Círculo de Fogo
3 Capítulo 02
Notas iniciais
Capítulo 02
Rukia
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Poderia resumir o dia anterior com apenas duas palavras: Nada produtivo. Juntas descreviam perfeitamente o que ocorrera.
Depois das minhas poucas palavras a respeito do maldito destino ser cruel, o xerife não comentou mais nada e não pronunciou uma palavra sequer, apesar do meu monólogo sobre não gostar de silêncio e de ele ter dito que pensaria a respeito. Manter uma conversa com ele era extremamente difícil, até para mim que me dava muito melhor com os homens do que com as mulheres, tanto que a maioria dos meus amigos eram homens.
Na hora de dormir, ele praticamente havia me pregado um sermão repetitivo e chato que apenas respondi:
— Não irei fugir, xe-ri-fe.
Fazia questão de falar lentamente apenas para irritá-lo. Não demorei a notar que ele odiava isso e, aliás, era uma das minhas únicas formas de diversão e não era tão difícil fazê-lo. Para um homem de vinte e oito anos, ele me parecia muito ingênuo. Para a minha surpresa, ele não me acorrentou na cama — como um homem que preza a própria vida faria. Apenas fechou a porta e em seguida, murmurou algo como “Estarei vigiando”.
Quando havia deitado e me esparramado na cama fofa e confortável, assemelhei Kurosaki com uma pessoa bem irritante que conhecia, chamada Kaien Shiba, que à uma hora dessas estaria enchendo a paciência de Grimmjow e Renji com seu falatório insistente.
Não demorei a dormir.
E agora, aqui estou eu necessitando desesperadamente dos meus queridos cigarros. Estava a beira dos nervos e necessitava deles, meu único — e real — vício. Sai do quarto em passadas lentas, já que a maldita corrente limitava meus movimentos.
O xerife não estava na sala como eu esperava, imaginei onde ele estaria e apenas pensei que ele estava me subestimando ao achar que não poderia escapar, porque meus pés estavam presos.
Ingênuo.
Andei até a cozinha e revirei as gavetas a procura do meu amado tabaco.
— Não irá encontrar facas ou algo do tipo nas gavetas Rukia. — De princípio, levei um leve susto pela voz inesperada dele.
Ele era sorrateiro, tão sorrateiro que não o percebi se aproximando.
— Bom dia. — Virei-me com o meu mais belo sorriso. — Não estou procurando facas ou coisas do tipo — expliquei, sabendo que provavelmente o ruivo não acreditaria em mim, os olhos cor de avelã me fitavam com desaprovação. — Estou procurando cigarros.
— Cigarros? Acha que irei acreditar nisso?
Realmente o achava bastante atraente, mas diferente da impressão que ele gostaria de passar, de seriedade, aos meus olhos, apenas o fazia parecer hilário.
— Não precisa. — Encontrei cigarros na última gaveta e suspirei de alívio. Peguei a caixa de fósforos que não estava tão longe e acendi um, tragando longamente, enchendo-me de prazer. — Não precisa se preocupar sobre manter objetos que eu possa usar como arma perto de mim. — Fiz uma pausa enquanto ele me olhava atônito. — Não irei fazer nada para tentar matá-lo, se quisesse, já teria o feito.
E o sub-xerife passou de atônito para incrédulo.
— Sei que é uma ótima assassina, mas não se gabe tanto. Não sou igual àqueles caçadores de recompensa, sem praticamente experiência alguma, que você matou e nem como aqueles quase inofensivos oficiais. — Sorri indiferente diante de suas palavras. — Pelo seu gentil sorriso madame — disse com sarcasmo —, creio que ache que me mataria facilmente.
— Mataria alguém com um caroço de feijão — declarei sem tirar os olhos dos dele que ganharam um brilho presunçoso.
— Aposto que sim. — Soltei a fumaça lentamente e o observei sorrir de deboche.
— Está me desafiando? — Arqueei minhas sobrancelhas em um gesto involuntário e divertido. Ri alto e ele me olhou com os olhos cheios de determinação.
— Se eu dissesse que sim?
— Eu aceitaria — murmurei com satisfação, enquanto sentia meu sangue ferver de excitação. — Que tipo de desafio propõe, xerife?
— Ouvi falar que é boa em corpo a corpo. — O sangue que subiu-lhe as bochechas era quase imperceptível na sua pele deliciosamente bronzeada.
— Sou ótima mesmo. Em todos os sentidos — informei, deixando-o constrangido pela malícia incontida em minha voz.
Mas era inevitável que eu não fizesse um comentário maldoso na maior parte do tempo. As reações dele me divertiam horrores, de uma maneira inexplicável. Joguei a bituca de cigarro fora antes de continuar:
— Está a fim de experimentar?
