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5 Cafetão de Pelúcia - Parte I
Notas iniciais
Curiosidade do dia: O aumento de produtividade produzido pela Anachal é ilegal, assim como a droga. A canalhice gerou um aumento de aproximadamente 90% da desordem nas grandes cidades.
O que é sorte?
Combinação de circunstâncias ou de acontecimentos, que influem de um modo inelutável. Em suma, um conjunto de agentes, animados e inanimados, contribuintes de um resultado final, negativo ou positivo.
Explicações de dicionário. No entanto, uma resposta uniforme nem sempre satisfaz a uma pergunta tão ampla. Conforme envelhecemos, o acaso deixa de ser importante, e essa definição se perde em meio a tantas outras. Contudo, até ali, a sorte relacionada ao destino era a única que Miguel conhecia.
Fé e misticismo não movem montanhas, e ele se apegava nesse fundamento. Mas, ele se deparou com um segundo tipo de sorte. Não destino, não carma. Aquela sorte era, em realidade, um estado de espírito: um novo ponto de vista.
Um novo universo.
Ao girar a moeda, apostando num simples jogo de cara-ou-coroa, ele fez uma terrível descoberta. O que desvendou naquele dia não foi exatamente de seu interesse: de fato, ele considerou fútil, como horóscopos ou búzios. Sorte nunca havia sido de seu interesse, visto que não é possível depender dela.
Entretanto, quando fossem abandonadas as características duvidosas e incertas, ele passaria a acreditar. Leria semanalmente textos sobre seu signo, jogaria tarô e frequentaria cassinos...
A prata da moeda ardeu. Vinícius, Valdir e Ricardo o analisaram, dando a intender estarem prontos para o veredicto: o resultado da aposta e de suas vidas. Ele inspirou fundo, não tendo a audácia de dizer que...
Caveirinha. A face que refulgiu no cara-ou-coroa era, sem dúvidas, o misto de arcanjo e crânio. Existem determinados cenários que funcionam como maestros, e Miguel sentiu como se o gotejar de óleo na oficina, ou a dança de ratos nos encanamentos, desse o compasso exato de suas reflexões. Vinícius dissera mais cedo que eles eram como baratas atrás de uma pia: a metáfora estava certa.
Baratas atrás da pia estão fadadas à morte, e a situação se complica mais quando são caçadas por um grupo engenhoso. Baratas são baratas, não se pode fazer nada a respeito. Escapar por frestas é a solução plausível, e o tamanho colabora, mas, se inimigos formarem tocaias em todas as direções, ao deixarem a pia elas estariam automaticamente vulneráveis.
Frestas, nesse caso, seriam os esgotos ou rotas apertadas nos telhados. Qualquer outra opção seria tornar-se visível aos assassinos: atiradores de elite, armados com altíssimos calibres.
Miguel pensou naquilo, mas não chegou a formatar adequadamente seus pensamentos. Agir era mais importante, e se ele e Vinícius tinham ganhado no cara-ou-coroa, o grupo escaparia pelo banheiro. O efeito da Anachal se esvaía por seus dedos: o raciocínio eficiente, proporcionado pela droga, em breve faria parte do passado.
– Vamos. Sem medo ou arrependimento, rapazes – encorajou Miguel, suspirando.
– O cabeçudo tá certo. Para de chorar, Ricardo... – forçadamente, Vinícius conduziu Valdir e Ricardo até os fundos, e lhes indicou o caminho até o banheiro.
Os corredores da garagem continham umidade e terríveis cheiros de putrefação. Atulhados com caixas, e ainda mais imundos que a fachada, eles estavam escurecidos em penumbra, permitindo a passagem de somente uma pessoa por vez, e assim, uma fila foi gerada. A travessia, intercalada por introvertidos flashes de luz, era decorada por caravanas de lâmpadas quebradas.
Miguel foi por último, o magricela à sua frente. Afoito, Villa agarrou o pulso de Vinícius, como se provocado por alguma piada de mau-gosto.
– Você mentiu. Por quê? – sussurrou Miguel, seus tênis roçando no piso gorduroso.
– E você finge que não sabe o motivo – murmurando em resposta, Vinícius não soou animado.
Pequenas erosões no teto permitiam às luzes dos postes entrarem, e em seguida, se unirem às fracas luminárias. Juntas, as iluminações criavam ligeiros holofotes: abaixo desses recortes, Miguel expressou seriedade, enfrentando Vinícius.
