Círculo de Fogo
5 Capítulo 04
Notas iniciais
Capítulo 04
“Eu estava pensando em você, pensando em mim, pensando em nós. O que nós vamos ser?”
Just a dream — Christina Grimmie e Sam Tsui
Ichigo
197
Vamos dizer que eu não estava nos meus melhores dias. Na verdade, a única coisa que conseguia pensar, era que eu não passava de um amaldiçoado. Sim, isso mesmo. Só uma pessoa amaldiçoada para ser escolhida para ser babá de uma criminosa tarada.
O que será que eu tinha feito de errado? Estava sentindo tanta falta da minha vida monótona. O xerife era um sacana, isso sim! Ele que deveria estar no meu lugar!
Meus devaneios foram interrompidos quando a louca lá saiu do quarto abrindo a porta com força.
Ela andou até o lavabo sem dizer uma palavra, o que sinceramente achei estranho. Nenhuma provocação — o que já tinha se tornado normal — ou o habitual “bom dia”. Então ela tinha entendido o que eu tinha dito no anterior, e isso era ótimo, não queria ter que forçá-la a isso...
É...
Voltei meu olhar para o livro, que estava lendo anteriormente e tentei me concentrar novamente, o que claro, não funcionou.
O constante barulho de água caindo não deixava que minha mente se fixar no maldito livro, e consequentemente, isso estava me deixando louco. Remexi no sofá tentando procurar uma posição confortável e naquele momento, parecia que nenhuma posição era boa o suficiente.
Bufei frustrado e desisti de ler. Levantei do sofá e fui para o balcão da cozinha tentar me alimentar um pouco. Abaixei-me para pegar a panela e no exato momento a água parou de cair.
Ainda abaixado, virei na direção do armário de baixo e peguei quatro ovos. Levantei e virei novamente para colocar a panela e os ovos no balcão, só que, meus planos não foram concretizados, por que deixei a panela e os benditos ovos caírem no chão.
O por quê?
Bem, a maldita gostosa de olhos azuis estava parada do outro lado do balcão, porém, o problema não era bem esse. O “pseudo-problema” era que ela estava completamente nua. Sim, sim. Sem. Roupa. E como não estava preparado para essa divina visão, fiquei surpreendido e larguei tudo no chão.
Nem preciso dizer que fiquei embasbacado, e é nessas horas que descobrimos o quanto o coração é fraco. Meu amiguinho que mora nos países baixos se exaltou um pouco. Só havia uma palavra para descrever aquela visão: Perfeita.
Ela soltou o sorriso mais sacana que eu havia visto na minha vida. Prendi a respiração e continuamos em silêncio enquanto nos encarávamos. Como ela era baixa! Que truque sujo!
— Vai cozinhar o quê? — perguntou em um tom tão cínico que até doeu. — Ou melhor, que iria. — Rukia esticou-se sobre o balcão e céus! Havia uma queimação no meu peito e nesse momento me lembrei que respirar era necessário para sobreviver. Soltei o ar com dificuldade e a criminosa continuava a me fitar. — Está tudo bem?
— Por que você não está vestida? — indaguei da forma mais lenta possível.
— Estou com calor, oras. — Ela foi tão direta e simples que não consegui pensar em nada para rebatê-la.
Na verdade, eu não conseguia pensar em nada. Ela estava nua na minha frente! Não tinha muito o que fazer, o fato é que a maldita estava me seduzindo com aqueles truques deliciosamente irresistíveis e vamos conversar que, resistir a uma mulher sexy é muito difícil.
Desviei os olhos do corpo dela e fitei o nada.
— Vá se vestir — ordenei, mas minha voz falhou no meio da palavra.
— Não quero.
Estava tentando ao máximo não voltar meus olhos para Rukia. Sabe lá o que poderia acontecer caso eu fizesse. O problema era que ela parecia um imã, e meus olhos idiotas teimavam em serem atraídos para ela novamente, mesmo eu fazendo um esforço dos infernos para que isso não acontecesse.
— Vá se vestir — repeti com mais confiança do que aparentava.