— Seria um ótimo exercício matinal — respondeu ignorando minhas provocações. — Você é muito cheia de si, Rukia.
— Tenho motivos para isso — rebati sem perder o humor e continuei um tanto presunçosa: — Derrubo facilmente um homem do seu tamanho.
— Então vamos começar — falou com um sorriso amarelo.
— Claro. No meu quarto ou no seu? — impliquei, fazendo com que ele ruborizasse e desviasse o olhar do meu. Andou até mim e soltou a corrente dos meus pés, surpreendendo-me verdadeiramente.
— Tem que ser um desafio justo, para quando perder não dizer que foi culpa das correntes. — Sorriu desafiador e tive certeza que corei de puro prazer. — Vamos lá para fora. — Ele fez um sinal para que eu fosse à frente, claramente demonstrando que não confiava que eu ficasse atrás dele.
Desci a pequena escada da entrada e estanquei no longo terreno coberto pela terra árida, o sol continuava igualmente quente, que nem nos dias anteriores. O céu estava azul e limpo sem nenhuma nuvem, apreciei por alguns segundos até o brilho excessivo do sol irritar minha visão. Olhei para o Kurosaki que observava calado, como se esperasse eu dizer algo.
— Há alguma regra nesse joguinho? — perguntei.
— Gritar “desisto” quando não estiver mais aguentando — respondeu com sarcasmo e o cenho franzido.
— Como desejar. — Virei-me totalmente em sua direção e observei os poucos metros que nos separavam, cerca de cinco.
Espreguicei-me com gosto, sentindo meus músculos tensos relaxarem e sentindo-me renovada, entrei em posição de combate.
A perna direita na frente e a esquerda atrás, as mãos apoiadas nos joelhos esperando como ele viria. Meus olhos estavam atentos em cada movimento que ele fazia, realmente parecendo inofensivo. Começou a rodear-me como se procurasse alguma abertura, mas na verdade diminuía a distância dos cinco metros entre nós cautelosamente — provavelmente achando que eu não notara — em passos curtos e calculados.
Com uma rapidez louvável, investiu em minha direção como uma rasteira que, se não fosse por meus reflexos, teria me derrubado no chão. Aproveitei a brecha e desferi um chute contra sua panturrilha, tentando fazê-lo perder o equilíbrio, mas antes que eu o atingisse, ele levou a perna direita para frente e deu um semi-giro fazendo com que minha perna voltasse.
Contra atacou em uma tentativa de me agarrar pelo pescoço. Desviei para o lado e enfiei dois dedos entre suas costelas, fazendo-o se arquear levemente para trás, e antes que eu tivesse tempo de me afastar ou desviar, ele apertou meus “rins”, e eu tive uma reação mesclada de dor e terríveis cócegas.
O aperto continuou firme e persistente, aproveitei para sustentar o meu próprio peso em um dos braços dele e apoie-me enroscando uma perna em seu braço e antes que eu fizesse a menção de pegar impulso e girar, ele soltou o braço fazendo com que eu caísse no chão.
Pronta para isso, tombei no chão fazendo a poeira subir, ele abaixou na iniciativa de me pegar, deixando as pernas abertas. Enfiei as minhas duas pernas no espaço vazio entre as pernas dele e abri de uma vez, o que fez ele se desequilibrar e cair. Antes que caísse em cima de mim, rolei para o lado e assim que o xerife desabou no chão, subi em cima dele na posição “cavalinho”.
Sorri maliciosa e travei minhas pernas com força nos quadris masculinos.
Antes que eu conseguisse alcançar os braços dele, ele segurou os meus ombros e inverteu nossas posições, ficando por cima de mim e deixando seu peso me esmagar.
Dã, eu sabia que era pequena comparada a ele e bem... Não só a ele, e no mínimo devia admitir que, ao mesmo tempo que isso era uma vantagem — por facilitar minha movimentação — era uma desvantagem. Pois se alguém com um peso maior que oitenta quilos caísse sobre mim ou algo parecido, eu realmente me ferraria, o que era o caso.
Sem contar que, era bem óbvio que ele era mais forte que eu. Porém, força não é tudo!
Com meus meros cinquenta e dois quilos, e os, sei lá, oitenta dele sobre mim, estava ficando difícil respirar, o xerife era bom, isso eu tinha que admitir, no entanto, isso não seria o suficiente para me fazer desistir.
— Não vai desistir? — perguntou ofegante, claramente debochando de mim.
Tinha prendido meus braços acima da minha cabeça e as pernas visivelmente musculosas, prendendo-me com força entre elas, dificultando por demais a minha “fuga”.
— Se eu desistisse fácil assim, não estaria viva Kurosaki — sibilei entre arfadas e fiz um bom esforço para puxar um pouco de ar para meus pulmões.