– Vamos morrer. Indo pelo banheiro ou pelos fundos – disse Villa. – Ou você é burro que nem um azulejo, ou está nos traindo.
– Não fala besteira! – exclamou Vinícius, lívido, atraindo as atenções de Valdir e Ricardo.
– Eu sei que seu cérebro é limitado, mas, pensa bem: tinha um bom número de drogados nas almofadas. Você foi o único que não tomou um tiro – Miguel mordeu os lábios, apreensivo. – Se uma barata vai sair por um lado ou por outro, não faz diferença. Você sabe disso melhor que eu.
Em realidade, Miguel tinha elaborado duas hipóteses. Uma era a traição: a segunda era um pouco confusa, mas, em ambos os casos, Vinícius era descartável.
– Algum problema aí? – questionou Valdir, alerta.
– Não, nenhum! – negou Miguel, encenando calma. Voltando a sussurrar, deixou algumas coisas claras. – E quanto a você, não me importo se vai trair alguém ou não, só que eu não quero morrer tão cedo. Eu estou um passo na sua frente.
– É o que vamos ver – replicou Vinícius, perturbado, respirando forte sob a fraca luminescência.
Miguel largou o punho do magrinho, e os quatro prosseguiram.
Villa tinha tudo sob controle. Certamente, “sob controle” era o termo adequado para a ocasião: um dos dois com a situação “sob controle”, e ironicamente, os dois “sob controle” da Anachal. Vinícius achava, antes de ser acusado como traidor por Miguel, que o trapaceiro imaginaria algo diferente de traição ao descobrir a mentira.
Confuso, mas não muito difícil de ser esclarecido. Vinícius poderia ter mentido por estar servindo de isca para uma armadilha, e ser realmente desleal, ou por querer usá-los para distrair os atiradores, e depois fugir pelas “frestas” enquanto seus colegas estivessem sendo fuzilados. Na segunda teoria, enquanto Miguel, Valdir e Ricardo fossem caçados, ele ganharia tempo e se orientaria por um atalho seguro.
A lição que se depreendia dali era que, independente dos motivos, Vinícius tentara ludibriá-los e, portanto, não possuía integridade moral, não era confiável.
Miguel sorriu: eles finalmente tinham chegado ao banheiro. Lajotas encardidas, paredes infiltradas e desencapadas, além de um lavabo e vaso sanitário. Sobre a privada, havia uma janela discreta e arqueada, por onde passavam luzes cor de mercúrio: essa era a saída sugerida por Vinícius. Por garantia, Miguel se posicionou em último na ordem de escalada, se prontificando a ajudar os companheiros na subida.
– Eu vou primeiro – candidatou-se Vinícius. – Se vocês não forem atentos, eles vão acabar com a nossa raça!
Se o magricela quisesse ser o último da fila, isso significaria que ele planejava empurrá-los para a morte. Se ele quisesse ser o primeiro, estaria entrando em contato com os atiradores ao alcançar às lajes, e bolando algo maléfico enquanto os outros três ainda não tivessem evacuado o local. De qualquer modo, Miguel não podia validar a índole dele como traiçoeira.
Ao se apoiar na tampa do sanitário, esgueirando-se até as bordas da janela, o cadavérico Vinícius tocou de leve o bolso direito da calça. O celular transpareceu através dos jeans, e ele velozmente pressionou três ou quatro botões por cima do tecido. Miguel concebeu a traição como inevitável naquela hora, mas ainda não havia o que ele pudesse fazer.
Depois de transitar pela abertura, Vinícius alcançou o telhado, olhando o céu exposto. Ele se agachou sobre a varanda cimentada, e estendeu o braço, ajudando Ricardo, o próximo, a subir. Aproximando a boca de seus ouvidos, das hastes dos óculos, como uma cobra que dá o bote, ele pronunciou algo em baixo volume:
– Ricardo, não entre em pânico com o que eu vou dizer, mas... Miguel é um traidor: ele está com os atiradores – e de olhos risonhos, Vinícius encarou Miguel do forro do banheiro, dirigindo-se maldosamente ao senhor de meia-idade.
Ricardo impressionou-se pela falsa notícia, e perplexo, encerrou a escalada, espreitando para fora do banheiro, passando pelos arcos da janela. Valdir também foi persuadido pelo cochicho malicioso de Vinícius, que denigrira irreversivelmente a imagem de Villa: o traidor enganara os amigos de Rafinha deliberadamente, enquanto ambos se espremiam pela moldura e se arrastavam na laje.
