Bônus Club

4 Cabeça de Melancia


Notas iniciais
As coisas estão esquentando! o/
Curiosidade do dia: A rosa-dos-ventos, representa, literalmente, o livre arbítrio. A caveira e arcanjo, quando juntos, formam um dualismo, visto que após o livre arbítrio, existe tanto a obtenção de grandeza suprema como a queda final (morte).

Um lapso momentâneo de medo e confrontação. Seu cérebro, estimulado ao máximo pela droga, reconheceu a morte adiante como prenúncio de sua própria. Toda a frialdade, gerada e cultivada pelo Anachal, passou a se dissipar como cascas de gelo, revelando um Miguel verdadeiramente impressionado.

Rafinha era, em essência, o chefe de tráfico mais antigo da região, intocável e dono de diversos contatos. Entretanto, nada disso impedira que um rombo fosse aberto em sua nuca, e ele deixara de ser o que era. Deixar de ser o que é: em outras palavras, morte?

A rapidez dos eventos causou um choque inevitável. O baque impiedoso do corpo no chão imundo da oficina, o sangue brotando para os lados. Miguel não soube responder com sacadas rápidas. É engraçado como um golpista, que vive de pensamentos velozes e truques astutos, se torna impotente ao encarar fatos implacáveis. Não era possível reanimar Rafinha e, se o mesmo ocorresse com ele, também não haveria como reanimá-lo.

Uma saraivada de tiros deslizou, golpeando alguns drogados nos pufes. Estampidos secos se atravancaram com o tablado, estourando partes de madeira, comprometendo petiscos e bebidas. Os disparos provinham nitidamente dos prédios do beco, contudo, Miguel não podia precisar a posição dos atiradores.

Ele saltou sobre o balcão, derrubando tigelas, indo até o canto esquerdo da oficina. Estava ali, ele sabia. Um painel de controle, dotado de uma só alavanca vermelha e, ao puxá-la, fez com que roldanas e correias rodopiassem no topo do salão. A porta comercial da oficina desceu, desenrolando, e imediatamente bloqueou a entrada.

Sem seu raciocínio aprimorado, o golpista-mirim teria morrido. Fosse culpa da Anachal ou não, agora teriam de arrombar o estabelecimento se quisessem acertá-los.

As lâmpadas do local oscilaram, e Miguel percebeu que a proteção não duraria muito. Projéteis furaram a porta, criando milimétricos orifícios: somente o aço dali não seria capaz de deter o calibre utilizado pelos assassinos. Olhou de esguelha para Rafinha: nunca presenciara uma morte, mas, aquele parecia não ser o momento adequado para choro ou luto.

Gemidos de pavor e pânico ressoaram. Verdade, Miguel não era o único naquela situação, e três homens se escondiam nas bordas das almofadas. Os dois amigos do chefe pareciam ilesos, e ao examinar a cena, o golpista se deu conta das dimensões do massacre: mais de dez cadáveres, empilhados uns sobre outros, hemorrágicos nos pufes.

Ao contrário do que pensava, não existiam tantas marcas de bala na área mais visada. Alguém fuzilara o hall, e um segundo atirador, sem desperdiçar balas, executara sumariamente os clientes de Rafinha. Miguel rangeu os dentes: a situação estava feia. A probabilidade otimista de apenas um matador inexistia: um grupo treinado e perigoso fazia vigília nos prédios, e um cerco podia estar sendo realizado naquele instante.

– Tem uma saída nos fundos! – berrou um dos sobreviventes, um velho calvo, de camisa florida.

– Não, deve ter mais gente lá – grunhiu Miguel, descontente. – Ninguém aparece com armas desse calibre sem uma estratégia. Se sairmos pelos fundos, vamos direto pro abate, idiota.

– O Valdir tá certo! – opinou um sujeito de meia-idade, óculos, trêmulo e suado. Engolindo em seco, ele prosseguiu. – Não tem outro jeito. Vamos ter que sair nos fundos, tem um escadão lá: aí é só correr.

Miguel estapeou a própria testa. Eles eram muito burros.

– Vocês tão errados, filhos da puta! – exclamou um quarto sujeito, de regatas, magrelo e visivelmente irritado.

Aquelas olheiras não enganavam ninguém, e rude, ele despertou o interesse de Miguel. Outro usuário de Anachal, o único a escapar da região dos sofás. Seus companheiros viciados, provavelmente tendo delírios, não haviam tido a oportunidade de se movimentarem com lucidez: presas fáceis. Ele já tinha tido as alucinações, e muito possivelmente adentrado a fase de canalhice.

– É o que o cabeçudo aí falou – complementou o magricela, referindo-se a Miguel. – Não dá pra usar os fundos, nós somos que nem baratas atrás da pia. Se não sairmos pela direita, saímos pela esquerda, e qualquer corno consegue dar uma chinelada no outro lado!

