Cálix Sanguinis
2 Caminhando e cantando
Notas iniciais
O meu coração (ainda que quase imprestável) faltou sair pela boca quando ouvi aquela voz, virei a cabeça lentamente, pedindo a Deus que tivesse piedade da minha alma.
Era Clarice, eu não sabia se respirava aliviado ou ficava com mais medo ainda, aquela menina era filha de gente importante e se fosse a favor do regime, eu iria direto para a geladeira ou algo pior.
– S-Sou — respondi com voz rouca e quase impossível de ouvir.
– Eu não acredito! Eu tinha tanta coisa para dizer, para perguntar...
Ela me deu um abraço.
– Não vai contar nada a ninguém? — perguntei surpreso.
– Claro que não! Sou sua fã, amo tudo que escreve... Eu leio escondido da minha família porque eles não querem se envolver nessas coisas, preferem ficar quietos.
– Pois continue lendo, agradeço, agora me deixe voltar para a matéria que eu estava escrevendo.
Clarice pareceu decepcionada e ainda ficou algum tempo na sala, eu evitei olhar para ela, mas a mesma parecia não querer sair:
– Ainda está aqui?
– Eu... O senhor precisa de ajuda?
– Já estou há dois anos fazendo essas matérias sozinho, não é porque uma criança me vê escrevendo que vou precisar de alguma coisa.
– Desculpe.
– Vá embora.
– Tudo bem, mas tome cuidado! Se o diretor lhe pega...
– Não preciso de cuidado.
Ela se dirigiu até a porta e antes de sair, disse as seguintes palavras:
– Eu pensava que o Mr. H fosse mais cortês.
Fechou a porta e saiu. Merda! Eu deveria tê-la tratado melhor! A menina me admirava, gostava de mim e eu a tratei daquela maneira... Logo eu, que sempre pareci tão bem humorado em meus artigos, me comportei como um brutamontes para uma moça tão doce como Clarice.
Sem pensar em qualquer tipo de envolvimento amoroso com a menina, lembrei de quando eu era menino e uma amiga de minha mãe apareceu em minha casa, passei por ela sem cumprimentar e ela me chamou:
– Por que não fala comigo?
– Porque eu não quero.
Minha mãe, que estava na sala, deu um sorriso amarelo e a amiga mudou de assunto:
– Você é muito bonito!
– E você é muito feia!
Dei língua para a mulher e fui para o meu quarto, mais tarde minha mãe disse que eu morreria sozinho por ser grosso daquela maneira e que eu deveria controlar meu gênio. Bem que disseram que praga de mãe pega e lá estava eu! Sozinho, sem filhos, desolado.
Quero deixar claro que não sou virgem, em minha mocidade, andei por vários bordéis e aproveitei os serviços das prostitutas. Santas prostitutas! O que seria de mim se não existissem? Com quem me deitaria?
Recolhi minhas coisas e saí. Naquele dia haveria um protesto, mas eu já não tinha mais idade para andas nesses lugares, embora vontade não me faltasse.
Estava descendo as escadarias da escola e Clarice ainda estava por lá:
– O senhor vai para a manifestação?
– Não.
– Se fosse, iria com o senhor.
– Por que não muda de assunto?
– Porque não é todo mundo que tem Mr. H como professor.
Passei a mão pelo meu rosto.
– Olha, em primeiro lugar, eu sou o professor Homero e o Mr. H só existe no jornal Cálix Sanguinis, sinto muito pela desilusão. Em segundo lugar, pare de querer assunto comigo! Sou seu professor, não seu coleguinha!
Antes que eu desse meia volta, a menina rebateu:
– Na escola o senhor é meu professor, mas aqui fora é uma pessoa como qualquer outra... Bom, se resolver ir para o protesto, estarei lá.
Eu? No protesto? Aquela garota deveria estar brincando!
Fui para casa e liguei o rádio. Aquela era minha rotina: escola, casa e rádio. Era triste uma moça como Clarice, tão cheia de vida, querer se meter em assuntos tão sérios e com gente tão perigosa. Tudo bem, eu me metia, mas eu já estava no fim da vida... Para que mendigar restos de mocidade?
Por curiosidade, coloquei um chapéu e fui até a praça onde o protesto ocorria, sentei em um banco e apenas observei aquele bando de pessoas clamando por liberdade de expressão. Demorou mais ou menos meia hora para que eu ouvisse gritos de desespero das pessoas, muitos começaram a correr e no meio da multidão, vi um rosto conhecido:
– Clarice! — gritei.
A menina ficou com os olhos brilhando e correu ao meu encontro:
– Mr... Professor Homero! Pensei que não viesse.
– O que houve?
– Os militares pegaram um amigo nosso.
– Coitado... Deus cuidará da alma dele.
– Só nos resta mesmo a bondade divina.
– Foi bom encontrá-la.
Apertei sua mão e saí caminhando, mas antes que eu pudesse me afastar, ouvi sua voz:
– Professor!
– Diga — disse, virando para falar com ela.
– O que o senhor faria se hoje fosse seu último dia?
– Por que a pergunta?
– Curiosidade.
– Eu não sei — saí andando.
– Vamos lá, sei que tem alguma coisa que gostaria de fazer — começou a me seguir.
– Sim, tem uma coisa que eu GOSTARIA de fazer, mas não faria porque é impossível.
– E o que seria?
– Não posso lhe contar, é contra meus princípios.
– Conte!
– Eu faria amor.
Clarice me olhou assustada:
– Nunca fez?
– Não... Sexo é uma coisa, amor é outra.
– E por que é impossível?
– Já olhou para mim? Já notou meu jeito?
– Não vejo nada demais, eu até admiro seu gênio.
– Menina... Ainda tem muito a aprender com a vida.
Disse apenas aquelas palavras e saí caminhando.
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