— Se eu não fizer, vai me obrigar? — O seu tom era desafiador e ao mesmo tempo tentador. Isso era uma tortura, isso sim! Mas eu não cairia na tentação! Eu havia dito que aquilo não aconteceria mais, e não vai! Pena que meu corpo não entendia muito bem esse pensamento. — Vai me ajudar a me vestir?
Senti os pelos da minha nuca se enricarem e um calafrio percorreu minha espinha.
— Não vou te ajudar em nada — resmunguei, sentindo minha garganta ficar seca. — Se me der licença. — retirei-me com dificuldade antes que fosse tarde demais, porque a palavra “resistir” havia sumido do meu vocabulário naquele momento.
E nossa! Que corpo!
I&R
Rukia
Não era que o maldito Kurosaki era mesmo orgulhoso! Mesmo eu aparecendo nua não funcionou. Oras! Não funcionou hoje, mas poderá funcionar outro dia! Sim! Há varias coisas que ele não sabe sobre mim, e uma delas, é como sou desprovida de pudor. Há!
Conheço bem os homens para saber que o infeliz estava excitado, mas era realmente uma pena que não tenha acontecido nada.
Bem, estava calor mesmo, na verdade, sempre estava. Porém hoje, o calor estava pior e eu não sou muito fã desse tipo de clima exagerado. Prefiro o frio. Espreguicei-me preguiçosamente, mal tinha tomado um banho e já estava suando.
Porcaria mesmo.
Sai da casa e fui para o rio nos fundos. Meus pés afundaram na terra úmida e a sensação térmica era maravilhosa, dei mais alguns passos para frente e senti a água gelada.
Totalmente refrescante.
Fui para um lugar mais fundo e mergulhei, apreciando a limpidez do rio e indo mais e mais fundo. Quando voltei para a superfície, notei que havia me distanciado demais da casa. Nadei até a outra margem e sentei sobre as pedras, observando melhor o lugar.
A margem mais perto da casa ficava mais ou menos há setenta metros de onde eu estava. A minha direita havia uma pequena barragem limitando a área da casa e obviamente para evitar as fugas, se bem que — pelo menos para mim — não era muito difícil.
Olhei para cima e percebi que era um rio de penhasco. Sorri. Já estava com saudade do meu bando. Perdi a noção do tempo e apenas percebi isso, quando o sol começou a mudar, provavelmente meio-dia.
Isso significava que eu havia passado mais de uma hora naquele lugar e em uma hora dessas, o xerife deve estar achando que eu fugi.
Bobo.
Sai da água e caminhei vagarosamente na direção da casa. Estava um silêncio horrível. Silêncio que eu odiava. Entrei ainda molhada e meus cabelos pingavam, e cada vez que a água alcançava o chão, fazia um barulho irritante que até parecia ecoar. O sol que passava pela porta e atingia minhas costas, de repente, parou. Xerife.
— Onde você estava? — A voz dele saiu autoritária e controlada.
— Não acha que está descuidando demais de mim? — soltei, esperando que ele desse uma reação mais positiva.
— Acho que não, já que você mesma disse que se quisesse fugir, já teria o feito. E com o meu visível descuido, você poderia ter fugido inúmeras vezes e ainda está aqui. — Ameacei a me virar para ele, adoraria ver sua expressão, mas fui impedida pela “ordem” que veio a seguir: — Não se vire.
Fiquei parada no mesmo lugar sem me mexer um centímetro sequer.
— Então presumiu que eu realmente não tentarei fugir? — perguntei retoricamente e acrescentei antes dele dizer alguma coisa: — Então confia no que eu digo?
— Confiar não é a palavra mais correta. Porém — Ouvi-o suspirar fundo e depois de uma pausa, continuou: —, ao menos acredito que não irá fugir. E isso não significa que eu confie em você, afinal, ainda é uma criminosa.
Realmente desejei ver sua expressão ao dizer essas palavras! Continuei parada e o silêncio predominou no ambiente novamente.
— Uma trégua então? — sugeri depois de alguns instantes.
— Que tipo de trégua? — A desconfiança era facilmente percebida em sua voz e preferi ignorar isso.
— Eu gostaria de saber o seu nome. É um saco ter que ficar te chamando de xerife o tempo inteiro.
