minha direção e quando nada ameaçou a me atacar de repente, saí do quarto.
Respirei fundo, tentando absorver a maior quantidade de ar puro possível, só que a única coisa que respirei foi fumaça de cigarros. Tossi quase colocando meus pulmões para fora.
Não demorei muito para achar a fonte de toda aquela fumaça. Bastou que eu desse alguns passos na direção da porta e já pude vê-la sentada na escada fumando e com uma garrafa de alguma coisa ao lado. Em sua volta já havia vários resquícios de outros cigarros.
Há quanto tempo ela já estava fumando sem parar?
De repente Rukia levantou e virou na direção da porta parecendo pouco — nenhum pouco — surpresa com minha presença. Esperei pelos xingamentos, pelo sarcasmo ou por alguma demonstração de violência. Porém tudo que eu tive foi um silêncio quase devastador.
Ela limpou o pó da calça e começou a subir os degraus da escada lentamente, e a cada passo sentia meu interior tremer, como se estivesse esperando algo. Quando estava próxima de mim, arqueou levemente as sobrancelhas, sem dizer uma palavra.
Continuei parado sem entender nada do que estava acontecendo, até finalmente perceber que eu estava bloqueando a entrada da porta. Dei passagem para que Rukia passasse, mas ela não o fez, não sem antes revirar os olhos e jogar uma bela camada de fumaça no meio da minha cara.
Tossi mais alguns milhares de vezes. Seriam longos meses...
Nem preciso dizer como foi o resto do dia, certo?
Nenhuma comunicação. Nem mesmo os cumprimentos.
O silêncio absoluto.
Mas do que eu estou reclamando? Não era exatamente o que eu queria?
I&R
185
Os dias pareciam passar lentamente. Tanto para Rukia como para Ichigo. O ruivo tentava ocupar a mente lendo um livro velho da estante que havia na sala ou tirando uma soneca ou até mesmo assobiando alguma música.
De tempos em tempos dava uma “olhada” em Rukia para garantir que estava tudo “bem”. E com ela, podia se ver claramente que não tinha nada bem. O jeito de Rukia passar o tempo não era nenhum pouco saudável. A maior parte do tempo a morena estava fumando e bebendo o vinho barato que havia na dispensa sem parar. E quando não estava bebendo e fumando, estava em algum canto daquela cabana estúpida, apagada.
E ainda assim, não era o suficiente para afastar as vozes que lhe invadiam a mente em várias horas do dia com palavras que preferia ignorar — e não conseguia.
Parecia uma bomba-relógio, sempre prestes a explodir. Ichigo sentia-se péssimo por vê-la apagando nos cantos da casa e não poder fazer nada. Se bem que tinha sido ideia dele manter aquela relação distante. Rukia não dirigia nenhuma palavra a Ichigo e isso o fazia se sentir pior ainda.
Ficava se perguntando de como ela estava lidando com o silêncio que ela tanto odiava. Já a morena fazia o possível para não ter que ver a cara do sub-xerife, quando o via, acabava por ignorá-lo e fingir que simplesmente não existia, porque se desse importância, provavelmente quebraria o pescoço dele.
Não era exatamente aquilo que ele queria? Então.
Já estavam naquela casa há quinze dias e já estava sendo uma tortura, só de imaginar quantos dias ainda faltavam, já dava dor de cabeça.
I&R
Já era de tarde quando Orihime Inoue chegou com um enorme sorriso estampado em sua bela face, segurando um pacote. O mais estranho era que estava mais feliz que de costume. A ruiva pediu que seu irmão a esperasse no mesmo lugar da outra vez, enquanto fazia outra visita para o seu amado.
— Ichigo! — gritou animada no pé da escada. Não demorou muito para que alguém que, não era Ichigo, aparecer.
— Ah, oi. — Uma Rukia descabelada com uma garrafa de vinho em uma mão e o cigarro na outra apareceu. — Orihime não é? — Inoue assentiu começando a ficar nervosa, começou a se lembrar do acontecimento da última vez que vira aquela mulher e a respiração começou a falhar. — Não precisa ficar com medo Orihime, não vou fazer nada. — Não por falta de vontade, mas porque mal conseguia andar.
Orihime sentiu-se mais aliviada com a declaração que pareceu sincera. E pela primeira vez teve coragem de olhá-la diretamente nos olhos. Agora que tinha reparado, Rukia possuía olhos extremamente belos e não demorou a notar as escuras olheiras abaixo dos olhos, demonstrando o cansaço.
A ruiva sentiu-se bastante curiosa.
— Está tudo bem com você? — perguntou ainda hesitante, segurando com mais força que o necessário o pacote em suas mãos.
— Claro. Por que eu não estaria bem? Só porque eu vou morrer daqui alguns dias? Naãããão — murmurou irônica, divertindo-se com a expressão horrorizada da ruiva.
— Oh, sinto muito — desculpou-se, abaixando os olhos. — Como sou tola, não deveria ter perguntado isso.
