Bônus Club
3 Comunhão dos Obcecados
Notas iniciais
Curiosidade do dia: "Anachal" é um anagrama de "canalha".
Espremeu, usando a unha, uma rebarba do pó. Modelou, acariciando, afagando, construindo, pacientemente, uma cordilheira de cristais brancos; montou um castelinho, sacou um excerto de papel. Amassando o sólido, envolveu-o na folha, enrolando num cilindro, vedando dobras e completando o trabalho...
TRISC!
A roldana do isqueiro girou; uma chama esquentou a ponta. Inalando sonhos, Miguel recostou-se, inspirando fundo, apreciando o éter quente saciar seu espírito. Asas de fumaça espiralavam, e ele conversou com elas, sua boca descontrolada, pupilas dilatadas; o espírito quase flutuava fora da casca, realizando andanças, se expandindo, reduzindo...
Ele tossiu forte, os pulmões travados numa prensa. Buscando ar, ele torrou os restos de fumo no cinzeiro, deixou seus dedos fustigarem o encosto; e ele arfava, a sensação de relaxamento se esvaindo. Irritadiço, a depressão o possuía, e ele tossiu novamente, enfraquecido, escorando pela poltrona, beijando o carpete.
Sua vista turvou, como lagoa em dia chuvoso, e, num choque inevitável, ele retornou ao mundo dos viventes, resgatado de seus devaneios. Esticado, sua nuca abaixo da mesinha de vidro, estremeceu: só aquela quantidade não o confortava.
Ergueu-se, pirando, orientando-se pelo objeto de desejo. O cômodo era padronizado: paredes brancas, quatro poltronas de couro, carpete azul-escuro, janelas duplas e espaçosas. Nas janelas, vítreas e altas, deslocadas para os lados, havia um parapeito ornamental, adjacente a um vaso.
Nele, uma extensa planta crescia, esmeraldina e de raízes folgadas, caule abafado por jornal, flores circulares e púrpuras.
Cada folha madura, por si só, produz uma espécie de filamento, de goma, que quando se encontra prestes a cair, germina novas raízes diminutas e igualmente folgadas. Vasculhou por entre sementinhas, cauteloso, e para sua decepção, o vegetal não maturara o suficiente.
— Droga... Vai mais uns três meses pra amadurecer.
Endireitou-se, seguiu pelo acesso, e ao norte da sala transitou por um arco de gesso. O som de jazz contaminou o âmbito; saxofones, harmonizando trompetes tristes e agudos... Foi até seu quarto. Guarda-roupas, de madeira bamba; puxou o trinco e lançou mudas de roupa em sua cama de solteiro, onde um cabide já indiciava o uso anterior de um terno.
Removeu sua camisa, se despindo rapidamente: teria de ir buscar o pacote na esquina.
Vendo a roupa formal, lembrou-se do fato que marcara sua tarde: a entrevista de emprego fora um fracasso. Inicialmente, ele não tinha a intuição de falsificar todo o currículo, mas, ao ser requisitado o ensino médio completo, teve de chamar uma colega, e adulterar uma série de informações, criando uma segunda identidade. A colega em si estava atrás dele.
— Miguel, vai sair? – perguntou uma moça.
Pôde sentir alguém esbaforir sua nuca. Alisando o cabelo, de franjas fartas, ela se enfurecia sem razão aparente. Baixinha, Nina teve a precaução de arrebitar o nariz, na tentativa de impor-se ao seu primo: Villa bufou, desencorajando-a.
— Não é da sua conta – e Miguel, esgueirando-se, retrucou. – Vai cuidar do tio: você reclama que ele bebe muito, mas nem se dá o trabalho de fazer companhia pro velho.
— Você não escapa dessa vez! – agressiva, ela bloqueou seu caminho, apontando seu rosto. – Fica fumando essa porcaria o tempo inteiro, e quando sai, descobrem quem você é! Me explica o que aconteceu na entrevista...
— Não – ele se recusou.
Villa vestiu seu casaco, apressado, bagunçando seu cabelo curto e castanho. Prosseguindo por um corredor, de lâmpadas tremeluzentes, ignorou a cozinha pequena e de bancada apertada: o condomínio era estreito em variadas proporções.
— Miguel!... Espe... – a moça clamou por atenção, e o garoto espancou o batente, dando de costas.
A brisa caía, finíssima, formando ventanias, redemoinhos que desabavam sobre a imensidão de prédios, laterais à avenida movimentada. A típica cidade grande, o centro de confusões e desencontros, e naquela hora da noite, totalmente deserta. Os postes piscavam, em fileiras bisonhas, e carros desgarrados aceleravam na via...
Miguel Villa, o golpista mirim, apreciando o detrito industrial, os edifícios de azulejos e vidraças, trotou por uma escada de emergência, afoito. Culminou correndo pelo asfalto: não queria que a garota o perseguisse pela a rua, muito menos até a sua destinação. Sua prima, por mais teimosa que fosse ao protegê-lo era um pé no saco, chegando até a se relacionar com suas falcatruas.