Continuou calado.
— Só isso?
— Bem, gostaria que tivéssemos uma relação mais amistosa. Não gosto de silêncio, como já disse. Queria que conversássemos mais e que me falasse sobre você. — Esperei alguns segundos para ver se ele iria ter alguma reação ruim a minha ideia, mas o ruivo continuou com o maldito silêncio.
Uma explosão seria melhor que isso! Olhei-o por cima dos ombros e vi que ele continuava parado olhando para mim sem realmente me ver. Ficou assim por alguns instantes e decidi quebrar o silêncio>
— Eu vou morrer mesmo, então creio que não há problemas em me falar sobre você. — Tá certo que era mentira, mas... Não fazia tão mal assim. Quando o prazo acabasse, ele nunca mais iria me ver mesmo, e eu não sairia falando sobre a vida dele por aí.
— Então posso pedir algo em troca? — Oras, era claro que ele pediria algo em troca! Estava ansiosa por saber o que seria.
— Claro. Trata-se de uma trégua. — respondi com divertimento.
— Já que quer saber sobre mim, quero que fale sobre você.
Não foi que ele me pegou de surpresa! Realmente não esperava que pedisse algo assim em troca, imaginei qualquer coisa, menos isso. Ainda bem que não tinha nenhum problema em falar do meu ridiculamente trágico passado.
— É justo — concordei sem dificuldades. — Meu passado parece ser tão significativo assim... ao ponto de querer saber?
— Gostaria de entender o que faz uma pessoa levar uma vida como a sua. Dias atrás você tinha dito que era fácil demais julgar as pessoas sem conhecer seus motivos, odeio ter que admitir, mas devo concordar com você. — Mais uma vez, ele havia me surpreendido. Jamais imaginei que ele falaria algo do tipo, parecia orgulhoso demais para conseguir admitir quando estava errado. Um julgamento precipitado da minha parte. — Quero saber os motivos para que ache o destino tão cruel.
— Conseguiu me surpreender, xerife — admiti com franqueza.
— Ichigo.
— Como? — perguntei sem entender.
— Meu nome é Ichigo Kurosaki.
Sorri. Isso era um sinal bem positivo.
— Certo, Ichigo. Há mais alguma coisa? — Sabia que tinha mais alguma coisa.
Instinto.
— Sim. Quero que se comporte como uma dama, o que você deveria fazer.
Sem conseguir me conter, comecei a rir escandalosamente e virei para ele incrédula. Ele desviou o olhar no mesmo instante e percebi o rubor se espalhar pela sua face. Sem querer, sorri e me virei de volta, voltando a ficar de costas.
— Não exatamente como uma dama — emendou de uma hora para outra. — Acho que é impossível, já que uma dama nunca se desfaria das próprias roupas e ficaria nua na frente de um homem.
— Isso foi uma crítica? — perguntei sem conseguir inibir meu sarcasmo.
— De certa forma... Mas o que quero dizer, é que quero que se comporte melhor. É isso. — Ele pareceu um tanto nervoso.
— Ichigo. Faz vinte anos que não me comporto decentemente, você realmente acha que tomarei jeito agora? Acho que já é tarde demais para pensar nisso, meu amor — falei sério, apesar de não ter parecido. — Pode pedir outra coisa? — sugeri com esperanças.
— Creio que não. Então apenas tente, okay? — Ao menos ele era bondoso o suficiente para acreditar que eu conseguiria me converter.
— Tudo bem. Eu tentarei, mas não garanto nada! — retruquei com sinceridade.
— Então comece vestindo suas roupas. Vai acabar ficando resfriada desse jeito.
Era impressão minha ou ele estava se controlando ao máximo, para não acabar me obrigando a me vestir de uma forma mais brusca?
— Não quer me ajudar a me vestir Ichigo? Se bem que seria mais interessante se você me ajudasse a tirá-las e não a colocá-las! — Virei novamente para ele e observei-o ficar da cor de um tomate.
Ri e corri para o quarto, mas não sem antes ouvir em um bom e audível som:
— Rukia! Sua maldita!
Eu disse que tentaria me comportar, e não que pararia de provocar meu objeto de diversão. Há. Até parece...
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