Comecei a me balançar como uma gangorra, para frente e para trás, movendo as minhas pernas o máximo que eu conseguia.
— Não adianta. Você não vai conseguir sair — falou, segurando-me com mais força e eu sorri cinicamente.
Eu iria sair sim, mas ele apenas não sabia disso. Tinha me subestimado por eu ser pequena e isso era a pior coisa que alguém poderia fazer quando se tratava de mim.
Não estava dando uma de gangorra à toa, era uma boa técnica para sair desse tipo de imobilização. Coloquei toda a força nas minhas pernas, principalmente nos joelhos, peguei um bom impulso e com a força das pernas, arremessei-o, o que fez ele sair de cima de mim praticamente voando por cima da minha cabeça.
Ri alto e levantei do chão rapidamente, enquanto ele ainda se recuperava do meu contra-ataque recente.
Nós estávamos ofegantes.
— Gostou dessa, xerife? — indaguei com bom humor e ele franziu ainda mais o cenho. — Não me subestime — aconselhei e virei de costas, começando a voltar para casa.
— Ei! O que você está fazendo? — Quando o olhei, já estava de pé.
— Voltando para casa? Como pode ver, não tenho muitas opções — murmurei sarcástica.
— E o desafio?
— Não quero mais. Cansei. Olha como eu fiquei suja. — Apontei para minhas roupas. Se bem, que suja ainda era pouco, estava imunda!
— E como fica o resultado? — Oras. Parecia que ele realmente queria um veredito.
— Ficamos empatados, está bom para você? — Ele se manteve silêncio, então continuei: — Por enquanto ao menos. Depois desempatamos.
— Certo — quase sussurrou parecendo um pouco mais satisfeito.
Continuei a andar na direção da casa, precisava urgentemente de outro cigarro.
Poderia estar errada, mas de algum modo, eu tinha um pressentimento que eu, a pior e contraditoriamente, a melhor criminosa dos Estados Unidos, iria me dar bem com o defensor da lei, o sub-xerife Kurosaki.
O homem do qual eu não sabia nada além de seu sobrenome e que ficava facilmente constrangido, conseguira instigar a minha vontade de saber mais sobre alguém, além de mim mesma.
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Poderia dizer, que de certa forma, havia se formado uma pequena trégua entre mim e o xerife. Ele havia sido gentil o suficiente para não me acorrentar novamente, deixando-me bastante livre pela casa, mesmo que seus olhos sempre estivessem em mim, quase queimando de tanto olhar.
Acho que ele percebeu que se eu quisesse fugir, já teria o feito. Na verdade, se eu não estivesse tão entediada, há quatro dias, e não tão bêbada para ir no lero de Grimmjow e aceitar o desafio de ser pega e só fugir no último momento, nem estaria aqui.
Devo admitir que estava sendo mais divertido do que eu achei que seria. Já fazia três dias, não passava de uma da tarde e o calor estava infernal. Como de costume, o xerife com estranhos cabelos laranja, estava sentado no sofá.
Observei-o sem nenhuma vergonha na cara. Ele descascava uma laranja com um canivete e pegou-me o olhando.
— Você quer? — perguntou estendendo a laranja na minha direção.
Tão ingênuo. Achando que eu o olhava porque queria a fruta em suas mãos, sendo que tinha outra coisa bem melhor para olhar: Ele.
— Não, obrigada.
O sub-xerife deu de ombros e voltou ao que fazia. O colarinho da camisa estava desabotoado e as mangas da blusa arregaçadas. Os dois primeiros botões estavam abertos, dando uma visão bem privilegiada do peitoral bronzeado e provavelmente, definido.
Sorri, deleitando-me com aquela simples visão.
Oh, homem bom!
Os olhos dele se encontraram com os meus e ficamos nos encarando por alguns segundos, até ele quebrar o silêncio:
— Qual o seu problema? — Isso era porque eu só estava o olhando, imagine só...
— Nenhum — respondi e sorri maliciosa.
— Então, por que está me encarando? — Franziu o cenho, no mínimo, tentando parecer irritado, falhando miseravelmente.
— Eu acho você gostoso — falei com sinceridade e ri alto quando ele ainda em choque pela minha resposta, largou a laranja e o canivete no chão.
Pela primeira vez, não tinha ruborizado quando comentei algo malicioso.
— O que você disse? — pediu para que eu repetisse, para minha surpresa e levantou do sofá sem tirar os olhos dos meus.
Também levantei do sofá e andei até ele, ficando a apenas um suspiro de distância.
— Gostoso — falei devagar e passei o indicador sobre os lábios tentadores.
Ele segurou minha mão e...
Sorriu.
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