Rukia sentiu vontade de revirar os olhos, mas conteve-se.
— Sem problemas — falou com sinceridade, começando a sentir falta do sofá onde estava apagada minutos atrás. — Você quer? — Ofereceu a garrafa de vinho, colocando-a na frente do seu corpo.
— Oh, eu não bebo. Obrigada.
— Claro que não bebe — Rukia sussurrou para si. — Está procurando o xerife, certo?
— Sim. Como hoje é aniversário dele, resolvi fazer uma surpresa — comentou animada, acreditando que Rukia se importava com isso.
— Ele deve estar pescando no rio atrás da casa. — Provavelmente deveria era estar tomando um banho, totalmente nu, pensou a morena. — Vai lá. — Disfarçou um sorriso malicioso com uma falsa tosse. — Vou voltar pra dentro. Boa sorte com o xerife.
— Obrigada — agradeceu respeitosamente e deu as costas para a morena que, dessa vez, sorriu abertamente.
— Eu é que agradeço — murmurou, levantando a garrafa em um brinde mudo. Assim que Inoue estava longe o suficiente, pôs-se a correr para o quarto e espirar pela janela o que iria acontecer. — Já faz uns dias que não me divirto, tenho certeza que essa será ótima! Viu meu bem? — sibilou conversando com a garrafa quase vazia em suas mãos. — Jovens damas não vêem seus homens pelados na hora de trepar, para não despurificar os olhos! Azar o delas! — riu sozinha.
Enquanto a morena espiava, Orihime Inoue andava sem pressa cantarolando uma música, estava muito ansiosa e queria ver a reação de Ichigo ao ver que ela não tinha esquecido do seu aniversário. Começou a pensar que os sapatos que usava eram horríveis para caminhar naquele tipo de terreno, além disso, parecia que o clima ali era bem mais quente do que na cidade.
Mal tinha andado e já estava suando e o vestido longe não ajudava de forma alguma... Apoiou o pacote com o bolo em uma mão e levantou um pouco o vestido com a outra, para caminhar mais livremente.
Logo avistou o começo do rio, mas ainda não via Ichigo. Rukia espiando pela janela estava começando a ficar impaciente, como ela andava devagar! O que estava a consolando, era que Orihime chegaria na melhor parte, porque Ichigo acabara de dar um mergulho.
A ruiva continuou a andar e começou a estranhar. Onde estava Ichigo?
— Ela tinha dito que o Ichigo estaria aqui, será que se enganou? — sussurrou para si, parando na beirada do rio.
De repente, quando a mulher menos esperava, Ichigo surgiu em sua frente como veio ao mundo — pelado — e todo molhado, renascendo das águas como um deus grego e ainda de olhos fechados — e não ficou por muito tempo —, mas logo abriu quando Inoue assustou-se e gritou tacando o pacote do bolo em Ichigo que também se assustou e soltou uma exclamação.
Ao ver em que situação estava, Orihime ficou vermelha e parecia que ia desmaiar a qualquer instante, completamente sem jeito não pode deixar de observar Ichigo, era a primeira vez que o via nu... Não sabia o que fazer ou o que falar — assim como Ichigo — e acabou por desmaiar no final de tudo — era a única opção.
A morena já não estava se aguentando de tanto rir, sua barriga doía e suas bochechas mais ainda, e toda vez que se lembrava da cena, ria ainda mais. Já estava chorando.
— Um brinde! — gritou no quarto e caiu no chão com a garrafa já vazia, tentando se conter, sem sucesso. Riu tanto que acabou sem forças e já estava bêbada mesmo e desmaiou também.
Ao menos e um lugar mais confortável do que o anterior.
Ichigo ainda ficou estático. Que merda tinha sido aquela? E tinha algo boiando em seus pés... E estava borbulhando... Suspirou e começou a se vestir para poder pegar Inoue no colo e levá-la para dentro, não adiantaria de nada ele carregá-la pelado, no mínimo iria desmaiar de novo.
Foi nesse momento que se pegou comparando Rukia com Orihime, à reação delas eram totalmente opostas. E desde quando ele começara a ficar comparando Orihime com Rukia?
Não fazia a mínima ideia.
Suspirou mais uma vez e pegou a ruiva com cuidado no colo e começou a andar na direção da casa. Quando chegou, deu uma olhada para os lados e entrou, em seguida levou-a até o sofá e a depositou com cuidado, não demorou mais que cinco minutos para que ela acordasse e visse Ichigo sentado no mesmo sofá, servindo de apoio de pernas.
— O-oi — gaguejou sem graça, sentando no sofá. — Desculpe Ichigo. Eu realmente sinto muito — desculpou-se com a face em chamas, relembrando da cena constrangedora que havia passado.
— Não se preocupe Orihime. — Pigarreou para disfarçar o seu constrangimento. — Como sabia que eu estava lá atrás? — Estava com um pressentimento a respeito disso.