Cabeçudo? Miguel não escondeu a raiva: uma ou duas veias dilataram em seu rosto.

– Não, Vinícius! Eles não invadiram até agora, então não sabem dessa saída! – provocado, Valdir fez questão de insistir. – Eu trabalhei quinze anos com o Rafinha, a gente usava ela só pras emergências!

Miguel sentiu que o prolongamento excessivo da discussão não era benéfico. A cusparada de balas continuava a perfurar o metal nas orlas da oficina, desta vez com breves intervalos: pacientemente, os carrascos exploravam táticas alternativas, e pretendiam encurralá-los mais cedo ou mais tarde.

– Tem outro jeito de sair daqui – suspirou Vinícius, com um sorriso malicioso. – Tem essa janela pequena no banheiro. É o tipo de lugar que passa despercebido, sua anta!

– Ela dá nos telhados – esclareceu o de óculos, ainda amedrontado. – Se eles estiverem olhando de cima, já era.

Miguel tentou expressar satisfação, mas não conseguiu. Nem sempre conseguia manter a boa interpretação, e se ele não tinha a virtude de manter a calma numa hora daquelas, em que o fuzilamento é iminente, ele não era tão bom ator e gerente quanto pensava.

Tinha de retomar o controle, contornar as circunstâncias. Seu lema, como golpista, como vira-lata da cidade grande, era simples: “venha o que vier, estarei pronto”.

– Às vezes, é bom deixar as coisas correrem meio soltas, não acham? – riu Miguel, inevitavelmente grosseiro.

– O que você quer dizer, cabeçudo? – quis saber Vinícius, confuso.

O golpista-mirim fechou o punho esquerdo, e sua pele involucrou um disco, pressionando-o.

– Se as “senhoritas” querem sair daqui, vamos ter que trabalhar juntos. Que tal agir que nem homem?! Aceitar as consequências se nós fracassarmos? – discursou Villa, o espírito de trapaça e ambição difundindo-se pelo ambiente. – Enfrentar de peito erguido? A vida foi feita pra dar errado, de qualquer jeito.

– Como assim? – Valdir não compreendeu bem.

Miguel espalmou os dedos, mostrando uma moeda prata. Antiquada, arranhada por hieróglifos e arabescos, continha duas faces distintas: o entalhamento de uma rosa-dos-ventos numa, e na oposta, uma caveira mesclada ao rosto de um arcanjo.

– Uma... Moeda? – balbuciou Valdir.

– As regras são simples – Miguel mordeu os lábios, os olhos verdes faiscando uma irresistível malandragem. – Eu e Vinícius queremos ir pela janela, o Valdir e o senhorzinho de óculos querem sair pelos fundos... Vamos resolver o caminho com um jogo. Pensem nisso como um cara-ou-coroa clássico: vocês escolhem a “Rosa”? Ou será que escolhem a “Caveirinha”?

– Isso é... Loucura! – declarou Valdir. – Quer decidir nossas vidas na base do palitinho?!

– Não é tão maluco assim, se você for pensar. Às vezes, a vontade do destino decide tudo! Contrariar isso que é maluquice, velho! – Miguel colocou a moeda sobre seu polegar. – Então, compadres! O que vai ser? Rosa ou Caveirinha?

Ruídos de quebra foram escutados, oriundos da porta: as infinitas deflagrações de metralhadora, que prosseguiam, deram a impressão de terem rompido algo.

– A porta não vai aguentar muito! – determinou Vinícius, num tom cômico. – Concordo com você, cabeçudo. Confiar na sorte, afinal, é a melhor coisa.

– Eu escolho... Rosa! – extravasou o senhor de óculos, contrariado, dominado pelo nervosismo.

– Não, Ricardo! – reagiu Valdir, como se estivesse sendo traído. – E se a moeda estiver alterada? Tem muita coisa em risco aqui!

Da tubulação da oficina, o roer de ratos foi escutado. A resposta de Ricardo, afiada, paralisou Valdir:

– Se Rafinha estivesse vivo, o que ele faria? – e uma lágrima desmanchada escorreu nas extremidades da lente.

– Ele... Ele... – a fala de Valdir foi obstruída por uma irremediável, porém sincera, falta de argumentos.

– Bom, nesse caso... – disse Miguel, erguendo-se. – Eu e Vinícius ficamos com a Caveirinha!

Miguel esteve disposto a desperdiçar tudo, colocar em perigo não só a si, como a seus semelhantes. Algumas moedas, contudo, nunca devem ser utilizadas. A unha elevou-se, e num arco gracioso, mínimo, o orbe de ferro rodopiou, leve como uma pena. Arrebatando-a com a mão direita, Villa estirou a moeda em seu braço.

Caveirinha.


Notas finais
No próximo capítulo, finalmente alguma ação =D
Tenham uma ótima semana \o/