Caminhou pelo reboco, virando rua após rua, sombreado por faixadas, desafiado por travessas e becos. Enfiou-se por entre duas lojas de conveniência, num vão apertado e imundo, rodeado por grades, entupido por lixo. Analisou os ratos, que, se unindo a ele, galgavam fresta por fresta, numa gruta urbana que não devia ter meio metro de largura; desembocou dentro de uma clareira de garagens, circundada por estacas pretas e amarelas.
Três garagens cobertas, automáticas, das quais uma se achava aberta. Aquele ponto era cercado por quatro edificações, lotadas de janelas; quatro saídas, encaixadas naquela viela, ladrilhadas e esguias, rumavam de volta às estradas expressas. A lua crescente cintilou no topo celeste, e, benzido por ela, Miguel procedeu.
— Rafinha? – indagou ele, aprontando o casaco, sem temer mal algum.
A garagem iluminada e disponível não possuía motos ou veículos estacionados. Ao invés disso, uma bancada engraxada e de madeira, ocupada por taças de espumantes. Colada em banquetas, emitia gritos de “brindes” e “vivas”... Canos, ferramentas e maçaricos se empilhavam em cima de estojos de ferro nos cantos, no chão pegajoso e fedorento da oficina.
Pisando no recinto, Miguel não teve dúvidas... Seu faro reconheceu a essência: a droga que tanto lhe atraía, a “Anachal”. A névoa fumante engolfava o cômodo, e agitando a mão, espantando a nuvem, entrou em contato com os frequentadores assíduos. Quinze homens ou mais, de diferentes credos, etnias e classes sociais, se esbaldavam em almofadas gigantes e coloridas, fumando os espetos empapelados; se deparavam com intensas alucinações e desfaleciam. Ansiavam pela substância, o vício entalando neles como de costume.
Três sujeitos, afastados da origem dos tragos, enchiam as canecas, se empanturravam de doces e contavam histórias aleatórias; entre eles, de moletom roxo, barba espessa e olhos espevitados, estava o gordo Rafinha.
— Meu nego! – comemorou ele, largando sua bebida e partindo na direção de Miguel. – Eu achava que você tinha me esquecido!
Houve um abraço repentino: Miguel desgostou da demonstração de afeto.
— Não me toca, Rafinha – resmungou Villa, empurrando-o levemente. – Eu quero o fumo, agora.
— Algum problema aí? – quiseram saber os dois outros homens, em uníssono, embriagados.
— Sem preocupação, chapas – acalmou os ânimos Rafinha. – Ele tá no efeito da última dose ainda.
Anachal, a droga dos intolerantes. Produz sonhos realistas e arrepios de felicidade durante vinte segundos, anteriores a um colossal aumento de produtividade, originado pela estimulação nervosa. É extremamente popular, como café ou guaraná. Além disso, a principal consequência da medicação é a de que, no período contado de duas horas depois do uso, o consumidor transforma-se em um canalha.
Não importa o quão dócil ou extrovertida a pessoa seja. Ao tragar a droga e alucinar, se rende ao temperamento hostil e rude, que se arrasta pelas horas previstas. Miguel Villa, ao ser entrevistado pela primeira vez, passando-se por um recém-formado, estava sob controle do Anachal, e respondera tortamente aos itens propostos no questionário.
— Tá, eu vou buscar – encrespando os lábios, Rafinha se escafedeu pelos montes de ferramentas encardidas, apoiando-se em armários caídos, recipientes de aparelhos obsoletos. – Acho que encontrei... Precisava esconder tão bem esse fuminho, caras?
Miguel sorriu, em desdém. Avaliou a oficina, moradia de eletrodomésticos ultrapassados, gambiarras malfeitas, forro infiltrado e permeado por mofo. Fitas isolantes complementavam fios elétricos, anexados pobremente à fiação; recortes de cimento molhado avizinhavam barris vazios...
Seu punho escorregou pelo casaco, a abotoadura, e o polegar relou em uma cápsula aveludada, no bolso direito. O objeto adquirido nos escritórios, dado por Carla, a inteligente entrevistadora. Por impulso, curiosidade, o elevou até a linha dos olhos, estudando o fecho amarelado, o tecido azul. Desavisado, podia julgar aquilo como sendo um porta-anel.
Desfez o fecho, e arqueando o veludo, fez reluzir algo, que sem hesitar, deduziu como sendo especial. Uma moeda ampla e antiga refulgiu gravuras: hieróglifos mesclados a símbolos estranhos, e em seu centro, uma rosa-dos-ventos, entalhada com louvor. Manuseou com cuidado o disco, devolvendo o porta-anel aos bolsos. No verso da moeda, uma caveira fora desenhada no aço, sua fronte fundida à de um arcanjo.
Rafinha sorriu, agachado, revelando um envelope de goma esfarelada nos escombros de alumínio. Foi quando um laser, reto, mapeou o barbudo, vindo de uma das edificações, checando a beirada da garagem. A linha vermelha estacou no alto de sua espinha, um estampido seco rugiu, e com um horrendo jorro de sangue, Rafinha desabou sobre os eletrodomésticos, morto.
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