O trapaceiro mirim, Miguel Villa, pisou na borda manchada da privada, procurando elevar-se à dobradiça.
– Desculpa! – ele ouviu a voz chorona, vinda de Ricardo.
Foi então que uma lufada de ar quase prensou seus dedos: ao invés de dar auxílio ao último da fila, Vinícius batera com o vidro na moldura, fechando o trajeto, trancando a janela por fora. Ricardo e Valdir não protestaram: através da vidraça espessa e selada, Miguel contemplou o vulto dos três que se distanciavam na varanda, e desapareciam de seu campo visual.
Eles tinham prendido Miguel na oficina.
Era isso. Ficou de pé sobre o vaso durante mais alguns segundos, atônito com a iniciativa de seus “colegas”. Não havia cogitado aquela possibilidade: vira Vinícius sussurrar algo ao suspender Valdir, mas não pudera compreender sua fala dali. Antes que Villa pudesse acusar publicamente o magricela, evidenciando sua falsidade, o jogo fora invertido, e Miguel acabou tido como aliado dos atiradores.
– Tsc! – ele bufou. Depois, fechou os olhos, conformando-se. – É assim que é, né?
Não. Existia mais uma coisa, e antes que o efeito da Anachal passasse, ele repensou sobre o instante em que Vinícius teclara o celular. Se ele simplesmente o deixasse preso ali, aquilo não possuía significado algum, e, mexer no telefone, de forma tão discreta, indicava uma vontade de não ser pego em flagrante. Por debaixo dos panos, através de uma rápida mensagem de texto, ele havia acionado o esquadrão de atiradores.
Um estrondo metálico reverberou pelo corredor: a porta da garagem parecia estar sendo violada.
Dentro do banheiro, Miguel arregalou os olhos. Ele saltou para longe do vaso, correu pela imundice de caixas em direção à entrada: novamente, a sensação de que os sons dos arredores ritmavam suas ideias, incentivavam-no, tornavam-no calmo.
Àquela altura, já havia recolocado a moeda em seu bolso. Ela queimava, emanando uma grande quantidade de calor, que penetrava por seus braços e peito, abrasava-o com um incrível sentimento de vitória: confiança transbordou, lhe dando coragem.
A canalhice desapareceu: Miguel soube de imediato que o efeito da Anachal se dissolvera. Sem problemas. Naquela noite, ele não precisaria de remédio algum.
Retornou à área de balcões e almofadas, preenchida por cadáveres, pedaços de tigela espatifados, quitutes espalhados e parafernálias. O tablado fora totalmente varado por disparos, e a porta era continuadamente perpassada pelos projéteis: pancadas surdas e contundentes ecoavam dali. Era essa a origem dos estrondos, e um equipamento volumoso colidia seguidamente contra o aço, retorcendo-o, escancarando...
Um rangido, triscar de ferro, e a porta comercial desmoronou, trazendo consigo blocos de argamassa e fragmentos rasgados do toldo. Chumaços de terra esfumaçaram poeira, e uma van preta, depois de arrombar a entrada, freou, invadindo o recinto.
Sete soldados abandonaram o veículo, um deles sendo o motorista: estavam devidamente fardados e munidos de submetralhadoras. Vestiam roupas encouraçadas e negras, capacetes com visores, coturnos pesados. Ao adentrarem o local, miraram ao redor com suas armas, inspecionando o espaço frontal do estabelecimento: o balcão, os pufes, o ferro-velho.
Tudo estava imerso em silêncio, ninguém vivo à vista. A equipe de assassinos se adiantou, pisoteando as poças sangrentas, contornando o amontoado de mortos. Um deles chutou Rafinha para o lado, checando se ele realmente fora executado.
– Limpo – constatou um dos guerrilheiros. Em seguida, ele sinalizou o corredor apertado, que levava ao banheiro e à retaguarda do edifício. – Fernandinho, você fica aqui. O resto vem comigo, tá faltando pegar um.
Deste modo, um dos fardados ficou para trás, e seis dos soldados se encaminharam pelo estreito. O que permaneceu, Fernandinho, sentou-se no balcão, supervisionando o cômodo, segurando firme a coronha de sua submetralhadora.
