Cálix Sanguinis
3 Mosca na sopa
Notas iniciais
No outro dia, eu estava chegando à escola e na sala dos professores, a matéria mais comentada foi justamennte a que eu havia publicado no dia anterior: "Marionetes de Novo!".
"Querido povo brasileiro,
Meu velho coração encontra-se partido com esses vigaristas que acabam com nossa nação!
Eu pensava que, após sermos governados por uma junta militar, o povo brasileiro cansaria de ser feito de gato e sapato e tomaria vergonha na cara, lutando por um país melhor, mas estava enganado.
Reconheço que algumas pessoas realmente sabem o que querem, mas me entristeço por conta de alguns idiotas que chegam nos protestos tomando Coca-Cola e achando graça da nossa desgraça.
Sei que o governo MERDAci não será boa coisa, vamos aguardar os próximos capítulos do nosso drama, mas digo e repito, nada passa despercebido aos meus olhos.
Mr. H."
Fiquei feliz e preocupado, Médici havia sido eleito há pouco tempo e eu não sabia do que ele era capaz. Muitas músicas e jornais estavam sendo censurados e se ele descobrir a gráfica clandestina que faz o favor de publicar nossos jornais, aí vão-se nossas cabeças.
Nosso jornal era composto por quatro: Eu, Assis (professor de história recém aposentado), Francisco (médico) e uma mulher, que apesar de ser dona de casa, tinha olhos de águia e faro de cão quando o assunto era ditadura, seu nome era Regina.
Dei minhas aulas do dia, Clarice procurava não me olhar nos olhos e eu percebi aquilo, tanto que vez por outra perguntava se ela estava sentindo dificuldade, era o único momento que ela olhava para mim e respondia que não.
Assim que tocou o sinal para que todos fossem embora, segurei Clarice pelo braço:
– Fique aqui.
Ela sentou em uma carteira e eu sentei em outra:
– Seja breve — disse friamente.
– Gostaria de saber o que achou da minha matéria.
– Para falar a verdade nem li.
– Por quê?
– Para que continuar sendo fã de uma pessoa que não liga para você? Ah, claro... Eu já deveria saber, como todos os ídolos extremamente famosos, eu sou apenas mais uma fã... Quem sou eu em comparação ao Mr. H?
Aquela menina estava me tirando do sério! O que ela pensava? Que eu tinha tempo para bobagens de adolescentes?
– Tem razão, menina, você é apenas mais uma.
Ela se levantou e eu a puxei pelo braço:
– Mas... Não quer conhecer melhor o Mr. H?
Ela ficou me olhando desconfiada, saímos juntos discretamente e a levei para minha casa, onde poderíamos saber um pouco mais sobre o outro.
– Primeiro, gostaria de saber da jovem, seus pais não se preocupam que você esteja na casa de um homem?
– Professor, eu não falei a verdade naquele dia lá na sala de aula... Os meus pais não se importam comigo, desde que meu irmão mais novo nasceu, eles acham que a única obrigação que tem comigo é me dar comida e pagar minha escola, mas esquecem que tem o carinho e o afeto... Por isso sou tão apegada ao senhor, mesmo sem conhecê-lo direito. Sempre gostei do Mr. H e quando o vi pessoalmente, me empolguei. Eu sou assim com as pessoas, por não ter a devida atenção dos pais, me apego rapidamente às pessoas.
– Não sabia...
– Mas quero saber do senhor.
– Não tenho muito a dizer, minha vida se resume em dar aulas e escrever textos, eu não me aposento porque cairia numa depressão e passaria o resto da vida deitado numa cama, se eu morresse, talvez nem saberiam da minha morte.
– O senhor disse que seu sonho é fazer amor...
– Não vamos tocar nesse assunto, você é muito nova.
– Eu já fiz o que você não fez.
– Como assim?
– Eu não sou mais virgem.
– Mas só tem dezessete anos!
– Eu já tive um namorado.
Ela falou brevemente e se calou:
– Por que não tem mais?
– Ele morreu.
Lágrimas começaram a rolar pela sua pele de neve e eu ofereci um guardanapo, que aceitou.
– Como sabe que era amor?
– Por que nosso sentimento era puro.
– Por que ele morreu?
– Foi pego por militares ainda no governo Costa e Silva, eu tinha quinze anos, tudo bem, era cedo, mas tudo que vivíamos era tão intenso que me entreguei.
Clarice era tão bela e inteligente... Eu não reclamaria se quisesse se entregar para mim, entretando, um amor entre um velho de sessenta e quatro anos e uma moça de dezessete era quase impossível. Cheguei a criar esperanças quando lembrava de toda a admiração que ela sentia por mim, mas como ela disse, por faltar carinho da parte de seus pais, ela se apegava a todos. Deveria me conformar que Clarice era só mais uma bela aluna.
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