— Eu não sabia! — Juntou as mãos em um sinal de surpresa voltando à alegria habitual. — Quando eu cheguei, chamei por você, mas foi Rukia que apareceu e me disse que estava pescando lá atrás. — Ichigo segurou um “eu sabia” no fundo da garganta.
Pescando? Sério?
Porém, logo voltou sua atenção para mulher que parecia refletir sobre algo.
— O que foi Orihime, ela fez algo pra você? — perguntou desconfiado.
— Não! — gritou do nada e assustou Ichigo que quase pulou do sofá de susto e acabou arrancando uma gargalhada dela. — Desculpe. — Riu novamente e completou: — Ela não fez nada para mim, na verdade, foi muito gentil.
— Mesmo? — indagou incrédulo. Ela não odiava damas?
— Sim... — Pareceu entrar em uma espécie de devaneio por segundos. — Sabe Ichigo, acho que a condenação está fazendo ela se tornar uma pessoa melhor e ela deve estar querendo se redimir dos pecados. — Ela falou isso com tanta sinceridade que deixou um Kurosaki surpreso com sua perseverança. — Mas acho que ela não está lidando bem com isso.
— Por que acha isso? — Foi uma pergunta idiota que Ichigo simplesmente não pôde deixar de fazer por causa de sua curiosidade pela resposta que ela daria. Afinal, que tipo de pessoa ficaria bem em saber que vai morrer?
— Ela está diferente da última que eu vim. Tanto fisicamente quanto mentalmente. Ela está mais magra e maltratada. Está com uma aparência que não dorme há dias e as olheiras escuras denunciam isso. — Raramente Inoue comportava-se como uma mulher totalmente séria, e essa era uma das ocasiões onde ela não estava falando sorrindo e seus olhos estavam diferentes. — E recordo bem do brilho do cabelo negro e dos olhos desafiadores quando a vi pela primeira vez. Ela possui olhos incríveis, nunca imaginei que algum ser humano podia ter olhos daquela cor! Parecia que eu iria me afogar.
O ruivo balançou a cabeça concordando e vendo que Rukia também causava esses efeitos em mulheres. Estava achando interessante o modo que Orihime descrevia as mudanças que tinha percebido comparando-as com a Rukia “original” que tinha visto apenas uma vez.
— Mas não estão iguais à antes. Estão opacos e sem vida. — Inoue parecia ser apenas uma boba, mas na verdade era muito perceptiva e conseguia ver através das pessoas. — Não sei como explicar, mas ela está diferente!
— E percebeu tudo isso encontrando apenas duas vezes com ela?
Inoue assentiu e completou:
— Creio que está muito abalada emocionalmente. Ela parece uma pessoa que gosta de banhos — falou de repente mudando de assunto e Ichigo assentiu confirmado a afirmação da ruiva. — Ela está com um cheiro de álcool que dá para sentir a vários metros de distância! Não deve se lavar a dias!
A ruivinha torceu o nariz inconscientemente, enquanto o sub-xerife tentava se recordar de quantas vezes vira Rukia tomando banho desde aquela briga e a resposta era simples: Nenhuma.
— Pensando bem...
Ichigo foi interrompido pelo barulho da porta do quarto de Rukia, que foi aberta bruscamente. Sim. A “ceifadora” estava escutando a conversa dos dois e acidentalmente esbarrou na porta que abriu, fazendo mais barulho que o necessário e ainda tropeçou nos próprios pés de tão bêbada que estava.
Mas ela preferiu ignorar esse detalhe e fingir que estava sóbria.
— Opa, caí — murmurou sozinha e começou a rir. — Uff. Aí vou eu! — Os dois ruivos ficaram observando a cena em silêncio, já tinham tomado vários sustos em um dia só e esse seria mais um na lista. — Desculpe. — Para pedir desculpas com sinceridade, estava muito bêbada mesmo.
Ela praticamente se arrastou até o lavabo e fechou a porta. Logo a água começou a cair. Ichigo e Inoue tentaram voltar a conversar normalmente.
— E então. O que te traz aqui tão cedo? — ele perguntou casualmente.
— Já é de tarde Ichigo — retrucou inocentemente. — Não lembra que dia é hoje? — indagou incrédula e surpresa.
— Não. Tem algo especial? — Tombou a cabeça para o lado tentando lembrar alguma data especial.
— Compreendo. É normal que não se lembre, já que está confinado aqui há dias e deve perder a noção do tempo mesmo! O xerife Kuchiki é tão mau de mandar você ficar aqui logo nesse mês! — Deu uma pausa um tanto dramática. — Feliz aniversário, Ichigo!
O ruivo arregalou os olhos, tinha se esquecido do próprio aniversário. A ruiva o abraçou com carinho e ele retribuiu o gesto e murmurou um “obrigado”.
Mal ele sabia que uma Rukia lhe desejava o mesmo, só que em silêncio.
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