Miguel dera chá de sumiço no momento em que a porta desabara, realizando um ato inimaginável. Controlando a respiração, arfava contidamente, hesitando em fazer o menor movimento. Um braço era sustentado por seus ombros, um queixo ensanguentado deslizava em seu cotovelo. Com o arrombamento, as estrelas, antes escondidas pela porta, acabaram visíveis: penduricalhos brilhantes, ofuscando acima dos prédios...
E Villa sabia que naqueles andares superiores, sustidos pelos parapeitos, franco-atiradores davam continuidade às rondas, fornecendo cobertura à infantaria que demolira o bloqueio. Se fizesse uma ação tola, Miguel não somente entregaria seu disfarce: seria liquidado por Fernandinho e pelas metralhadoras, simultaneamente.
Onde ele estava? Deitado de bruços, coberto por três corpos inertes, a boca colada numa poça de sangue. Antes da invasão da van, ele se misturara aos montes de mortos, sujando-se de sangue e ficando parado. Induzindo seus músculos à paralisação, ele fingiu ter sido baleado no primeiro ataque, camuflado em meio aos defuntos.
A dissimulação era perfeita, e ele estava adjacente aos aglomerados de lixo e bugigangas. Obviamente, ele aguardava a desatenção de Fernandinho, e logo se deparou com uma oportunidade decente: o soldado ficou relaxado, investigando com os olhos o corredor interno, completamente distraído.
Agindo como um vulto, Miguel se ergueu, desvencilhando-se dos mortos. Sentiu que era incapaz de perder. A energia da moeda fustigava seus ossos, e como uma fera, ele apanhou um objeto cilíndrico no chão, pertencente ao ferro-velho.
Fernandinho virou-se tarde demais, surpreendido: ele apontou a submetralhadora para Miguel, contudo, o gatilho falhou quando comprimido. A arma de fogo estava defeituosa, e feroz, Villa brandiu o item que ele havia pegado no piso, aproximando-se do soldado: separada das outras geringonças da oficina, tratava-se de uma afiadíssima vara de alumínio.
Um flash prateado, e com esguichos finos de sangue, a vareta atravessou o visor do capacete, perfurando um rosto desprotegido. Fernandinho caiu de joelhos, desfalecendo; vórtices de metralhadora choveram sobre a entrada: o franco-atirador identificou o perigo, e posicionado nas construções vizinhas, atirou contra Miguel.
O rapaz não se deu ao trabalho de esquivar-se. Os tiros se desviavam dele, ou não o atingiam por muito pouco.
Era isso o que significava estar com sorte?
Pacientemente, Miguel recolheu a submetralhadora de Fernandinho, e rumou para as sombras da oficina, aproveitando-se do ponto cego do atirador: não era possível que ele visualizasse aquela área, já que ela não era perto da porta. Calculista, sem se importar com as contínuas deflagrações, estudou os arredores.
Ele estava de frente para o único corredor que saía dali, direcionado ao banheiro e a traseira da garagem, por onde os guerrilheiros da van tinham ido.
Curiosamente, aquele estreito, fracamente iluminado e fétido, permitia a passagem de uma só pessoa por vez. Isso significava, portanto, que os atiradores estavam alinhados. Ele, que nunca tinha sequer pego numa arma antes, só precisava empunhá-la em linha reta.
Ele recebeu a intuição de que, ao contrário de quando Fernandinho tentara usar a submetralhadora, o gatilho não ia falhar. E Miguel também teve como certo o destrave do, pois não havia o risco de que o antigo dono dela tivesse simplesmente se esquecido desse detalhe. Villa não sabia como colocar a munição, mas, com uma automática, o que ele realmente precisava era de sangue frio.
Engoliu em seco. Não gostava da ideia de matar, mas... O calor da moeda abrandava o peso psicológico. Ele sentia-se leve como uma pena: naquelas circunstâncias, descarregar a arma era facílimo. Ele mal sentiu o tranco da submetralhadora. Os guerrilheiros já retornavam, depois de ouvirem os primeiros disparos, mas não tiveram tempo de reagir.
Uma infinidade de tiros, e na penumbra da garagem, Miguel deu início a um fuzilamento sistemático, rechaçando todos os seis, arrancando suas vidas.
Não sobrou ninguém. Miguel Villa era sortudo? Aquele massacre era sorte?... Ele não sabia mais.
Notas finais
Não vai demorar pra sair o próximo capítulo, hehe, e ele vai explicar direitinho o lance dessas moedas.
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